Já lá se vão 47 anos. . . (Hoje, 52. . .)

Em 1967, quarenta e sete anos atrás, neste dia, então um sábado, eu estava, nesta hora (cerca de 19h) no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, acompanhado de minha mãe, de minha tia, e de minhas irmãs, para viajar para os Estados Unidos, onde iria fazer o Mestrado, no  Pittburgh Theological Seminary (http://pts.edu), em Pittsburgh (http://pittsburghpa.gov/), no oeste do estado da Pensilvânia, já quase no estado de Ohio (onde minha filha mais velha mora hoje — de Pittsburgh até a casa dela, em Cortland, são, eu diria, cerca de 100 km, se tanto). Meu pai não foi ao aeroporto — estava sem conversar comigo. Meu irmão creio que não foi — não sei por que razão.

Na época eu estava a menos de três semanas de completar 24 anos (como estou, hoje, de completar 71). Vocês podem conferir a minha foto daquele ano, de um mês antes, por aí, que tirei para o passaporte — o meu primeiro. Estava contente, mas ansioso. O meu Inglês era bastante bom (tinha começado a aprender cedo, havia tido, no Instituto JMC, onde éramos internos, uma namorada que falava Inglês nativo, pois era filha de missionários, e havia completado o curso da União Cultural Brasil-Estados Unidos em Campinas). Mas nunca havia ido aos Estados Unidos e tinha grande expectactiva sobre como iria me sair entre os nativos do país. Depois de uns dias iniciais meio traumáticos, saí-me bem.

Os mais novos vão ficar surpresos de que eu estivesse saindo de Viracopos. Mas a explicação é simples. Naquela época o Aeroporto Internacional de Guarulhos ainda não existia. O Maluf ainda não havia sido nem prefeito nem governador de São Paulo… Cumbica era apenas uma base militar. E o Aeroporto de Congonhas não comportava aviões do porte de um Boeing 707, que eu iria tomar. Voei com a então tradicional PanAmerican World AirWays (PanAm), que, quando fechou, vendeu para a United as suas rotas latinoamericanas. O vôo, se bem me lembro, era PA 202, originado em Montevideo e que chegava a Campinas depois de uma escala em Buenos Aires. O vôo PA 201 fazia a direção contrária, a partir de Nova York. Fizemos uma escala no Rio, no Aeroporto do Galeão (que era um Aeroporto Internacional, além de uma base militar). Do Rio fui direto para Nova York, nonstop, desembarcando no dia seguinte no Aeroporto John Fitzgerald Kennedy (JFK). Este aeroporto havia sido inaugurado em Julho de 1948, com o nome de Idlewild Airport, mas, depois da morte do Presidente Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, foi rebatizado em sua honra, na véspera do Natal daquele ano. Do JFK peguei um vôo para Pittsburgh (não me lembro nem da companhia nem do número do vôo, infelizmente), onde me esperava uma família, os Eichleays, com quem iria ficar por uma semana, antes de começarem as aulas.

A estada com os Eichleays (ele se chamava William, do nome da mulher e da filha me esqueço) foi gentileza de uma instituição fantástica, o Pittsburgh Council for International Visitors (PCIV), uma ONG criada para recepcionar e apoiar estrangeiros (visitantes internacionais, no “politicamente correto” de então) que chegassem à cidade. O PCIV era informado pelas universidades e faculdades da cidade quando estudantes ou professores estrangeiros iam chegar à cidade, ou pelas empresas quando os visitantes eram empresários ou seus empregados. Eles então contatavam as pessoas e indagavam, no caso de estudantes, se queriam ficar, por uma semana, com uma família que, voluntariamente, sem receber nada por isso, se dispunha a hospedar o visitante e “aclimata-lo” na cidade. Eu, naturalmente, aceitei. Minhas aulas só iriam começar depois do Dia do Trabalho americano, comemorado na primeira segunda-feira de Setembro. Assim, me dispus a ser hóspede dos Eichleays de 20, domingo, dia de minha chegada, a 27 de Agosto — o domingo seguinte.

Já de início, naquele domingo, levaram-me para um restaurante muito chique. Nunca tinha ido a um restaurante tão bacana. Comi sirloin steak, com legumes. Achei delicioso. Tomei, de aperitivo, dois martinis. Foi a primeira vez que experimentei esse drinque americano. Depois do segundo, senti o efeito e fiquei meio zonzo. Tive um pouco de medo de que eles notassem isso. Mas se notaram, foram delicados o suficiente para não me deixar perceber. Com a comida, o impacto passou. De sobremesa, experimentei (também pela primeira vez) cheese cake. Achei delicioso.

Depois do almoço, deram-me uma tournée da cidade, que achei linda. Pittsburgh é cortada por dois rios, o Allegheny e o Monangahela, que se unem, no centro da cidade, para formar o rio Ohio. A cidade era conhecida, nos anos 30, como “Dust City” (Cidade da Poeira), por causa da poluição causada pelas inúmeras indústrias que tinham sede na cidade, em especial várias indústrias do aço, das quais a US Steel, criada por Andrew Carneggie, o homem mais rico do mundo na passagem do século 19 para o 20, era a principal. Pittsburgh era sede de várias universidades, das quais as principais eram a University of Pittburgh – Pitt (vide http://pitt.edu), a Carneggie-Mellon University (vide http://cmu.edu), tecnológica, que, quando cheguei lá, era chamada de Carneggie Institute of Technology, e a Duquesne University (http://duq.edu),  católica. Era sede de três times esportivos profissionais: os Pittsburgh Steelers, de futebol americano (http://www.steelers.com/), os Pittsburgh Pirates, de beisebol (http://pirates.com), e os Pittsburgh Penguins, de hóquei sobre o gelo (http://penguins.nhl.com/). Os Steelers nunca haviam ganho um superbowl. Desde então ganharam seis, sendo o time que mais vezes foi campeão americano. Os Pirates haviam sido campeões mundiais (como eles chamam os campeões americanos) em 1960 e vieram a ser novamente em 1970, quando eu ainda estava lá. Os Penguins foram formados em 1967, e, portanto, não haviam ganho nada ainda quando cheguei lá, mas, depois, foram campeões nacionais três vezes, em 1991, 1992 e 2009. O time de futebol americano universitário da Pitt eram os Panthers, que era ruim quando eu estava lá, mas melhorou muito, sem, contudo, jamais chegar a ficar por muito tempo entre os melhores. A cidade tinha uma fantástica Orquestra Sinfônica (http://www.pittsburghsymphony.org/pso_home). O PCIV dava, semanalmente, bilhetes para jogos e concertos para os estrangeiros da cidade, numa base primeiro a chegar, leva. Como a sede do PCIV era dentro da Pitt, onde eu fiz o doutorado, de 1970 a 1972 eu aproveitei o fato para não perder muitos jogos. Infelizmente, não aproveitei igualmente os concertos.

Pittsburgh era também uma cidade famosa por suas faculdades de medicina e hospitais. O hospital mais famoso era o Presbyterian University Hospital, que faz parte do University of Pittsburgh Medical Centers como seu principal hospital de clínicas. Ele fica ao lado do estádio dos Panthers, dentro do campus.

O campus tinha dois prédios célebres. A Cathedral of Learning (Catedral da Aprendizagem), de 38 andares, no centro do campus, que era, naturalmente, uma catedral secular (http://www.nationalityrooms.pitt.edu/about/cathedral-learning), e a Heinz Memorial Chapel (http://www.heinzchapel.pitt.edu/), que funcionava como a igreja não-denominacional do campus, tendo sido construída com recursos doados pelo famoso industrial H. J. Heinz (fabricante de ketchup e mostarda). A empresa dele (vide http://en.wikipedia.org/wiki/H._J._Heinz_Company) é hoje parte do império do suíço-brasileiro Jorge Paulo Lemann e seus sócios.

Enfim, é isso.

Fiquei em Pittsburgh cinco anos, de 20 de Agosto de 1967 até 20 de Agosto de 1972, quando me mudei para a California, onde arrumei um emprego em Hayward, na Baía de San Francisco.

Comemoro a data 19 de Agosto todo ano e sou grato a todos os que viabilizaram a oportunidade que tive de estudar nos Estados Unidos. Foi um privilégio. Cito, em especial, o Rev. Gordon E. Jackson, Deão do Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, que me convidou para ir para lá e me deu a bolsa que me permitiu ficar lá durante cinco anos, e o Rev. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), aqui de São Paulo, que em 1967 me deu a passagem para ir e voltar. O Aharon virou, em 1987, um de meus mais diletos amigos. Ele faleceu recentemente. Com o Rev. Jackson perdi contato, mas imagino que já tenha falecido.

Transcrito em meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 19 de Agosto de 2014.

Transcrito aqui neste blog em 9 de Novembro de 2015.

Levemente revisado em 16 de Dezembro de 2019.

50 Anos Atrás (Hoje 55…)

Estou lendo uma biografia de Rudolf Karl Bultmann. O título é Rudolf Bultmann: A Biography, e o autor é Konrad Hammamm. Estou lendo em um e-book comprado da Amazon Kindle.

Li Bultmann pela primeira vez há 50 anos. Em 1964 eu fui para o Seminário Presbiteriano de Campinas e lá fui apresentado a Bultmann. Não pelos professores: Bultmann era muito avançado e radical para eles. Foram os colegas que me apresentaram Bultmann: Waldir Berndt, Elias Abrahão… Principalmente eles. Foi o contato com Bultmann que começou a desestruturar a fé simples, não-refletida, ingênua, que eu havia trazido comigo para o seminário. Uma fé que se contentava consigo mesma, que se bastava a si mesma, que não buscava, como um dia sugeriu Santo Anselmo, o entendimento. Uma fé sem entender, que cria mesmo naquilo que não entendia.

O que os colegas me falavam sobre Bultmann despertou minha curiosidade. Acabei comprando um livro, em dois volumes, chamado Kerygma and Myth, editado por Hans Werner Bartsch, que começava com um artigo de Bultmann, com o título “The New Testament and Mythology” e trazia uma série de artigos que discutiam o artigo programático de Bultmann. Comecei a ler — e fiquei abalado. Fiquei em dúvida se deveria continuar lendo. Eu tinha apenas 20 anos, mas sabia que seria arriscado. Aquilo que eu já havia lido falava sobre questões acerca das quais eu nunca havia pensado, em minha santa ingenuidade de primeiro anista de seminário. Mas eu imediatamente percebi que o artigo de Bultmann era nitroglicerina pura. Se eu optasse por continuar a lê-lo, sabia que minha fé correria risco. Mas parar de ler não era mais uma opção. Li, então, até o fim. Era longo. E resolvi traduzir o artigo, oportunamente, para o Português. Fiz isso já no meu segundo ano de seminário, em 1965. O Setor de Apostilas do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS) publicou a tradução em apostila — usando estênceis (não sei se o termo stencils se traduz assim), daqueles velhos, encerados, e um mimeógrafo que era propriedade do CAOS. Eu mesmo digitei (datilografei) o texto nos estênceis. Publicado, interna corporis, sem pedir permissão a ninguém, o artigo causou furor. Ajudou preparar a crise do ano seguinte, 1966.

O que mais me causava surpresa no artigo de  Bultmann era o seguinte. Se ele tivesse sido escrito por um ateu, o impacto em mim não teria sido tão grande. De um ateu você normalmente não esp5era grande coisa (pelo menos assim pensava eu em 1964). Na verdade, você até mesmo espera que ele critique sua religião. Mas Bultmann era “crente”. Mais do que isso: era pastor luterano – e teólogo, um dos mais famosos do mundo protestante, professor de teologia numa das mais conceituadas universidades mundiais: Marburg, na Alemanha. Havia livro com sermões dele… O exemplo dele falou tanto quanto seu artigo. Levou-me a crer que era possível defender as ideias que Bultmann defendia no artigo e continuar a ser crente, pastor, teólogo, professor de teologia (como eu pretendia vir a ser… — e, um dia, 50 anos depois, acabei sendo, na Faculdade de Teologia de São Paulo (FATIPI) da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), em Julho de 1974.

Talvez eu mantivesse, ao acreditar nisso, um pouco da minha ingenuidade. Quem sabe era possível acreditar naquilo que Bultmann dizia e continuar a ser crente e pastor na Alemanha, país avançado… Mas, na Igreja Presbiteriana, aqui do Brasil, não seria. E não foi. Fui defenestrado do seminário em 1966. Em parte por causa de minha propaganda das ideias bultmannianas.

Mas fui parar, intermediariamente, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em São Leopoldo. Lá vi que luteranos se entendem. Bultmann lá não era escândalo: era normal. Aos poucos eu comecei a conviver com as ideias de Bultmann como se fosse normal olhar para a Bíblia, Jesus Cristo, a sua apregoada ressurreição, e o Cristianismo daquele jeito…

Começava meu exílio da fé, que durou cerca de 45 anos.

Agora estou aqui, de volta, lendo uma biografia de Bultmann, 50 anos depois. Descubro, na biografia, que ele também enfrentou problemas por causa de suas ideias. Sofreu oposição. Universidades, como a de Leipzig, o convidaram para se transferir para seu Departamento de Teologia, como professor e parte do corpo docente, apenas para, depois, retirar o convite por pressão da Igreja Luterana… a mesma que, em grande medida, apoiou, logo depois, Hitler e o Nacional Socialismo. Senti-me mais irmanado a Bultmann ao descobrir isso. A igreja luterana alemã apoiou, em grande medida, o Nazismo — e a igreja presbiteriana brasileira apoiou, em grande medida, a Ditadura Militar brasileira…

Os livros de e sobre Bultmann que comprei nos anos 60 e 70 do século passado — são uns cinquenta — ainda os possuo, todos eles: nunca achei que devia me livrar deles. Eles eram — e continuam sendo — parte de mim. Dispor deles era como me livrar de um pedaço de mim. Não do meu corpo, mas da minha alma. As ideias deles entraram pelo meu sistema de ideias, foram mastigadas, algumas mal, outras melhor, mas foram todas de alguma forma digeridas, e, depois, algumas ficaram no sistema, outras foram excretadas, mas as que ficaram se misturaram com o que já estava no meu sistema e passaram a fazer parte de mim, parte do meu DNA. . .

Bultmann morreu em Julho de 1976, quando eu já era Diretor Associado da Faculdade de Educação da UNICAMP e pensava que havia deixado a teologia definitivamente para trás. Mais um engano meu. Autoengano.

Publicado em meu blog “Liberal Space”, em Salto, 23 de Agosto de 2014, poucas semanas depois de começar a dar aula de História da Igreja e de Teologia Histórica (História do Pensamento Cristão) na FATIPI. Fiquei lá durante três anos, saindo depois que me mudei de São Paulo para Salto.

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 9 de Novembro de 2015.

Revisto aqui neste blog em São Paulo, 16 de Dezembro de 2019, 55 anos depois dos fatos que descrevo.

Quietude e Solitude — Quieto e Só Entre os Amigos Livros

Estava com saudades de ficar aqui no meu cantinho, na biblioteca do sítio (chamada de “Akston Lounge – I” — a biblioteca de casa é a “Akston Lounge – II”), escrevendo, lendo, contemplando os meus principais amigos: os meus livros. De vez em quando me levanto da confortável poltrona, tiro um livro da estante, dou uma olhada nele, aliso-o com carinho, tiro o pó, e o ponho de volta. Outras vezes apenas mudo um livro de lugar, porque estava num lugar não muito adequado, dado o assunto… Ou acerto o alinhamento deles: parece que eles se mexem sozinhos, preferindo ficar desalinhados, ou de alguma forma protestando contra o alinhamento militar que sempre pretendo lhes impingir. . .

Sou meio maníaco com essas coisas, com esses arranjos. Não só com o alinhamento, of course. Eles são secundários. Mais importante é o agrupamento e ordenamento. . . Livros podem se perder se fora de seu grupo (categoria) ou se fora de ordem. Bibliotecários sabem disso. Por isso, nas bibliotecas de livre acesso, pedem que a gente não coloque os livros de volta nas estantes, deixando-os nos carrinhos. Um livro colocado no lugar errado em uma biblioteca grande é um livro perdido. Como tenho bem mais de 20 mil livros aqui no sítio, cuido muito disso — apesar de, em regra, só eu e a Paloma mexermos neles.

Em geral agrupo e ordeno meus livros por categoria, começando com grandes áreas: Filosofia, Teologia e Religião, Política (incluindo FIlosofia Política, Teoria Política e Ciência Política — não a prática da política), Economia, Administração, História, Psicologia, Educação… Tenho uma seção grande de livros de Lógica, porque dei aula de Lógica por dois anos nos Estados Unidos. (Política e Lógica são, para mim, parte da Filosofia, mas eu agrupo essas áreas separadamente, por ter muitos livros em cada uma delas).

Dentro de cada categoria maior, agrupo os livros por assunto e por autor… Em Filosofia, há um agrupamento natural, cronológico, por período da História da Filosofia: Filosofia Grega, Filosofia Medieval, Filosofia Moderna, Filosofia Contemporânea. . . Dentro da Filosofia Moderna, ordeno os livros por sub-período, mas agrupando os autores principais: Século 17, Século 18, Século 19, Século 20… No Século 17, Descartes, Spinoza, Leibniz, Hobbes, Locke… No Século 18, Deístas, Adam Smith, Hume, Kant, Rousseau, Voltaire, os demais Iluministas Franceses (os Philosophes)… No Século 19, Schopenhauer, Nietszche, Kierkegaard, John Stuart Mill… No Século 20, Bertrand Russell, Wittgenstein, Popper, Ayn Rand.

Dentro da Filosofia Contemporânea (lato senso), ordeno os livros por tema: Metafísica, Epistemologia, Lógica, Ética, Política, Estética (já falei na Política e na Lógica).

Em Teologia e Religião, História do Cristianismo (incluindo História do Pensamento Cristão), Teologia Sistemática, Teologia Prática, Velho Testamento, Novo Testamento, Línguas Bíblicas. . . Não tenho muitos livros sobre religiões não cristãs, com exceção do Judaísmo, por razões óbvias: o Judaísmo é a religião-mãe do Cristianismo…  Às vezes há dúvidas sobre onde colocar um autor, se entre os teólogos ou entre os filósofos… Tomás de Aquino está, para mim, entre os filósofos.

Os autores dos quais ou sobre os quais tenho mais livros são David Hume (disparado o número 1: fiz minha tese de doutorado sobre ele, mais de 200 livros nessa categoria), Ayn Rand (minha autora favorita, vem em segundo lugar, destacado), Karl Popper (em terceiro lugar, com seus discípulos, amigos, defensores e críticos — meu orientador, W. W. Bartley, III, está aqui, como aluno, amigo, defensor e crítico respeitoso), e, pela ordem, Bertrand Russell, Adam Smith, Tomás de Aquino, João Calvino, Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, C S Lewis, Agostinho, Platão e Aristóteles, John Dewey, Jean Piaget, etc.

Faz quase um mês que não ficava quietinho aqui… Sinto falta dos meus amigos livros… Não preciso nem lê-los (embora o faça o tempo todo): basta estar ao lado deles…

Transcrito em meu blog “Liberal Space” em Salto, 23 de Agosto de 2014

Transcrito aqui neste blog em 9 de Novembro de 2015.

Minha Educação: Mais um Pouco de Biografia

Minha educação sempre misturou aspectos não-formais, em geral inovadores, com aspectos formais, em geral bastante tradicionais – aquilo que eu, em 1963, em meu convencional discurso de formatura no Curso Clássico, chamei, pouco criativamente, de “a escola da vida” e “a vida da escola”… [1]

Tive sorte: só comecei a vida da escola quando já estava bem a caminho de completar nove anos, em Santo André, SP, no ano de 1952… Assim, iniciei o (então) Primário bastante tarde! Não freqüentei “Prezinhos” e Jardins da Infância, muito menos Cursinhos Maternais e “Hotelzinhos Pedagógicos”. Creio que eles não existiam então nem nos grandes centros – muito menos onde eu morava. Assim, pude brincar e aprender, fora da escola, bem mais do que a maior parte das crianças de hoje (sentenciadas à escola, às vezes, a partir dos dois anos).

Morávamos (1946-1951) no que meu pai então chamava de “o sertão do Paraná” (Marialva, Maringá), onde as escolas eram tão ruins que meus pais decidiram que eu só iria para a escola quando a família conseguisse se mudar para um lugar “mais civilizado”, com melhores escolas. Tanto melhor: além de brincar, aprendi bastante. A escola da vida começou bem cedo – na verdade, com a vida… Logo descobri que brincadeira é coisa muito séria, porque, além de dar prazer, é fonte inesgotável de aprendizagem (especialmente quando é difícil) – sendo esta, talvez, a principal razão por que a brincadeira dá prazer! [2]

Cedo, e em casa, aprendi a ler e a escrever com razoável fluência. Sou, em parte, fruto de home schooling.

Aprendi a ler basicamente sozinho, com alguma ajuda de minha mãe (que mal havia terminado, na década de 30, o então chamado Curso de Comércio, mais ou menos equivalente ao Ginásio, na Academia São Luiz, em Campinas, hoje Colégio Pio XII, ligado à PUC-Campinas). Aprendi a ler na Bíblia e em histórias policiais (especialmente as de Sir Arthur Conan Doyle e as de Earle Stanley Gardner). A Bíblia, por influência de meu pai, pastor presbiteriano por quase 50 anos; as histórias policiais, por influência de minha mãe, que as devorava. O gosto pela leitura de histórias policiais se mostrou mais duradouro do que o gosto pela leitura da Bíblia (que, entretanto, vista como literatura, tem passagens memoráveis). Só recentemente voltei a ler a Bíblia com outros olhos.

No início de 1952, quando tinha oito anos e meio, mudamo-nos para Santo André, SP. Minha educação formal foi iniciada nos bancos de uma escola pública, o Grupo Escolar “Prof. José Augusto de Azevedo Antunes”, na Rua Senador Flaquer. A educação ali proporcionada era bastante tradicional – mas tive a sorte de encontrar professoras que, percebendo que eu já lia e escrevia fluentemente, me estimularam a explorar campos mais férteis e verdejantes do que as cartilhas e os livros-texto de então. Li bastante e amplamente nessa época: não só o Tesouro da Juventude e a literatura infantil e para adultos de Monteiro Lobato (então, em ambos os casos, presentes, de rigueur, na biblioteca de toda casa que prezava a educação), mas também romances policiais. Continuei a devorar Conan Doyle, especialmente suas histórias de Sherlock Holmes, e Erle Stanley Gardner, especialmente suas histórias de Perry Mason; mas descobri também Georges Simenon, com suas histórias do Inspetor Maigret, e Maurice Leblanc, com suas histórias do incorrigível Arsène Lupin, o famoso “ladrão de casaca”, e Agatha Christie, com suas histórias de Hercule Poirot e Miss Marple. Minha maior descoberta, nessa época, entretanto, foram os romances históricos de autores franceses, como os de Alexandre Dumas, especialmente aqueles envolvendo os Três Mosqueteiros, e os de Michel Zévaco, especialmente aqueles envolvendo os charmosos espadachins, pai e filho, Les Pardaillans. Por fim, descobri romances em geral, sem discriminar negativamente nem mesmo os livros da então chamada “Biblioteca das Moças”… Li, ainda na pré-adolescência, Rebeca, Jane Eyre, O Morro dos Ventos Uivantes, bem como quase tudo de A. J. Cronin, e muitos outros – que eram livros que minha mãe adorava e que, portanto, estavam disponíveis em casa. Felizmente meus pais nunca me disseram que havia livros que eram “de adultos”, vedados a crianças.

Fiz o Ginásio no Colégio Estadual e Escola Normal “Dr. Américo Brasiliense” (depois Instituto de Educação “Dr. Américo Brasiliense”), também em Santo André. O Colégio ficava (ainda fica, embora em outro prédio e com ainda outro nome) bem no largo do Quarto Centenário (o quarto centenário de Santo André foi celebrado dia 8 de Abril de 1953). A escola também era tradicional, mas o ensino era de qualidade: os professores eram muito bons, dentro da visão pedagógica tradicional. Não se esperava mais do que isso naquela época. A escola pública de então atendia à camada mais intelectualizada da sociedade – servia à elite, portanto. Um pastor protestante naquela época, embora bastante pobre pelos padrões de hoje, tinha um status social razoável. Eu, o primogênito da família, de certo modo destinado a seguir nos passos do pai, tinha a obrigação de entrar na melhor escola da cidade… Entrei – sem Curso de Admissão (apenas com algumas aulas de revisão ministradas, um mês antes dos exames, por Carla Strambio, então novinha, e que, cinqüenta anos depois eu iria reencontrar como minha colega na categoria de “Tradutora Juramentada e Intérprete Comercial” – ela de Italiano, eu de Inglês). Os Exames de Admissão para ingressar no Ginásio do Américo Brasiliense eram, talvez, mais seletivos do que os Vestibulares de muitas universidades públicas hoje em dia. Quando entrei no Ginásio, em Fevereiro de 1956, havia onze candidatos para cada vaga. O Exame de Admissão barrou mais de 90% dos pretendentes: entraram apenas 30 de 330 candidatos ao curso diurno… o que significava que, com o acréscimo de alguns repetentes, havia apenas uma turma de primeira série do Ginásio no turno diurno em 1956 no Américo Brasiliense.

Além das matérias convencionalmente consideradas acadêmicas, a escola tinha um excelente orfeão, uma competente área de artes (com foco especialmente em desenho), uma interessante área de trabalhos manuais (onde aprendi a fazer sacolas, chaveiros, e assentos de palhinha para cadeira), e um bom departamento de educação física (área que, admito sem vergonha, nunca foi o meu forte).

Voltando mais uma vez para a literatura, essa foi a época em que descobri José de Alencar (Cinco Minutos, A Viuvinha, Lucíola, Diva, Iracema, Senhora…), Visconde de Taunay (Inocência), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), e, principalmente, Machado de Assis (Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Memorial de Aires…). Adolescente que era naqueles tempos em que o romantismo não havia ainda saído de moda, não deixei de me fascinar pela poesia, lendo comportadamente Olavo Bilac, mas me apaixonando pelos poetas mais românticos, como Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Raimundo Corrêa… Ainda sei de cor vários poemas que decorei naquela época.

Com esses interesses, era inevitável que eu, na então chamada Escola Secundária, optasse pelo Curso Clássico e não pelo Curso Científico. A bem da verdade, eu até que tentei cursar o Científico no Américo Brasiliense: mas não suportei um semestre de Física e Química…

Fui fazer o Curso Clássico, como aluno interno, no Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), em Jandira, SP, escola privada, pertencente à Igreja Presbiteriana e com ligações com o Instituto Presbiteriano Mackenzie (mantenedor da Universidade Mackenzie). Meu pai já havia estudado no JMC na década de trinta. O Instituto era considerado a melhor via de acesso para o Seminário. Na verdade, era até mesmo chamado de “Seminário Menor”, em analogia com as instituições congêneres da Igreja Católica. Lá não precisei estudar Física e Química, e estudei apenas um pouco de Biologia e Matemática… Em compensação, estudei bastante Língua e Literatura Portuguesa, Francês (incluindo Literatura Francesa), Inglês (incluindo Literatura Inglesa e Americana), Latim, Grego Clássico, Filosofia (especialmente Lógica), Psicologia, História… – todas elas matérias em que eu tinha interesse e sempre me dei muito bem.

Mas havia bem mais no JMC do que a vida acadêmica. Ouso mesmo dizer que os aspectos não-formais (extraclasse) da educação proporcionada no JMC me educaram mais do que as aulas a que assisti. Eu tinha de cuidar da limpeza e da arrumação do meu quarto, lavar a minha roupa, ganhar um dinheirinho trabalhando na escola… Além disso, participei de grêmios culturais (inclusive de debates e de literatura), clubes de língua estrangeira (Inglês e Francês), corais e conjuntos musicais, viagens e excursões, atividades esportivas variadas… Cantei duas vezes, com o coral da escola, dirigido pelo Maestro João Wilson Faustini (hoje dileto amigo), no Teatro Municipal de São Paulo, em programas especiais de Páscoa e Natal. No JMC a gente podia fazer as provas sozinho no quarto. A escola confiava na gente e a gente correspondia: ninguém, que eu saiba, ousava verificar nada nos livros ou nos cadernos que estavam ali à mão. Para completar o ambiente educacional, os professores moravam no mesmo pitoresco campus que nós – e, portanto, tínhamos acesso a eles o tempo todo. Freqüentemente tomávamos café ou mesmo refeições em suas casas. E eles nos emprestavam livros, revistas, discos… Ganhei meu primeiro Webster’s (completo!) do Prof. Fernando Buonaduce, professor de Latim. Ali descobri a literatura francesa, sob a orientação firme de minha mestra favorita, Profa. Maria Elza Fiuza Teles, e a literatura de língua inglesa, neste caso sob a orientação da Profa. Jean Pemberton. Li vários livros no original, fora das exigências dos cursos, apenas por prazer. Ficam em minha memória a leitura de Alexis Zorba, de Nikos Kazantzakis, na tradução para o Francês do original em Grego Βίος και Πολιτεία του Αλέξη Ζορμπά, e The House of Seven Gables, no original em Inglês de Nathaniel Hawthorne. Mas, acima de tudo, os professores conversavam bastante conosco, sobre suas matérias, sobre nossos planos para o futuro, sobre a vida em geral. E, importante, nos levavam a sério, como se fôssemos “gente grande”, seus pares e iguais… Descobri ali que adolescentes e jovens tendem a comportar-se como gente grande quando são tratados como adultos.

No JMC minha educação deu um grande salto – mas nem tanto pelo conteúdo das aulas, que, em parte, com a exceção de algumas competências lingüísticas e lógicas e de alguns gostos pessoais, está devida e felizmente esquecido [3]. O importante, ali, era o ambiente de aprendizagem que a escola proporcionava nos momentos extraclasse. No JMC criei dívidas intelectuais que só sou capaz de registrar, nunca de pagar, até porque os credores são, em alguns casos, bem difusos. [4]

Passo rápido pela educação de nível pós-secundário – porque, ao terminar o curso secundário, os meus interesses básicos estavam basicamente definidos… Depois do Clássico cursei Teologia, em Campinas, no Seminário da Igreja Presbiteriana do Brasil (também freqüentado pelo Rubem Alves alguns anos antes), e em São Leopoldo, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (onde as aulas, em 1966, eram ainda em Alemão). Não concluí o curso de Teologia no Brasil. O autoritarismo político se refletia dentro da Igreja Presbiteriana (embora não na Igreja Luterana – mas para estudar lá não tinha apoio eclesiástico e, por conseguinte, financeiro). Só fui completar o curso de Teologia nos Estados Unidos, no Seminário Teológico de Pittsburgh (Pittsburgh Theological Seminary), da Igreja Presbiteriana, onde também fiz o Mestrado em História do Pensamento Cristão (com ênfase na parte final da Idade Média, na Renascença e na Reforma). Meu desempenho no Mestrado me facilitou o acesso ao Doutorado na Universidade de Pittsburgh (University of Pittsburgh), na área da Filosofia do século XVIII – o Iluminismo. Meus amigos, Revs. Gordon E. Jackson, então em Pittsburgh, e Aharon Sapsezian, então em São Paulo, tornaram possíveis meus estudos nos Estados Unidos.

Viver no exterior durante sete anos e estudar numa universidade estrangeira de renome e tradição (fundada no século XVIII) envolveu vários aprendizados importantes. Nesse período meu foco principal de interesse passou a se concentrar em questões filosóficas, especialmente as epistêmicas e políticas, que, para mim, se dividiam em questões mais teóricas (o que podemos conhecer e como?) e em questões de cunho mais prático (como devemos viver, no plano individual, e nos organizar como sociedade, no plano coletivo, e por quê?).

Concluído o Doutorado, em 1972, dei aulas de Filosofia, durante dois anos, na Universidade Estadual da Califórnia (California State University), em Hayward, e nas Faculdades Integradas Claremont (Claremont Colleges), em Claremont, ambas as cidades na Califórnia. No último caso, fiquei lotado no Pomona College. As disciplinas que ministrei nessas duas instituições incluíram Metafísica, Teoria do Conhecimento, Ética, Filosofia Política, Lógica… O básico de um curso Introdução à Filosofia, só ficando de fora a Estética. Aprendi bem mais filosofia dando aulas do que assistindo a elas…

Em 1974 vim para a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), como professor de Filosofia – mas acabei na Faculdade de Educação, responsável pela disciplina Filosofia da Educação, que eu nunca havia cursado, muito menos lecionado. Na realidade, nunca havia estudado Educação formalmente, antes de vir para a UNICAMP, e nunca fiz um curso sequer na área depois – o que, hoje percebo, foi uma enorme vantagem. Os cursos superiores na área da Educação são em geral muito ruins – aqui e lá fora. Fiz trinta e dois anos e meio de UNICAMP em 2006 e me aposentei, com grande alívio, ao final do ano.

A vida acadêmica me ensinou bastante – mas também me cansou muito rápido… As comunidades universitárias do Brasil, com algumas honrosas exceções, e com a exceção de algumas áreas dentro das demais, são guetos esquerdizantes e socializantes voltados para a doutrinação político-ideológica, não raro de natureza claramente partidária. Do ponto de vista pedagógico, elas deixam muito a desejar – apesar de pretensiosas. Os anos na UNICAMP me serviram de inspiração – totalmente negativa, é evidente – para as idéias de um livro que comecei a escrever em 2001 e ainda não terminei… (embora erroneamente achasse que tinha terminado em Setembro de 2002). Aos leitores atentos deste blog se torna desnecessário sublinhar os meus pontos de discordância com a visão de educação que é, eu diria, quase hegemônica na Faculdade de Educação da UNICAMP e, até certo ponto, nas demais instituições congêneres do país. Essa visão só não foi totalmente hegemônica, no caso da Faculdade de Educação da UNICAMP, durante a maior parte do tempo em que lá estive, em virtude da existência de honrosas exceções ao catecismo vigente, especialmente dentro da área de Filosofia do Departamento de Filosofia e História da Educação, área em que estive lotado todos esses anos. Hoje essas exceções estão todas aposentadas, de modo que a hegemonia da esquerda foi finalmente alcançada.

No início da década de oitenta, quando era Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, aconteceram alguns eventos que ensejaram um acréscimo especial aos meus interesses. Em 1981 oito diretores de faculdades ou institutos da UNICAMP, eu entre eles, todos nós candidatos a Reitor no (que eu saiba) primeiro processo democrático de escolha de Reitor tentado em uma universidade brasileira, fomos surpreendidos com nossa exoneração do cargo por uma Portaria do Reitor publicada em uma edição de sábado do Diário Oficial no mês de Outubro. Eventualmente consegui retornar ao meu cargo (no início de Dezembro) por força de uma decisão judicial, mas o episódio me fez dolorosamente consciente do fato de que a única coisa que eu realmente sabia fazer era dar aula em universidade… Se essa porta se fechasse… Os tempos ainda eram de ditadura. A partir daquele momento resolvi que, ao lado de minha vida acadêmica, teria sempre alguma atividade externa. Essa decisão deu uma direção totalmente diferente à minha vida.

Em decorrência dessa resolução, decidi em 1982 comprar um computador e aprender a fazer alguma coisa útil com ele. No artigo anterior que publiquei neste blog esclareço a gênese de meu interesse em computadores. Comprei um Commodore 64 – aparentemente um dos primeiros lançados no mercado americano… Em seguida, ainda naquele ano, criei, com alguns colegas da Universidade (Maurício Prates, Saul d’Ávila, Paul Shepard, José Eustáquio da Silveira e Silva), uma empresa de treinamento e consultoria e decidi que iria me tornar pequeno empresário na área de treinamento e consultoria. A empresa existe até hoje, sob a batuta do Saul d’Ávila e seus filhos. Vendi-lhe minha parte há muito tempo. Ainda sou pequeno empresário até hoje – na verdade, hoje em dia, mais micro do que pequeno empresário. Aprendi muito nesse ofício. Às vezes de forma muito difícil, dolorida e até mesmo financeiramente onerosa. Minha desilusão com pessoas que considerava amigos, em alguns casos melhores amigos, foi quase total — e marcou indelevelmente a minha vida posterior.

Mesmo dentro da Universidade, quando voltei para o meu cargo de Diretor da Faculdade da Educação da UNICAMP em 1981, resolvi acrescentar alguns novos interesses aos já antigos. Criei, em 1983, junto à Reitoria, o Núcleo de Informática na Educação (NIED), primeiro (que eu saiba) órgão interdisciplinar de pesquisa aplicada nessa área dentro de uma universidade brasileira. O NIED elaborou e submeteu ao Programa EDUCOM, coordenado pela Secretaria Especial de Informática, FINEP e MEC, o projeto da UNICAMP, que oportunamente foi um dos cinco selecionados para financiamento e implantação a partir de 1984. Coordenei o NIED e o Projeto EDUCOM da UNICAMP até 1986. Mas isso tudo está narrado em mais detalhe no artigo anterior neste blog.

Contingências políticas dentro e fora da UNICAMP me levaram a ser colocado à disposição do governo do Estado de São Paulo, de 1986 a 1990, para dirigir, primeiro, o Centro de Informações Educacionais da Secretaria da Educação e, depois, o Centro de Informações de Saúde da Secretaria da Saúde. Nessa última função acabei me tornando consultor junto à Organização Pan-Americana da Saúde (Pan-American Health Organization), em Washington, e à Organização Mundial da Saúde (World Health Organization), em Genebra. Aprendi muito sobre informática, saúde e consultoria nesse trabalho.

De volta à UNICAMP, estabeleci uma parceria da minha empresa (MindWare) com a Microsoft, em 1998, para a criação do site EduTec.Net e da comunidade virtual de aprendizagem colaborativa EduTec [5]. A parceria durou cerca de quinze anos, até 2013. Em decorrência dessa parceria acabei sendo indicado pela Microsoft para participar de um programa que ela estava propondo ao Instituto Ayrton Senna, em 1999: o “Sua Escola a 2000 por Hora”.

Ao longo de todo esse tempo minha identidade profissional foi se construindo: minha identidade mais especulativa, como homo academicus, especificamente como filósofo, vem, há bem mais de 25 anos, convivendo com minha identidade mais prática, como homo actionis, empresário e consultor. É a junção da vita contemplativa e da vita activa de que falavam os filósofos medievais… Sem essa junção nunca teria chegado aos meus interesses e aos meus pontos de vista atuais!

NOTAS

[1] No Discurso citei o poeta Antonio Zoppi, de Americana. Diz ele, em uma simples quadra: “Sapiência não se esmola, deve ser adquirida: na doce vida da escola ou na acre escola da vida”. Para quem se interessar, o juvenil discurso pode ser lido, em sua inteireza, aqui neste blog, em http://liberalspace.net/2013/10/24/discurso-de-formatura-1963/ .

[2] Só muito tempo depois vim a ter contato com as idéias de “Diversão Difícil” (“Hard Fun”) e de “Brincadeira Séria” (“Serious Play”), a primeira proposta e a segunda sugerida por Seymour Papert, que, em muitos aspectos, se tornou um guru meu. Ambas as idéias foram adotadas pela Lego, empresa com a qual acabei me associando em 2010. Vide os artigos de Papert: “Hard Fun”, in http://www.papert.org/articles/HardFun.html, e “Does Easy Do It? Children, Games and Learning”, in http://www.papert.org/articles/Doeseasydoit.html (ambos consultados em 25/02/2011). Vide também http://wn.com/Lego_Serious_Play (consultado em 25/02/2011). Uma busca por “Serious Play” na Web vai gerar inúmeros resultados.

[3] Michael Hammer, em seu livro Beyond Reengineering: How the Process-Centered Organization is Changing our Work and our Lives (Harper Business, New York, 1996), p. 237, caracteriza a educação como “aquilo que permanece conosco depois de nos esquecermos do que nos foi ensinado”…

[4] Vide dois artigos meus, infelizmente com basicamente o mesmo título, no meu blog “Instituto JMC”. O primeiro deles, com o título, “O JMC nos deu educação – no sentido mais pleno do termo”, em https://institutojmc.wordpress.com /2010/03/07/o-jmc-nos-deu-educacao-–-no-sentido-mais-pleno-do-termo/, e o segundo, intitulado “O JMC nos deu educação”, em https://institutojmc.wordpress.com/2010/03/07/o-jmc-nos-deu-educacao/. O Instituto “José Manuel da Conceição” foi fechado pela Igreja Presbiteriana no auge da ditadura, ao final de 1969. Nunca me conformei com isso – em especial porque as razões para o fechamento nunca foram divulgadas, sendo, aparentemente, um dos segredos mais bem guardados nos porões da Igreja Presbiteriana do Brasil.

[5] A comunidade virtual e o site não mais existem, infelizmente, por falta de tempo para cultiva-los como devem ser cultivados.

Transcrito no meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 8 de Fevereiro de 2015

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 9 de Novembro de 2015

Minhas Dívidas Intelectuais: Ainda Pintando Pequenos Retratos de Mim Mesmo

Li uma vez uma história de um avô que passeava carregando a neta nos ombros. Ao encontrar um amigo, este resolveu brincar com a criança, e elogiou-lhe o tamanho. Ao elogio a menina respondeu: “Bom, obrigado, mas nem tudo disso que o senhor vê sou eu”. [1]

A observação da criança é relevante aqui. Pouco daquilo que eu escrevo ou digo em minhas aulas e palestras é idéia original minha. Ao especialista, isso ficará imediatamente evidente. Para o leigo no assunto, porém, isso deve ser clara e formalmente declarado.

Nenhum artigo ou livro é uma produção totalmente individual. Além das dívidas com professores e outras pessoas que deixaram uma marca em nós, há nossas dívidas com autores de livros, realizadores de filmes, e com outras pessoas, muitas das quais já morreram, em alguns casos há muito tempo…

Minha formação pessoal se deu, formalmente, na teologia e na filosofia. Tenho dívidas intelectuais enormes com alguns famosos filósofos e com alguns teólogos. Com nenhum deles concordo inteiramente, mas todos os que vou citar deixaram em mim influências marcantes.

Sócrates, o mestre de Platão, chamou minha atenção para os seguintes fatos: primeiro, como crianças, ideias são sempre concebidas em interação humana; segundo, como a mulher que dá à luz uma criança, freqüentemente precisamos de um parteiro que nos ajude a dar à luz as ideias que concebemos; e, terceiro, como a criança que nasce, nossas ideias precisam se desenvolver, o que novamente se dá através da interação humana, do diálogo, do embate de pontos de vista, da discussão crítica… Seria “parteiro de ideias – dos outros” uma boa metáfora para o papel do professor?

Aristóteles me marcou pela ênfase que deu ao fato de que as ideias que concebemos devem estar ancoradas na experiência e à necessidade de que, ao tratar essas ideias, precisamos sempre respeitar a lógica e razão [2]. Ele também me convenceu de que algumas de nossas idéias são objetivamente verdadeiras, e que o relativismo e o ceticismo se destroem a si próprios (são “self-defeating”, como se diz em Inglês). E, por fim, me convenceu de que o fim principal do homem é ser feliz — ou, pelo menos, buscar a felicidade. (Calvinistas ortodoxos vão se escandalizar com essa minha admissão, mas ela é verdadeira. Um dos catecismos de Westminster diz que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre”. Pergunto eu: que forma melhor de glorificar a Deus existe do que ser uma criatura sua que é feliz com a vida que tem?).

David Hume, o grande cético (não-radical, convenhamos) da época do Iluminismo, sobre quem escrevi minha tese de doutoramento em 1970-72, me ajudou a evitar o dogmatismo ao insistir que tudo, até mesmo nossa experiência sensorial, a lógica, a racionalidade e a crença na posse da verdade, deve ser encarado com certa dose de ceticismo. Mas ele não foi capaz de fazer de mim um cético total, nem um relativista, nem um descrente na experiência sensorial, na lógica, na razão e na existência da verdade. Houve momentos em que acreditei que Hume havia feito de mim um ateu convicto. Mas em outros momentos ele me fez duvidar até mesmo daquilo de que eu parecia estar mais convicto…

Hume e seu melhor amigo, Adam Smith, foram, porém, capazes de me convencer de que existe algo que é apropriado chamar de natureza humana – e que nunca se desrespeita essa natureza sem pagar um alto preço, especialmente quando se trata da organização da sociedade… E Adam Smith me ajudou a me tornar um liberal estilo clássico (mas nisso teve ajuda de muitos outros, em especial de Ayn Rand).

Karl Popper, crítico de Hume em alguns aspectos, mas seguidor dele em outros, me ajudou a ver o processo de construção do conhecimento – incluindo o conhecimento científico – como algo humano, e, portanto, falível, nunca final e definitivo, mas que não deixa de ser, por isso, objetivo e racional. Popper ainda me ajudou a entender a continuidade que existe entre a ciência e o senso comum, bem como entre a ciência e a filosofia (ambas dependentes da razão crítica). Popper também me ajudou a entender porque a racionalidade crítica só pode prosperar numa sociedade aberta e livre.

E, por fim, a influência maior, Ayn Rand, que, além de reforçar, de forma inigualável na filosofia do século XX, os temas aristotélicos, me fez ver algo que Popper já havia me mostrado: que a racionalidade só pode prosperar e frutificar em uma sociedade radicalmente aberta e livre, que valoriza o indivíduo e seus direitos, básicos e fundamentais, quais sejam: o direito à vida, o direito à liberdade (de expressão, locomoção, associação, contrato, e de busca da felicidade como ele a entender), e o direito à propriedade dos frutos do trabalho. Com sua inestimável ajuda consegui a integrar minha metafísica, minha epistemologia, minha ética, e minha filosofia política.

Em 5 de Fevereiro de 2015, dias atrás, o mundo racional e livre comemorou 110 anos do nascimento dessa grande filósofa e insuperável romancista, nascida na Rússia como Alyssa Zinovievna Rosenbaum, mas que cedo percebeu que não seria capaz de manter sua racionalidade numa sociedade sem liberdade, como era a sociedade russa depois da tomada do poder pelos comunistas em 1917, e, por isso, fugiu para os Estados Unidos, onde alcançou fama e sucesso.

Esses filósofos são os pilares em cima dos quais minhas idéias e minha visão de mundo foram sendo construídas.

Mas ainda faltava integrar à minha visão de mundo a minha filosofia da educação…

Aqui, registro apenas uma influência digna de nota.

John Dewey é, a meu ver, o maior filósofo da educação do século XX (embora discorde dele em muitos pontos importantes) – talvez o maior desde Jean Jacques Rousseau. Dewey me ajudou a perceber três aspectos essenciais da educação, com os quais estou totalmente de acordo.

Primeiro, a educação tem que ver com a criança, não com o professor, e, portanto, com a aprendizagem, não com o ensino.

Segundo, a educação é um processo natural de desenvolvimento humano, de “dentro para fora”, por assim dizer, não um processo artificial de imposição à criança, “de fora para dentro”, de um conjunto de informações e conhecimentos.

Terceiro, a forma mais eficaz e eficiente de ajudar a criança a aprender, e, portanto, de ajudá-la a se desenvolver, é respeitando, não subjugando, seus interesses, e esse respeito se traduz, especialmente num contexto escolar, na chamada aprendizagem ativa, que é promovida através da metodologia de projetos de aprendizagem (metodologia que foi introduzida no mundo pedagógico por um discípulo de Dewey, William Heard Kilpatrick).

O meu envolvimento com o Instituto Ayrton Senna me ajudou, de certo modo, a “traduzir” John Dewey para o contexto brasileiro atual, sem violar os demais elementos de minha visão filosófica, que acabei de ressaltar.

O meu envolvimento com o Instituto Lumiar (do qual fui presidente por dois anos) me permitiu ver que o que penso não é utopia: a Escola Lumiar, em sua concepção, e, espero, cada vez mais na sua prática, junto com a Escola da Ponte e a Sudbury Valley School, são as escolas mais próximas da minha visão da educação que eu conheço.

Sou devedor a todas as pessoas já mencionadas, e a outras que não consigo destacar individualmente, pelas ideias que tenho e defendo hoje.

Como disse Rubem Alves no Prefácio a um dos meus livros (que ainda não publiquei), a minha visão é fruto de minha ingestão e digestão dos pontos de vista de muitas pessoas. Mas esses pontos de vista, depois de devorados por mim, passaram a circular no meu sangue, e, por conseguinte, passaram a ser parte de mim: integraram-se à minha visão de mundo.

Um dos biógrafos de John Dewey diz algo muito parecido em relação a ele, que eu gostaria que fosse verdade também em relação a mim:

“Sempre aberto às ideias dos outros, Dewey, no entanto, passava essas influências pelo crivo de seu pensamento e sentimento [i.e., de sua experiência] de modo a dar-lhes sentido e a transformá-las em algo seu, muito pessoal. Ele nunca se esqueceu de uma dívida intelectual ou pessoal significativa, em áreas que considerasse realmente importantes. Mas ele nunca permitiu que as várias ideias que o influenciaram ficassem separadas umas das outras, isoladas, como se ele fosse apenas um conjunto de espelhos que refletisse o pensamento dos outros. Ele armazenava tudo o que aprendia, mas, deixando de lado peculiaridades das fontes que o influenciaram, transformava as idéias dos outros em algo tipicamente seu” [3].

NOTAS

[1] Peguei essa história de terceira ou quarta mão… Ela é mencionada no livro The Schools our Children Deserve: Moving Beyond Traditional Classrooms and “Tougher Standards”, de Alfie Kohn (Houghton Mifflin Company, New York, 1999, 2000), p. 333. O autor afirma que a ouviu contada pelo antropólogo Lionel Tiger, que dizia que o caso se passara com um (não identificado) professor e sua neta…

[2] Entendo a razão com o conjunto de procedimentos e métodos (que certamente incluem a lógica e o respeito à evidência) que impedem que nossos conceitos, juizos e decisões sejam totalmente arbitrários.

[3]  Jay Martin, The Education of John Dewey: A Biography (Columbia University Press, New York, 2002, p. 131.

Transcrito no meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 8 de Fevereiro de 2015

Transcrito aqui em São Paulo, 9 de Novembro de 2015

52 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

[Apresentação do artigo a ser transcrito]

Em Novembro de 1998, dezessete anos atrás este mês, escrevi um artigo no blog que tinha no site do Instituto JMC, que eu mantinha, com o título:

35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

O URL original era este a seguir, mas ele não importa aqui, porque vou transcrever o artigo inteiro, depois desta introdução.

http://institutojmc.wordpress.com/2010/03/08/trinta-e-cinco-anos-atras-%E2%80%93-meu-ano-de-1963/

Naquele mês e ano — Novembro de 1963, cinquenta e dois anos atrás este ano — eu terminava o Curso Colegial, Modalidade Clássico (equivalente ao Ensino Médio de hoje, naquela instituição educacional, que veio a ser fechada pela Igreja Presbiteriana do Brasil em 1970, por razões nunca explicadas.

Dois anos atrás, em 2013, exatamente cinquenta anos depois, minha filha-enteada, Bianca, também terminou o Ensino Médio. Ela nasceu em 1996 — eu em 1943, 53 anos antes…

Este ano, 2015, neste mês, minha outra filha-enteada, Priscilla, está terminando o Ensino Médio. Ela nasceu em 1998 — 55 anos depois de mim.

No ano seguinte àquele em que concluí o Curso Clássico, 1964, fatídico, eu iria (como fui) para o Seminário Presbiteriano de Campinas. Lá minha festa de calouro seria no dia Primeiro de Abril — primeiro dia do Golpe de Estado que pôs o governo nas mãos dos militares.

Em 1963, dias antes de minha festa de formatura no JMC fizemos uma viagem de ônibus de 30 dias, os formandos do Clássico e os do Ginásio, pelo Sul do Brasil. Saímos de Jandira, passamos em Curitiba, Camboriú, Florianópolis, Tubarão, Porto Alegre, Lajes, Curitiba de novo, e voltamos para Jandira.

Enquanto estávamos em Florianópolis, no dia 22 de Novembro, numa praia deserta e fria, ficamos sabendo, através de um radiozinho portátil que alguém carregava, que o presidente Kennedy havia sido assassinado. Não sabia naquele dia, mas também em 22 de Novembro de 1963, morriam também os escritores C. S. Lewis (também um apologeta do Cristianismo) e Aldous Huxley.

Tudo isso faz 52 anos este mês.

O dia 22 de Novembro já fazia parte de meu imaginário.

Havia uma canção de Cascatinha e Inhana, chamada Santa Cecília, que eu conhecia aparentemente desde sempre, que dizia que 22 de Novembro era o dia da consagração da Santa Cecília. Aquilo ficou na minha cabeça.

Em 1959, ano que terminei o Ginásio, tive uma namorada chamada Cecília — que, não surpreendentemente, aniversariava no dia 22 de Novembro. Nesse dia, dei-lhe um colar de presente e fomos assistir Suplício de uma Saudade, no Cine Tangará, em Santo André — onde, dias depois, seria nossa formatura. Eu tinha 16 anos.

Anos depois, em 1975, minha segunda filha nasceu em 22 de Novembro — mas não lhe dei o nome de Cecília. Chamou-se (ainda se chama) Patrícia.

Um relato, talvez desnecessária e exageradamente detalhado, de minhas atividades em 1963 pode ser lido no artigo de 1998. Aqui, 17 anos depois, fica apenas o registro de que estou aqui ainda.

Falei de três namoradas no texto. Isso poderia trazer problemas para qualquer um. Mas a Paloma sabe que o maior amor não é o primeiro nem os do meio: é o último.

Em São Paulo, 7 de Novembro de 2015

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35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963 [Escrito em 1998]

Faz 35 anos, este ano (1998), que terminei meu Curso Clássico no JMC. Meia vida de alguns, mais do que isso de muitos.

O terceiro ano do Curso Clássico era a “glória” para o aluno do JMC. Ele finalmente era formando, pré-seminarista. Tinha o privilégio de morar no QG, em quarto individual, num prédio onde o banheiro possuía chuveiro com água quente. Isso era mordomia pura naquelas bandas. A gente olhava os outros com ar superior e usava o fato de ser formando para impressionar as calouras. Como ultimoanistas podíamos também dirigir o culto na Casa das Moças, à noite, o que fiz algumas vezes. Esse, então, era um privilégio e tanto.

Academicamente, meu ano de 1963 foi relativamente tranqüilo. Tive meu primeiro curso de Filosofia (ênfase em Lógica), com o Rev. João Euclydes Pereira, o Zoca. Foi o curso de que mais gostei em toda a minha estada no JMC – tanto que, quando deixei a Teologia, foi para a Filosofia que me voltei. Comparado com o curso de História que o Rev. João Euclydes dava (que eu achava relativamente chato e monótono), o curso de Lógica, com os silogismos, os quebra-cabeças lógicos, e os processos mnemônicos para que nos lembrássemos de quais formas silogísticas eram válidas, era, para mim, excitação intelectual da melhor espécie.

Deslanchei bem no Inglês, em grande parte por ter namorado, durante boa parte do ano, Natalie Landes Browne, neta do rev. Felipe (Philippe) Landes, que, embora nascida na China, era filha de americanos e, portanto, falava Inglês como nativa. Por incentivo da Natalie e do Deoclécio Silveira do Amaral (o melhor falador de Inglês sem ascendência americana que havia na escola), passei a freqüentar as sessões do English Club, que se reunia todas as quartas-feiras, sob o comando de Da. Jean Pemberton. Ainda por incentivo da Natalie, comecei a ter aulas particulares de Inglês com Da. Margarida (Margareth, presumo) Landes, avó dela, esposa do rev. Landes. Dona Margarida me fazia ler artigos e artigos da Selections of the Readers’ Digest. Meu conhecimento de gramática melhorou muito nessas aulas. Bilhetes com a Natalie trocava-os diariamente, e ela, nas respostas aos meus, tinha a paciência de corrigir meus erros de Inglês. O namoro foi feliz, tranqüilo, sem sobressaltos. Terminou de forma infelizmente deselegante, por culpa minha. Sempre fui razoavelmente hábil para começar relacionamentos afetivos (modéstia à parte), mas extremamente inábil para encerrá-los, verdade seja dita. Fiz uma série de papelões em minha vida, nessa área.

Em termos de viagens individuais, comecei o ano na Igreja de Passos, MG, da qual era membro meu colega João Batista de Oliveira. Passei as férias de Dezembro de 1962 lá. No dia 31 de dezembro de 1962 dirigi o Culto de Vigília em São João Batista do Glória, cidade próxima de Passos, e que era então conhecida como a “capital nacional do barbeiro” (o inseto causador da doença de Chagas). No dia 1 de Janeiro de 1963 voltei para Passos e fui ao cinema à tarde e à noite, com a Elda, menina loira, de excelente família passense, que acabou se casando com um colega meu do Seminário (de cujo nome infelizmente não consigo me lembrar, por mais que me esforce). À tarde assistimos “Tarzan e a Mulher do Diabo”, e à noite “Circo dos Horrores” (eu registrava essas coisas na minha agenda). No dia 2 de janeiro preguei meu sermão de despedida lá. Nunca mais vi a Elda, com quem me correspondi por uns tempos – até que, mais para o meio do ano, comecei a namorar a Natalie.

No sábado, dia 5 de janeiro, parti para Pirapozinho, SP, cidade perto de Presidente Prudente, onde iria trabalhar durante o mês de Janeiro, na Igreja Presbiteriana Independente. O ônibus saiu de São Paulo às 7:30 e chegou a Presidente Prudente às 18:15 – quase onze horas de viagem. Peguei imediatamente um ônibus para Pirapozinho, onde cheguei às 19:30, para ficar hospedado numa Casa Pastoral vazia. Depois de uns dias o Jonas Christensen, amigo e ex-“velha” (moramos juntos em 1962) chegou para me ajudar com o trabalho com o coral e com o canto congregacional. Lá, surpreendentemente, não me interessei por ninguém, em particular.

Enquanto estava em Pirapozinho viajei por Tarabay, Narandiba, Coronel Goulart, Mirante do Paranapanema, Dumontina, Regente Feijó, Presidente Wenceslau, Presidente Epitácio e Presidente Prudente. Preguei em todas essas cidades e fiz dezenas de visitas. No final do mês voltei para São Paulo de trem (trem leito, o famoso Expresso Ouro Verde, que tantas vezes, quando criança, havia tomado para vir do Paraná para São Paulo: a gente o tomava, em baldeação, em Ourinhos).

No início de Fevereiro fui para o Acampamento “Palavra da Vida”, onde trabalhei durante uma semana, como freqüentemente o fazia nas férias. Não me lembro exatamente qual era minha função lá. Depois disso passei uns dias em Campinas e, durante o Carnaval, fui a um retiro espiritual em Americana.

As aulas começaram apenas no dia 5 de março, terça-feira. Não havia aulas no JMC às segundas-feiras. Os pré-seminaristas, por trabalharem demais no fim de semana, tinham, como muitos barbeiros ainda hoje têm, a segunda-feira de folga…

Logo no início do ano fui eleito presidente do Grêmio Miguel Torres, o grêmio “sério”, de cunho mais religioso e menos cultural e artístico. Acho que a Renée Myriam de Camargo (irmã da Reacy e, portanto, minha ex-quase-futura cunhada), a Alzira Val e o Robert (“Bob”) Lodwick também eram da Diretoria. Este foi meu primeiro cargo eletivo – e um dos poucos que exerci ao longo de minha vida. Depois dele, se bem me lembro, só fui eleito Secretário do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1966, e (de certa forma) Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, em 1980.

Começando em Março, e durante o ano inteiro (exceto nas férias), trabalhei, aos domingos, na Congregação Presbiteriana de Utinga, que pertencia à Igreja Presbiteriana de Santo André, da qual era membro. Os líderes lá eram o Benedito dos Santos e o João Rodrigues, em cuja casa a Congregação se reunia. Lá, pelas mãos do Benedito, pela primeira vez dirigi um automóvel, sem nenhum preparo anterior – só não dando uma batida no barranco com o Fordeco dele porque ele foi rápido para tomar o volante. Boa gente aquela.

No dia 19 de março comecei a usar lentes de contato. Fiquei todo vaidoso com elas, pois me permitiram abandonar os incômodos óculos de lentes escuras que precisava usar, que me valeram o desagradável apelido de “Cegão” (que convivia com o apelido de “Juca”, com o qual o Elizeu Cremm até hoje me honra, em homenagem ao Juca Chaves). Usei lentes de contato até 1970, quando as troquei por óculos de lentes acrílicas, nos Estados Unidos, que podiam receber um colorido bem mais suave do que as pesadas lentes de vidro que usei até Março de 1963.

No mês de abril, de 19 a 21, fizemos (os homens do terceiro clássico) uma viagem à Praia Grande. Fomos todos na perua do JMC, dirigida pelo rev. Olson Pemberton, e ficamos hospedados na chamada Casa da Missão. A Praia Grande, naquela época, era deserta na região em que se situava a casa, que ficava tão perto da água que, durante a maré cheia, os muros eram banhados pelas ondas. Lá, nós mesmos cozinhamos – era macarrão todos os dias. Creio que nunca me diverti tanto numa praia, jogando futebol e pulando ondas, o que fazia pela primeira vez. Lembro-me de como o Octávio Stradioto, pequenino e franzino, era arrastado pelas ondas e literalmente jogado na praia… Ficamos lá três dias (duas noites). O problema era dormir à noite. Tinhamos sacos de dormir, colchonetes, etc., mas poucos travesseiros. Uma noite eu tentava dormia num saco de dormir, sem travesseiro, e, ao meu lado, o Gordurinha (Assir Pereira) roncava, dormindo, de costas, o sono do justo (falo metaforicamente aqui…). Com muito cuidado, levantei levemente a cabeça dele, tirei o travesseiro, e baixei a cabeça dele, bem de leve. Ele não acordou. Com o travesseiro, finalmente consegui dormir até que o travesseiro foi violentamente puxado de debaixo de minha cabeça. A sensação foi de que a minha cabeça subiu uns dez centímetros antes de cair e bater no chão… Um dia fomos a Santos, visitar o aquário. O Gordurinha, mais uma vez, deu o show. Ele gostava de virar umas piruetas (que ele chamava de “piruletas”), e alguém o desafiou a fazê-lo no meio da avenida na Praia do Gonzaga. Não é que ele fez? Foi para o meio da rua, parou o trânsito (então pequeno), e deu sua pirueta – gritando “Zeferina…” (não sei porque ele gritava isso – talvez ele possa elucidar).

Em Junho, creio, comecei a namorar a Natalie. Lembro-me da época porque no dia 7 de junho, dia do aniversário dela, já registrei o fato em minha agenda, algo que não teria feito se a gente não estivesse já namorando. O início do namoro talvez tenha sido um pouco antes, não sei por certo. Na minha cabeça fica o mês de junho porque foi nesse mês que parei de escrever para a Elda, de Passos… (Eu tive muitas namoradas, mas sempre procurei terminar um namoro antes de começar o outro – ou quase). Nunca fui bom mentiroso – e, por isso, nunca consegui namorar duas ao mesmo tempo. Gostar de duas ao mesmo tempo, mas de formas diferentes, já me ocorreu mais de uma vez, mas namorar é algo prático, que envolve aspectos logísticos que nunca consegui gerenciar suficientemente bem para manter dois namoros simultâneos. Havia colegas no JMC, entretanto, que eram mestres nisso: o Mário Fava que o diga, que andou dando em cima da Margareth, irmã da Natalie, pelo que consta até com certo sucesso, até que ela descobriu umas certas cartas que ele recebia do interior…

Com um grupo de formandos do I e do II Ciclos viajei para São João da Boa Vista, nos dias 22-24 de Junho. Numa festinha da mocidade, na noite do sábado, dia 22, depois do jogo de futebol de salão da tarde, lembro-me de ter cantado uma modinha caipira que foi popularizada por Cascatinha e Inhana, que tinha uma letra mais ou menos assim assim (faltam uns pedacinhos, por mais que tenha vasculhado a memória): “Eu vim de longe, tão cansado, pra te vê, eu vim cantando para as mágoas desfazer. Da minha choça despedi no amanhecer, e ‘tou chegando vendo a lua aparecer. Mas foi prazer pra mim todo esse padecer: ‘tava pensando nos olhinhos de você! Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor! Você se lembra, foi na noite de São João, nós dois juntinhos ‘se assentemo’ num moirão. Você pegou devagarinho a minha mão — quanta saudade me ficou no coração! Ai, quanta saudade me ficou no coração daquele amor feito de sonho e de ilusão! Na despedida você disse no portão: Faz uma casa pra nós dois lá no sertão. Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor!” Também declamei, na festinha, a poesia “Gesto Heróico”, de Mário Barreto França, que sei de cor até hoje, apesar dos quase dez minutos que levo para declamá-la inteira.

Em São João da Boa Vista fiquei hospedado na casa do dono da empresa de ônibus que fazia o trajeto São João da Boa Vista-São Paulo, que era da igreja. Isso não só nos ajudou quando da viagem ao Sul (vide adiante), mas também me valeu um passe entre São João da Boa Vista e São Paulo durante toda a minha estada no Seminário de Campinas. Em gratidão, voltei várias vezes à igreja de São João da Boa Vista durante meus anos de Seminário.

No mês de Julho de 1963 trabalhei na Igreja Presbiteriana Independente de Iepê, SP. De lá visitei as igrejas de Rancharia, Assis e Centenário, no Paraná. Em Iepê conheci a Selma Greice de Matos, que, na ocasião, namorava um colega meu (acho que o Flávio “Cebolinha”). Em trabalhos subseqüentes em Iepê, mais de dois anos depois, quando já estava no Seminário, comecei a namorar a Selma. O namoro durou quase um ano. A Selma é a única ex-namorada significativa da minha juventude com quem não consegui restabelecer alguma forma de contato, agora, nos “anos maduros”. Consta que ela trabalhou com a APEOESP, lá na regional de Rancharia, Assis ou Presidente Prudente, não sei. [Essa afirmação não é mais verdadeira. Desde que a escrevi reencontrei a Selma, pelo Facebook. Escrito em 2015. EC]

Voltei mais uma vez em 1963 à Casa da Missão na Praia Grande, no segundo semestre, mas agora num piquenique da Igreja da Bela Vista, freqüentada pela família da Natalie (que morava na Casa da Missão em São Paulo, na Alameda Campinas). A Margareth, irmã mais velha da Natalie, que hoje atende pelo nome de Greta, e a Libby, irmã mais nova, que hoje atende por Bete, também estavam lá. Não me lembro se o Paul, o mais novo dos dois irmãos dela (o outro era o George), também estava lá.

No final do ano, antes da formatura, os formandos dos dois ciclos fizeram uma viagem ao Sul. Se bem me lembro a viagem durou uns vinte e cinco dias, durante o mês de Novembro, e foi razoavelmente bem planejada. O ônibus era da Viação São João da Boa Vista – São Paulo, cujo dono, já mencionado, nos fez um bom preço. Como disse, eu havia ficado hospedado na casa dele em Junho. Ficamos com um ônibus moderno por nossa conta durante quase um mês, dirigido por um simpático motorista, também chamado Eduardo. Juntamos dinheiro durante o ano inteiro para a viagem. Mesmo assim o dinheiro deu apenas para o ônibus e para algumas refeições. Por isso, antes da viagem escrevemos às igrejas de Curitiba, Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, e Lages, propondo que, em troca de hospedagem, fizéssemos um culto para jovens na igreja, em que cantaríamos, organizaríamos as tradicionais brincadeiras de salão depois do culto, etc. Na maior parte dos casos, deu tudo certo. Em algumas cidades, porém, não conseguimos acertar nada. Porque passamos um dia na praia de Camboriú, então totalmente deserta, precisamos dormir em Tubarão, as moças num hotel e nós rapazes dentro do ônibus, porque o dinheiro não dava para pagar hotel para todos!

Em Florianópolis, lembro-me como se fosse hoje, estávamos na praia, no fim da tarde de 22 de Novembro, quando alguém, com um rádio de pilha, ouviu a notícia de que John Kennedy havia sido assassinado. Ficamos todos chocados. Por que é que quase todo mundo adulto naquela época lembra-se com precisão de onde estava quando Jack Kennedy morreu?

Na viagem, tínhamos um octeto, do qual eu era regente. Nele cantavam a Sueli, a Renée, a Nivalda, acho que o Carmelino, o Paulo, o Octávio, não me lembro quem mais. Cantávamos em todas as igrejas. Em Porto Alegre cantamos na rádio, e, justo neste dia, demos vexame. Começamos desafinados e tivemos que recomeçar. Até hoje, quando me lembro, fico com raiva.

Na volta, em Lages, igreja do Octávio, fomos extremamente bem recebidos. Não me esqueço dos cafés da manhã exageradamente fartos, parecendo os Cafés Coloniais que hoje são atrações turísticas em Gramado.

Foi durante essa viagem que comecei a namorar a Sueli, hoje Secretária de nossa Associação. Tivemos um namoro relativamente longo (para os meus parâmetros) e razoavelmente sério, em termos de convivência com a família, viagens a Santos (sempre com a família), etc. O namoro só terminou quando eu estava no segundo ano do Seminário em Campinas. Reencontrar a Sueli, depois de cerca de trinta anos, numa reunião da Associação no Mackenzie / Tamboré, foi uma das grandes satisfações que tive na vida.

No final de Novembro houve a formatura (sobre a qual falarei mais, adiante).

Em Dezembro, já depois de terminadas as aulas, vários dos agora formados fomos, em ônibus de carreira (“Expresso Real”), até Brasília. Agora já namorava oficialmente a Sueli. Em Brasília cantamos na Igreja Presbiteriana Nacional, assistimos a um concerto de Paulo Fortes no Hotel Nacional, fui entrevistado (na qualidade de regente do octeto) pela Rádio Ministério da Educação, e, naturalmente, ficamos conhecendo a recém-inaugurada capital do país. Paulo Fortes era (é ainda?) crente. Fiquei impressionado com a ressonante voz do locutor da Rádio MEC. Minha voz pareceu tão inadequada perto da dele! Ainda guardo um envelope da “Igreja Presbiteriana Nacional”, de Brasília, com o endereço: Avenida W-3, Quadra 10, Lote 2, Caixa Postal 686, Brasília, DF. Ainda não havia CEP naquela época. Brasília não tinha nem dois anos.

Voltemos, agora, à festa de formatura e assuntos relacionados. Meu Certificado de Conclusão dizia:

Instituto “José Manuel da Conceição” — Seminário Menor
Estabelecimento de Grau Médio a serviço das Igrejas Evangélicas do Brasil
Jandira, Estado de São Paulo

Certificado de Conclusão do II Grau

Certificamos que Eduardo Oscar de Campos Chaves, filho de Oscar Chaves e de Edith de Campos Chaves, natural de Lucélia, Estado de São Paulo, nascido em 7 de Setembro de 1943, tendo em vista os resultados das provas prestadas no ano letivo de 1963 no terceiro ano do II Grau, é considerado habilitado no Segundo Ciclo Secundário, nos termos do Decreto-lei nº 34.330, de 21 de outubro de 1953.

Jandira, 30 de novembro de 1963

Rubem Alberto de Souza, Diretor
João Euclydes de Souza, Autoridade Eclesiástica

Parece que em premonição dos problemas que estavam por vir, requeri três cópias do Certificado de Conclusão e do Histórico Escolar. Ainda as tenho todas.

O nosso convite de formatura dizia:

Convite de Formatura de 1963

Instituto JMC, São Paulo – 1960 – Formandos

Homenagens:

Diretor
Rev. Rubem Alberto de Souza

Vice-Diretor
Rev. Joaquim Machado

Profa. Maria Block Cruz [Ela faleceu recentemente, neste mês de Novembro de 2015. EC]

Homenagem dos formandos da 4ª série de 1963

A Congregação e os Formandos do Instituto “José Manuel da Conceição” têm a subida honra de convidar V. Excia. e Exma. Família para assistirem às solenidades de formatura das turmas de 1963 a se realizarem no dia 30 de novembro às 20 horas, no Auditório Dr. Waddell, situado em Jandira, E.F.S. – São Paulo, e para o Culto de Ação de Graças a se realizar no dia 30 às 15 horas.

A Comissão

Paraninfo
Dr. Camilo Ashcar

Orador Sacro
Rev. Adauto Araújo Dourado.

Orador
Eduardo Oscar Chaves

Formandos do II Ciclo

Airton Neves Ormond
Assir Pereira
Celso Martins
Cilas Gonçalves
Deoclécio Silveira do Amaral
Eduardo Oscar de Campos Chaves
Hamilton Felix de Souza
Hélio de Castro e Souza
Ireno Dias Ribeiro
Maria Helena Pires
Natanael Florenço do Amaral
Octávio Stradioto
Otoniel Marinho de Oliveira
Robert Nicholas Lodwick

Formandos do I Ciclo

Benedito Barbosa de Souza
Carmelino Souza e Silva
Eunice Rodrigues de Sá
Getúlio Rosa da Guia
Hilze Schneider
Irma Chaves Eguez
Isauro Batista Carriel
João Rhonaldo de Andrade
Judith Augusta dos Santos
Lindolfo Teixeira
Maria Altina Felix da Silva
Mário de Oliveira Mello
Nivalda Barbosa Franco
Paulo Cosiuc
Renée Myriam de Camargo
Ronan Pereira da Silva
Rubens Faria
Sueli Barbosa Cavalcanti
Vera Lúcia Felício Papa
Vera Lúcia Monteiro Saldanha

Agradecimentos:

A Deus
Aos nossos Pais
Às nossas Igrejas
Aos nossos Presbitérios
Às Missões Nacionais e Estrangeiras
E aos nossos queridos Professores

Fui orador da turma. Meu discurso de formatura, longo, está disponível no site do JMC na Internet (www.jmc.org.br).

No festa de formatura vi pela última vez a Reacy, meu primeiro amor e minha primeira paixão, no JMC, no ano de 1961, meu primeiro ano lá. Mas essa é outra história…

E com isso, chego ao final de 1963, meu último ano no JMC, trinta e cinco anos atrás. “It was a very good year”, como diz a canção do Sinatra. Sinto saudades daquele tempo, das coisas sentia naquela época. Sinto inveja do eu que eu era em 1963, com a vida inteira pela frente. No plano político, foi um ano difícil para o Brasil – o ano em que João Goulart teve a sua chance. No JMC eu não tinha grande consciência política. Conseguia ser feliz sem me preocupar muito com o que estava acontecendo fora do meu mundinho. Pensar que estive em Brasília exatamente quatro meses e meio antes do Golpe de 31 de Março de 1964! Naquela época não tinha idéia do que estava por vir. As únicas coisas que me ficam na memória daquela viagem são Paulo Fortes, no Hotel Nacional, a entrevista com a Rádio do MEC, a nova Igreja Presbiteriana Nacional, a viagem de ônibus…

O ano de 1963 foi, para mim, o último ano de minha Idade da Inocência.

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Transcrito aqui em 7 de Novembro de 2015

“O CAOS em Revista”: Editoriais e Artigos de 18-3-1966 a 18-8-1966 (alguns censurados)

Apresentação

Esta é uma contribuição para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) que suas publicações oficiais, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, escondem ou camuflam.

O material aqui contido está contextualizado no meu outro artigo “Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006), publicado aqui neste blog:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

No ano que vem, 2016, quando se completará o Jubileu de Ouro da Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano de Campinas e da grotesca intervenção autoritária de Boanerges Ribeiro no Seminário e na IPB, intervenção cujos efeitos nefastos se manifestam até hoje no caráter fundamentalista daquela denominação,  as pessoas que foram vítimas dessa intervenção, e que ainda estão vivas, deveriam fazer um Desagravo Contra a IPB.

É bom que se diga que a IPB sempre foi conservadora (sendo herdeira da “Old School” da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a chamada “Igreja do Norte”, cujo principal teólogo era o princetoniano Charles Hodge), mas a partir de 1966 tornou-se, na minha forma de ver e entender, fundamentalista, mais para Carl McIntire do que para Charles Hodge.

Eis aqui os meus Editoriais e os meus artigos em “O CAOS em Revista”, órgão oficial do Centro Acadêmico Oito de Setembro (CAOS) do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Eu era o redator-chefe do jornal, que teve vida curta. Eu escrevi cinco Editoriais. Os jornais em que apareceram os três primeiros foram confiscados. Os dois últimos não chegaram a ser publicados, sendo vítimas da “Censura Prévia” instaurada no Seminário.

Para os que possam se assustar com a linguagem meio agressiva, registro que eu tinha apenas 22 anos quando vivi essa experiência, que me marcou, na época, e que continua de certo modo a me marcar até hoje.

Primeiro Editorial (18/3/1966)

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através do artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

Primeiro Artigo (18/3/1966): “Instituto Bíblico em Campinas”

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

Segundo Editorial (18/4/1966): Ainda Jonas

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

“O Manifesto dos Quinze”

[NOTA: Entre o segundo e o terceiro número do jornal, houve a publicação, fora do jornal, do nefasto “Manifesto dos Quinze”. Para fazer sentido dos Editoriais e do artigo que segue, publico-o aqui, inclusive com o nome de seus indignos signatários]

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas.

O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

Terceiro Editorial (18/5/1966)

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

Segundo Artigo (18/5/2015): “Parafraseando”

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a setença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

Quarto Editorial (18/6/1966) [Não chegou a ser publicado: foi censurado previamente]

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, trorna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo dicente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

Matéria para ser transcrita em 18/6/1966 [censurada também]

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apergarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fêz dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Pudlebuyry. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. . . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

(James Harvey Robinson, A Formação da Mentalidade / Mind in the Making)

Quinto Editorial: 18/8/1966 (Foi censurado previamente também)

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.

. . . . .

c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários.

IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

Transcrito aqui em 7 de Novembro de 2015