Minha Educação: Mais um Pouco de Biografia

Minha educação sempre misturou aspectos não-formais, em geral inovadores, com aspectos formais, em geral bastante tradicionais – aquilo que eu, em 1963, em meu convencional discurso de formatura no Curso Clássico, chamei, pouco criativamente, de “a escola da vida” e “a vida da escola”… [1]

Tive sorte: só comecei a vida da escola quando já estava bem a caminho de completar nove anos, em Santo André, SP, no ano de 1952… Assim, iniciei o (então) Primário bastante tarde! Não freqüentei “Prezinhos” e Jardins da Infância, muito menos Cursinhos Maternais e “Hotelzinhos Pedagógicos”. Creio que eles não existiam então nem nos grandes centros – muito menos onde eu morava. Assim, pude brincar e aprender, fora da escola, bem mais do que a maior parte das crianças de hoje (sentenciadas à escola, às vezes, a partir dos dois anos).

Morávamos (1946-1951) no que meu pai então chamava de “o sertão do Paraná” (Marialva, Maringá), onde as escolas eram tão ruins que meus pais decidiram que eu só iria para a escola quando a família conseguisse se mudar para um lugar “mais civilizado”, com melhores escolas. Tanto melhor: além de brincar, aprendi bastante. A escola da vida começou bem cedo – na verdade, com a vida… Logo descobri que brincadeira é coisa muito séria, porque, além de dar prazer, é fonte inesgotável de aprendizagem (especialmente quando é difícil) – sendo esta, talvez, a principal razão por que a brincadeira dá prazer! [2]

Cedo, e em casa, aprendi a ler e a escrever com razoável fluência. Sou, em parte, fruto de home schooling.

Aprendi a ler basicamente sozinho, com alguma ajuda de minha mãe (que mal havia terminado, na década de 30, o então chamado Curso de Comércio, mais ou menos equivalente ao Ginásio, na Academia São Luiz, em Campinas, hoje Colégio Pio XII, ligado à PUC-Campinas). Aprendi a ler na Bíblia e em histórias policiais (especialmente as de Sir Arthur Conan Doyle e as de Earle Stanley Gardner). A Bíblia, por influência de meu pai, pastor presbiteriano por quase 50 anos; as histórias policiais, por influência de minha mãe, que as devorava. O gosto pela leitura de histórias policiais se mostrou mais duradouro do que o gosto pela leitura da Bíblia (que, entretanto, vista como literatura, tem passagens memoráveis). Só recentemente voltei a ler a Bíblia com outros olhos.

No início de 1952, quando tinha oito anos e meio, mudamo-nos para Santo André, SP. Minha educação formal foi iniciada nos bancos de uma escola pública, o Grupo Escolar “Prof. José Augusto de Azevedo Antunes”, na Rua Senador Flaquer. A educação ali proporcionada era bastante tradicional – mas tive a sorte de encontrar professoras que, percebendo que eu já lia e escrevia fluentemente, me estimularam a explorar campos mais férteis e verdejantes do que as cartilhas e os livros-texto de então. Li bastante e amplamente nessa época: não só o Tesouro da Juventude e a literatura infantil e para adultos de Monteiro Lobato (então, em ambos os casos, presentes, de rigueur, na biblioteca de toda casa que prezava a educação), mas também romances policiais. Continuei a devorar Conan Doyle, especialmente suas histórias de Sherlock Holmes, e Erle Stanley Gardner, especialmente suas histórias de Perry Mason; mas descobri também Georges Simenon, com suas histórias do Inspetor Maigret, e Maurice Leblanc, com suas histórias do incorrigível Arsène Lupin, o famoso “ladrão de casaca”, e Agatha Christie, com suas histórias de Hercule Poirot e Miss Marple. Minha maior descoberta, nessa época, entretanto, foram os romances históricos de autores franceses, como os de Alexandre Dumas, especialmente aqueles envolvendo os Três Mosqueteiros, e os de Michel Zévaco, especialmente aqueles envolvendo os charmosos espadachins, pai e filho, Les Pardaillans. Por fim, descobri romances em geral, sem discriminar negativamente nem mesmo os livros da então chamada “Biblioteca das Moças”… Li, ainda na pré-adolescência, Rebeca, Jane Eyre, O Morro dos Ventos Uivantes, bem como quase tudo de A. J. Cronin, e muitos outros – que eram livros que minha mãe adorava e que, portanto, estavam disponíveis em casa. Felizmente meus pais nunca me disseram que havia livros que eram “de adultos”, vedados a crianças.

Fiz o Ginásio no Colégio Estadual e Escola Normal “Dr. Américo Brasiliense” (depois Instituto de Educação “Dr. Américo Brasiliense”), também em Santo André. O Colégio ficava (ainda fica, embora em outro prédio e com ainda outro nome) bem no largo do Quarto Centenário (o quarto centenário de Santo André foi celebrado dia 8 de Abril de 1953). A escola também era tradicional, mas o ensino era de qualidade: os professores eram muito bons, dentro da visão pedagógica tradicional. Não se esperava mais do que isso naquela época. A escola pública de então atendia à camada mais intelectualizada da sociedade – servia à elite, portanto. Um pastor protestante naquela época, embora bastante pobre pelos padrões de hoje, tinha um status social razoável. Eu, o primogênito da família, de certo modo destinado a seguir nos passos do pai, tinha a obrigação de entrar na melhor escola da cidade… Entrei – sem Curso de Admissão (apenas com algumas aulas de revisão ministradas, um mês antes dos exames, por Carla Strambio, então novinha, e que, cinqüenta anos depois eu iria reencontrar como minha colega na categoria de “Tradutora Juramentada e Intérprete Comercial” – ela de Italiano, eu de Inglês). Os Exames de Admissão para ingressar no Ginásio do Américo Brasiliense eram, talvez, mais seletivos do que os Vestibulares de muitas universidades públicas hoje em dia. Quando entrei no Ginásio, em Fevereiro de 1956, havia onze candidatos para cada vaga. O Exame de Admissão barrou mais de 90% dos pretendentes: entraram apenas 30 de 330 candidatos ao curso diurno… o que significava que, com o acréscimo de alguns repetentes, havia apenas uma turma de primeira série do Ginásio no turno diurno em 1956 no Américo Brasiliense.

Além das matérias convencionalmente consideradas acadêmicas, a escola tinha um excelente orfeão, uma competente área de artes (com foco especialmente em desenho), uma interessante área de trabalhos manuais (onde aprendi a fazer sacolas, chaveiros, e assentos de palhinha para cadeira), e um bom departamento de educação física (área que, admito sem vergonha, nunca foi o meu forte).

Voltando mais uma vez para a literatura, essa foi a época em que descobri José de Alencar (Cinco Minutos, A Viuvinha, Lucíola, Diva, Iracema, Senhora…), Visconde de Taunay (Inocência), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), e, principalmente, Machado de Assis (Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Memorial de Aires…). Adolescente que era naqueles tempos em que o romantismo não havia ainda saído de moda, não deixei de me fascinar pela poesia, lendo comportadamente Olavo Bilac, mas me apaixonando pelos poetas mais românticos, como Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Raimundo Corrêa… Ainda sei de cor vários poemas que decorei naquela época.

Com esses interesses, era inevitável que eu, na então chamada Escola Secundária, optasse pelo Curso Clássico e não pelo Curso Científico. A bem da verdade, eu até que tentei cursar o Científico no Américo Brasiliense: mas não suportei um semestre de Física e Química…

Fui fazer o Curso Clássico, como aluno interno, no Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), em Jandira, SP, escola privada, pertencente à Igreja Presbiteriana e com ligações com o Instituto Presbiteriano Mackenzie (mantenedor da Universidade Mackenzie). Meu pai já havia estudado no JMC na década de trinta. O Instituto era considerado a melhor via de acesso para o Seminário. Na verdade, era até mesmo chamado de “Seminário Menor”, em analogia com as instituições congêneres da Igreja Católica. Lá não precisei estudar Física e Química, e estudei apenas um pouco de Biologia e Matemática… Em compensação, estudei bastante Língua e Literatura Portuguesa, Francês (incluindo Literatura Francesa), Inglês (incluindo Literatura Inglesa e Americana), Latim, Grego Clássico, Filosofia (especialmente Lógica), Psicologia, História… – todas elas matérias em que eu tinha interesse e sempre me dei muito bem.

Mas havia bem mais no JMC do que a vida acadêmica. Ouso mesmo dizer que os aspectos não-formais (extraclasse) da educação proporcionada no JMC me educaram mais do que as aulas a que assisti. Eu tinha de cuidar da limpeza e da arrumação do meu quarto, lavar a minha roupa, ganhar um dinheirinho trabalhando na escola… Além disso, participei de grêmios culturais (inclusive de debates e de literatura), clubes de língua estrangeira (Inglês e Francês), corais e conjuntos musicais, viagens e excursões, atividades esportivas variadas… Cantei duas vezes, com o coral da escola, dirigido pelo Maestro João Wilson Faustini (hoje dileto amigo), no Teatro Municipal de São Paulo, em programas especiais de Páscoa e Natal. No JMC a gente podia fazer as provas sozinho no quarto. A escola confiava na gente e a gente correspondia: ninguém, que eu saiba, ousava verificar nada nos livros ou nos cadernos que estavam ali à mão. Para completar o ambiente educacional, os professores moravam no mesmo pitoresco campus que nós – e, portanto, tínhamos acesso a eles o tempo todo. Freqüentemente tomávamos café ou mesmo refeições em suas casas. E eles nos emprestavam livros, revistas, discos… Ganhei meu primeiro Webster’s (completo!) do Prof. Fernando Buonaduce, professor de Latim. Ali descobri a literatura francesa, sob a orientação firme de minha mestra favorita, Profa. Maria Elza Fiuza Teles, e a literatura de língua inglesa, neste caso sob a orientação da Profa. Jean Pemberton. Li vários livros no original, fora das exigências dos cursos, apenas por prazer. Ficam em minha memória a leitura de Alexis Zorba, de Nikos Kazantzakis, na tradução para o Francês do original em Grego Βίος και Πολιτεία του Αλέξη Ζορμπά, e The House of Seven Gables, no original em Inglês de Nathaniel Hawthorne. Mas, acima de tudo, os professores conversavam bastante conosco, sobre suas matérias, sobre nossos planos para o futuro, sobre a vida em geral. E, importante, nos levavam a sério, como se fôssemos “gente grande”, seus pares e iguais… Descobri ali que adolescentes e jovens tendem a comportar-se como gente grande quando são tratados como adultos.

No JMC minha educação deu um grande salto – mas nem tanto pelo conteúdo das aulas, que, em parte, com a exceção de algumas competências lingüísticas e lógicas e de alguns gostos pessoais, está devida e felizmente esquecido [3]. O importante, ali, era o ambiente de aprendizagem que a escola proporcionava nos momentos extraclasse. No JMC criei dívidas intelectuais que só sou capaz de registrar, nunca de pagar, até porque os credores são, em alguns casos, bem difusos. [4]

Passo rápido pela educação de nível pós-secundário – porque, ao terminar o curso secundário, os meus interesses básicos estavam basicamente definidos… Depois do Clássico cursei Teologia, em Campinas, no Seminário da Igreja Presbiteriana do Brasil (também freqüentado pelo Rubem Alves alguns anos antes), e em São Leopoldo, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (onde as aulas, em 1966, eram ainda em Alemão). Não concluí o curso de Teologia no Brasil. O autoritarismo político se refletia dentro da Igreja Presbiteriana (embora não na Igreja Luterana – mas para estudar lá não tinha apoio eclesiástico e, por conseguinte, financeiro). Só fui completar o curso de Teologia nos Estados Unidos, no Seminário Teológico de Pittsburgh (Pittsburgh Theological Seminary), da Igreja Presbiteriana, onde também fiz o Mestrado em História do Pensamento Cristão (com ênfase na parte final da Idade Média, na Renascença e na Reforma). Meu desempenho no Mestrado me facilitou o acesso ao Doutorado na Universidade de Pittsburgh (University of Pittsburgh), na área da Filosofia do século XVIII – o Iluminismo. Meus amigos, Revs. Gordon E. Jackson, então em Pittsburgh, e Aharon Sapsezian, então em São Paulo, tornaram possíveis meus estudos nos Estados Unidos.

Viver no exterior durante sete anos e estudar numa universidade estrangeira de renome e tradição (fundada no século XVIII) envolveu vários aprendizados importantes. Nesse período meu foco principal de interesse passou a se concentrar em questões filosóficas, especialmente as epistêmicas e políticas, que, para mim, se dividiam em questões mais teóricas (o que podemos conhecer e como?) e em questões de cunho mais prático (como devemos viver, no plano individual, e nos organizar como sociedade, no plano coletivo, e por quê?).

Concluído o Doutorado, em 1972, dei aulas de Filosofia, durante dois anos, na Universidade Estadual da Califórnia (California State University), em Hayward, e nas Faculdades Integradas Claremont (Claremont Colleges), em Claremont, ambas as cidades na Califórnia. No último caso, fiquei lotado no Pomona College. As disciplinas que ministrei nessas duas instituições incluíram Metafísica, Teoria do Conhecimento, Ética, Filosofia Política, Lógica… O básico de um curso Introdução à Filosofia, só ficando de fora a Estética. Aprendi bem mais filosofia dando aulas do que assistindo a elas…

Em 1974 vim para a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), como professor de Filosofia – mas acabei na Faculdade de Educação, responsável pela disciplina Filosofia da Educação, que eu nunca havia cursado, muito menos lecionado. Na realidade, nunca havia estudado Educação formalmente, antes de vir para a UNICAMP, e nunca fiz um curso sequer na área depois – o que, hoje percebo, foi uma enorme vantagem. Os cursos superiores na área da Educação são em geral muito ruins – aqui e lá fora. Fiz trinta e dois anos e meio de UNICAMP em 2006 e me aposentei, com grande alívio, ao final do ano.

A vida acadêmica me ensinou bastante – mas também me cansou muito rápido… As comunidades universitárias do Brasil, com algumas honrosas exceções, e com a exceção de algumas áreas dentro das demais, são guetos esquerdizantes e socializantes voltados para a doutrinação político-ideológica, não raro de natureza claramente partidária. Do ponto de vista pedagógico, elas deixam muito a desejar – apesar de pretensiosas. Os anos na UNICAMP me serviram de inspiração – totalmente negativa, é evidente – para as idéias de um livro que comecei a escrever em 2001 e ainda não terminei… (embora erroneamente achasse que tinha terminado em Setembro de 2002). Aos leitores atentos deste blog se torna desnecessário sublinhar os meus pontos de discordância com a visão de educação que é, eu diria, quase hegemônica na Faculdade de Educação da UNICAMP e, até certo ponto, nas demais instituições congêneres do país. Essa visão só não foi totalmente hegemônica, no caso da Faculdade de Educação da UNICAMP, durante a maior parte do tempo em que lá estive, em virtude da existência de honrosas exceções ao catecismo vigente, especialmente dentro da área de Filosofia do Departamento de Filosofia e História da Educação, área em que estive lotado todos esses anos. Hoje essas exceções estão todas aposentadas, de modo que a hegemonia da esquerda foi finalmente alcançada.

No início da década de oitenta, quando era Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, aconteceram alguns eventos que ensejaram um acréscimo especial aos meus interesses. Em 1981 oito diretores de faculdades ou institutos da UNICAMP, eu entre eles, todos nós candidatos a Reitor no (que eu saiba) primeiro processo democrático de escolha de Reitor tentado em uma universidade brasileira, fomos surpreendidos com nossa exoneração do cargo por uma Portaria do Reitor publicada em uma edição de sábado do Diário Oficial no mês de Outubro. Eventualmente consegui retornar ao meu cargo (no início de Dezembro) por força de uma decisão judicial, mas o episódio me fez dolorosamente consciente do fato de que a única coisa que eu realmente sabia fazer era dar aula em universidade… Se essa porta se fechasse… Os tempos ainda eram de ditadura. A partir daquele momento resolvi que, ao lado de minha vida acadêmica, teria sempre alguma atividade externa. Essa decisão deu uma direção totalmente diferente à minha vida.

Em decorrência dessa resolução, decidi em 1982 comprar um computador e aprender a fazer alguma coisa útil com ele. No artigo anterior que publiquei neste blog esclareço a gênese de meu interesse em computadores. Comprei um Commodore 64 – aparentemente um dos primeiros lançados no mercado americano… Em seguida, ainda naquele ano, criei, com alguns colegas da Universidade (Maurício Prates, Saul d’Ávila, Paul Shepard, José Eustáquio da Silveira e Silva), uma empresa de treinamento e consultoria e decidi que iria me tornar pequeno empresário na área de treinamento e consultoria. A empresa existe até hoje, sob a batuta do Saul d’Ávila e seus filhos. Vendi-lhe minha parte há muito tempo. Ainda sou pequeno empresário até hoje – na verdade, hoje em dia, mais micro do que pequeno empresário. Aprendi muito nesse ofício. Às vezes de forma muito difícil, dolorida e até mesmo financeiramente onerosa. Minha desilusão com pessoas que considerava amigos, em alguns casos melhores amigos, foi quase total — e marcou indelevelmente a minha vida posterior.

Mesmo dentro da Universidade, quando voltei para o meu cargo de Diretor da Faculdade da Educação da UNICAMP em 1981, resolvi acrescentar alguns novos interesses aos já antigos. Criei, em 1983, junto à Reitoria, o Núcleo de Informática na Educação (NIED), primeiro (que eu saiba) órgão interdisciplinar de pesquisa aplicada nessa área dentro de uma universidade brasileira. O NIED elaborou e submeteu ao Programa EDUCOM, coordenado pela Secretaria Especial de Informática, FINEP e MEC, o projeto da UNICAMP, que oportunamente foi um dos cinco selecionados para financiamento e implantação a partir de 1984. Coordenei o NIED e o Projeto EDUCOM da UNICAMP até 1986. Mas isso tudo está narrado em mais detalhe no artigo anterior neste blog.

Contingências políticas dentro e fora da UNICAMP me levaram a ser colocado à disposição do governo do Estado de São Paulo, de 1986 a 1990, para dirigir, primeiro, o Centro de Informações Educacionais da Secretaria da Educação e, depois, o Centro de Informações de Saúde da Secretaria da Saúde. Nessa última função acabei me tornando consultor junto à Organização Pan-Americana da Saúde (Pan-American Health Organization), em Washington, e à Organização Mundial da Saúde (World Health Organization), em Genebra. Aprendi muito sobre informática, saúde e consultoria nesse trabalho.

De volta à UNICAMP, estabeleci uma parceria da minha empresa (MindWare) com a Microsoft, em 1998, para a criação do site EduTec.Net e da comunidade virtual de aprendizagem colaborativa EduTec [5]. A parceria durou cerca de quinze anos, até 2013. Em decorrência dessa parceria acabei sendo indicado pela Microsoft para participar de um programa que ela estava propondo ao Instituto Ayrton Senna, em 1999: o “Sua Escola a 2000 por Hora”.

Ao longo de todo esse tempo minha identidade profissional foi se construindo: minha identidade mais especulativa, como homo academicus, especificamente como filósofo, vem, há bem mais de 25 anos, convivendo com minha identidade mais prática, como homo actionis, empresário e consultor. É a junção da vita contemplativa e da vita activa de que falavam os filósofos medievais… Sem essa junção nunca teria chegado aos meus interesses e aos meus pontos de vista atuais!

NOTAS

[1] No Discurso citei o poeta Antonio Zoppi, de Americana. Diz ele, em uma simples quadra: “Sapiência não se esmola, deve ser adquirida: na doce vida da escola ou na acre escola da vida”. Para quem se interessar, o juvenil discurso pode ser lido, em sua inteireza, aqui neste blog, em http://liberalspace.net/2013/10/24/discurso-de-formatura-1963/ .

[2] Só muito tempo depois vim a ter contato com as idéias de “Diversão Difícil” (“Hard Fun”) e de “Brincadeira Séria” (“Serious Play”), a primeira proposta e a segunda sugerida por Seymour Papert, que, em muitos aspectos, se tornou um guru meu. Ambas as idéias foram adotadas pela Lego, empresa com a qual acabei me associando em 2010. Vide os artigos de Papert: “Hard Fun”, in http://www.papert.org/articles/HardFun.html, e “Does Easy Do It? Children, Games and Learning”, in http://www.papert.org/articles/Doeseasydoit.html (ambos consultados em 25/02/2011). Vide também http://wn.com/Lego_Serious_Play (consultado em 25/02/2011). Uma busca por “Serious Play” na Web vai gerar inúmeros resultados.

[3] Michael Hammer, em seu livro Beyond Reengineering: How the Process-Centered Organization is Changing our Work and our Lives (Harper Business, New York, 1996), p. 237, caracteriza a educação como “aquilo que permanece conosco depois de nos esquecermos do que nos foi ensinado”…

[4] Vide dois artigos meus, infelizmente com basicamente o mesmo título, no meu blog “Instituto JMC”. O primeiro deles, com o título, “O JMC nos deu educação – no sentido mais pleno do termo”, em https://institutojmc.wordpress.com /2010/03/07/o-jmc-nos-deu-educacao-–-no-sentido-mais-pleno-do-termo/, e o segundo, intitulado “O JMC nos deu educação”, em https://institutojmc.wordpress.com/2010/03/07/o-jmc-nos-deu-educacao/. O Instituto “José Manuel da Conceição” foi fechado pela Igreja Presbiteriana no auge da ditadura, ao final de 1969. Nunca me conformei com isso – em especial porque as razões para o fechamento nunca foram divulgadas, sendo, aparentemente, um dos segredos mais bem guardados nos porões da Igreja Presbiteriana do Brasil.

[5] A comunidade virtual e o site não mais existem, infelizmente, por falta de tempo para cultiva-los como devem ser cultivados.

Transcrito no meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 8 de Fevereiro de 2015

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 9 de Novembro de 2015

Minhas Dívidas Intelectuais: Ainda Pintando Pequenos Retratos de Mim Mesmo

Li uma vez uma história de um avô que passeava carregando a neta nos ombros. Ao encontrar um amigo, este resolveu brincar com a criança, e elogiou-lhe o tamanho. Ao elogio a menina respondeu: “Bom, obrigado, mas nem tudo disso que o senhor vê sou eu”. [1]

A observação da criança é relevante aqui. Pouco daquilo que eu escrevo ou digo em minhas aulas e palestras é idéia original minha. Ao especialista, isso ficará imediatamente evidente. Para o leigo no assunto, porém, isso deve ser clara e formalmente declarado.

Nenhum artigo ou livro é uma produção totalmente individual. Além das dívidas com professores e outras pessoas que deixaram uma marca em nós, há nossas dívidas com autores de livros, realizadores de filmes, e com outras pessoas, muitas das quais já morreram, em alguns casos há muito tempo…

Minha formação pessoal se deu, formalmente, na teologia e na filosofia. Tenho dívidas intelectuais enormes com alguns famosos filósofos e com alguns teólogos. Com nenhum deles concordo inteiramente, mas todos os que vou citar deixaram em mim influências marcantes.

Sócrates, o mestre de Platão, chamou minha atenção para os seguintes fatos: primeiro, como crianças, ideias são sempre concebidas em interação humana; segundo, como a mulher que dá à luz uma criança, freqüentemente precisamos de um parteiro que nos ajude a dar à luz as ideias que concebemos; e, terceiro, como a criança que nasce, nossas ideias precisam se desenvolver, o que novamente se dá através da interação humana, do diálogo, do embate de pontos de vista, da discussão crítica… Seria “parteiro de ideias – dos outros” uma boa metáfora para o papel do professor?

Aristóteles me marcou pela ênfase que deu ao fato de que as ideias que concebemos devem estar ancoradas na experiência e à necessidade de que, ao tratar essas ideias, precisamos sempre respeitar a lógica e razão [2]. Ele também me convenceu de que algumas de nossas idéias são objetivamente verdadeiras, e que o relativismo e o ceticismo se destroem a si próprios (são “self-defeating”, como se diz em Inglês). E, por fim, me convenceu de que o fim principal do homem é ser feliz — ou, pelo menos, buscar a felicidade. (Calvinistas ortodoxos vão se escandalizar com essa minha admissão, mas ela é verdadeira. Um dos catecismos de Westminster diz que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre”. Pergunto eu: que forma melhor de glorificar a Deus existe do que ser uma criatura sua que é feliz com a vida que tem?).

David Hume, o grande cético (não-radical, convenhamos) da época do Iluminismo, sobre quem escrevi minha tese de doutoramento em 1970-72, me ajudou a evitar o dogmatismo ao insistir que tudo, até mesmo nossa experiência sensorial, a lógica, a racionalidade e a crença na posse da verdade, deve ser encarado com certa dose de ceticismo. Mas ele não foi capaz de fazer de mim um cético total, nem um relativista, nem um descrente na experiência sensorial, na lógica, na razão e na existência da verdade. Houve momentos em que acreditei que Hume havia feito de mim um ateu convicto. Mas em outros momentos ele me fez duvidar até mesmo daquilo de que eu parecia estar mais convicto…

Hume e seu melhor amigo, Adam Smith, foram, porém, capazes de me convencer de que existe algo que é apropriado chamar de natureza humana – e que nunca se desrespeita essa natureza sem pagar um alto preço, especialmente quando se trata da organização da sociedade… E Adam Smith me ajudou a me tornar um liberal estilo clássico (mas nisso teve ajuda de muitos outros, em especial de Ayn Rand).

Karl Popper, crítico de Hume em alguns aspectos, mas seguidor dele em outros, me ajudou a ver o processo de construção do conhecimento – incluindo o conhecimento científico – como algo humano, e, portanto, falível, nunca final e definitivo, mas que não deixa de ser, por isso, objetivo e racional. Popper ainda me ajudou a entender a continuidade que existe entre a ciência e o senso comum, bem como entre a ciência e a filosofia (ambas dependentes da razão crítica). Popper também me ajudou a entender porque a racionalidade crítica só pode prosperar numa sociedade aberta e livre.

E, por fim, a influência maior, Ayn Rand, que, além de reforçar, de forma inigualável na filosofia do século XX, os temas aristotélicos, me fez ver algo que Popper já havia me mostrado: que a racionalidade só pode prosperar e frutificar em uma sociedade radicalmente aberta e livre, que valoriza o indivíduo e seus direitos, básicos e fundamentais, quais sejam: o direito à vida, o direito à liberdade (de expressão, locomoção, associação, contrato, e de busca da felicidade como ele a entender), e o direito à propriedade dos frutos do trabalho. Com sua inestimável ajuda consegui a integrar minha metafísica, minha epistemologia, minha ética, e minha filosofia política.

Em 5 de Fevereiro de 2015, dias atrás, o mundo racional e livre comemorou 110 anos do nascimento dessa grande filósofa e insuperável romancista, nascida na Rússia como Alyssa Zinovievna Rosenbaum, mas que cedo percebeu que não seria capaz de manter sua racionalidade numa sociedade sem liberdade, como era a sociedade russa depois da tomada do poder pelos comunistas em 1917, e, por isso, fugiu para os Estados Unidos, onde alcançou fama e sucesso.

Esses filósofos são os pilares em cima dos quais minhas idéias e minha visão de mundo foram sendo construídas.

Mas ainda faltava integrar à minha visão de mundo a minha filosofia da educação…

Aqui, registro apenas uma influência digna de nota.

John Dewey é, a meu ver, o maior filósofo da educação do século XX (embora discorde dele em muitos pontos importantes) – talvez o maior desde Jean Jacques Rousseau. Dewey me ajudou a perceber três aspectos essenciais da educação, com os quais estou totalmente de acordo.

Primeiro, a educação tem que ver com a criança, não com o professor, e, portanto, com a aprendizagem, não com o ensino.

Segundo, a educação é um processo natural de desenvolvimento humano, de “dentro para fora”, por assim dizer, não um processo artificial de imposição à criança, “de fora para dentro”, de um conjunto de informações e conhecimentos.

Terceiro, a forma mais eficaz e eficiente de ajudar a criança a aprender, e, portanto, de ajudá-la a se desenvolver, é respeitando, não subjugando, seus interesses, e esse respeito se traduz, especialmente num contexto escolar, na chamada aprendizagem ativa, que é promovida através da metodologia de projetos de aprendizagem (metodologia que foi introduzida no mundo pedagógico por um discípulo de Dewey, William Heard Kilpatrick).

O meu envolvimento com o Instituto Ayrton Senna me ajudou, de certo modo, a “traduzir” John Dewey para o contexto brasileiro atual, sem violar os demais elementos de minha visão filosófica, que acabei de ressaltar.

O meu envolvimento com o Instituto Lumiar (do qual fui presidente por dois anos) me permitiu ver que o que penso não é utopia: a Escola Lumiar, em sua concepção, e, espero, cada vez mais na sua prática, junto com a Escola da Ponte e a Sudbury Valley School, são as escolas mais próximas da minha visão da educação que eu conheço.

Sou devedor a todas as pessoas já mencionadas, e a outras que não consigo destacar individualmente, pelas ideias que tenho e defendo hoje.

Como disse Rubem Alves no Prefácio a um dos meus livros (que ainda não publiquei), a minha visão é fruto de minha ingestão e digestão dos pontos de vista de muitas pessoas. Mas esses pontos de vista, depois de devorados por mim, passaram a circular no meu sangue, e, por conseguinte, passaram a ser parte de mim: integraram-se à minha visão de mundo.

Um dos biógrafos de John Dewey diz algo muito parecido em relação a ele, que eu gostaria que fosse verdade também em relação a mim:

“Sempre aberto às ideias dos outros, Dewey, no entanto, passava essas influências pelo crivo de seu pensamento e sentimento [i.e., de sua experiência] de modo a dar-lhes sentido e a transformá-las em algo seu, muito pessoal. Ele nunca se esqueceu de uma dívida intelectual ou pessoal significativa, em áreas que considerasse realmente importantes. Mas ele nunca permitiu que as várias ideias que o influenciaram ficassem separadas umas das outras, isoladas, como se ele fosse apenas um conjunto de espelhos que refletisse o pensamento dos outros. Ele armazenava tudo o que aprendia, mas, deixando de lado peculiaridades das fontes que o influenciaram, transformava as idéias dos outros em algo tipicamente seu” [3].

NOTAS

[1] Peguei essa história de terceira ou quarta mão… Ela é mencionada no livro The Schools our Children Deserve: Moving Beyond Traditional Classrooms and “Tougher Standards”, de Alfie Kohn (Houghton Mifflin Company, New York, 1999, 2000), p. 333. O autor afirma que a ouviu contada pelo antropólogo Lionel Tiger, que dizia que o caso se passara com um (não identificado) professor e sua neta…

[2] Entendo a razão com o conjunto de procedimentos e métodos (que certamente incluem a lógica e o respeito à evidência) que impedem que nossos conceitos, juizos e decisões sejam totalmente arbitrários.

[3]  Jay Martin, The Education of John Dewey: A Biography (Columbia University Press, New York, 2002, p. 131.

Transcrito no meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 8 de Fevereiro de 2015

Transcrito aqui em São Paulo, 9 de Novembro de 2015

52 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

[Apresentação do artigo a ser transcrito]

Em Novembro de 1998, dezessete anos atrás este mês, escrevi um artigo no blog que tinha no site do Instituto JMC, que eu mantinha, com o título:

35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

O URL original era este a seguir, mas ele não importa aqui, porque vou transcrever o artigo inteiro, depois desta introdução.

http://institutojmc.wordpress.com/2010/03/08/trinta-e-cinco-anos-atras-%E2%80%93-meu-ano-de-1963/

Naquele mês e ano — Novembro de 1963, cinquenta e dois anos atrás este ano — eu terminava o Curso Colegial, Modalidade Clássico (equivalente ao Ensino Médio de hoje, naquela instituição educacional, que veio a ser fechada pela Igreja Presbiteriana do Brasil em 1970, por razões nunca explicadas.

Dois anos atrás, em 2013, exatamente cinquenta anos depois, minha filha-enteada, Bianca, também terminou o Ensino Médio. Ela nasceu em 1996 — eu em 1943, 53 anos antes…

Este ano, 2015, neste mês, minha outra filha-enteada, Priscilla, está terminando o Ensino Médio. Ela nasceu em 1998 — 55 anos depois de mim.

No ano seguinte àquele em que concluí o Curso Clássico, 1964, fatídico, eu iria (como fui) para o Seminário Presbiteriano de Campinas. Lá minha festa de calouro seria no dia Primeiro de Abril — primeiro dia do Golpe de Estado que pôs o governo nas mãos dos militares.

Em 1963, dias antes de minha festa de formatura no JMC fizemos uma viagem de ônibus de 30 dias, os formandos do Clássico e os do Ginásio, pelo Sul do Brasil. Saímos de Jandira, passamos em Curitiba, Camboriú, Florianópolis, Tubarão, Porto Alegre, Lajes, Curitiba de novo, e voltamos para Jandira.

Enquanto estávamos em Florianópolis, no dia 22 de Novembro, numa praia deserta e fria, ficamos sabendo, através de um radiozinho portátil que alguém carregava, que o presidente Kennedy havia sido assassinado. Não sabia naquele dia, mas também em 22 de Novembro de 1963, morriam também os escritores C. S. Lewis (também um apologeta do Cristianismo) e Aldous Huxley.

Tudo isso faz 52 anos este mês.

O dia 22 de Novembro já fazia parte de meu imaginário.

Havia uma canção de Cascatinha e Inhana, chamada Santa Cecília, que eu conhecia aparentemente desde sempre, que dizia que 22 de Novembro era o dia da consagração da Santa Cecília. Aquilo ficou na minha cabeça.

Em 1959, ano que terminei o Ginásio, tive uma namorada chamada Cecília — que, não surpreendentemente, aniversariava no dia 22 de Novembro. Nesse dia, dei-lhe um colar de presente e fomos assistir Suplício de uma Saudade, no Cine Tangará, em Santo André — onde, dias depois, seria nossa formatura. Eu tinha 16 anos.

Anos depois, em 1975, minha segunda filha nasceu em 22 de Novembro — mas não lhe dei o nome de Cecília. Chamou-se (ainda se chama) Patrícia.

Um relato, talvez desnecessária e exageradamente detalhado, de minhas atividades em 1963 pode ser lido no artigo de 1998. Aqui, 17 anos depois, fica apenas o registro de que estou aqui ainda.

Falei de três namoradas no texto. Isso poderia trazer problemas para qualquer um. Mas a Paloma sabe que o maior amor não é o primeiro nem os do meio: é o último.

Em São Paulo, 7 de Novembro de 2015

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35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963 [Escrito em 1998]

Faz 35 anos, este ano (1998), que terminei meu Curso Clássico no JMC. Meia vida de alguns, mais do que isso de muitos.

O terceiro ano do Curso Clássico era a “glória” para o aluno do JMC. Ele finalmente era formando, pré-seminarista. Tinha o privilégio de morar no QG, em quarto individual, num prédio onde o banheiro possuía chuveiro com água quente. Isso era mordomia pura naquelas bandas. A gente olhava os outros com ar superior e usava o fato de ser formando para impressionar as calouras. Como ultimoanistas podíamos também dirigir o culto na Casa das Moças, à noite, o que fiz algumas vezes. Esse, então, era um privilégio e tanto.

Academicamente, meu ano de 1963 foi relativamente tranqüilo. Tive meu primeiro curso de Filosofia (ênfase em Lógica), com o Rev. João Euclydes Pereira, o Zoca. Foi o curso de que mais gostei em toda a minha estada no JMC – tanto que, quando deixei a Teologia, foi para a Filosofia que me voltei. Comparado com o curso de História que o Rev. João Euclydes dava (que eu achava relativamente chato e monótono), o curso de Lógica, com os silogismos, os quebra-cabeças lógicos, e os processos mnemônicos para que nos lembrássemos de quais formas silogísticas eram válidas, era, para mim, excitação intelectual da melhor espécie.

Deslanchei bem no Inglês, em grande parte por ter namorado, durante boa parte do ano, Natalie Landes Browne, neta do rev. Felipe (Philippe) Landes, que, embora nascida na China, era filha de americanos e, portanto, falava Inglês como nativa. Por incentivo da Natalie e do Deoclécio Silveira do Amaral (o melhor falador de Inglês sem ascendência americana que havia na escola), passei a freqüentar as sessões do English Club, que se reunia todas as quartas-feiras, sob o comando de Da. Jean Pemberton. Ainda por incentivo da Natalie, comecei a ter aulas particulares de Inglês com Da. Margarida (Margareth, presumo) Landes, avó dela, esposa do rev. Landes. Dona Margarida me fazia ler artigos e artigos da Selections of the Readers’ Digest. Meu conhecimento de gramática melhorou muito nessas aulas. Bilhetes com a Natalie trocava-os diariamente, e ela, nas respostas aos meus, tinha a paciência de corrigir meus erros de Inglês. O namoro foi feliz, tranqüilo, sem sobressaltos. Terminou de forma infelizmente deselegante, por culpa minha. Sempre fui razoavelmente hábil para começar relacionamentos afetivos (modéstia à parte), mas extremamente inábil para encerrá-los, verdade seja dita. Fiz uma série de papelões em minha vida, nessa área.

Em termos de viagens individuais, comecei o ano na Igreja de Passos, MG, da qual era membro meu colega João Batista de Oliveira. Passei as férias de Dezembro de 1962 lá. No dia 31 de dezembro de 1962 dirigi o Culto de Vigília em São João Batista do Glória, cidade próxima de Passos, e que era então conhecida como a “capital nacional do barbeiro” (o inseto causador da doença de Chagas). No dia 1 de Janeiro de 1963 voltei para Passos e fui ao cinema à tarde e à noite, com a Elda, menina loira, de excelente família passense, que acabou se casando com um colega meu do Seminário (de cujo nome infelizmente não consigo me lembrar, por mais que me esforce). À tarde assistimos “Tarzan e a Mulher do Diabo”, e à noite “Circo dos Horrores” (eu registrava essas coisas na minha agenda). No dia 2 de janeiro preguei meu sermão de despedida lá. Nunca mais vi a Elda, com quem me correspondi por uns tempos – até que, mais para o meio do ano, comecei a namorar a Natalie.

No sábado, dia 5 de janeiro, parti para Pirapozinho, SP, cidade perto de Presidente Prudente, onde iria trabalhar durante o mês de Janeiro, na Igreja Presbiteriana Independente. O ônibus saiu de São Paulo às 7:30 e chegou a Presidente Prudente às 18:15 – quase onze horas de viagem. Peguei imediatamente um ônibus para Pirapozinho, onde cheguei às 19:30, para ficar hospedado numa Casa Pastoral vazia. Depois de uns dias o Jonas Christensen, amigo e ex-“velha” (moramos juntos em 1962) chegou para me ajudar com o trabalho com o coral e com o canto congregacional. Lá, surpreendentemente, não me interessei por ninguém, em particular.

Enquanto estava em Pirapozinho viajei por Tarabay, Narandiba, Coronel Goulart, Mirante do Paranapanema, Dumontina, Regente Feijó, Presidente Wenceslau, Presidente Epitácio e Presidente Prudente. Preguei em todas essas cidades e fiz dezenas de visitas. No final do mês voltei para São Paulo de trem (trem leito, o famoso Expresso Ouro Verde, que tantas vezes, quando criança, havia tomado para vir do Paraná para São Paulo: a gente o tomava, em baldeação, em Ourinhos).

No início de Fevereiro fui para o Acampamento “Palavra da Vida”, onde trabalhei durante uma semana, como freqüentemente o fazia nas férias. Não me lembro exatamente qual era minha função lá. Depois disso passei uns dias em Campinas e, durante o Carnaval, fui a um retiro espiritual em Americana.

As aulas começaram apenas no dia 5 de março, terça-feira. Não havia aulas no JMC às segundas-feiras. Os pré-seminaristas, por trabalharem demais no fim de semana, tinham, como muitos barbeiros ainda hoje têm, a segunda-feira de folga…

Logo no início do ano fui eleito presidente do Grêmio Miguel Torres, o grêmio “sério”, de cunho mais religioso e menos cultural e artístico. Acho que a Renée Myriam de Camargo (irmã da Reacy e, portanto, minha ex-quase-futura cunhada), a Alzira Val e o Robert (“Bob”) Lodwick também eram da Diretoria. Este foi meu primeiro cargo eletivo – e um dos poucos que exerci ao longo de minha vida. Depois dele, se bem me lembro, só fui eleito Secretário do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1966, e (de certa forma) Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, em 1980.

Começando em Março, e durante o ano inteiro (exceto nas férias), trabalhei, aos domingos, na Congregação Presbiteriana de Utinga, que pertencia à Igreja Presbiteriana de Santo André, da qual era membro. Os líderes lá eram o Benedito dos Santos e o João Rodrigues, em cuja casa a Congregação se reunia. Lá, pelas mãos do Benedito, pela primeira vez dirigi um automóvel, sem nenhum preparo anterior – só não dando uma batida no barranco com o Fordeco dele porque ele foi rápido para tomar o volante. Boa gente aquela.

No dia 19 de março comecei a usar lentes de contato. Fiquei todo vaidoso com elas, pois me permitiram abandonar os incômodos óculos de lentes escuras que precisava usar, que me valeram o desagradável apelido de “Cegão” (que convivia com o apelido de “Juca”, com o qual o Elizeu Cremm até hoje me honra, em homenagem ao Juca Chaves). Usei lentes de contato até 1970, quando as troquei por óculos de lentes acrílicas, nos Estados Unidos, que podiam receber um colorido bem mais suave do que as pesadas lentes de vidro que usei até Março de 1963.

No mês de abril, de 19 a 21, fizemos (os homens do terceiro clássico) uma viagem à Praia Grande. Fomos todos na perua do JMC, dirigida pelo rev. Olson Pemberton, e ficamos hospedados na chamada Casa da Missão. A Praia Grande, naquela época, era deserta na região em que se situava a casa, que ficava tão perto da água que, durante a maré cheia, os muros eram banhados pelas ondas. Lá, nós mesmos cozinhamos – era macarrão todos os dias. Creio que nunca me diverti tanto numa praia, jogando futebol e pulando ondas, o que fazia pela primeira vez. Lembro-me de como o Octávio Stradioto, pequenino e franzino, era arrastado pelas ondas e literalmente jogado na praia… Ficamos lá três dias (duas noites). O problema era dormir à noite. Tinhamos sacos de dormir, colchonetes, etc., mas poucos travesseiros. Uma noite eu tentava dormia num saco de dormir, sem travesseiro, e, ao meu lado, o Gordurinha (Assir Pereira) roncava, dormindo, de costas, o sono do justo (falo metaforicamente aqui…). Com muito cuidado, levantei levemente a cabeça dele, tirei o travesseiro, e baixei a cabeça dele, bem de leve. Ele não acordou. Com o travesseiro, finalmente consegui dormir até que o travesseiro foi violentamente puxado de debaixo de minha cabeça. A sensação foi de que a minha cabeça subiu uns dez centímetros antes de cair e bater no chão… Um dia fomos a Santos, visitar o aquário. O Gordurinha, mais uma vez, deu o show. Ele gostava de virar umas piruetas (que ele chamava de “piruletas”), e alguém o desafiou a fazê-lo no meio da avenida na Praia do Gonzaga. Não é que ele fez? Foi para o meio da rua, parou o trânsito (então pequeno), e deu sua pirueta – gritando “Zeferina…” (não sei porque ele gritava isso – talvez ele possa elucidar).

Em Junho, creio, comecei a namorar a Natalie. Lembro-me da época porque no dia 7 de junho, dia do aniversário dela, já registrei o fato em minha agenda, algo que não teria feito se a gente não estivesse já namorando. O início do namoro talvez tenha sido um pouco antes, não sei por certo. Na minha cabeça fica o mês de junho porque foi nesse mês que parei de escrever para a Elda, de Passos… (Eu tive muitas namoradas, mas sempre procurei terminar um namoro antes de começar o outro – ou quase). Nunca fui bom mentiroso – e, por isso, nunca consegui namorar duas ao mesmo tempo. Gostar de duas ao mesmo tempo, mas de formas diferentes, já me ocorreu mais de uma vez, mas namorar é algo prático, que envolve aspectos logísticos que nunca consegui gerenciar suficientemente bem para manter dois namoros simultâneos. Havia colegas no JMC, entretanto, que eram mestres nisso: o Mário Fava que o diga, que andou dando em cima da Margareth, irmã da Natalie, pelo que consta até com certo sucesso, até que ela descobriu umas certas cartas que ele recebia do interior…

Com um grupo de formandos do I e do II Ciclos viajei para São João da Boa Vista, nos dias 22-24 de Junho. Numa festinha da mocidade, na noite do sábado, dia 22, depois do jogo de futebol de salão da tarde, lembro-me de ter cantado uma modinha caipira que foi popularizada por Cascatinha e Inhana, que tinha uma letra mais ou menos assim assim (faltam uns pedacinhos, por mais que tenha vasculhado a memória): “Eu vim de longe, tão cansado, pra te vê, eu vim cantando para as mágoas desfazer. Da minha choça despedi no amanhecer, e ‘tou chegando vendo a lua aparecer. Mas foi prazer pra mim todo esse padecer: ‘tava pensando nos olhinhos de você! Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor! Você se lembra, foi na noite de São João, nós dois juntinhos ‘se assentemo’ num moirão. Você pegou devagarinho a minha mão — quanta saudade me ficou no coração! Ai, quanta saudade me ficou no coração daquele amor feito de sonho e de ilusão! Na despedida você disse no portão: Faz uma casa pra nós dois lá no sertão. Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor!” Também declamei, na festinha, a poesia “Gesto Heróico”, de Mário Barreto França, que sei de cor até hoje, apesar dos quase dez minutos que levo para declamá-la inteira.

Em São João da Boa Vista fiquei hospedado na casa do dono da empresa de ônibus que fazia o trajeto São João da Boa Vista-São Paulo, que era da igreja. Isso não só nos ajudou quando da viagem ao Sul (vide adiante), mas também me valeu um passe entre São João da Boa Vista e São Paulo durante toda a minha estada no Seminário de Campinas. Em gratidão, voltei várias vezes à igreja de São João da Boa Vista durante meus anos de Seminário.

No mês de Julho de 1963 trabalhei na Igreja Presbiteriana Independente de Iepê, SP. De lá visitei as igrejas de Rancharia, Assis e Centenário, no Paraná. Em Iepê conheci a Selma Greice de Matos, que, na ocasião, namorava um colega meu (acho que o Flávio “Cebolinha”). Em trabalhos subseqüentes em Iepê, mais de dois anos depois, quando já estava no Seminário, comecei a namorar a Selma. O namoro durou quase um ano. A Selma é a única ex-namorada significativa da minha juventude com quem não consegui restabelecer alguma forma de contato, agora, nos “anos maduros”. Consta que ela trabalhou com a APEOESP, lá na regional de Rancharia, Assis ou Presidente Prudente, não sei. [Essa afirmação não é mais verdadeira. Desde que a escrevi reencontrei a Selma, pelo Facebook. Escrito em 2015. EC]

Voltei mais uma vez em 1963 à Casa da Missão na Praia Grande, no segundo semestre, mas agora num piquenique da Igreja da Bela Vista, freqüentada pela família da Natalie (que morava na Casa da Missão em São Paulo, na Alameda Campinas). A Margareth, irmã mais velha da Natalie, que hoje atende pelo nome de Greta, e a Libby, irmã mais nova, que hoje atende por Bete, também estavam lá. Não me lembro se o Paul, o mais novo dos dois irmãos dela (o outro era o George), também estava lá.

No final do ano, antes da formatura, os formandos dos dois ciclos fizeram uma viagem ao Sul. Se bem me lembro a viagem durou uns vinte e cinco dias, durante o mês de Novembro, e foi razoavelmente bem planejada. O ônibus era da Viação São João da Boa Vista – São Paulo, cujo dono, já mencionado, nos fez um bom preço. Como disse, eu havia ficado hospedado na casa dele em Junho. Ficamos com um ônibus moderno por nossa conta durante quase um mês, dirigido por um simpático motorista, também chamado Eduardo. Juntamos dinheiro durante o ano inteiro para a viagem. Mesmo assim o dinheiro deu apenas para o ônibus e para algumas refeições. Por isso, antes da viagem escrevemos às igrejas de Curitiba, Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, e Lages, propondo que, em troca de hospedagem, fizéssemos um culto para jovens na igreja, em que cantaríamos, organizaríamos as tradicionais brincadeiras de salão depois do culto, etc. Na maior parte dos casos, deu tudo certo. Em algumas cidades, porém, não conseguimos acertar nada. Porque passamos um dia na praia de Camboriú, então totalmente deserta, precisamos dormir em Tubarão, as moças num hotel e nós rapazes dentro do ônibus, porque o dinheiro não dava para pagar hotel para todos!

Em Florianópolis, lembro-me como se fosse hoje, estávamos na praia, no fim da tarde de 22 de Novembro, quando alguém, com um rádio de pilha, ouviu a notícia de que John Kennedy havia sido assassinado. Ficamos todos chocados. Por que é que quase todo mundo adulto naquela época lembra-se com precisão de onde estava quando Jack Kennedy morreu?

Na viagem, tínhamos um octeto, do qual eu era regente. Nele cantavam a Sueli, a Renée, a Nivalda, acho que o Carmelino, o Paulo, o Octávio, não me lembro quem mais. Cantávamos em todas as igrejas. Em Porto Alegre cantamos na rádio, e, justo neste dia, demos vexame. Começamos desafinados e tivemos que recomeçar. Até hoje, quando me lembro, fico com raiva.

Na volta, em Lages, igreja do Octávio, fomos extremamente bem recebidos. Não me esqueço dos cafés da manhã exageradamente fartos, parecendo os Cafés Coloniais que hoje são atrações turísticas em Gramado.

Foi durante essa viagem que comecei a namorar a Sueli, hoje Secretária de nossa Associação. Tivemos um namoro relativamente longo (para os meus parâmetros) e razoavelmente sério, em termos de convivência com a família, viagens a Santos (sempre com a família), etc. O namoro só terminou quando eu estava no segundo ano do Seminário em Campinas. Reencontrar a Sueli, depois de cerca de trinta anos, numa reunião da Associação no Mackenzie / Tamboré, foi uma das grandes satisfações que tive na vida.

No final de Novembro houve a formatura (sobre a qual falarei mais, adiante).

Em Dezembro, já depois de terminadas as aulas, vários dos agora formados fomos, em ônibus de carreira (“Expresso Real”), até Brasília. Agora já namorava oficialmente a Sueli. Em Brasília cantamos na Igreja Presbiteriana Nacional, assistimos a um concerto de Paulo Fortes no Hotel Nacional, fui entrevistado (na qualidade de regente do octeto) pela Rádio Ministério da Educação, e, naturalmente, ficamos conhecendo a recém-inaugurada capital do país. Paulo Fortes era (é ainda?) crente. Fiquei impressionado com a ressonante voz do locutor da Rádio MEC. Minha voz pareceu tão inadequada perto da dele! Ainda guardo um envelope da “Igreja Presbiteriana Nacional”, de Brasília, com o endereço: Avenida W-3, Quadra 10, Lote 2, Caixa Postal 686, Brasília, DF. Ainda não havia CEP naquela época. Brasília não tinha nem dois anos.

Voltemos, agora, à festa de formatura e assuntos relacionados. Meu Certificado de Conclusão dizia:

Instituto “José Manuel da Conceição” — Seminário Menor
Estabelecimento de Grau Médio a serviço das Igrejas Evangélicas do Brasil
Jandira, Estado de São Paulo

Certificado de Conclusão do II Grau

Certificamos que Eduardo Oscar de Campos Chaves, filho de Oscar Chaves e de Edith de Campos Chaves, natural de Lucélia, Estado de São Paulo, nascido em 7 de Setembro de 1943, tendo em vista os resultados das provas prestadas no ano letivo de 1963 no terceiro ano do II Grau, é considerado habilitado no Segundo Ciclo Secundário, nos termos do Decreto-lei nº 34.330, de 21 de outubro de 1953.

Jandira, 30 de novembro de 1963

Rubem Alberto de Souza, Diretor
João Euclydes de Souza, Autoridade Eclesiástica

Parece que em premonição dos problemas que estavam por vir, requeri três cópias do Certificado de Conclusão e do Histórico Escolar. Ainda as tenho todas.

O nosso convite de formatura dizia:

Convite de Formatura de 1963

Instituto JMC, São Paulo – 1960 – Formandos

Homenagens:

Diretor
Rev. Rubem Alberto de Souza

Vice-Diretor
Rev. Joaquim Machado

Profa. Maria Block Cruz [Ela faleceu recentemente, neste mês de Novembro de 2015. EC]

Homenagem dos formandos da 4ª série de 1963

A Congregação e os Formandos do Instituto “José Manuel da Conceição” têm a subida honra de convidar V. Excia. e Exma. Família para assistirem às solenidades de formatura das turmas de 1963 a se realizarem no dia 30 de novembro às 20 horas, no Auditório Dr. Waddell, situado em Jandira, E.F.S. – São Paulo, e para o Culto de Ação de Graças a se realizar no dia 30 às 15 horas.

A Comissão

Paraninfo
Dr. Camilo Ashcar

Orador Sacro
Rev. Adauto Araújo Dourado.

Orador
Eduardo Oscar Chaves

Formandos do II Ciclo

Airton Neves Ormond
Assir Pereira
Celso Martins
Cilas Gonçalves
Deoclécio Silveira do Amaral
Eduardo Oscar de Campos Chaves
Hamilton Felix de Souza
Hélio de Castro e Souza
Ireno Dias Ribeiro
Maria Helena Pires
Natanael Florenço do Amaral
Octávio Stradioto
Otoniel Marinho de Oliveira
Robert Nicholas Lodwick

Formandos do I Ciclo

Benedito Barbosa de Souza
Carmelino Souza e Silva
Eunice Rodrigues de Sá
Getúlio Rosa da Guia
Hilze Schneider
Irma Chaves Eguez
Isauro Batista Carriel
João Rhonaldo de Andrade
Judith Augusta dos Santos
Lindolfo Teixeira
Maria Altina Felix da Silva
Mário de Oliveira Mello
Nivalda Barbosa Franco
Paulo Cosiuc
Renée Myriam de Camargo
Ronan Pereira da Silva
Rubens Faria
Sueli Barbosa Cavalcanti
Vera Lúcia Felício Papa
Vera Lúcia Monteiro Saldanha

Agradecimentos:

A Deus
Aos nossos Pais
Às nossas Igrejas
Aos nossos Presbitérios
Às Missões Nacionais e Estrangeiras
E aos nossos queridos Professores

Fui orador da turma. Meu discurso de formatura, longo, está disponível no site do JMC na Internet (www.jmc.org.br).

No festa de formatura vi pela última vez a Reacy, meu primeiro amor e minha primeira paixão, no JMC, no ano de 1961, meu primeiro ano lá. Mas essa é outra história…

E com isso, chego ao final de 1963, meu último ano no JMC, trinta e cinco anos atrás. “It was a very good year”, como diz a canção do Sinatra. Sinto saudades daquele tempo, das coisas sentia naquela época. Sinto inveja do eu que eu era em 1963, com a vida inteira pela frente. No plano político, foi um ano difícil para o Brasil – o ano em que João Goulart teve a sua chance. No JMC eu não tinha grande consciência política. Conseguia ser feliz sem me preocupar muito com o que estava acontecendo fora do meu mundinho. Pensar que estive em Brasília exatamente quatro meses e meio antes do Golpe de 31 de Março de 1964! Naquela época não tinha idéia do que estava por vir. As únicas coisas que me ficam na memória daquela viagem são Paulo Fortes, no Hotel Nacional, a entrevista com a Rádio do MEC, a nova Igreja Presbiteriana Nacional, a viagem de ônibus…

O ano de 1963 foi, para mim, o último ano de minha Idade da Inocência.

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Transcrito aqui em 7 de Novembro de 2015

“O CAOS em Revista”: Editoriais e Artigos de 18-3-1966 a 18-8-1966 (alguns censurados)

Apresentação

Esta é uma contribuição para a História da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) que suas publicações oficiais, e mesmo os artigos e livros de seu historiador oficial, escondem ou camuflam.

O material aqui contido está contextualizado no meu outro artigo “Quarenta Anos Depois do CAOS (1966-2006), publicado aqui neste blog:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/.

No ano que vem, 2016, quando se completará o Jubileu de Ouro da Crise de 1966 no Seminário Presbiteriano de Campinas e da grotesca intervenção autoritária de Boanerges Ribeiro no Seminário e na IPB, intervenção cujos efeitos nefastos se manifestam até hoje no caráter fundamentalista daquela denominação,  as pessoas que foram vítimas dessa intervenção, e que ainda estão vivas, deveriam fazer um Desagravo Contra a IPB.

É bom que se diga que a IPB sempre foi conservadora (sendo herdeira da “Old School” da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a chamada “Igreja do Norte”, cujo principal teólogo era o princetoniano Charles Hodge), mas a partir de 1966 tornou-se, na minha forma de ver e entender, fundamentalista, mais para Carl McIntire do que para Charles Hodge.

Eis aqui os meus Editoriais e os meus artigos em “O CAOS em Revista”, órgão oficial do Centro Acadêmico Oito de Setembro (CAOS) do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Eu era o redator-chefe do jornal, que teve vida curta. Eu escrevi cinco Editoriais. Os jornais em que apareceram os três primeiros foram confiscados. Os dois últimos não chegaram a ser publicados, sendo vítimas da “Censura Prévia” instaurada no Seminário.

Para os que possam se assustar com a linguagem meio agressiva, registro que eu tinha apenas 22 anos quando vivi essa experiência, que me marcou, na época, e que continua de certo modo a me marcar até hoje.

Primeiro Editorial (18/3/1966)

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através do artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

Primeiro Artigo (18/3/1966): “Instituto Bíblico em Campinas”

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

Segundo Editorial (18/4/1966): Ainda Jonas

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

“O Manifesto dos Quinze”

[NOTA: Entre o segundo e o terceiro número do jornal, houve a publicação, fora do jornal, do nefasto “Manifesto dos Quinze”. Para fazer sentido dos Editoriais e do artigo que segue, publico-o aqui, inclusive com o nome de seus indignos signatários]

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas.

O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

Terceiro Editorial (18/5/1966)

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

Segundo Artigo (18/5/2015): “Parafraseando”

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a setença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

Quarto Editorial (18/6/1966) [Não chegou a ser publicado: foi censurado previamente]

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuíram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, trorna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo dicente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

Matéria para ser transcrita em 18/6/1966 [censurada também]

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apergarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fêz dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Pudlebuyry. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. . . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

(James Harvey Robinson, A Formação da Mentalidade / Mind in the Making)

Quinto Editorial: 18/8/1966 (Foi censurado previamente também)

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.

. . . . .

c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários.

IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

Transcrito aqui em 7 de Novembro de 2015

Quarenta Anos depois do CAOS (1966-2006)

CAOS era um acrônimo certo para o nosso Centro Acadêmico naqueles tempos: Centro Acadêmico “Oito de Setembro”. A época, em si, já era de caos, sem necessidade de um CAOS para conturbar as coisas ainda mais.

O Centro Acadêmico “Oito de Setembro” reunia os alunos daquilo que o pessoal da Igreja chamava de “Seminário Presbiteriano do Sul”, localizado em Campinas. A gente, aluno muito metido a besta, dizia que o CAOS reunia os alunos da “Faculdade de Teologia de Campinas da Igreja Presbiteriana do Brasil”. Afinal de contas, a gente (segundo o nosso próprio entendimento) não estudava teologia: estudava e interpretava a realidade brasileira à luz da teologia. Apesar de o Ministério da Educação não reconhecer a o Seminário como uma instituição de ensino superior, para nós ele era simplesmente a nossa Faculdade. Ponto final. Até que voltou a ser Seminário e degradou ainda mais para ser Instituto Bíblico…

Não que a gente achasse que o ensino ali ministrado pelos professores fosse de categoria tal a justificar o upgrade para Faculdade. Pelo contrário: nossa opinião, de alunos, acerca da qualidade dos nossos professores e do ensino que nos proporcionavam era a pior possível. “Medíocres” era o rótulo mais generoso que lhes dávamos – com uma ou outra exceção.

O Rev. Francisco Penha Alves, o famoso “Chicão”, era uma delas. Afinal de contas, ninguém pode ser considerado medíocre se ele mesmo se rotula como tal. Ele não era pretensioso: conhecia suas limitações. Era pastor, formado em teologia, em seminário… Mas nos dava aula de filosofia e sociologia. Tive o meu primeiro curso de filosofia com ele. Usava um livro texto chamado Living Issues in Philosophy, de H. H. Titus. Era bom professor. Conquistava os alunos para a sua matéria.  Devo a ele ter me interessado pela filosofia. Não conseguiu fazer o mesmo com a sociologia.

Eu tinha uma outra exceção: o Rev. Osmundo Affonso Miranda, professor de Novo Testamento, com doutorado no Seminário de Princeton. Ele via talento em mim e eu o admirava. Quando em circunstâncias trágicas ele deixou o Seminário de Campinas – digo, a Faculdade de Teologia de Campinas – para voltar aos Estados Unidos com os filhos, me deu um monte de livros dele e me legou os arquivos pessoais das pesquisas que havia feito para suas teses de Mestrado e Doutorado.

O resto era triste. Alguns, ressalvo, eram gente boa, no plano pessoal, mas péssimos professores – simplesmente despreparados ou, então, extremamente dogmáticos. Outros, nem gente boa eram – além de também serem despreparados ou dogmáticos. Deixo de citar os seus nomes por generosidade (embora os nomes de alguns apareçam adiante).

Entrei na Faculdade de Teologia de Campinas em 1964. Minha festa de calouro estava programada para o dia 1º de abril. É evidente que não houve. Os militares, com seu golpe, levaram de roldão a minha festa de calouro. Tinha uma madrinha, a Yara Lígia, mas nunca entrei com ela na festa. Ela me deu, porém, como presente o livro Conheça-se a Si Mesmo, de Karen Horney. Na dedicatória diz: “Ao meu afilhado, Oscar, a bênção de sua madrinha, Yara Lígia”. Yara, estou tentando…

Os dias que transcorriam entre o início das aulas (geralmente 16 de fevereiro) e a festa dos calouros eram de trote. Os calouros tinham de andar de gravata o tempo todo – até indo para o banho. E, por falar em banho, havia o banho de um calouro toda noite, depois do café das 21h. A gente tomava café e os calouros corriam pros quartos. Dali a pouco ouvia o coro dos veteranos subindo as escadas e cantando: “A árvore da montanha, olê-le-a-ô, a árvore da montanha, olê-le-a-ô… A árvore tinha um falho, ai-ai-ai que amor de galho…” Tortura pura. Ameaçavam entrar num quarto, recuavam. Às vezes pegavam um calouro, levavam até o meio do caminho, e desistiam: voltavam e pegavam outro que já se julgava livre por aquele dia. O destino? Uma banheira velha cheia de água no segundo andar do alojamento velho. A gente era levado de óculos, sapatos, roupa e jogado dentro da água. Às vezes um veterano aparentemente bonzinho dizia: “Ah, vamos tirar os sapatos do calouro, coitado: ele só tem esses…”. Quando o dito calouro caía na água, já encontrava os pobres sapatos flutuando na banheira. Ao sair do banho, o calouro banhado era abraçado pelos veteranos… Ser considerado não-calouro, porém, só depois da festa – que, no meu caso, nunca houve… Culpa dos milicos. Os veteranos precisaram decretar que nossa condição, a partir de um certo momento, era de não-calouro, dando a festa como se tivesse acontecido.

Demorou um pouco para que o espírito repressivo do Golpe de 64 penetrasse os diversos escalões da Igreja Presbiteriana e permitisse que um grupo de pastores perpetrasse, dentro da Igreja, um golpe dentro do golpe. O artífice dessa manobra foi o Rev. Boanerges Ribeiro. O Diabo deve tê-lo em alta conta. Ao perceber que o clima político era propício a uma guinada fundamentalista dentro da Igreja, montou uma estrutura semi-partidária que o levou ao cargo de Presidente da Igreja numa eleição feita em Fortaleza, durante a reunião do Supremo Concílio, em Junho de 1966. Dali para frente foi sarrafo na moçada.

Para entender a razão do sarrafo, é preciso explicar, para aqueles que nunca viveram em Seminário, o que é a vida ali dentro.

Cheguei no Seminário crente piedoso, e tinha certeza de que sairia de lá pastor. Quando saí de lá, dois anos e seis meses depois, tinha perdido a piedade e tinha sérias dúvidas de que realmente viria a ser pastor um dia. Nunca fui.

Do ponto de vista do comportamento, quando cheguei ao Seminário não bebia, não fumava, não dançava, guardava o Domingo. Quando saí de lá, tinha começado a fumar, e, embora nunca de forma exagerada, bebia cerveja, vinho, e, às vezes, até um golinho de pinga. Também tinha tentado aprender a dançar e achava uma bobagem a guarda do Domingo.

O que aconteceu nesse processo? Como é que se processam essas mudanças, que são, na realidade, um processo de desconversão – o caminho inverso de um processo de conversão?

Em outro artigo vou tratar desse processo de desconversão. Aqui basta descrever, com grandes pinceladas, o ambiente que o tornou possível.

O médico que estuda medicina, parece perder o respeito pela doença. Ele muitas vezes a trata de forma brincalhona. Lembro-me de que uma vez minha mãe precisou ser operada, e meu pai assistiu à operação – que foi feita no Hospital Presbiteriano de Rio Claro, pelo amigo dele, e depois amigo meu, Dr. Eduardo Lane. Meu pai ficou irritadíssimo, porque enquanto esperava que a anestesia fizesse efeito, Eduardo Lane (segundo relatou meu pai) havia ficado a fazer uma discreta batucadinha na barriga de minha mãe, sem ligar muito para a gravidade da situação…

Bem, com quem estuda teologia algo semelhante acontece. Rapidamente se perde o espírito de reverência diante das coisas sagradas. Brinca-se com tudo. Dá-se apelido a quem antes não se ousava dizer o nome. O Deus dos Judeus, em Hebraico, é chamado de YHWH – pronunciado Yahweh em Inglês, Iavé (ou Javé, ou Jeová), em Português. Bom, se Deus é Iavé, Jesus Cristo deve ser Iavezinho… Fazia-se gozação com as passagens bíblicas, brincava-se com os milagres… Nada disso significava perda de fé. Era apenas o preço a pagar pela familiaridade excessiva com as coisas ditas sagradas.

Mas não era só a doutrina que era objeto de brinquedo. Brincava-se também com a ética. Embora a maioria absoluta dos seminaristas fosse tão pura quanto o puríssimo coração de Maria, os veteranos adoravam pretender que não eram, para impressionar – através do choque e do escândalo – os calouros… Eles davam a entender que se envolviam em ousadias sexuais que, é mais do que certo, nem em pensamento se arriscavam a perpetrar. Falavam da zona como se fosse um local visitado cotidianamente… E, naturalmente, fumavam, bebiam e dançavam – coisas que, para presbiterianos conservadores, eram quase tão pecaminosas quanto fornicar. No que diz respeito a fumar, beber e dançar não era apenas blefe: aprendi a fazer essas coisas no Seminário. Quanto às outras, se o intuito era chocar, chocavam; se era escandalizar, escandalizavam. Mas os calouros logo viravam veteranos e percebiam que a maior parte desses alardeados comportamentos eram blefe.

Em 1966 entrou uma turma de alunos especialmente conservadora no Seminário. Gente mais de idade, vários casados e com família. Formaram uma patota – e decidiram que iriam converter os devassos veteranos. Conquistaram o apoio do Rev. Waldyr Carvalho Luz (pelos veteranos apelidado de Rev. Trevas), e se reuniam, diariamente, para orar pela regeneração dos colegas que caminhavam rápido no caminho da perdição. Achavam-se os bons, os puros, os eleitos. E nós, os veteranos (eu já estava no meu terceiro ano), adorávamos provocá-los.  E, para provocá-los, exagerávamos nossa heterodoxia (heresia mesmo) e nosso comportamento divergente.

Em Março de 1966 explodiu uma crise no Seminário, da qual, felizmente ou infelizmente, não sei, fui pivô – e estopim. No dia 18 – cerca de um mês, portanto, depois do início das aulas – um estudante do curso breve (curso de três, e não de cinco anos, como era normal), Floramonte Dias Gonçalves, pregou um sermão de prova sobre o livro de Jonas, pressupondo não só a historicidade do profeta mas de todos os mínimos detalhes do relato bíblico. Na exegese do colega, Jonas realmente sofreu um naufrágio, foi engolido por uma baleia, ficou três dias na barriga da baleia e, depois, foi vomitado na praia de Nínive, para onde estava indo quando o ocorreu o naufrágio.

Na crítica ao sermão, o mais conservador de nossos professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz, foi o que mais falou: elogiou o aluno pelo sermão, dizendo, entre outras coisas, que ele fez muito bem em tomar por incontroversa a historicidade do livro, “sem ficar procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora o Rev. Earle D. Roberts (professor de Velho Testamento) houvesse mencionado, meio en passant, que a interpretação histórica do livro enfrentava uma série de problemas levantados pela crítica literária e textual, não explicitou quais seriam esses problemas. O Rev. Osmundo Affonso Miranda (meu guru, professor de Novo Testamento) disse que não concordava totalmente com a interpretação dada ao livro, mas não passou disso. Na verdade, o  comportamento do Rev. Osmundo me irritou mais do que o do Rev. Waldyr, cuja posição não me surpreendeu. Surpreendeu-me, entretanto, a omissão do Rev. Osmundo – até porque eu admirava muito, em nível pessoal. Fui para o quarto pensando o que fazer.

Dias antes, a Diretoria do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do qual eu havia sido eleito Secretário para o ano letivo de 1966, havia decidido publicar um jornalzinho e eu fora escolhido para ser o seu Editor/Redator. Dei-lhe o título, deliberadamente provocante, de “O CAOS em Revista”. Eis o meu primeiro Editorial.

Em sua reunião de 18 de fevereiro do corrente a Diretoria do CAOS decidiu que se publicasse, periodicamente, um jornal informativo da Diretoria, designando-nos, naquela mesma ocasião, responsáveis pela sua edição. Exatamente um mês após sai o primeiro número. Como primeiro é este um número experimental, para o qual pedimos a opinião dos colegas, para que ele venha a ser a expressão do corpo discente de nossa casa. Não é, porém, apenas a opinião dos colegas que solicitamos. Pedimos também a colaboração de cada um através do artiguetes escritos, através de trechos ou excertos traduzidos de livros ou revistas, através da indicação de livros e artigos recomendáveis. Esperamos que os colegas nos tragam suas colaborações. Será distribuído, gratuitamente, apenas um exemplar para cada colega. A pessoa que desejar mais números terá que pagá-los a razão de Cr$ 200 cada. Será esta uma maneira de arranjarmos um pouco de fundos para a contínua publicação do jornal. Cada vez que houver material suficiente, nas mãos do redator, para a tiragem de um número, este sairá. Contamos, pois, com a colaboração de todos.

A crítica do sermão (mais do que o sermão em si) me deu o assunto para o primeiro número. O resto foi recheio.

Com toda a paixão dos meus 22 anos, escrevi um pesado artigo sobre o assunto com o título de “Instituto Bíblico em Campinas”. Chamar a Faculdade de seminário já era ofender. Chamar o Seminário de “Instituto Bíblico”, era chamar para briga. Institutos Bíblicos eram, em geral, instituições sem tradição acadêmica, e sem regulamentação, que preparavam leigos para o trabalho na Igreja em locais afastados em que não havia pastores em número suficiente. No artigo, ressalvei o direito de o colega Floramonte pregar sobre o que quisesse, do jeito que quisesse. O que não era admissível, argumentei, sendo a ocasião um sermão de prova, feito, portanto, para fins didáticos, era que os mestres se calassem sobre os problemas e as interpretações alternativas do livro de Jonas. Os problemas eram tantos, afirmei, que ignorá-los era equivalente a não ver chifres na cabeça de um boi – frase que especialmente feriu o Rev. Waldyr, de quem eu era, até aquele momento, um dos alunos mais queridos, por ter tirado algumas das maiores médias em Grego na história do Seminário (acima de 98.5, em três semestres consecutivos). Além do mais, o Rev. Waldyr havia sido colega de meu pai no Seminário.

Mas em vez de resumir o artigo, êi-lo na íntegra:

Estamos ainda debaixo do revoltante impacto que nos causou a crítica ao sermão pregado hoje por um de nossos colegas. Queremos, de início, esclarecer que tudo o que aqui vamos dizer não visa à pessoa e às idéias do pregador, mas sim à posição e às idéias dos “críticos”, membros do corpo docente desta “Faculdade”. Colocamos estas duas palavras entre aspas porque não reputamos críticos os que não levam em conta a obra e os resultados da Crítica, fazendo de sua “crítica” tão simplesmente uma avaliação da simpatia do pregador, de sua vestimenta, de sua linguagem, de sua elocução, da estrutura homilética de seu sermão, de sua liturgia, negligenciando o cerne do sermão que é a interpretação dada ao teto. Para se fazer esta interpretação a Crítica Histórico-Literária e Textual é simplesmente considerada “farrapos”. Além do mais não consideramos Faculdade uma instituição de ensino que se aliena, através de seus professores (mas graças a Deus não através de todos os seus alunos) do movimento intelectual teológico contemporâneo. O que está se dando aqui é que nosso Seminário, tido aí por fora como “Faculdade de Teologia”, não passa, atualmente, de um Instituto Bíblico, que acha virtude, através de alguns de seus professores, em nem se aproximar dos problemas levantados pela Crítica Bíblica, e que acha que os alunos não precisam conhecê-los, pois são irrelevantes.

Vejamos, porém, o caso concreto. Pregou-se, hoje, uma sermão de prova biográfico sobre JONAS. Como base da mensagem do pregador estava a pressuposição de que o livro de Jonas é um livro histórico no sentido de que as informações nele contidas são historicamente fidedignas, e que o que nele é registrado se deu literalmente como o descreve o livro. O Jonas de que o livro fala foi tido como o profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou em Israel, no século VIII, no reinado de Jeroboão II (Cf. II Reis 14:25). Reafirmamos que o pregador tinha pleno direito de fazer o que fez, ou seja, de dar esta interpretação conservadora ao livro. Não o criticamos por isso. Afirmamos também que os mestres tinham pleno direito de concordar com o pregador a respeito de sua interpretação e da linha de sua mensagem, o que de fato fizeram. Com o que não concordamos, porém, é que o outro lado da questão não tivesse sido sequer mencionado! Um dos professores mencionou de passagem que o livro apresentava problemas críticos, mas nem sequer esboçou quais e que tipos de problemas seriam estes. Apenas afirmou (certamente opinião pessoal sua) que a Crítica havia tornado o livro em “farrapos”, subentendendo-se daí que se é impossível pregar sobre o livro de Jonas com uma interpretação outra que não a sua pessoal, naquele contexto representada também pelo pregador e pelos outros críticos. Um outro crítico mencionou que sua opinião era diferente, mas não julgou conveniente apresentá-la. De qualquer forma o sermão foi tido como muito feliz, pela interpretação sadia, pela riqueza de material, etc., pois fugiu dos problemas críticos, “não procurando chifres na cabeça de cavalo”. Embora um crítico houvesse achado que o sermão carecia de melhoras, a impressão tida após a crítica é que o sermão do colega foi o tipo de sermão ideal, “ungido” (o termo foi usado).

Nossa intenção, aqui neste artiguete, pelo qual somos pessoalmente responsáveis, é apresentar o outro lado da questão, como um dever de consciência, pois o outro lado foi redondamente ignorado pelos “críticos” do referido sermão. Se o fazemos é no interesse de esclarecer os colegas, mostrando que o livro de Jonas é “pregável” mesmo depois de a ele ser aplicada uma crítica bastante radical.

Vamos à questão.

O livro de Jonas é diferente de todos os outros escritos proféticos do Velho Testamento no sentido de que não contém uma coleção de oráculos de um profeta, mas é simplesmente uma história a respeito de um profeta. Pode ser esta a razão pela qual um livro que não reivindica de modo algum ter sido escrito por um profeta (o v.1 diz: “Veio a palavra do Senhor Jonas, filho de Amitai, dizendo:…” – Notar que o livro é escrito na terceira e não na primeira pessoa: “Jonas se dispôs”, “Jonas orou”, etc.), e que no aspecto literário pertence a um tipo bastante diferente, foi incluído entre os Livros dos Doze Profetas. Nem podemos dizer que o livro de Jonas seja um conto profético de natureza histórica e biográfica, porque a base requerida para tal não está presente no livro. O livro de Jonas é um poema didático, podemos mesmo dizer que um poema parabólico, escrito para mostrar que Deus se compadece mesmo dos ímpios quando eles se arrependem (3:10; 4:10). Este poema foi escrito com uma moral dirigida contra a intolerância dos Judeus e sua arrogância para com as nações pagãs, resultantes da doutrina da eleição mal interpretada em um sentido particularista. Bastava somente esta moral para que concluíssemos que o livro é pós-exílico, pois sua atitude básica toma por pressuposta a influência de Deutero-Isaías com sua idéia de salvação universal. O capítulo 3, versículo 3, dá a entender que Nínive era considerada uma cidade legendária, dos tempos antigos. Além do mais, a linguagem do livro, com seus aramaísmos, e com formas hebraicas bem posteriores em seu vocabulário e estilo (1:6, 7; 2:1; 3:2, 7; 4:6, 8) não permite que se date o livro anteriormente ao século V. Como terminus ad quem há o fato de o livro ser pressuposto no século II (Cf. Eclesiástico 49:12; Tobias 14:4,8).

Não há dúvida, entretanto, de que o autor do livro de Jonas tivesse tido a intenção de fazer com que o Jonas por ele descrito fosse entendido como o Jonas do século VIII. Isto era comum na antigüidade, quando a questão de direitos autorais e de direitos de nome não era problema jurídico. Qualquer pessoa podia escrever um livro em nome de outrem, ou poderia por seu nome em obra de outrem, ou poderia ainda, como no caso, usar a pessoa de outrem como personagem de seus escritos. O autor, contudo, não pretendeu estar escrevendo naquela época. Além do mais há muito no livro que indica que ele vem de um período bem posterior ao século VIII, além de que apresentamos acima. A cidade de Nínive não era tão grande no século VIII. Além do mais é difícil de se crer que uma cidade tão grande quanto descrita tenha se convertido “desde o menor até o maior” (3:5), o rei inclusive 3:6 sqq. Note-se que em nenhum lugar mais nem na Bíblia, nem fora dela, se menciona “Rei de Nínive”, pois o rei não era de Nínive, e sim da Assíria, país cuja a capital era Nínive, e que isto não tenha sido registrado em nenhum lugar, nem nas crônicas assírias nem nas israelitas. Por cima é difícil de harmonizar como a Nínive convertida a YHWH, inclusive com o seu rei, no século VIII, tivesse, com o restante da Assíria, ainda naquele mesmo século (721), conquistado Israel e destruído Samaria, levando cativos os líderes.

Por todos estes motivos é difícil crer na historicidade do livro como tal. Não negamos que tenha existido um Jonas, filho de Amitai, profeta. O que afirmamos é que ele não é o protagonista deste episódio, e que o que é narrado no livro de Jonas é uma parábola escrita com a finalidade acima apresentada, a saber, de mostrar aos Judeus que Deus se compadece e quer a redenção mesmo dos ímpios e gentios. Porque esta mensagem é apresentada com igual clareza por Deutero-Isaías é que se coloca o livro de Jonas mais ou menos na mesma época.

Agora perguntamos: Reconhecer isto é “procurar chifres na cabeça de cavalos”? Cremos que não reconhecê-lo é ignorar chifres na cabeça de um boi! Continuamos: reduz isto o livro de Jonas a “farrapos”? Absolutamente! Devemos deixar de pregar sobre o Bom Samaritano somente porque ele não é histórico? Evidentemente não! Se isto é verdade podemos pregar sobre o livro de Jonas mesmo que o episódio e o personagem ali descritos não sejam históricos. O que importa é a mensagem que o autor quis transmitir, ao criar esta parábola: quebrar as tradições nacionalistas dos Judeus, mostrando que Deus ama até os inimigos de Israel!

Embora o livro por seu tipo literário não seja profético, seu espírito o é, particularmente na tendência geral de pensamento a ele imprimida, quando foi escrito, em tempos pós-exílicos. Para por em cheque o particularismo exclusivista do Judaísmo pós-exílico, e a distorção da doutrina da eleição imposta pelo egoísmo religioso, este livro testifica a grandeza da profética concepção de Deus, e a ampla tolerância que esta concepção implica! O livro ainda hoje é uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso. Porque pretendeu mostrar que a compaixão de Deus é maior que o coração humano, que sua vontade de salvar alcança mesmo além dos limites de seu próprio povo, e portanto o leva à tarefa missionária, este livro pertence aqueles no Velho Testamento que prepararam o caminho para o Evangelho.

Os colegas julguem se a crítica que aplicamos ao livro, privando-o de sua historicidade, tornou-o “impregável”, esfarrapou-o. Julguem se, em uma Faculdade de Teologia do gabarito que a nossa pretende ter, pode alguém pregar sobre Jonas nos termos em que se pregou, sem que qualquer dos professores presentes à crítica tivesse sequer levantado o problema da historicidade do livro.

Aos Colegas a palavra!

A crise estava iniciada.

Eis a versão do caso dada pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, em sua autobiografia:

Eu encontrava séria resistência e era indisfarçada a má vontade para comigo da parte da maioria dos alunos e de certos professores. Assim é que ao criticar um sermão pregado pelo seminarista Floramante [sic] Dias Gonçalves, elemento sério, firme, um dos poucos que se me revelavam amigos, eu o louvei pelo teor edificante da mensagem e pelo fato de não ceder aos pressupostos críticos que negariam a historicidade do profeta e do livro, dizendo eu que tais críticos achariam até “chifres em cabeça de cavalo”. Essa afirmação minha irritou profundamente os “doutos” adeptos da mentalidade liberal-modernista e, na manhã seguinte, circulava um jornaleco ou folhetim do famigerado CAOS (Centro Acadêmico Oito de Setembro), o grêmio dos estudantes, em que um seminarista que viera para o Seminário muito crente e piedoso, filho de consagrado pastor meu contemporâneo de Seminário, agora um dos mais virulentos corifeus da nova linha de pensamento, derramava todo o seu amargo fel em insultuoso artigo contra mim e minha posição teológica. O folhetim não publicaria defesa minha, já que era privativo dos estudantes. A Congregação, fugindo a suas responsabilidades, não tomou medida alguma contra o deselegante rabiscador de inuendos e agravos. Eu, porém, em nada me abalei com esse proceder, seja do estudante, seja da Congregação.

A Congregação, na realidade, determinou ao Reitor (o pacato Rev. Júlio Andrade Ferreira, por quem tive enorme estima pessoal até que faleceu, recentemente), que apreendesse a edição do jornal – o que ele constrangidamente fez (porque, entre outras coisas, também era amigo de meu pai e de minha mãe), mas não antes de havermos distribuido mais de 200 cópias e escondido outras tantas.

O Rev Waldyr, oficiosamente e por iniciativa própria, e certamente com a melhor das intenções (concedo-lhe isto), chamou meu pai a Campinas, mostrou-lhe o artigo, e disse-lhe que, não fora a consideração a ele, meu pai e tutor, eu poderia ter sido suspenso ou mesmo expulso do Seminário incontinenti – no que certamente exagerava. Lembro-me bem de que assistia a uma aula de Alemão, à noite, no centro da cidade, quando vi meu pai parado perto da porta, do lado de fora. Pensei que minha mãe houvesse morrido, ou que algo igualmente grave houvesse acontecido. Peguei minhas coisas e saí da aula. O assunto era o artigo. Fui severamente repreendido pelo pai e ameaçado de perder a bolsa de estudos pelo tutor. De nada adiantou argumentar. As linhas da batalha estavam definidas.

Voltei para o Seminário naquela noite e quase não dormi. Na noite em claro refleti sobre tudo o que estava acontecendo e tomei a decisão de seguir a minha consciência, que de nada me acusava, e que me lembrava de que mais vale lutar para preservar e ampliar as liberdades que temos do que depois lastimar o seu cerceamento ou mesmo a sua extinção.

Nesse estado de espírito fiquei sabendo, através de um dos colegas (não me lembro quem), que teria sido o meu pai (e tutor), na conversa que teve com o Rev. Waldyr, quem teria recomendado a minha expulsão do Seminário. Liguei para o meu pai para interpelá-lo e verificar a veracidade da informação. Foi uma conversa tensa, que o deixou extremamente preocupado, a tal ponto que ele me enviou, bastante tempo depois, em 30 de abril, um relato escrito do que teria sido a conversa dele com o Rev. Waldyr. Passo por cima do relato por ser muito longo.

Nos dias seguintes à conversa com meu pai, sentei-me à maquina de escrever e escrevi o Editorial do segundo número do jornal, relatando o que acontecera com o primeiro e protestando contra o empastelamento determinado pela Congregação e executado, creio que a contragosto, pelo Reitor. Inspirei-me em Da Liberdade, de John Stuart Mill. Afinal, não estava desobedecendo a nenhuma ordem superior, porque a resolução da Congregação, determinando a apreensão do primeiro número, não havia proibido a publicação de um segundo, nem a discussão do que havia acontecido.

Publicado o segundo número do jornal, em 18 de Abril de 1966, a pancada veio mais forte. O segundo número do jornal também foi apreendido e a Congregação agora determinou que os estudantes nada publicassem sem a prévia censura da Congregação. Eis o editorial-artigo, chamado “Ainda Jonas”, que foi o carro chefe do número:

No número anterior, primeiro de nosso jornal, procuramos, em um artigo que teve um Sitz im Leben de todos conhecido, dizer algumas palavras sobre o livro de Jonas. Naquele ocasião dissemos que o livro tinha uma mensagem ainda hoje relevante, pois era “uma voz profética e uma permanente advertência contra tudo o que estreita e particulariza a religião, e contra todo exclusivismo religioso”. Nosso interesse hoje é assinalar a relevância e o oportunismo desta mensagem no contexto imediato em que nos encontramos, a saber, na vida da IPB.

Vimos, no artiguete passado, que a mensagem de Jonas foi um brado de protesto contra o nacionalismo particularista dos judeus que se consideravam detentores únicos e exclusivos da divina graça, e que, assim fazendo, limitavam à ação de Deus à nação política Israel. Deus estava cercado dentro dos limites políticos da nação. Qual a relação que isto pode ter com a IPB? A relação é que, ainda hoje há o grupo que se considera detentor exclusivo e único da graça divina, grupo este que, assim fazendo, procura limitar a ação de Deus, não a uma nação política, mas a um círculo ideológico, que procura cercar Deus, não dentro de limites políticos, mas de limites ideológicos.

Concretizamos: aqueles que, no seio da IPB, estão preocupados em tirar do seu caminho todos os que não concordarem em gênero, número e caso com os padrões rígidos de sua “ortodoxia” superada estão praticando o mesmo tipo de exclusivismo religioso (senão pior) praticado pelos judeus aos quais foi dirigida a mensagem do livro de Jonas. Estas normas “ortodoxas” têm se tornado os limites cerceadores da ação de Deus. Quem delas se afastar — dizem, ou se não dizem assim o entendem, pois suas atitudes o comprovam — afasta-se do próprio Deus, e então não é digno de permanecer na IPB. Precisa ser expurgado (palavra, por eles, estimadíssima!).

Vimos, contudo, no artigo passado, que quando o homem estabelece limites que particularizam e estreitam a órbita da ação de Deus o próprio Deus encontra um meio de arrasar com essas pretensões do coração humano. As obras do autor de Jonas e de Deutero-Isaías são em Israel  evidências típicas disto. Foi porque os israelitas não atentaram ao fato de que Deus queria quebrar (como de fato quebrou) estas barreiras particularizantes que foram por Ele rejeitados.

É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra Utilitarianism, Liberty and Representative Government (New York: Dutton, 1910, p.79) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se crêem portadores de idéias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas idéias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de idéias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser “criminosos” neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!

Neste espírito e com este alvo é que “O CAOS em Revista” sai, exatamente um mês depois do primeiro, em seu segundo número.

O Rev. Waldyr novamente contatou meu pai para informá-lo do ocorrido. Com meu pai, nova conversa difícil. Meu pai relutava em acreditar que eu estivesse agindo de moto próprio. Em uma atitude que mais do que tudo ofendia os meus brios, ele achava que outros estavam me usando e que eu estava apenas servindo de “inocente útil”. É difícil discutir quando o outro lado acredita que você é apenas porta-voz.

A comunicação do Seminário com o meu pai deixou, no mês de Maio, de se fazer apenas de forma oficiosa, por intermédio do Rev. Waldyr. Em 11 de maio de 1966, o Rev. Júlio Andrade Ferreira, Reitor do Seminário, escreveu, a meu pai e tutor, uma carta, para comunicar a decisão tomada pela Congregação vinte e dois dias antes. Eis a carta:

Campinas, 11 de maio de 1966

Rev. Oscar Chaves
Cx. 626
Santo André, SP

Prezado Colega:

Escrevo-lhe esta, na qualidade de Reitor do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas, para comunicar a decisão tomada pela Congregação desta Casa de Ensino, em sua reunião do dia 19 do mês p.p., nos seguintes termos:

“Encaminhar ao PLIS, presbitério a que é filiado o estudante Eduardo Oscar de Campos Chaves, comunicação do caso criado pelo referido aluno, constante de duas publicações no folhetim CAOS EM REVISTA e demais informações atinentes ao caso. Registra-se que na discussão e votação desta matéria não tomaram parte os professores Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro”.

Junto os dois números do referido jornal do CAOS, bem como a informação de que o 2º número saiu após ter o Reitor dado ordem para que o 1º fosse recolhido, bem como após o Deão ter tido conversa com o aluno, mostrando a inconveniência de atitudes como a assumida pelo aluno, no fazer a crítica constante do 1º artigo.

Pessoalmente, desejo esclarecer que a Congregação resolveu mandar o caso ao Presbitério do aluno, sem tomar, ela mesma, alguma atitude direta quanto ao caso, em virtude de situação interna, que dificilmente poderia expor. O julgamento do aluno, contudo, dificilmente poderia ser justo se todos esses elementos não fossem considerados.

Era o que me cumpria dizer.

Abraça-o, colega e companheiro na seara do Mestre,

Rev. Júlio Andrade Ferreira
Reitor

Não tenho certeza de qual seria a “situação interna, que dificilmente poderia expor” em virtude da qual a Congregação do Seminário, segundo o Rev. Júlio, resolveu não tomar “alguma atitude direta quanto ao caso”, e que tornaria o meu julgamento, naquela esfera, “dificilmente justo”. Imagino que os problemas diziam respeito aos dois professores que se omitiram de votar no caso, os Revs. Waldyr Carvalho Luz e Américo Justiniano Ribeiro, que persistiam em abster-se nas votações, mas, por trás, tentavam tramar as ações.

As coisas estavam nesse pé quando explodiu outra bomba — agora do outro lado. Sob a coordenação do Rev Waldyr Carvalho Luz, um grupo de alunos, dos mais conservadores (e, acrescente-se, academicamente mais fracos), escreveu um texto-denúncia, intitulado “Manifesto dos Quinze”, em que relatavam, para a Igreja, todos os desmandos que estariam ocorrendo no Seminário — que iam desde modernismo teológico, com rejeição das idéias calvinistas, desvios éticos, com aceitação, prática e defesa do fumo, da bebida, do amor livre, etc. O manifesto foi enviado para virtualmente todas as igrejas do país — sem haver sido submetido a apreciação da Congregação!

O texto completo desse Manifesto é o seguinte:

Aos Membros, Oficiais e Ministros da Igreja Presbiteriana do Brasil

Saudações no Senhor,

Sentimos um dia que Deus nos chamava para o sagrado ministério da Palavra. Obedecendo a esse chamamento, decidimos entregar a vida ao serviço do Senhor, não medindo as dificuldades, os problemas, os sacrifícios que teríamos de enfrentar. Foi nesse propósito que viemos para o Seminário. Não tínhamos ilusões de que não iríamos encontrar um céu aberto. Esperávamos, entretanto, encontrar um ambiente favorável para os estudos, um meio apropriado para cultivar espiritualidade, uma atmosfera de seriedade moral e de respeito, particularmente para com as pessoas e as instituições da Igreja. Preferiríamos não dizer da desilusão que tivemos.

Não queremos prejudicar o Seminário ou a Igreja. Nem desejamos atingir pessoas. Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todo sentido, contudo, aspiramos um Seminário melhor, mais vida espiritual, mais firmeza de caráter, mais consagração, fé mais vigorosa, convicção mais sólida, testemunho mais cristão e espírito mais dedicado na evangelização e na obra da Igreja. Temos silenciado até agora por que não queríamos nem de longe concorrer para o agravamento da situação. Só Deus sabe das angústias de nossa alma e das preocupações de nosso espírito, das lágrimas que temos vertido, das noites mal dormidas, das lutas em oração que temos sustentado. Chegamos, porém, a um ponto em que não mais podemos manter-nos calados. Por amor ao Seminário e à Igreja temos de sair a público para clamar contra os abusos que presenciamos e a situação em que vivemos. Com tristeza infinita, temos de apelar a todos os corações crentes a que se levantem para defender esta Casa, que tanto amamos, e a IPB nesta hora crítica.

Com o maior dos pesares temos de dizer que o Seminário não é hoje a Casa de Profetas, de onde saíam homens de Deus, fiéis à Bíblia e ardendo de entusiasmo pela salvação dos pecadores, ministros piedosos que continuem a obra dos grandes homens do passado, grandes na fé, grandes na consagração, grandes no fervor, grandes na piedade, prontos a todo sacrifício, varões de Cristo sem reservas. O Seminário é hoje um lugar onde se zomba dos que levam a sério a Bíblia, a oração, a vida espiritual; onde se desmoraliza de todas as formas a liderança da Igreja, suas instituições e seus homens de confiança; onde se hostilizam professores que não se dobram aos interesses do grupo dominante; onde se defende a libertinagem e a imoralidade; onde existem clubes dos que se reúnem para fumar e beber; em cujo refeitório se praticam atos que ferem a mais elementar educação e onde a própria oração é motivo de ridículo e zombaria; onde se defende o amor livre e se condena como pietismo e moralismo todo esforço de viver cristãmente, segundo os padrões do Evangelho; onde se tacham de estreitos todos quantos mantêm firmes as doutrinas do Calvinismo clássico e aceitam a Bíblia como inspirada Palavra de Deus; onde se veiculam idéias modernistas como se fossem a verdade de Deus, somente porque os teólogos do dia e os estafetas dos evoluídos desta e de outras terras o proclamam; onde não existe interesse geral pela evangelização e pela conversão dos pecadores; onde uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdista, exerce inexorável pressão sobre os colegas que não rezam pela sua cartilha e trama de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento; onde figuras estranhas ao Seminário e até à IPB, muitos até ministros, não sentem escrúpulos em manter encontros para desmoralizar a Igreja, autoridades eclesiásticas e professores da instituição de maneira desleal e revoltante; onde impera a irreverência e o cinismo; onde palavrões e piadas picantes são a norma de não poucos; onde a dignidade feminina e a pureza pessoal são objeto de alusões que não podemos aqui referir. Onde colegas são humilhados e tratados de maneira contrária ao amor de que tanto falam, especialmente aqueles que são novatos, vítima de trotes que refletem bem o espírito evoluído dos seus promotores; onde a vida espiritual e devocional é baixa, tanto quanto o pode ser; onde os cultos são mal assistidos e por alguns inteiramente desprezados; onde um círculo de oração iniciado por um grupo desejoso de mais vida devocional é hostilizado e combatido; onde a maioria indiferente e acomodada, querendo manter uma neutralidade impossível, acaba sempre fazendo a jogada da liderança negativista; onde as próprias autoridades não parecem em condições de agir com firmeza.

Irmãos no Senhor, não dissemos tudo que poderíamos dizer. O próprio deão do ano passado, Rev. Dr. Osmundo Afonso Miranda, traçou um retrato bem realista da situação em seu relatório à Diretoria do Seminário, que é um brado de alerta contra a referida situação. A situação é séria, o sentimos. Por amor a Cristo e Sua Palavra, por amor à IPB e seu ministério autêntico, por amor aos crentes sinceros de hoje e às gerações do futuro, é preciso por paradeiro a esses desmandos. Aqui, diante de nosso Deus, obedecendo à voz de nossa consciência, com o coração sangrando de tristeza, bradamos pedindo que alguma coisa seja feita. Não podemos ficar indiferentes nem calar-nos; seríamos cúmplices desse processo de desmoralização da Causa. Pensai no que estamos relatando, informai-vos de tudo, orai muito e agi com firmeza. E que Deus, o nosso Deus, nos dê forças para não fugirmos ao dever, para sermos fiéis à Sua vontade. Amém.

Hermes Mariano, Presbitério de São Paulo
Ariovaldo C. Bomfim, Presbitério de São Paulo
Elpídio Gonçalves. Presbitério do Rio Doce
Evandro Luiz da Silva, Presbitério de Cuiabá
Floramonte Dias Gonçalves, Presbitério Oeste de Goiás
Célio J. Duarte, Presbitério Florianópolis
Francisco Antônio Maia, Presbitério de Brasília
Silas Augusto Tscherne, Presbitério de Rio Claro
Dirceu Xavier de Mendonça, Presbitério de Rio Claro
Gilson Barbosa Gomes, Presbitério do Rio de Janeiro
Eldman Francklin Eler, Presbitério de Governador Valadares
Adolfo Potenciano, Presbitério de Goiânia
José Silvério Júnior, Presbitério de Brasília
José dos Anjos, Presbitério Norte de Minas
Jarbas Dantas, Presbitério de Campinas

Aqui está um resumo das principais denúncias nele feitas, nas palavras do Rev. João Dias de Oliveira:

As de ordem piedosa: Há quem zombe da Bíblia, da oração e da vida espiritual; a vida devocional é baixa; os cultos mal assistidos ou desprezados; o círculo de oração combatido.

As de ordem doutrinária: Desprezo ao calvinismo, apego ao modernismo, negação da inspiração [da Bíblia], etc.

As de ordem ética: Há libertinagem, imoralidade, fumo, bebida, amor livre, palavrões, piadas atentando à pureza feminina, etc.

As de ordem administrativa: Há os que desmoralizam a liderança da Igreja, hostilizam professores; “uma cúpula ativista, politiqueira, de simpatias pronunciadamente esquerdistas, exerce inexorável pressão sobre os colegas”; “tramam de maneira traiçoeira contra os líderes da Igreja que não obedecem à sua linha de pensamento”; “elementos de fora, até ministros, vêm aqui, tramam, etc.”.

Eis o que diz o Rev. Waldyr sobre o manifesto em sua autobiografia:

Ante o estado de coisas vigente, autoridades sem pulso, alunos sem disciplina, ensino acomodatício, vago, difuso, incerto, incapaz de dirimir dúvidas e firmar vocações, a vida espiritual do Seminário em nível raso, alunos mais sérios e responsáveis, que se não podiam conformar com a situação, decidiram encontrar-se em reunião de oração às seis e meia da tarde nos dias de aula, convidando-me para com eles participar. Eram reuniões ferventes de súplica a Deus em favor do Seminário, rogando-se ao Senhor interviesse e mudasse as coisas para que o ambiente fosse o de real Casa de Profetas e não um reduto de fariseus, mercenários e agitadores, como estava sendo. Essa plêiade de seminaristas, menos de vinte, ridicularizada pelos colegas avançados e revolucionários, com lágrimas não raro, preservava a pureza da fé, o alvo do ministério, a espiritualidade real, a ética genuína, em orações tocantes e sentidas, brotadas de corações sinceros e almas piedosas.

Vinha essa prática sendo mantida já por meses, quando se realizou no Seminário um encontro de qualquer comissão ou grupo de estudos, de que fazia parte o Rev. Domício Pereira de Mattos, um dos expoentes da corrente liberal. Como costumava acontecer sempre que vultos dessa mentalidade apareciam no Seminário, foi ele convidado a falar aos estudantes, promoção do famigerado CAOS. Havíamos encerrado a reunião de oração, quando chegaram dois do grupo, Gilson Barbosa Gomes e Adolfo Potenciano, visivelmente indignados, dizendo não agüentarem mais a situação, revoltados com o que haviam ouvido nesse encontro, em que o canhestro convidado buscara desestimular os que visavam ao ministério, a seu ver, carreira falida e parasitária, a serviço de uma Igreja retrógrada, dizendo que ele continuava no ministério somente porque, já cinqüentenário, não acharia outro emprego, além de que, perguntado por um dos futuros alunos de Exegese aos Romanos, como impedir que eu fosse o professor, ferindo os ditames de até comezinha ética, a despeito de colegas de Seminário que fomos, aconselhava-os a promoverem desordem em classe, buscando irritar-me com provocações e acintes, que eu perderia a serenidade e eles acabariam levando a melhor. Com os dois solidarizaram-se os demais membros do grupo e decidiram redigir um manifesto à Igreja, expondo tudo o que se passava de irregular no Seminário, embora na época fosse proibido pela Congregação qualquer pronunciamento de alunos a entidades externas [Ênfase acrescentada]. Não se dirigiram à Congregação porque sabiam de sobejo que a questão seria abafada em seu clássico imobilismo. Elaboraram o documento, que veio a ser conhecido por MANIFESTO DOS QUINZE, tantos os seus signatários, e o despacharam aos quatro cantos do país para conhecimento de pastores e igrejas. Foi uma bomba! A repercussão foi enorme e traria resultados inimagináveis.

A Congregação ficou entalada em agudo dilema. Os fatos referidos eram de extrema gravidade. Eu que tomara conhecimento do teor do documento desde o início, por muitos havido como de minha lavra, o que não era bem verdade, pois que não o redigi, apenas revi a fraseologia e linguagem, indaguei dos rapazes se eles tinham provas objetivas de tudo quando denunciaram, e afirmavam que sim, porquanto, do contrário, corriam sério risco de exemplar punição. Não tomar medida nenhuma comprometeria a Congregação, inda mais que estava próxima a reunião do Supremo Concílio. Punir os signatários do documento comprovaria evidente parcialidade. Apurar os fatos poderia acarretar pesadas críticas e desprestigiar a Direção do Seminário. Como algo teria de ser feito, decidiu a Congregação encarregar uma comissão de professores, de que eu não fazia parte, de, à base do Manifesto, elaborar um questionário a ser respondido, de surpresa, pelos alunos. Constou de vinte e oito quesitos que abordavam todos os aspectos envolvidos, menos questões políticas. Era esperança de muitos que os acusados negassem o que deles se dizia e os não-acusados pouco ou nada confirmassem que pudesse convalidar as denúncias contidas no Manifesto. Dos acusados apenas um se furtou a responder objetivamente, os demais todos confessaram as faltas denunciadas; dos signatários, um recuou do que havia subscrito, justamente Gilson Barbosa Gomes, que de início se mostrara tão inconformado, os não-denunciados, por sua vez, confirmaram os fatos incriminados. A Congregação não teve outra solução senão encaminhar todo o material ao supremo Concílio para apreciação. Os quinze estavam vindicados!

A Congregação não puniu os alunos que haviam desrespeitado a sua Resolução nem repreendeu o mestre que os incitou a fazê-lo, tendo até mesmo, segundo admite, ajudado na redação da peça. Não vindo a punição, considerei-me moralmente justificado, nessas circunstâncias, a também ignorar a Resolução da Congregação e publicar o terceiro número do jornal — e foi isso que fiz. 

Foi este o meu Editorial no terceiro número de “O CAOS em Revista”, publicado em 18 de Maio de 1966:

Novo dia 18. Novo “O CAOS em Revista”. Até aqui temos podido ser pontuais. Esperamos poder continuar a sê-lo.

Muitas coisas aconteceram em nossa casa desde que o segundo número saiu. Dentre elas merece destaque, não pelo conteúdo, mas pela repercussão, o Manifesto (na falta de melhor palavra) que um grupo de quinze alunos endereçou aos membros da Igreja Presbiteriana do Brasil, delatando coisas que se passam aqui dentro (e até as que não se passam), separando estas coisas de seu contexto, julgando-as erradas e pedindo punição para quem as comete. Deve ser dito ainda que o referido manifesto está sendo espalhado ilegalmente, pois não passou pela Congregação, canal competente para o envio de qualquer documento dos alunos para fora dos limites do Seminário.

“O CAOS em Revista” lamenta o sucedido. Lamenta por várias razões.

Em primeiro lugar, o referido manifesto veio dividir definitivamente nossa comunidade. Antes dele havia correntes, tendências divergentes, que não chegavam, contudo, a ser grupos. Havia mesmo aqueles que eram neutros a qualquer corrente: os que se chamavam de “a terceira força”. O manifesto, no entanto, acabou com tudo isto, criando dois grupos apenas: o dos que assinaram o manifesto (quinze) e o grupo dos restantes. Este fato decepou qualquer esperança de se poder viver em real comunidade aqui.

Em segundo lugar, lamenta pelo simples fato de que “roupa suja se lava em casa”.

Lamenta, ainda, pelo mal que os colegas signatários do referido manifesto vão causar ao membros da IPB, escandalizando-os desnecessariamente. Porque o instrumento de escândalo não são tanto os que cometeram determinadas coisas tidas por erradas quanto os que as espalharam a um contexto inteiramente diferente e não preparado para ouvi-las. Se observarmos o que Paulo tem a dizer a respeito do comer carne de porco, vamos notar que o erro não estava no comer em si, mas no escândalo que isto podia causar. Correto. São feitas e ditas coisas aqui dentro de nosso dormitório e de nossos quartos (não tantas e tão terríveis quanto o referido manifesto pretende que sejam) que não escandalizam ninguém no ambiente em que estão sendo feitas e ditas. Levadas, contudo, para um ambiente não preparado para ouvi-las, estas coisas servem de escândalo. O culpado deste escândalo, contudo, não é quem faz o ato, mas quem o espalha para um ambiente não preparado para ouvi-lo.

Isto é o que mais lamentamos no manifesto. Não lamentamos o mal que seus signatários pretenderam causar aos outros, “neutros e liberais”. Lamentamos, sim, pelo mal que causarão e já estão causando, inconscientemente, a uma enormidade de crentes inocentes, que não precisavam saber das dificuldades internas de nossa casa, que, porque internas, deveriam ser resolvidas aqui dentro. A atitude dos que assinaram o manifesto, dos que orientaram ou estimularam a sua confecção, dos que o estão enviando e distribuindo não é nada pastoral em relação aos membros da Igreja que eles querem salvar! Eles, os responsáveis pelo manifesto, não tinham o direito de escandalizar os membros humildes e inocentes das nossas Igrejas. Por isso é que reputo correta a opinião de um pastor que ao receber o manifesto disse: “Isto é antes de um ato de covardia para com os membros da Igreja!” É construindo e não destruindo que se deve alcançar um objetivo.

“O CAOS em Revista” registra, pois, com pesar, esta mancha negra nos anais do corpo discente desta casa. Continuaremos, porém, a lutar, de modo franco e legal, à luz do dia, através do diálogo leal, para que cada um tenha a liberdade de pensamento e ação indispensáveis à vida de cada verdadeiro homem, de cada verdadeiro cristão. É com o intuito de restabelecer diálogo que o redator escreveu o artigo “Parafraseando”. Ele tem esperado em vão a contribuição dos colegas. E ainda espera. Por que algum dos colegas signatários  do manifesto não se decide a um diálogo franco em lugar de fazer ataques subversivos e inesperados? É uma tática mais madura e mais máscula. As páginas de “O CAOS em Revista” estão à espera.

Enquanto isto, colegas, lutemos para que, em nosso meio, cada um possa ter a autonomia de pensamento que o cristão precisa ter. “Lembrai-vos sempre de que não existe felicidade sem liberdade, e de que o fundamento da liberdade é a coragem” (Péricles, Discurso aos Atenienses, citado por Tucídides, em A Guerra do Peloponeso, Livro 2, citado por Celso Furtado, Dialética do Desenvolvimento, p. 7).

O artigo “Parafraseando”, citado no Editorial, foi este, também escrito por mim:

“Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9).

Certa vez, em uma Faculdade Teológica, passaram a existir dois grupos: um que se dizia “conservador” e outro que era taxado de “modernista”. Certo dia os conservadores oraram assim: “Ó Deus, graças te damos porque não somos como os demais colegas: defensores da libertinagem e da imoralidade, fumantes e beberrões, defensores do amor livre, mantenedores de simpatias pronunciadamente esquerdistas, irreverentes, cínicos, contadores de piadas e desrespeitadores da dignidade feminina. Louvamos-te, ó Deus, porque assim não o somos. Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste; nós, por ocasião das refeições, ficamos quietos: chegamos a bater palmas e a sorrir para mostrar nosso amor cristão, mesmo quando são proferidos discursos que nos criticam; aceitamos a Bíblia toda como palavra inspirada de Deus; estamos sempre aos pés dos líderes da Igreja para aprender deles como agir honesta, franca e desinteressadamente; saímos três ou mais vezes por semana para pregar a tua palavra, embora nosso estudo seja com isso prejudicado: contudo, teu sábio servo do passado já dizia que “o muito estudar é enfado da carne” — aliás o teu Espírito colocará nos nossos lábios a mensagem, mesmo que nada tenhamos estudado! Ó Deus, atenta para isto: somos fiéis servos e testemunhas da tua palavra aqui neste Seminário; para conseguirmos sê-lo chegamos até a desrespeitar as leis da Congregação, ó Deus, pois mandamos, por trâmites ilegais, um formidável manifesto aos crentes da tua igreja, condenando tudo o que de errado se passa aqui dentro, fora do nosso grupo, evidentemente; por amor à tua causa, ó Deus, chegamos ao ápice da ousadia e da coragem ao afirmar que as próprias autoridades que dirigem este Seminário não parecem estar em condições de agir com firmeza. Mas nós o estamos, ó Deus, e te agradecemos por isto.”

O resto todo o mundo sabe. Aquela criatura de tão excelentes qualidades, o fariseu da parábola de Jesus, não foi o que desceu para casa justificado, mas sim aqueles que era roubador, injusto e adúltero, aquele que era um pária moral na sociedade de sua época. Estranho, não? Mas real. No entanto seria bom perguntar por que o fariseu, que era o pietista, o legalista, o moralista, o ortodoxo da época de Jesus, não foi justificado. A razão parece óbvia, embora muitos não a queiram ver: o fariseu não foi justificado porque colocou como critério de sua auto-avaliação diante de Deus o seu próximo, o publicano. E, nestas circunstâncias, aferindo-se por um critério imperfeito, o fariseu jactou-se diante de Deus, orgulhou-se, e creu que poderia trazer nas mãos e apresentar diante de Deus algo de bom: o seu comportamento, o seu modo de agir, o seu zelo pelo cumprimento da lei divina. E não foi justificado embora praticasse atos muito bons em sua vida, se os considerarmos isolados de sua motivação e de seu contexto. Porque todas as vezes que nos avaliamos por critérios e padrões imperfeitos nos tornamos orgulhosos.

Às vezes este orgulho é disfarçado sob a capa de uma pseudo-humildade, sob palavras tais como estas: “Somos os primeiros a reconhecer nossa imperfeição, nosso pecado, nossas falhas, nossa pobreza espiritual, nossas deficiências em todos os sentidos, contudo…” (grifo meu). Não são, no entanto, nossas palavras a coisa que tem importância primária. É nossa atitude que, lhes subjaz, que é o primariamente importante. Mesmo que pronunciemos, em lágrimas e com o coração sangrando, palavras que falem a respeito de nossa humildade, se nossa atitude for a de um juiz apontando erros nos outros, não estaremos sendo humildes, mas orgulhosos.

Será bom perguntar porque sentimos um prazer imenso em apontar as falhas, erros e os defeitos dos outros, principalmente quando estes são pessoas mais preeminentes que nós, em outros setores, ou talvez no mesmo a que nos dedicamos. Porque no instante que fazemos isto podemos nos jactar e nos consolar intimamente, dizendo: “embora fulano seja melhor estudante que eu, embora se destaque mais em certos círculos, na hora em que souberam que ele faz isto e aquilo eu subirei na cotação do povo, mediante o rebaixamento do outro!” A raiz de todo mexerico, fuxico e de toda delação está nesse nosso desejo de nos compararmos com os outros e de ver neles falhas, e de torná-las ainda mais negras, através de generalizações precipitadas e de mentiras mesmo, porque assim teremos maior realce. Isto até me faz lembrar da história daquela ordem de monges, que nada mais tendo de que se orgulhar orgulhavam-se de sua humildade!

O erro do fariseu não foi fazer todas aquelas coisas. Foi comparar-se com o que não fazia, e julgar-se superior, julgar-se na condição de juiz do seu próximo. Todas as vezes que nos aproximamos de Deus auto-avaliando-nos por critérios imperfeitos nos tornamos orgulhosos, e nos sentimos no direito e em condições de apresentar a Deus alguma realização nossa, algo que nos conceda mérito diante dele. E todas as vezes que assim fazemos estamos sendo fariseus: mesmo que aquilo que estejamos apresentando a Deus seja a nossa fé, seja a nossa “ortodoxia”, seja a nossa conduta impecável!

O mérito do publicano estava em que, quando quis avaliar-se, não tomou para si critérios humanos, e, portanto, imperfeitos, mas colocou o próprio Deus como padrão de sua auto-avaliação. E porque assim agiu sentiu-se imediatamente arrasado. Não viu mérito algum em sua pessoa. Diante de Deus ele não era nada. Então, não podia orgulhar-se. Simplesmente não tinha de quê. Só pode dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E foi justificado.

Como esta parábola deve ter chocado os ouvintes de Jesus! Como aquela crítica tremenda aos “santos” e “justos” fariseus, aos “ortodoxos”, e a setença de que o publicano havia sido justificado deve ter arrasado os ouvintes de Jesus! Justamente o publicano, que não era apenas “modernista e liberal”, mas HEREJE! No entanto, o impacto que a parábola causou nos ouvintes de Jesus foi esquecido e hoje a parábola não faz parte da Bíblia de muita gente tida por aí como exemplo de santidade.

Finalmente uma palavra aos “quinze”: o que fazeis, vós os que assinastes o manifesto, com textos tais como este (Lucas 18:9:14)? Simplesmente o ignorais? Por diversas vezes já tenho ouvido a acusação de que nós, os “modernistas”, recortamos a Bíblia, para fazer nossa exegese ou formular nossas doutrinas. Será que é verdade? Ou, em última instância, será que é toda a verdade? Porque o que posso perceber é que vós, os conservadores e “ortodoxos”, também a recortais, não através da exegese, mas através do vosso comportamento, através de vossas vidas! E, em assim fazendo, vos tornais mais liberais do que os próprios. Quero crer, no entanto, que assim o fazeis ignorantemente e não de espírito premeditado. Quero, com sinceridade, crer que é inconscientemente que extraís de vossas Bíblias, em vossa vida e através de vossa conduta, textos tais como o acima mencionado, que não é o único. Ou será que não percebestes que a vossa atitude em fazendo o manifesto que fizestes, não permite que a Parábola do Fariseu e do Publicano continue mais em vossas Bíblias? O mesmo se dá com textos tais como Mat. 7:1 sqq; Tiago 4:11-12 e outros.

Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os “quinze”, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  “não-ingênuos” que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles. Quando tiverdes adquirido um pensamento crítico e uma capacidade independente de avaliar as coisas, o que se dará do segundo ano em diante, embora haja alunos que já cheguem aqui com estas qualidades, então podereis observar o quanto fostes insensatos. E vos arrependereis muitíssimo. Pois então vereis porque as vossas expectativas de ter 2/3 dos alunos ao vosso lado (correspondentes ao I e II ano somados), expectativas estas bastante vivas no início deste ano, vieram a falhar, e sois apenas quinze em uma comunidade de quase oitenta. Tendes apenas dois do segundo ano em vosso meio. Os outros “abriram os olhos” (o que não significa que tenham se tornado “modernistas” – apenas perceberam quão estreitos sois). Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente. Mas é somente o tempo que vos poderá mostrar isto. É com paciência que espero que ele e o Espírito Santo (por que não?) realizem o seu trabalho.

Para se aquilatar a distância que separava pai e filho, eis a carta que meu pai escreveu ao meu colega Evandro Luiz da Silva, signatário do Manifesto dos Quinze, e, por um tempo, muito admirado por meu pai (depois se desentenderam):

Esta carta, dirigida a você e extensiva aos seus colegas que assinaram  aquele manifesto, é para dar-lhes o meu apoio  integral e o meu grande abraço pela coragem, pela firmeza, e pela sinceridade que vocês demonstraram naquele brado de alerta. Graças a Deus, nem tudo está perdido. Estava faltando justamente isso que vocês revelaram naquele papel, estava faltando uma denúncia corajosa contra o atual estado de coisas no Seminário, mas uma denúncia partida aí de dentro, mesmo, de alunos que vivem aí e sentem o drama em suas próprias carnes. Quando os de fora acusavam, eram taxados de exagerados, de ignorantes da vida do Seminário, de inimigos dos alunos. Mas agora vocês fizeram o que já deviam ter feito há muito tempo: Deram o alarme! E esse alarme irá despertar a Igreja Presbiteriana e estimular outros alunos que devem estar sentido o mesmo nos outros Seminários. Sei que vocês irão sofrer com a atitude que tomaram, irão ser mal compreendidos, até por alguns de seus próprios Presbitérios. A acusação é tão forte (e diz a verdade) que muitos não acreditam, porque uma grande parte do ministério não sabe o que se passa aí na ex-Casa de Profetas. Vocês sofrerão, mas tenham coragem: vocês não estão sozinhos. Continuem firmes, e Deus os abençõe. O abraço do amigo e companheiro de lutas, Oscar Chaves, pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André.

PS. A única nota triste daquele manifesto, para mim, é não estar lá a assinatura do meu filho.

O artigo “Parafraseando” lança várias farpas contra o mentor dos “Quinze”, o Rev. Waldyr Carvalho Luz. É ele o “rabino” mencionado na frase “Nós fazemos reunião de oração diariamente, ocasião em que um rabino nos instrui a respeito das idéias ortodoxas da tua palavra e a respeito do calvinismo clássico que tu nos legaste”.

Também é o Rev. Waldyr o presumido “não-ingênuo” (deliberadamente entre aspas) que manipulou os “Quinze”, mas que estava sendo manipulado pela direção da Igreja, a quem eu acuso, quando digo: “Minha opinião particular é que fostes, a maioria de vós os ‘quinze’, ingênuos simplesmente. Não pudestes perceber as dimensões do que fizestes. Os outros, os  ‘não-ingênuos’ que vos manipularam, não passam também de ingênuos nas mãos de outros menos ingênuos do que eles.” (Alguns anos depois, o próprio Rev. Waldyr seria expulso do Seminário, junto com o Rev. Américo Justiniano Ribeiro).

Também é ao Rev. Waldyr que faço menção quando digo: “Então (quando adquirirdes um espírito crítico mais aguçado, na pressuposição de que este Seminário vai ajudar-vos a aguçá-lo), vereis porque é que um professor que luta ano a ano para ver seu circulo de influência crescer não consegue, cada ano, fazer com que sua influência abranja senão um pequeno número de calouros. Seu contato influente com os alunos termina em três semestres. Vereis porque de professor de mais ou menos cinco matérias veio ele a lecionar apenas uma, presentemente.”

A única disciplina que o Rev. Waldyr acabou lecionando no Seminário era Grego — uma matéria na qual era excelente professor, mas que era desprovida de maior conteúdo teológico, e, portanto, não suscitava muita controvérsia (exceto pelo método do professor, que teve que ser revisado várias vezes, especialmente no tocante às suas famosas “topadas”, ou provas sem data marcada). Enquanto eu estudava no Seminário a Congregação tentou atribuir-lhe a disciplina “Exegese do Novo Testamento”, mas os alunos se recusaram a tê-lo como professor.

Em sua autobiografia o Rev. Waldyr dá sua própria versão desses fatos. Procura explicar-se e até certo ponto defender-se da acusação, nunca no texto explicitada, de que seu comportamento foi no mínimo incoerente. Foi inicialmente o paladino e o maior defensor das mudanças que a Igreja procurava realizar dentro do Seminário. Quando as mudanças finalmente o alcançaram, virou repentinamente crítico da administração, passou de telhado a estilingue, assumiu posturas de oposição.

[Estou, no momento (2015), escrevendo um artigo com o título “Das Trevas para a Luz”, sobre o Rev. Waldyr Carvalho Luz, que, quando pronto, será publicado aqui. EC]

No que me diz respeito, sempre usou sua famosa retórica para (do seu ponto de vista) atacar-me, sem jamais explicitar o meu nome. Eis, por exemplo, um outro incidente que ele relata a meu respeito:

Boa amostra do espírito desse aluno [o editor do jornal] dá-o o seguinte fato. A Editora da tradução do NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA para o português pediu-me fazer a concatenação dos itens compostos para impressão. Como eu não dispunha de tempo para esse trabalho, sugeri algum seminarista. Autorizado pela editora, consultei o referido escrivinhador, moço inteligente, de bom preparo, competente para esse mister. Quis saber primeiro quanto lhe pagariam. Quando lhe disse qual a remuneração prevista, ele que estava em férias, com muito tempo disponível, apesar de tratar-se de livro importante para o povo crente, respondeu que por esse preço não faria o trabalho. Procurei, então, outro seminarista, Célio João Duarte, modesto, firme de convicções, piedoso e consagrado, que, ao dizer-lhe da gratificação oferecida, se prontificou a fazê-lo de graça para ajudar a Igreja, aceitando a custo o minguado pagamento proposto. Não pude deixar de contrastar a atitude dos dois: aquele, avançado de idéias, defensor dos postulados sociais, argentário e ambicioso, a preocupar-se com o dinheiro, este, conservador de pensamento, fiel à doutrina da Igreja, dominado pelo espírito de servir à Causa, desprendido e indiferente a recursos materiais. Era incontestável evidência do espírito diferente gerado pelas duas posições teológicas antagônicas. E enquanto este entrou para o ministério, pastor fiel e dedicado que o tem sido, aquele ‘arripiou carreira’ e hoje parece nem religião ter!

Devo deixar aqui registrado que, em todo esse processo, o Rev. Waldyr, não sei se em respeito ao meu pai, ou em consideração à “promessa intelectual” que, para ele, eu representava, sempre me tratou, no nível pessoal, de forma extremamente cortês, naquela época e depois. O mesmo não posso dizer de sua esposa, Da. Amélia Luz, que, um dia, na saída da Escola Dominical da Igreja do Jardim da Guanabara, que funcionava no prédio do Seminário, investiu contra mim, tirando satisfações pelas críticas que fazia ao seu marido, falando aos gritos e criando um verdadeiro escândalo no pórtico do Seminário. Que me lembre, não lhe disse nada, em resposta. Sempre tive receio de altercações verbais públicas, preferindo, consistemente, a via escrita para me debater. (Recentemente, neste ano de 2006, por ocasião do enterro de minha tia, Alice de Campos Sanvido, encontrei Da. Amélia Luz, que me tratou de forma cortês).

Voltando para 1966, eu pretendia publicar um quarto número de “O CAOS em Revista” no mês de Junho – no dia 18, para manter a regularidade. Esse número não saiu. Explico porquê.

No fim de Maio e início de Junho percebi que a história ia acabar mal. A situação política do país prenunciava um endurecimento político, e, dentro da Igreja, parecia certa a vitória do candidato da reação, Rev. Boanerges Ribeiro, que fazia campanha de Norte a Sul do Brasil, prometendo, entre outras coisas, “limpar” e “desinfetar” (ou “salvar”) os Seminários.

O Manifesto dos 15 começava a surtir efeito também. Algumas Igrejas, entre elas uma de Belo Horizonte e outra do Presbitério de Rio Claro, ajudaram a espalhar o Manifesto pelo Brasil, como prova de que precisava ser eleito um Presidente do Supremo Concílio que tivesse, como parte de seu programa, a “salvação” do Seminário. O circo estava armado.

A Congregação do Seminário apertava o cerco. Embora, em sua reunião de 19 de Abril, a Congregação houvesse decidido não se manifestar sobre o conteúdo dos dois primeiros números de “O CAOS em Revista”, apenas remetendo a questão ao meu Presbitério, depois do número de Maio ela se reuniu novamente e decidiu “reprovar energicamente” as matérias publicadas. Além disso, numa reunião da qual infelizmente não tenho a ata, mas cujo teor me foi oficialmente comunicado, a Congregação deu ordem explícita e inequívoca ao CAOS para não publicar mais nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, sem o visto escrito do Reitor ou do Deão. Por fim, o Redator recebeu, pessoalmente, uma repreensão enérgica pela matéria dos três primeiros números e foi advertido de que seria exemplarmente punido por indisciplina no caso de reincidência.

Eu, com meus jornais, acabara por tornar-me o estopim da crise do Seminário de Campinas. Certamente não seria poupado em hipótese alguma. Assim sendo, saí a procurar emprego. Fiz um teste na Bêndix e, no dia 13/6, na Bosch, que me chamou em seguida. Comecei a trabalhar dia 20/6 — por ora ainda mantendo meu quarto no dormitório do Seminário. Como comecei a trabalhar no final do último mês do primeiro semestre, não me vi forçado a tomar nenhuma decisão. Resolvi, até certo ponto, deixar os fatos se desenrolarem por si mesmos.

Preparei, entretanto, um Editorial para o quarto número de “O CAOS em Revista”, que deveria sair em 18 de Junho (para manter o cronograma previsto) e que teria apenas um Editorial, que explicasse o que vinha ocorrendo, e uma seção do livro A Formação da Mentalidade (Mind in the Making), de James Harvey Robinson, então bastante popular aqui no Brasil [traduzido para o Português pelo grande Monteiro Lobato – EC em 2015], que eu considerava relevante para o entendimento do que estava acontecendo. É este o Editorial que escrevi:

Ainda um “O CAOS em Revista”. O último deste semestre. Os leitores já acostumados à sua leitura talvez notem que, neste número, “O CAOS em Revista” está um pouco diferente, em seu conteúdo, dos números anteriores: está menos vivo. Motivos vários contribuiram para que isso se desse, dentre os quais a falta de tempo do Redator e a falta de colaboração dos colegas no sentido de enviarem artigos, traduções, poesias, etc., para serem publicados.

Outro motivo ainda, a ser notado, é a ordem explícita e inequívoca da Congregação do Seminário Presbiteriano do Sul, que determinou que nenhum “O CAOS em Revista”, ou equivalente, fossem publicado sem o visto do Senhor Reitor ou do Senhor Deão. Esta ordem explícita, acrescentada da reprovação enérgica feita ao Redator, pela matéria contida nos três primeiros números do jornal, e da ameaça de punição por indisciplina em caso de reincidência, esclarecem, sem possibilidade de equívoco, a posição da Congregação e a posição que ela nos reserva. (Observe-se que os dois primeiros números do jornal foram julgados duas vezes pela Congregação. Na primeira vez, ela decidiu não opinar sobre eles, enviando-os ao Presbitério do Redator. Na segunda vez, por razões ignoradas, decidiu reprovar a matéria sobre a qual em vez anterior havia se omitido).

O campo que a Congregação nos permite abranger, contudo, trorna-se demasiado restrito quando notamos que ela considera a matéria contida no terceiro jornal fora da competência e do direito de manifestação de um jornal do corpo dicente. Torna-se difícil, pois, formular um jornal em que tratar de problemas que diretamente afetam a vida de todos os alunos é considerado “fora da competência” de um jornal de alunos.

Assim sendo, resolvemos, em protesto, transcrever uma seção (Seção 4, no Capítulo II) do livro A Formação da Mentalidade, de James Harvey Robinson. Se o trecho que será transcrito for lido em seqüência aos três primeiros números do jornal, poderá comunicar uma mensagem bastante relevante. É o que esperamos.

A matéria que seria transcrita do livro de Robinson procurava mostrar que a maior parte das pessoas não aceita as idéias que tem em função de exame crítico, mas, sim, em função das circunstâncias que se encontra. Aqui estão algumas passagens importantes:

Somos incrivelmente descuriosos da formação das nossas crenças, mas por elas nos enchemos de amor quando no-las querem roubar. Torna-se óbvio que não são propriamente as idéias que nos são caras, sim o nosso amor próprio. . . .

Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade, e a revolta sentida quando duvidam das nossas verdades estimula-nos a ainda mais nos apergarmos a elas. O resultado é que a maior parte do chamado raciocínio humano consiste em descobrirmos argumentos para continuarmos a crer no que cremos.  . . .

Esta distinção entre “boas” e “reais” razões é das mais importantes nos domínios do pensamento. Podemos de pronto dar o que chamamos as nossas “boas” razões para sermos católicos ou maçons, republicanos ou democratas, amigos ou inimigos da Liga das Nações. Mas as razões “reais” ficam em outro plano. Não há dúvida que a importância desta distinção é notória, embora obscura. Um missionário batista concorda prontamente em que o budista não é budista por conseqüência do cuidadoso estudo que fêz dessa crença, mas simplesmente porque nasceu numa família budista de Tóquio. Mas considerará ofensivo à sua fé reconhecer que a sua parcialidade para com certas doutrinas provém de ter tido ele uma progenitora afiliada à igreja batista de Pudlebuyry. . . . Mas nem um nem outro perceberá por que motivo está defendendo as suas opiniões pessoais.

As razões “reais” das nossas crenças vivem ocultas des nós mesmos, tanto quanto dos outros. À medida que crescemos, muito naturalmente vamos adotando as idéias ambientes relativas à religião, às relações de família, à propriedade, aos negócios, ao governo. Absorvêmo-las, de tanto ouvi-las zumbir em torno de nós, no seio do grupo em que vivemos. Ademais, como Totter notou, essas idéias, como produto da sugestão e nunca do raciocínio, possuem o característico de parecerem perfeitamente óbvias. . . .

Este espontâneo e leal apoio aos nossos preconceitos — este processo de descobrir “boas” razões para justificá-los — recebe dos cientistas modernos o nome de “racionalização” — palavra nova para coisa muito velha. Nossas “boas” razões nada valem para o honesto esclarecimento de um assunto, porque, por mais solenemente que sejam apresentadas, não passam, no fundo, de resultados de preferências pessoais, ou preconceitos, não refletindo nenhum sadio desejo de acertar. . . .

O fato de uma idéia ser antiga e largamente espalhada não constitui argumento a seu favor, mas sim argumento para que tal idéia seja estudada e testada, a fim de verificarmos se não passa de mera racionalização.

O Reitor e o Deão não aprovaram nem o Editorial nem a matéria a ser transcrita do livro de Robinson – e o jornal abortou.

Preparei ainda um quinto número do jornal, para ser publicado dia 18 de Agosto, mas com o aborto do número anterior, o quinto, evidentemente, não viu a luz do dia: fui expulso da instituição antes.:

Temos em mãos o que seria “O CAOS em Revista” do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de “O CAOS em Revista” sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.

Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.

Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta “renovação”, pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse “remanescente de uma época de cavalaria”, para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.

Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: “Muitos preferem morrer a pensar”. Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: “Muitos preferem morrer a pensar”. A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da “preguiça intelectual” daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de “will to power”. E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o “caminho largo”, mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.

“Contudo”, talvez diga alguém, “o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos ‘modernistas’ que não crêem no Espírito Santo?” Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos “situacionistas” presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!

Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio — carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do “Manifesto dos 15”, reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a “orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores”. Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:

“a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.
. . . . .
c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários”.

Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:

“Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:

— ‘Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários’.
— ‘IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários’.”

Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os “telegramas-padrão”. Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos “telegramas-padrão” e com os planos do partido vitorioso.

E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. “O CAOS em Revista” sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. “O Pequeno Inquisidor”, colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da “inquisição” que nos visitou aqui.

O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.

E até breve.

O até breve foi um até nunca mais.

Com exceção dos signatários do Manifesto dos 15, nenhum dos demais alunos do Seminário pode se matricular normalmente no segundo semestre de 1966. Para ter direito à matrícula, teriam de assinar um documento em que se comprometiam a se comportar, em doutrina e comportamento, como o Seminário exigiu. Para sua honra, nenhum o fez. Assim, fomos todos literalmente expulsos do Seminário Presbiteriano de Campinas em Agosto de 1966.

Em 8 de Setembro daquele ano, o funesto ano de 1966, não houve celebração no Seminário. E o CAOS não jogou futebol contra ninguém: o CAOS havia sido fechado. Pensaram que com isso acabaria o caos. Não acabou. 

Transcrito em “Liberal Space” em Campinas (ainda!), 8 de Setembro de 2006 

Transcrito aqui em São Paulo, 7 de Novembro de 2015.

Minha Gestão na Direção da Faculdade de Educação da UNICAMP (1980 a 1984) *

Fui Diretor da Faculdade de Educação de Abril de 1980 a Abril de 1984. Antes disso, fui Diretor Associado, na gestão do Prof. Antônio Muniz de Rezende (Abril de 1976 a Abril de 1980). Fiquei, portanto, na Direção da Faculdade, como Diretor ou Diretor Associado, durante os oito anos que se seguiram aos quatro anos iniciais da Faculdade, em que ela foi dirigida pelo finado Prof. Marconi Freire Montezuma (do início, em 1972, até Abril de 1976). Embora tenha ativamente participado da gestão da Faculdade enquanto Diretor Associado, vou limitar minhas observações ao período em que ocupei o cargo de Diretor, visto que o Prof. Rezende cobrirá o quadriênio em que ele exerceu este cargo.

Vou procurar reunir minhas considerações, admitidamente muito pessoais, ao redor de seis temas:

  • O Processo de Escolha
  • A Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores
  • A Crise de Outubro de 1981
  • A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional
  • Rápida Apreciação
  • O Futuro

I. O Processo de Escolha

O implantador e primeiro Diretor da Faculdade de Educação foi escolhido através de decisão pessoal do então Reitor da Universidade, Prof. Zeferino Vaz. A escolha recaiu inicialmente sobre o Prof. José Aloísio Aragão, que, entretanto, veio a falecer, sendo, em seu lugar, escolhido o Prof. Marconi Freire Montezuma, que, contudo, apenas respondeu pelo expediente da Direção. (O Prof. José Aloísio Aragão era irmão do Dr. Francisco Alcilone Aragão, que, desde a criação da Faculdade até a sua aposentadoria, exerceu função que, na prática, era a de Secretário da Faculdade).

O segundo Diretor, Prof. Antônio Muniz de Rezende, também foi nomeado pelo Reitor Zeferino Vaz, que acatou a indicação feita pelo Prof. Montezuma. Este fez sua indicação depois de consultar vários membros da então pequena comunidade da Faculdade, tendo o nome do Prof. Rezende alcançado consenso entre os consultados, apesar de ele haver chegado à Faculdade pouco tempo antes (cerca de um ano).

No meu caso, o processo de escolha foi mais elaborado e, do ponto de vista da democracia, representou certo avanço. Já havia, na Faculdade, um Colegiado, que fazia as vezes da futura Congregação, que não podia ainda ser implantada em virtude de uma alegada não institucionalização da Faculdade. Do Colegiado participavam o Diretor, o Diretor Associado, os Coordenadores de Curso, os Chefes de Departamento, os representantes dos vários níveis docentes e representantes dos alunos de Graduação (Pedagogia e Licenciatura) e Pós-Graduação. Cada Departamento, cada nível docente e cada categoria de alunos se reuniu, discutiu a questão, e veio ao Colegiado com uma lista de nomes que representava um elenco hierarquizado de preferências. Meu nome alcançou consenso, tendo obtido o voto de todos os dezenove participantes da reunião do Colegiado. Para compor a lista a ser encaminhada ao Reitor – então já o Prof. Plínio Alves de Moraes – foram usados nomes de outros docentes da Faculdade, menos votados (já que cada participante da reunião podia votar em até três nomes). Com o respaldo da decisão do Colegiado, minha indicação para a Direção foi encaminhada ao Reitor pelo Prof. Rezende.

Minha nomeação, entretanto, demorou um pouco para sair, porque havia jogo de pressões nos bastidores, do qual participaram vários elementos da cúpula da Universidade que não estavam totalmente satisfeitos com o meu nome, em grande parte em virtude de meu ativo envolvimento, enquanto Diretor Associado, na famosa greve de 1979 e no processo de contratação do Prof. Paulo Réglus Freire, naquele mesmo ano. Neste episódio, em particular, eu, na qualidade de Diretor Associado da Faculdade, no exercício da Direção (o Prof. Rezende estava afastado), havia, à revelia da Reitoria, enviado uma carta, co-assinada pelo Reitor da PUC-SP, ao Ministério das Relações Exteriores, solicitando a liberação de passaporte para o Prof. Paulo Freire, que se encontrava na Suíça, visto que tínhamos, a Faculdade de Educação da UNICAMP e a PUC-SP, interesse em contratar o Prof. Paulo Freire – algo que, de fato, eventualmente ocorreu. Essa carta, graças à atuação bem intencionada mas desastrada do Prof. Moacir Gadotti (que, tendo, em Genebra, sido “apadrinhado” do Prof. Paulo Freire, acabou se tornando seu “padrinho” aqui no Brasil), recebeu desmedida atenção da imprensa local, dado o fato de que o Prof. Paulo Freire estava proscrito, proibido de retornar ao país, etc. É oportuno lembrar que a anistia “ampla, geral e irrestrita” não havia ainda sido concedida. Lembro-me bem, entretanto, do dia em que o Prof. Plínio me comunicou, durante a festa de casamento de um dos filhos dos Profs. Morency e Lucila Arouca, que minha nomeação estava saindo, como de fato saiu. Os elementos da cúpula da Universidade que resistiam ao meu nome não haviam, porém, desistido da luta, como ficaria claro 18 meses depois, na chamada Crise de 1981.

Minha gestão pode ser dividida em duas fases, separadas pela Crise de 1981. A primeira, que durou exatos 18 meses (de Abril de 1980 até a eclosão da crise, em Outubro de 1981), foi dedicada principalmente a atuação externa, no âmbito da Universidade. A segunda fase durou exatos dois anos, de Abril de 1982 a Abril de 1984. A crise durou exatos seis meses.

II. Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores

A gestão do Prof. Zeferino Vaz na Reitoria foi a do homem forte que era. Embora houvesse homens fortes na Direção de algumas unidades durante sua gestão, não havia dúvida de que eles, caso discordassem do Reitor, eventualmente seriam alijados de sua posição, como cabalmente demonstraram os “affaires” Fausto Castilho, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, e Marcelo Damy de Souza Santos, no Instituto de Física.

Preferiu o Prof. Zeferino ser sucedido por alguém que não lhe fizesse sombra, e, assim, conseguiu, junto ao então Governador Paulo Egydio Martins, que fosse nomeado como seu sucessor o Prof. Plínio Alves de Moraes – pessoa boníssima, a quem respeito até hoje, mas sem a menor condição política de exercer o cargo de Reitor, especialmente diante de um Governador forte, como era o caso de Paulo Salim Maluf, que assumiu o cargo em 1979. O Prof. Plínio foi o terceiro da lista enviada ao Governador Paulo Egydio Martins.

O Prof. Plínio, sendo um Reitor politicamente fraco, deixou espaço para o fortalecimento político dos Diretores, enquanto grupo, dentro da Universidade – especialmente daqueles Diretores que, tendo sido indicados, pela primeira vez na Universidade, por processo razoavelmente democrático de consulta e votação, estavam respaldados por sua comunidade. O resultado disso foi que os chamados “Diretores Democráticos”, com apoio da Representação Docente no Conselho Diretor (inexistia ainda o Conselho Universitário), ocuparam o vazio deixado pela fraqueza do Reitor – com a simpatia deste mas contra a vontade de seus acólitos, em especial do Dr. Paulo Gomes Romeu, “raposa velha”, então Vice-Reitor, como houvera sido na gestão do Prof. Zeferino Vaz, ex-Presidente do Conselho Estadual da Educação e burocrata por vocação; Dr. Pérsio Furquim Rebouças, Procurador-Geral da Universidade, de inexcedível incompetência, mas para quem a função de Procurador da Universidade nada mais era do que uma excelente ocasião de ajustar as leis e as normas à vontade daqueles a quem pessoalmente servia; Sr. Zuhair Warwar, Coordenador da Administração Geral, que cobria de mistério os mais elementares processos operacionais para que pudesse tipificar como gênio administrativo toda vez que isso pudesse lhe trazer algum dividendo, político ou de outra natureza; e Dr. Arnaldo Camargo – ex-Delegado do DOPS, com contatos nos mais recônditos porões da Ditadura Militar, figura tétrica e ameaçadora, que serviu de Chefe de Gabinete tanto do Prof. Zeferino Vaz como do Prof. Plínio Alves de Moraes. Que eu saiba, o único que teve coragem de enfrentar o Dr. Camargo foi o Prof. Rezende. Ele certamente se lembra disso.

Quando assumi a Direção da Faculdade, em Abril de 1980, estava em pleno processo de consolidação o “Grupo dos Diretores Democráticos”. Desde que o Prof. Plínio assumiu a Reitoria da UNICAMP, em 1978, ficou claro que a saída do Prof. Zeferino da Reitoria criara um vácuo de poder. Enquanto viveu o Prof. Zeferino, ele ainda se imiscuiu muito nos negócios da Universidade. Entretanto, após sua morte, em Abril de 1981, o vácuo ficou clamando para ser preenchido e os Diretores, que vinham gradativamente, e um pouco nas sombras, assumindo os espaços, e, assim o poder, no âmbito do Conselho Diretor, começaram a se articular mais às claras, junto com a Representação Docente, para assumir a Direção da Universidade, conduzindo o processo de sucessão do Prof. Plínio.

Faziam parte do Grupo o Prof. Maurício Prates de Campos Filho, da Faculdade de Engenharia (que incluía em uma só as atuais Faculdades de Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica e Engenharia Química), e que era reconhecidamente o líder do grupo; o Prof. Carlos Franchi, do Instituto de Estudos de Linguagem; o Prof. André Maria Pompeu Villalobos, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (que então englobava o atual Instituto de Economia); o Prof. Yaro Burian Júnior, do Instituto de Artes (apesar de ser Engenheiro Elétrico); o Prof. Aécio Pereira Chagas, do Instituto de Química; o Prof. Carlos Alfredo Argüello, do Instituto de Física; a Prof. Ayda Ignez Arruda, já falecida, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (que então englobava o atual Instituto de Computação); e eu, da Faculdade de Educação. Ao todo, oito Diretores.

Na divisão de tarefas, coube-me ser Presidente da Comissão de Orçamentos e Patrimônio (COP) do Conselho Diretor, função para a qual fui eleito em 1980 e reeleito em 1981. Junto com a Comissão de Legislação e Normas (CLN), que era presidida pelo meu colega e amigo, Prof. Rubem Azevedo Alves, então representante dos Professores Titulares no Conselho Diretor, a COP tinha um potencial político explosivo. Entre outras funções, tinha a atribuição de examinar as finanças da Universidade e de analisar a proposta de orçamento, recomendando ao Conselho Diretor as prioridades para a alocação de recursos. As comissões anteriores sempre haviam referendado o que o Coordenador da Administração Geral (Zuhair Warwar) lhes trazia pronto. A COP presidida por mim resolveu mexer em vários vespeiros: os contratos com a Ensatur (de propriedade do Deputado Nabi Abib Chedid), que tinha exclusividade no transporte fretado de funcionários, professores e alunos (visto que os ônibus urbanos de Campinas não chegavam até o campus); o processo de compras de gêneros alimentícios para os restaurantes, que envolvia recursos vultosos e era precedido de obscuras licitações; as verbas destinadas aos programas de residência médica no Hospital de Clínicas, que eram menina dos olhos do Prof. Zeferino; as gratificações dos altos funcionários da Universidade; etc. Na minha gestão na Presidência da COP o Conselho Diretor começou a democratizar o processo de preparação do orçamento e de execução orçamentária, com resultados que se mostraram assustadores para a cúpula da Universidade. A Administração Geral da UNICAMP (leia-se: Zuhair Warwar) fez guerra surda o tempo todo, em função da perda de poder, da revelação de quanto se gastava com a Ensatur e com as compras de gêneros alimentícios, etc.. Os Médicos Residentes fizeram greve por não desejarem que sua remuneração fosse fixada pela FUNDAP, conforme determinação do Governo, e porque queriam que se alocassem recursos para seu pagamento diferenciado, pretensão negada pela COP. Os funcionários mais altos da Universidade ganharam uma polpuda gratificação da Reitoria, mas a COP não alocou recursos para seu pagamento, o que fez com que entrassem todos com processos na Justiça. Em termos de democratização de procedimentos, é importante registrar que, quando da programação orçamentária e da concessão de suplementação de verbas, fazia-se uma reunião da COP com todos os Diretores para decidirem, em conjunto, como distribuir os recursos. Isso, naquela época, era inusitado.

Em conversas pessoais, o Reitor estimulava o ataque aos burocratas encastelados na alta administração da Universidade. Nas reuniões do Conselho Diretor, entretanto, procurava não confrontá-los diretamente, embora em muitas ocasiões tenha deixado de lhes dar a sustentação a que haviam se acostumado.

Esse processo de arejamento do Conselho Diretor alcançou seu ponto mais alto quando o Conselho, contra a orientação e a vontade da Mesa, aprovou uma Resolução, decorrente de proposta do Prof. Rubem Alves, que deflagrava o processo de sucessão na Reitoria, definindo uma agenda que previa a apresentação de candidatos, definia um prazo para debates com a comunidade, e estipulava uma data, na segunda quinzena de 1981, para uma Consulta à Comunidade. O mandato do Prof. Plínio se encerraria (como de fato se encerrou) em Abril de 1982. A resolução do Conselho pretendia que, realizada a consulta, o Conselho a apreciasse, e, naturalmente, referendasse o seu resultado, durante o mês de Novembro, encaminhando ao Governador a lista de nomes em tempo mais do que hábil para a indicação do novo Reitor. Esperavam os Diretores e as Representações Docente e Discente que a lista sêxtupla a ser enviada ao Governador não lhe deixasse escolha: todos os seis nomes escolhidos pela comunidade e referendados pelo Conselho deveriam ser de professores afinados com o grupo considerado democrático.

Os oito Diretores mencionados atrás resolveram se candidatar à sucessão do Prof. Plínio. Dois representantes docentes no Conselho, os Profs. Hermano Tavares e Jorge Lobo Miglioli, também se candidataram. Também se apresentou candidato o Prof. Paulo Freire, que não era membro do Conselho mas se identificava com o grupo majoritário no Conselho. Além desses, apresentaram-se outros candidatos, não afinados com esse grupo, como os Profs. Rogério Cerqueira Leite (ex-Diretor do Instituto de Física e ex-Coordenador Geral das Faculdades), José Aristodemo Pinotti (ex-Diretor da Faculdade de Ciências Médicas), Morency Arouca (ex-Diretor da Faculdade de Engenharia Civil, então em Limeira), e Attílio José Giarola (ex-Coordenador Geral de Pós-Graduação e na época Coordenador Geral das Faculdades).

III. A Crise de Outubro de 1981

A Consulta à Comunidade com vistas à escolha do sucessor do Prof. Plínio estava marcada para a semana de 19 de Outubro de 1981. No dia 17, um Sábado, a comunidade acadêmica foi surpreendida com a publicação, no Diário Oficial do Estado, de uma Portaria do Reitor, datada do dia anterior, dispensando de suas funções os oito Diretores que eram candidatos ao cargo de Reitor, sob a alegação de que não eram Professores Titulares, visto que, segundo pretendia o Reitor (com base num parecer rapidamente forjado pelo Conselho Estadual de Educação, a pedido do Dr. Paulo Gomes Romeo), a expressão “Professor Titular” deveria ser interpretada como significando “Professor Titular Concursado”. Ressalte-se que, na Universidade inteira, naquele momento, só havia dois Professores Titulares Concursados: o Prof. Pinotti, que conseguira, a todo custo, e agora ficava claro porquê, fazer aprovar seu concurso no Conselho Diretor meses antes, e o Prof. Arouca, que havia feito o concurso na Universidade de São Paulo, de onde viera para a UNICAMP.

Ao mesmo tempo que exonerava os oito Diretores, o Reitor nomeou oito novos Diretores, prontamente batizados de Interventores pela comunidade. A pressa na nomeação dos novos Diretores fez com que a Reitoria não avaliasse o impacto político, e nem mesmo jurídico, de seus atos. Para a Faculdade de Educação foi nomeado o Prof. Eduardo Daruge, dentista e professor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Para algumas unidades foram nomeados professores de fora da Universidade.

Não é difícil imaginar a conturbação que a Portaria gerou na comunidade universitária. Imediatamente foi decretada uma greve que durou seis meses. A Consulta à Comunidade foi realizada, mesmo com a comunidade em greve, tendo a lista sêxtupla sido constituída, nesta ordem, pelos Profs. Paulo Freire, Maurício Prates, Carlos Franchi, Rogério Cerqueira Leite, Yaro Burian e por mim.

Alguns dos Interventores tentaram tomar posse e foram barrados dos prédios das respectivas unidades. O Interventor do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, de cujo nome felizmente não me lembro mais, mas que era de fora da Universidade, foi intencionalmente levado, pelo motorista da unidade, para um edifício muito distante, e teve que andar de volta até a Reitoria, perdido pelo campus, sob vaias e toda sorte de insultos, sendo alvo de moedas, balas, bolinhas de papel e outros pequenos objetos que lhe eram atirados. Na Faculdade de Educação o Prof. Daruge, depois de várias tentativas frustradas, finalmente conseguiu entrar no prédio, sendo recebido pelos membros do Conselho Interdepartamental da Faculdade que, através do Decano da Faculdade, Prof. Montezuma, então na Chefia do Departamento de Psicologia Educacional, lhe passaram, por ter aceito o cargo, severa e merecida descompostura, da qual o Prof. Daruge provavelmente nunca mais vai se esquecer até sua morte. O efeito imediato foi que o Interventor nunca mais colocou os pés nem mesmo perto da Faculdade de Educação. Consta que renunciou, mas a renúncia, se ocorreu, não foi publicada. De qualquer forma, ele sumiu.

Entrementes, a crise continuou e a Universidade permaneceu parada. De todo o país vieram moções de solidariedade à comunidade universitária agredida. Políticos de toda estirpe procuraram “faturar” em cima da crise, comparecendo ao campus, participando de reuniões, fazendo declarações, etc..

Alguns Interventores de pronto renunciaram, como o do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, um biólogo, que foi substituído pelo Prof. Carlos Rodrigues Lessa, professor de economista do próprio Instituto, em episódio que gerou enorme controvérsia no campus e manchou para sempre a reputação dos envolvidos. O nome do Prof. Lessa para substituir o Interventor original foi indicado à Reitoria pelos economistas da Universidade: Profs. Sérgio Salomé da Silva (Diretor Associado do Instituto, que exercia interinamente a Direção, na ausência do Prof. André), Ferdinando de Oliveira Figueiredo, Jorge Lobo Miglioli, Wilson Cano, João Manoel Cardoso de Mello, Luciano Coutinho de Oliveira, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Maria Conceição Tavares e Paulo Renato Costa Souza (então em fim de mandato como Presidente da ADUNICAMP). Alegavam esses professores (e outros que lhes davam apoio) ser melhor ter um “interventor democrático” a um interventor não-democrático. O Prof. Lessa, embora residisse no Rio de Janeiro, dava uma aula por semana no Departamento de Economia da UNICAMP (da mesma forma que a Profa. Maria Conceição Tavares), assim fazendo parte, oficialmente, do Grupo dos Economistas da UNICAMP, mas era Professor, aparentemente Titular Concursado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A indicação do Prof. Lessa foi aceita pela Reitoria, pois esta estava interessada em rachar o movimento e pôr fim à crise. O Prof. Lessa, sem nenhuma vergonha e nenhum escrúpulo, tomou posse do cargo do Prof. André, e foi prontamente considerado pelos economistas da UNICAMP o legítimo Diretor do Instituto.

Os economistas da UNICAMP, portanto, dispensaram qualquer sutileza e deram um “golpe branco” no Diretor legitimamente eleito do IFCH, o Prof. André. Abriram, assim, em proveito próprio, uma brecha no movimento. Sua iniciativa foi energicamente repudiada pela comunidade. O campus foi forrado de pichações e faixas dizendo “Fora Lessa, Interventor”. As reais intenções políticas do Grupo dos Economistas da UNICAMP começaram a ficar claras naquele momento para toda a comunidade universitária. A partir de então, os economistas da UNICAMP, através do Prof. Lessa e, frequentemente, também dos outros membros do grupo, tornaram-se aliados da Reitoria e deixaram de fazer parte da oposição ao ato de força do Reitor. Maquiavel não poderia ter encontrado melhor evidência de Realpolitik.

Para mim o episódio Lessa não teria sido doloroso se não tivesse levado vários professores da Faculdade de Educação, simpatizantes dos economistas, a propor que se buscasse uma “solução Lessa” também para a Faculdade de Educação. Deixo de mencionar os nomes dos que aderiram a essa proposta, por estarem ainda conosco, mas sua ideia era a de que era preferível encontrar algum Professor Titular Concursado democrático em alguma universidade, e convidá-lo para assumir a Direção da Faculdade, a correr o risco de ter um outro Prof. Daruge na Direção. Felizmente, e para crédito da comunidade da Faculdade de Educação, os proponentes dessa tese ficaram na minoria e ela não prosperou.

Achei que era chegada a minha vez de agir sozinho. Com a assessoria da Dra. Ana Maria Tebar, amiga pessoal e advogada que trabalhava na Secretaria Geral da Universidade, foram rascunhadas as linhas mestras de um Mandado de Segurança contra o ato do Reitor. Usamos argumentos próprios e outros que foram apresentados pelo Prof. Dalmo de Abreu Dallari, que emitiu circunstanciado parecer denunciando o arbítrio e o abuso de poder do Reitor da UNICAMP. Através do Prof. Rubem Alves, contatei o Dr. Waldemar Thomazine, Juiz do Trabalho aposentado e membro da Comissão Justiça e Paz de Campinas, que se dispôs a gratuitamente impetrar o Mandado, colocando nossos argumentos em forma jurídica apropriada. No início de Dezembro de 1981, com muito poucos na Universidade sabendo o que estava sendo feito, o Mandado foi impetrado e liminar favorável foi concedida pelo Juiz de Direito Álvaro Érix Ferreira, então novo na cidade.

A liminar do Juiz caiu como uma bomba na comunidade e na cidade (foi manchete de primeira página dos dois jornais de Campinas), posto que me reconduzia ao cargo de Diretor. Imediatamente impetramos Mandados de Segurança em nomes de todos os Diretores exonerados, exceto os Profs. Carlos Franchi e Yaro Burian, que, por razões pessoais, preferiram não apelar à Justiça. Todos os que impetraram os Mandados receberam liminares favoráveis.

A Reitoria, apavorada, contratou, sem licitação e por uma fábula de dinheiro, o escritório do Dr. Alfredo Buzaid, indigníssimo proponente do Ato Institucional nº 5, para defendê-la nos Mandados de Segurança (assim, implicitamente, reconhecendo a incompetência do Dr. Pérsio Furquim Rebouças). O Dr. Buzaid trouxe seu quartel-general para Campinas, tentou intimidar os Juízes locais (tendo sido bem sucedido em uma instância, em que um Juiz voltou atrás na liminar), entrou com Agravos de Instrumento no Tribunal de Justiça – tudo sem sucesso (exceto no caso do Juiz que voltou atrás aqui em Campinas).

Quando a Reitoria percebeu que uma das liminares, envolvendo dois dos Diretores, fora revogada, resolveu agir com presteza. Convocou uma Reunião do Conselho Diretor para a Sexta-feira anterior ao Carnaval, em Fevereiro de 1982, com a finalidade de elaborar a Lista Sêxtupla para o Governador do Estado, Paulo Salim Maluf. Não contente com essa manobra, reforçou o seu time. Os seis representantes do Governo no Conselho Diretor foram substituídos por pesos-pesados oriundos do mais retrógrado órgão da burocracia educacional daquela época, o Conselho Estadual da Educação.

O Conselho Diretor, reunido, elaborou, sob veementes protestos do Prof. Rubem Alves e meus próprios, uma lista sêxtupla, colocando o nome do Prof. Pinotti em primeiro lugar. Após a reunião, que terminou depois das 18 horas, a lista foi encaminhada pessoalmente ao Governador Maluf, que estava viajando pelo Estado, em um de seus Governos Itinerantes. Num milagre de eficiência, a nomeação do Prof. Pinotti foi publicada no Diário Oficial do dia seguinte, um Sábado de Carnaval. Apropriado.

Pelos mapas de votação, competentemente organizados pelos alunos Cláudio de Oliveira Pinto e Sandra Aparecida Riscal, Representantes Discentes no Conselho, ficou patente que o Prof. Jorge Miglioli, economista e Representante Docente no Conselho, havia votado para o Prof. Pinotti, o fato deixando claro que os economistas haviam encontrado em uma aliança com o Prof. Pinotti, Professor Titular Concursado, a solução de seu problema (o acesso ao poder a qualquer custo). A posterior nomeação dos Profs. Wilson Cano, Ferdinando de Oliveira Figueiredo, e Paulo Renato Costa Souza para altos cargos na administração do Prof. Pinotti simplesmente confirmou o que já estava óbvio. Em 1984 o Prof. Pinotti indicou o Prof. Paulo Renato para o cargo de Secretário da Educação, para o qual ele, Reitor, havia sido convidado pelo Governador André Franco Montoro. Em 1985, o Prof. Pinotti apoiou a candidatura do Prof. Paulo Renato para substituí-lo na Reitoria da UNICAMP e, em contrapartida, foi ocupar o seu lugar na Secretaria da Educação em Abril de 1986, ao sair da Reitoria e passá-la para o Prof. Paulo Renato. Mas com isso saio do período que me compete analisar.

A crise certamente não terminou com a nomeação do Prof. Pinotti. Os processos continuaram a tramitar e, eventualmente, meu processo recebeu uma belíssima sentença definitiva, que chamou o Reitor de arbitrário, denunciou-o por abuso de poder e desmascarou até mesmo a ficção dos concursos. A Universidade continuou em greve.

O Prof. Pinotti, Reitor indicado, mas ainda não empossado, convidou o Prof. Maurício e a mim para uma conversa em sua casa. Ali propôs que retirássemos os processos da Justiça. Em contrapartida, anularia todos os atos do Prof. Plínio contra nós, pagaria as gratificações de Diretor correspondentes aos seis meses, de Outubro de 1981 a Abril de 1982, de todos os exonerados e nos daria o espaço político que desejássemos (desde que não na esfera da mais alta administração, que já estava toda definida). O Prof. Pinotti queria assumir o cargo como o Grande Pacificador da Universidade. Conversamos com os Diretores exonerados e todos concordaram que a proposta era razoável e que a Universidade deveria voltar à normalidade. Assim, assinamos um acordo e retiramos os processos da Justiça. (O meu processo estava em vias de receber uma sentença favorável em Segunda Instância, no Tribunal de Justiça, e isso, certamente, desempenhou um papel importante na decisão do Reitor nomeado).

Com destaque para a ausência conspícua do Prof. Maurício, a maior parte dos Diretores participou da posse do Prof. Pinotti, no Teatro do Centro de Convivência. Os Diretores assinaram um acordo, mas os alunos, não. Estes lotaram as dependências do teatro, fantasiados de palhaços, vaiaram o novo Reitor durante toda a cerimônia, não o deixando ler seu discurso. No entanto, o novo Reitor tomou posse e, aos poucos, o clima se acalmou dentro da Universidade.

O resultado da crise, no que me diz respeito, foi desilusão acerca de muitos colegas e um considerável cinismo acerca da política universitária. Depois da crise, realizei pouco pela Faculdade, tanto externa como internamente, porque fiquei profundamente desestimulado pelo jogo político sujo de que fui testemunha e vítima, e que me convenceu de que, até mesmo dentro da Faculdade, havia pessoas dispostas a promover, por baixo do pano, sua agenda política, e mesmo político-partidária, às custas da vontade expressa da maioria absoluta da comunidade da UNICAMP, em geral, e da Faculdade de Educação, em particular. A crise me fez perder a ingenuidade política, que me levava a crer que as pessoas, dentro da Universidade, estavam primariamente interessadas em preservar a integridade da Universidade contra ingerências externas, viessem de onde viessem, mostrando-me que muitos colegas, na Universidade, se opuseram à intervenção, não porque ela era intervenção, mas porque os interventores não portavam as mesmas cores e bandeiras políticas, e que estariam plenamente dispostos a conviver com a intervenção, desde que os interventores iniciais fossem trocados por interventores politicamente corretos, como o economista Carlos Lessa.

III. A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional

Diante desse quadro, resolvi pensar um pouco mais em mim e um pouco menos na Universidade. A Crise de 1981 me demonstrou que, se eu houvesse sido exonerado de meu cargo de Professor, além do de Diretor, não teria muitas opções, porque não sabia fazer outra coisa na vida. Concluí que era hora de mudar isso. Assim que a crise foi equacionada, em Abril de 1982, matriculei-me num curso de computação (Programação em COBOL, duração 14 meses), na única escola de computação da cidade, a People Computação (que me foi indicada pelo Prof. Maurício). Dentro da Universidade, envolvi-me com o grupo que pesquisava o uso do computador da educação, liderado pelos Profs. Fernando Curado, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, e Raymond Paul Shepard, da Faculdade da Educação. Em 1983 propus à Reitoria a criação do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED). O Prof. Pinotti acatou minha sugestão, criou o Núcleo e me nomeou seu primeiro Coordenador.

Ao mesmo tempo, coordenei, na UNICAMP, em 1983, a elaboração do Projeto EDUCOM, apresentado ao MEC, que foi um dos cinco projetos aprovados em 1984 (dentre os 26 submetidos) e os trabalhos de tradução da linguagem LOGO para o Português, em Convênio com a Itaú Tecnologia S/A (Itautec). Esse convênio trouxe para a Faculdade de Educação três dos primeiros quatro microcomputadores a entrar na Universidade (o outro foi para projeto do Prof. Mario Jino, na Faculdade de Engenharia).

IV. Rápida Apreciação Pessoal

Minha atenção à política universitária, nos primeiros dezoito meses, a total paralização de atividades durante os seis meses da crise, e minha desmotivação, nos últimos vinte e quatro meses, significam que minha gestão não se distinguiu por grandes realizações no âmbito da própria Faculdade. Na verdade, acho que, internamente, realizei muito mais como Diretor Associado do que como Diretor, porque o Prof. Rezende me delegou boa parte das tarefas de administração interna e havia muito mais a ser feito, para por a casa em ordem, administrativamente, em 1976 do que em 1980.

É verdade que meu trabalho no âmbito do Conselho Diretor, minha candidatura à Reitoria, minha colocação entre os seis primeiros na lista da comunidade, meu papel na solução jurídica da crise, ajudaram a elevar a reputação da Faculdade de Educação dentro da Universidade – reputação esta que, é imprescindível que se diga, já havia tido considerável ascensão na proba e inatacável gestão do Prof. Rezende, mentor, colega e amigo, a quem publicamente manifesto meu mais profundo respeito e minha incondicional admiração.

Aproveito o ensejo para registrar minha profunda admiração por dois outros colegas e amigos. Um deles, o Prof. Rubem Alves, primeiro Presidente da ADUNICAMP e o mais bravo representante que a comunidade docente jamais teve no Conselho Diretor da Universidade. Com sua reputação internacional e, sobretudo, com suas ideias originais e sua integridade moral, o Rubem muito contribuiu para a necessária deflagração da Crise de 1981 e, posteriormente, para sua mais adequada solução. O outro, o Prof. Maurício Prates, líder inato, motivador por natureza, provocador nos momentos certos, sempre irrequieto, e incomparável realizador. A UNICAMP foi a que mais perdeu em decorrência de o Maurício não ter se tornado o seu Reitor em 1982, como devia. Teria sido realmente Magnífico. Aposentado da UNICAMP, a PUCCAMP hoje se beneficia de sua infindável energia e de seu contagioso entusiasmo.

Além desses três amigos, é preciso registrar que sem Ana Maria Tebar, Waldemar Thomazine e Álvaro Érix Ferreira não teria havido uma solução satisfatória da crise. Os dois últimos provavelmente não se deem conta disso; ela, entretanto, sabe – e sabe que eu sei, e agradeço. Mas agradeço aos outros dois também, onde quer que estejam.

Minha gestão não me cabe avaliar além dessa rápida apreciação pessoal. No futuro alguém provavelmente o fará, e gostaria que o fizesse com base na melhor documentação possível. Por isso, aproveito o ensejo para propor a criação, dentro da Faculdade, de um pequeno Centro de Memória da História da Faculdade de Educação, ao qual terei prazer de legar principalmente os recortes de jornais e as cópias dos processos judiciais relativos à crise. Duvido que alguém mais os tenha guardado.

V. O Futuro

Na gestão dos que me sucederam, a Faculdade de Educação cresceu, institucionalizou-se, ganhou prédio próprio, projetou-se nacional e internacionalmente, ganhou um setor audiovisual, aumentou consideravelmente o número de computadores disponíveis para funcionários, professores e alunos, e criou órgãos internos voltados para a pesquisa em tecnologia educacional. Cumprimento aqui todos os que me sucederam, inclusive o atual Diretor, por essas realizações.

Entretanto, a despeito da visível presença de tecnologia dentro das dependências da Faculdade, não me parece que a comunidade da Faculdade, no seu todo, ou mesmo em sua maior parte, tenha plenamente compreendido o impacto que os novos meios de comunicação, que convergem, inelutavelmente, para o computador, estão tendo, e cada vez mais vão ter, sobre a educação. Continuamos a formar semianalfabetos nessa área, tanto em nosso curso de Pedagogia como em nossas Licenciaturas, para não mencionar os Cursos de Pós-Graduação.

Estou convicto de que a educação, no século XXI, será cada vez mais informal, mais difusa, mais permeada pela tecnologia, mais desintermediada, mais permanente, mais tendente à onipresença e ubiquidade. Isso significa que a escola e o professor, em seus modelos atuais, terão um papel cada vez menor na educação, perdendo espaço para outras instituições e outros agentes que desempenharão um papel cada vez mais central na educação das pessoas.

Há muito que considero que o foco de atenção da Faculdade de Educação, voltado quase exclusivamente para a educação formal no âmbito da escola pública, representa um sério erro de avaliação – exemplo de miopia pedagógica que só consegue ver o que está perto. Dentro do cenário atual, e, mais ainda, dentro do que se descortina, acho que esse erro de avaliação passa a ser grave anacronismo, que poderá rapidamente pôr a perder a reputação que a Faculdade a duras penas angariou ao longo de seus 25 anos de vida.

 Campinas, 19 de Agosto de 1997

 * Trabalho apresentado na Mesa Redonda de Ex-Diretores da Faculdade de Educação no dia 19 de Agosto de 1997, quando se comemorou o 25º aniversário da criação da Faculdade.

Transcrito no blog “Liberal Space” em Salto, 3o de Junho de 2014

Transcrito aqui em São Paulo, 7 de Novembro de 2015 (dia em que nasceu o meu querido  avô materno, José de Campos, o “Seu” Juca).

Selfies Escritos – ou Autorretratos Narrados

Eduardo - barba em coresNasci em Lucélia, na Alta Paulista, interior do Estado de São Paulo, em 7 de Setembro de 1943, às 22 horas. (A hora do nascimento está contida na minha Certidão de Nascimento e em um relato elaborado por meu pai sobre os dois primeiros anos de minha vida. Mas não sei se é exata. Minha mãe me dizia 21h45). Sou do signo de Virgem – pelo que consta, com ascendente em Libra. Mas não entendo nada dessas coisas de ascendente.

Fui o primogênito de Oscar Chaves e Edith de Campos Chaves, que haviam se casado quatorze meses antes, no dia 3 de Julho de 1942, em Campinas, SP. Eles vieram a ter mais três filhos: meu irmão Flávio de Campos Chaves (nascido em Campinas, SP, em 20 de Dezembro de 1946), minha irmã Priscila de Campos Chaves (nascida em Santo André, SP, em 2 de Março de 1957), e minha irmã caçula, Eliane de Campos Chaves, hoje Eliane Chaves de Souza (nascida também em Santo André, SP, em 27 de Janeiro de 1959). Os três irmãos sempre moraram em Santo André, onde estão até hoje (com uma breve exceção no caso de minha irmã mais nova, que passou 15 meses em Ushuaia, na Terra do Fogo, na Argentina, de Setembro de 2014 a Dezembro de 2015).

Celebrei neste ano (2015), portanto, 72 anos de vida. Setenta e dois é um número meio cabalístico: seis dúzias ou meia grosa. Passei dos setenta, portanto. O Salmo 90 diz, no versículo 10,  que “Os anos de nossa vida chegam a setenta (ou a oitenta para os que têm mais vigor). Entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa, e nós voamos!”.  Espero passar dos setenta tão incólume quanto possível e chegar aos oitenta sem muita dificuldade e sofrimento. Que Deus me dê o vigor necessário.

Algumas considerações iniciais breves sobre meu nome, o ano e o local em que nasci, e os meus pais.

Primeiro, sobre o meu nome. Consta que minha mãe queria que eu me chamasse José Carlos: José Carlos de Campos Chaves (JCCC ou J3C). José de Campos era o nome do pai dela, Carlos Gonçalves Chaves o do pai de meu pai. José Carlos seria, portanto, uma homenagem aos dois avôs – um vivo, na época do nascimento (o materno), outro (o paterno) já falecido quando nasci (ele morreu quando meu pai tinha 13 anos, em Abril de 1926). Mas meu pai não aceitou o nome sugerido por minha mãe. Decidiu (a decisão final era sempre dele) que eu me chamaria Eduardo, em homenagem a Eduardo Lane, o missionário americano que conseguiu que ele abandonasse a Igreja Católica, na qual era Congregado Mariano, pela Igreja Presbiteriana. (Esse Eduardo Lane já era missionário de segunda geração, pois era filho do Edward Lane que chegou a Campinas em 1869 como primeiro missionário americano da Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos a colocar os pés no Brasil). Consta que, diante da decisão tomada por meu pai, minha mãe, para não perder a guerra inteira, teria sugerido: “Então que o menino se chame Eduardo Oscar, homenageando também você, já que você não quer homenagear os avôs”. Eduardo Oscar ficou. Nunca ninguém me chamou pelos dois nomes em situações normais. O episódio mostra que meu pai, apesar de autoritário, era flexível – pelo menos quando se tratava de homenagear a si próprio. Exagero: ele permitiu que todos os filhos tivessem o sobrenome materno como sobrenome do meio, se é assim que se refere a ele: “de Campos Chaves”. Isso tornou os nossos nomes maiores e mais pomposos.

Segundo, sobre o ano em que nasci, 1943. Nesse ano o mundo estava em guerra, o Brasil (que então se chamava Estados Unidos do Brazil) era governado pelo ditador tampinha Getúlio Dornelles Vargas, a moeda em uso era o Cruzeiro (Cr$), e a ortografia era outra. Outros também eram os tempos. Um ano antes de eu nascer o Brasil (depois de muita indecisão e alguma flertagem com o nazi-fascismo) declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista. Quase um ano depois de eu nascer, e cerca de dois anos depois formalizar a declaração de guerra, o Brasil enviou sua (aqui famosa) Força Expedicionária Brasileira para lutar na Europa ao lado dos Aliados. Ela ficou na Itália. Comandava-a o General João Batista Mascarenhas de Morais. No cinema, filmes com histórias de guerra alcançavam bastante sucesso e faziam a guerra parecer um negócio glamoroso. Em 1943 o que é hoje a Academy of Motion Picture Arts and Sciences premiou “Casablanca” como o melhor filme do ano anterior (1942). Um filme com uma história de guerra, triste, com renúncia e sacrifício, como histórias de guerra costumam ser, mas charmante, linda mesmo, mostrando que, mesmo de quem menos se espera, pode vir um “gesto heroico” (como diria o poeta batista Mário Barreto França). O filme tornou célebre a música As Time Goes By: “You must remember this, a kiss is still a kiss…” Humphrey Bogart e Ingrid Bergman (ela linda como nunca antes nem depois), os protagonistas, já eram famosos quando fizeram o filme.

Terceiro, sobre o lugar em que nasci. Na verdade, quando lá nasci, Lucélia não era ainda um município. Era um “nada” no mundo – uma vila, ou aquilo que se chamava antigamente de um “patrimônio”. Pertencia a Baliza, um distrito (que não existe mais) do município de Martinópolis, que, por sua vez, pertencia à comarca de Presidente Prudente. Minha primeira Certidão de Nascimento, obtida em Lucélia, por meu pai, no dia 11 de Setembro de 1943, diz que eu nasci “na casa paterna, no patrimônio de Lucélia, distrito de Baliza, município de Martinópolis, comarca de Presidente Prudente”. Hoje Lucélia naturalmente é comarca (embora só tenha cerca de 20 mil habitantes). A penúltima cópia da minha Certidão de Nascimento, obtida pessoalmente em Lucélia em 1999, diz que eu nasci na Comarca de Lucélia (o que é verdade, em termos da situação hoje). Mas a cópia mais atualizada da minha Certidão de Nascimento, que obtive em 2014, também diretamente do Cartório de Lucélia, informa que (como era o caso na época) eu nasci no município de Martinópolis. Aparentemente o Supremo Tribunal de Justiça determinou há algum tempo que todos os formulários de Certidão de Nascimento do país já tragam impresso “nascido no município de [lacuna]”. Assim, o Cartório de Lucélia concluiu que não poderia preencher a lacuna com Lucélia, que na época não era município. Firulas de tecnoburocratas fundamentalistas. Para mim, continuo nascido em Lucélia, ponto final.

Quarto, sobre meus pais.

Quando nasci, meu pai, Oscar Chaves, era ministro (pastor) Presbiteriano, vinculado à Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Na verdade, ele havia sido ordenado pastor apenas cerca de sete meses antes, no dia 31 de Janeiro de 1943, em São Paulo. Mineiro do Triângulo (Patrocínio, MG), nascido em 11 de Outubro de 1912 em família católica, meu pai sempre foi pessoa tradicional e conservadora. Quando mal tinha vinte anos (em 1932), converteu-se ao presbiterianismo pela mão do Rev. Eduardo Lane, missionário americano, em cuja honra recebi meu primeiro nome (como já mencionado). O principal legado de meu pai, no que me diz respeito, foi uma personalidade argumentativa, de vez em quando um tanto “crica”, quase briguenta, e uma preocupação constante com a aferição de minhas competências e especialmente com a justificação de minhas convicções, meus valores, minhas atitudes, minhas posturas, e, evidentemente, minhas ações.

Depois de ordenado, meu pai, que pertencia ao Presbitério de São Paulo, foi cedido pelo presbitério à recém-criada Junta de Missões Nacionais, responsável pelo trabalho missionário doméstico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Isso explica o fato de que, por dez anos, fez o trabalho de desbravador, implantando igrejas presbiterianas onde não havia nenhuma: Paracatu, MG, Lucélia, SP, Irati, PR, Marialva, PR, e Maringá, PR. Essas cidades foram, em sequência, a sede de sua área de atuação (chamada de “campo” na igreja). O campo de um pastor missionário era amplo – o que significava que ele precisava viajar bastante e raramente ficava “estacionado” na cidade sede do campo. No Norte do Paraná meu pai andava léguas e léguas a cavalo, indo para lá de Paranavaí e Campo Mourão.

Minha mãe, Edith de Campos Chaves, era de família presbiteriana de Campinas, SP. Quando se casou com meu pai em 1942, tinha 17 anos (nasceu em 7 de Agosto de 1924) – ele 29 (fariam 18 e 30 ainda naquele ano). Meu pai desmanchou um longo noivado para se casar com minha mãe. Enfrentou vários problemas por causa disso, tanto na igreja como com os amigos, especialmente porque a noiva que ele preteriu já despontava como um ícone heroico do protestantismo: Loide Bonfim (depois Bonfim Andrade), que ficou famosa como missionária evangélica e educadora entre os índios Caiuás (hoje o pessoal “esquerda caviar” prefere grafar cayowa). Desde 1938 ela era professora junto a Missão Evangélica Caiuá, no Mato Grosso (hoje do Sul). Depois do casamento do meu pai, perdidas as esperanças, ela se casou com um amigo e colega de classe de meu pai, Orlando Andrade. Sempre admirei a coragem de meu pai em romper um noivado socialmente muito bem-visto pelo amor de minha mãe, que era um pouco mais do que uma menina, ex-balconista das Lojas Americanas, apenas com o Ginásio Comercial concluído (na Academia de Comércio São Luiz). Admirei, também, a coragem de minha mãe, novinha como era, de se meter pelo sertão do Brasil com um homem bem mais velho (naquele tempo, uma diferença de idade de doze anos fazia uma diferença razoável – por mais pleonástica que soe a afirmação).

Como mencionei atrás, a primeira cidade em que meus pais viveram como casados foi Paracatu, MG. Meu pai foi para lá como Licenciado, no início de 1942, ainda solteiro, voltando no final de Junho para se casar. Efetuado o casamento, retornou para lá com minha mãe, sem lua de mel. Apesar de, em 1840, quando Paracatu se tornou comarca, Uberlândia pertencer a ela, em 1942, cerca de cem anos depois, Uberlândia havia crescido bastante e Paracatu era literalmente nada – além de uma cidade católica e preconceituosa. Ouvi de meus pais que foram hostilizados. Porque as ruas eram calçadas com pedras muito irregulares, os não acostumados tinham dificuldade para andar, muitas vezes escorregando e caindo. Segundo minha mãe, soltaram boatos na cidade que o pastor protestante enviado para lá bebia tanto que mal conseguia andar pelas ruas da cidade… Minha mãe precisou ter muito amor pelo meu pai e muita coragem para se aventurar por lá, um ambiente hostil – e, depois, pelos outros lugares que meu pai desbravou para o presbiterianismo brasileiro.

Uma pequena historieta. Quando eu morava em Santo André, e tinha uns 12 anos, por aí, meu pai me levou a um evento em São Paulo em que a Profa. Loide Bonfim Andrade iria falar. (Falava muito bem, ela.) Lá me apresentou à sua ex-noiva. Eu, sabedor da história do noivado, estava meio sem jeito. Mas ela foi despachada. Abraçou-me, acariciou-me o rosto, e disse ao meu pai: “Ah, então é esse o filho que quase foi meu?” – e deu risada… A good sport. Fiquei gostando dela a partir daquela momento. Quase foi minha mãe…

Voltando alguns anos, em 24 de Fevereiro de 1943 meus pais se mudaram de Paracatu, MG, para Lucélia, SP, onde nasci. Se Lucélia não é grande coisa hoje, em 1943 não era nada. Na verdade, como já disse, não era nem sequer município, algo que se tornou apenas no ano seguinte. Tinha, pelo que consta, basicamente três ruas: uma avenida principal, chamada Avenida Internacional, a rua “de cima”, que dava na estação do trem (Companhia Paulista de Estrada de Ferro), e a rua “de baixo”, na direção da estrada rodoviária, chamada Amazonas, em que eu nasci num bangalô minúsculo, de madeira.

Literalmente não conheci Lucélia. Saí de lá quando tinha um ano e pouco e só voltei lá em 1999, cinquenta e cinco anos depois. Foi nessa ocasião que obtive a segunda via de minha Certidão de Nascimento mencionada atrás. Eu fui convidado a dar uma palestra em uma faculdade de Dracena, SP (onde meu pai também implantou a Igreja Presbiteriana em 1943), numa segunda-feira, e em Bauru, SP, no dia seguinte, terça. Dracena fica bem além de Lucélia, já perto do rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul, e Bauru fica antes. Resolvi sair de Campinas (onde morava) com meu Escort branco 1992 no domingo, dirigir até Lucélia, ficar lá a noite de domingo e a maior parte da segunda-feira, e ir para Dracena só à tarde na segunda. Fiquei surpreso com o tamanho da cidade, que aparentemente não havia crescido nada, tendo sido “espremida” pela vizinha Adamantina. Não consegui sequer encontrar um hotel decente na cidade. Só havia umas pensões fajutas. Tive de ir dormir em Adamantina — onde o hotel, também, é bom que se diga, não era lá essas coisas.

Andando por Lucélia (de carro e a pé), fui até a Estação Ferroviária, que estava abandonada. Havia mato nos trilhos e sujeira na plataforma. As janelas estavam seladas com tábuas. Vagabundos vagavam por lá. Fotografei tudo com minha câmera Sony Mavica, que usava um disquete de 3,5″ para armazenar as fotos: máximo 20 fotos por disquete. Na frente da estação do trem havia a Praça da Imigração Japonesa, da qual um senhor de idade era o único a desfrutar. Puxei conversa. Perguntei a ele se sabia onde era a rua Amazonas, porque no dia anterior (o domingo) não a havia encontrado. Ele me disse que a rua que um dia teve esse nome agora tinha outro nome – que ele me disse (Rua Dorival Rodrigues de Barros, confirmo agora no Google Maps). Encontrei a rua. Dirigindo por ela, encontrei o salãozinho de madeira em que meu pai deu início ao trabalho presbiteriano lá. Hoje congrega no lugar uma Igreja do Evangelho Quadrangular. Sinal dos tempos. Liguei para minha mãe, então ainda viva, e lhe perguntei se, ao sair do salão de cultos, ela virava à direita ou à esquerda para ir para casa. Ela disse sem hesitar que era à direita – e me deu a informação preciosa de que nossa casa (casinha) ficava atrás do cinema da cidade. Peguei o carro e segui na direção indicada por mais uns quarteirões quando avistei, na rua à esquerda (a principal – Avenida Internacional), um prédio com cara (cara, bem, não – a cara dava pra outra rua…) de cinema. Firmei a atenção e fui recompensado localizando o bangalozinho em que nasci. Era ainda menor do que parecia numa foto em que minha mãe me carregava todo enrolado na frente do alpendre da casa, quando eu nem ainda tinha um mês de idade.  Tirei umas fotos com minha Mavica e fui em frente com medo do ocupante da casa sair e me perguntar por que eu estava a fotografar a casa dele…

Quando eu tinha mais ou menos um ano e nove meses de idade, em Junho de 1945, meus pais se mudaram para Irati, PR, onde, segundo meu pai, no já mencionado relato que fez de minha vida até os dois anos, eu quase morri. Eis o que ele escreveu:

“O Oscarzinho hoje está fazendo 2 anos! Aleluia! Faz um ano que não escrevo nada sobre ele. Quanto progresso nesse tempo! Hoje ele é um ‘homenzinho’! Já fala tudo e entende tudo! Fala quasi tudo com perfeição. – Estamos no Paraná, em Irati. – O Oscarzinho estranhou o clima, no começo, e adoeceu aqui, com um forte resfriado. O ouvido ficou inflamado. Sofremos muito. Quasi perdemos o garoto. Mas Deus o salvou.”

Foi a primeira vez, mas não a última, em que Deus me salvou… Consigo me lembrar de várias.

Enfim: meus pais não gostaram da cidade, nem do povo, nem muito menos do clima. Ficaram lá apenas nove meses, saindo em Março de 1946 para o Norte do Paraná.  (Hoje, e já faz algum tempo, desde que se casou com a Rosi, meu amigo e ex-professor João Wilson Faustini mora em Irati.)

O Norte do Paraná era, naquela época, uma região sem dono, parecida com o Oeste Americano no século 18 e 19. Lá meus pais estacionaram sua charrete, em Março de 1946, na cidade de Marialva, para onde se mudaram, passando três anos na cidade. Em Janeiro ou Fevereiro de 1949, mudaram-se para Maringá, PR (que havia sido fundada em 1947), ficando lá também três anos. Sairam de lá em Fevereiro de 1952 para vir para Santo André, SP – onde os dois ficaram até morrer, ele em 5 de Março de 1991, com 78 anos e meio, e ela em 11 de Junho de 2008, com quase 84 anos.

Quando cheguei a Santo André, em Março de 1952, já tinha oito anos e meio, nunca havia frequentado escola, e o ano letivo já havia começado há quase um mês. A razão pela qual meus pais não me colocaram na escola na época dita certa, em Maringá, PR (cidade da Sônia Braga), foi que meu pai (como já disse, com ele não havia dúvida sobre quem mandava em casa) não confiava na rede escolar da nascente cidade e concluiu que eu aprenderia mais e melhor em casa. Como se vê, tive um defensor de home schooling na minha vida, desde que era criança… Quem sabe isso não influenciou alguns de meus pontos de vista educacionais cinquenta e tantos anos depois…

De qualquer maneira, levado à escola, em Santo André, o Grupo Escolar “Prof. José Augusto de Azevedo Antunes”, na Rua Senador Flaquer, construído em 1912, ano em que meu pai nasceu, esta não me deu nenhum crédito pelo fato de que eu já sabia ler e escrever bem (tendo aprendido com meus pais, usando a Bíblia e os livros de Sherlock Holmes como cartilha), tinha uma letra muito bonita, fazia contas sem maiores problemas, e estava muito bem informado na área de conhecimentos gerais. Mesmo assim tive de começar no primeiro ano do Curso Primário, onde se aprendia a ler na Cartilha Sodré, cuja primeira lição era: “A pata nada, pata pa, nada na”. Felizmente, logo ascendi para a “Seção A” da classe, a dos mais adiantados.

Minha primeira professora foi Dona Maria José Ferraz de Alvarenga, Dona Zezé. Era magrinha, quase raquítica, feia de dar dó, não sorria muito, mas todos gostavam dela – e ela gostou de mim. No segundo ano a professora foi Dona Judith Ramos Milanezzi, uma santa que adorava todo mundo, até os alunos insuportavelmente mal comportados. Como eu era bem comportado e, ainda por cima, o melhor aluno da classe, ela também gostou de mim. Ela tinha uns óculos de lentes grossíssimas e, depois que deu aulas para mim, teve um nenê, uma menininha, que com dois ou três anos já usava óculos. No terceiro ano tive minha professora mais chata do Primário: Dona Eulídia Borges Duarte. Ela creio que não gostava muito de ninguém – a fortiori, nem de mim. Finalmente, no quarto ano, tive a professora de que gostei mais no Primário (e, tenho a impressão, a que mais gostou de mim durante toda essa fase de escolaridade): Dona Mercedes da Silveira Lopes. Ela já era meio coroa (ou, pelo menos assim me parecia então) quando deu aula para mim – mas era solteira. Casou-se logo depois de eu ter passado pela classe dela, e assumiu o nome de Mercedes Lopes Ferraz. Foi ela que percebeu que eu precisava usar óculos e foi ela que me levou para fazer uns testes de inteligência e, depois, anunciou para Deus e todo mundo que eu, apesar dos meus tenros 11 aninhos, tinha uma idade mental de 19. Sei lá. Nunca confiei muito nesses testes.

Terminei o Curso Primário em 1955, dois anos depois do Quarto Centenário de Santo André e um ano depois do Quarto Centenário de São Paulo (muito mais celebrado).

No segundo semestre de 1955, fiz três meses de Curso de Admissão ao Ginásio com uma professora particular, uma moça nova (acho que tinha 19 anos), descendente de italianos, chamada Carla Strambio. Eu a achava lindinha na época.

No final do ano de 1955 prestei o Exame de Admissão do “Colégio Estadual e Escola Normal ‘Dr. Américo Brasiliense'” (depois chamado, enquanto eu ainda estudava lá, de “Instituto de Educação ‘Dr. Américo Brasiliense'”), na Praça do Quarto Centenário, em Santo André, considerado de longe a melhor escola da cidade. Passei em décimo terceiro lugar, dentre 330 alunos. Havia apenas 30 vagas na primeira série do Ginásio do Colégio Estadual de Santo André naquele ano de 1956: onze candidatos por vaga!

De 1956 a 1959 fiz o Ginásio no Américo Brasiliense. Na primeira série, tive uma grande decepção acadêmica. Eu havia sido o primeiro aluno da classe em todo o Primário – e esperava continuar sendo no Ginásio. Minha média final foi boa, 9,01. Mas um nissei chamado Roberto Yamamoto teve a média mais alta: 9,36. A minha foi a segunda. Mas por vários dias fiquei arrasado por não ter tirado o primeiro lugar. O impacto foi grande: nunca me esqueci dessa derrota…

Na segunda e terceira série do Ginásio voltei a tirar a média mais alta da classe – mas ela depencou da casa dos 9 para a casa dos “upper” 8.

No final de 1958, decidi que devia trabalhar e que, portanto, queria me transferir para o Curso Noturno. Arrumei trabalho como escriturário no Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S/A, o INCO (que depois foi comprado pelo BRADESCO, se não me engano), para começar no dia 2 de Janeiro de 1959. Gostei muito de trabalhar no banco, onde fui contratado como menor – tendo o salário correspondente a metade de um salário mínimo regular (por ser menor). Ganhar metade do salário que já deveria ser mínimo era duro. O horário de trabalho previsto era das 12 às 18h.

O trabalho no banco, porém, apesar de me deixar livre a manhã, interferiu com o meu desempenho escolar – especialmente porque me obrigava a chegar atrasado e a faltar muito. No banco era necessário “fechar o balancete” diariamente, levando em conta o dinheiro existente na agência no dia anterior, somando os depósitos, pagamentos recebidos, e outras entradas, e diminuindo os cheques, os pagamentos feitos, e outras saídas. O balancete tinha de “bater”, internamente, e o saldo contábil tinha de “bater” com o dinheiro no cofre e no caixa. E muitas vezes não “batia”. E quando não “batia”, tínhamos de procurar a maldita diferença (que, em alguns casos, era mais de uma). Isso podia levar horas. Houve noites em ficávamos na agência até cerca de 23h e tínhamos de voltar de manhã, no dia seguinte. Com isso, o desempenho escolar foi para o brejo.

Entrei nos exames finais precisando de nota em todas as matérias. Feitos os exames escritos, fui muito mal em Matemática, História do Brasil e História Geral. Em Matemática precisaria tirar 9 no exame moral para passar direto (sem “Segunda Época”). Em História, precisava de cerca de 1,5 em História do Brasil e 1,0 em História Geral.

O professor de História era o Pedro Cia, jovem de 19 anos, que ainda fazia o curso de História na Universidade de São Paulo. Dada a proximidade na idade, era muito amigo nosso. Tanto que foi escolhido para ser nosso Paraninfo na Formatura. Fui a ele e abri o jogo. Disse-lhe que precisava tirar 9,0 em Matemática e cerca de 2,0 em cada uma das Histórias. Será que eu poderia concentrar meus estudos em Matemática e esquecer as Histórias? Tranquilo, disse ele: dou-lhe 2,0 em cada uma apenas por comparecer. Concentrei-me na preparação do exame oral de Matemática, que vinha antes. No dia, tirei 10,0. Além de ter estudado, tive muita sorte no sorteio do ponto. Faltavam apenas os dois exames de História, que estavam garantidos. Daí a Lei de Murphy entrou em cena: o que pode dar errado, cedo ou tarde, dá. . .  O Pedro Cia ficou doente, não pode comparecer ao exame, e veio um professor de outra escola fazer o exame oral. E eu não sabia literalmente nada. Tirei zero nos dois exames. Nunca havia tirado zero em minha vida toda. Fiquei desesperado. No dia seguinte procurei contatar o Pedro Cia por telefone. Consegui. Ele me acalmou, dizendo para ficar tranquilo que tudo daria certo. Ele, ao receber as notas do professor substituto, tinha de transcreve-las no formulário oficial. Deu-me notas bem acima do mínimo necessário. Além de cumprir sua palavra, foi extremamente generoso comigo.

Naquela época, nenhum aluno podia ter média menor do que 4,0 em cada matéria ao final do ano, e a média geral de todas as matérias tinha de ser no mínimo 5,0. A minha, na quarta série do Ginásio, foi 5,46. A pior média que já tive na vida. Mas fui aprovado, e, na Cerimônia de Formatura, recebi o diploma das mãos do Pedro Cia. Tenho a foto ainda. A cerimônia foi no antigo Cine Tangará, em Santo André, no início da rua Coronel Oliveira Lima, já chegando na linha do trem.

(Num parêntese, o Pedro Cia no devido tempo se casou com minha professora de Desenho, Dona Elza, e ambos construíram um verdadeiro império escolar no ABC, a Rede de Escolas Arbos, com sede em Santo André. Nunca vou me esquecer do gesto dele. Nos trinta e cinco anos em que fui professor, nunca regateei nota, sempre dando oportunidades aos alunos de fazer mais alguma coisa para obter a nota mínima exigida. Nunca esqueci que minha carreira acadêmica poderia ter terminado ali, na quarta série Ginasial, se eu não tivesse sido aprovado por ele.)

Antes de prosseguir, preciso fazer referência a dois outros professores importantes no Ginásio e a um incidente.

Um dos outros dois professores importantes foi Dona Zilda Olga de Lorenzi, minha professora de Música e regente de Canto Orfeônico. Sempre gostei de música, mas ali, nas aulas da Dona Zilda, eu desenvolvi o gosto pelo canto coral – que, felizmente, nunca perdi. Ela era pessoa finíssima. O outro professor foi Cléstenes Borges dos Reis, meu professor de Inglês da segunda à quarta série (o Inglês só começava na segunda série – enquanto o Francês e o Latim começavam na primeira!). Além de excelente professor, com uma pronúncia que me parecia maravilhosa, o Prof. Cléstenes era muito divertido e gozador. E era muito amigo dos alunos também, apesar de terrivelmente “sarrista”.

O incidente foi o seguinte… Quando estava na terceira série, tive o infortúnio de ficar numa classe ao lado da Inspetoria de Alunos. Um dia, no intervalo, vi um toquinho de giz no chão e resolvi dar-lhe um chute. Acontece que o meu sapato (daqueles de sola de pneu, sem cordão, com elástico no topo) saiu do pé, voou em direção à janela, quebrou o vidro, e acabou lá embaixo (a sala era no segundo andar). Imediatamente a Inspetora de Alunos veio até a classe. Eu disse a ela o que havia acontecido, sem esconder nada. Ela me comunicou que precisava me levar até a Diretoria. Disse a ela que precisava descer primeiro, para pegar meu sapato. Ela deixou que eu o fizesse. Na volta, fomos até a Diretoria, onde o Diretor (que se chamava não sei o que de Marco ou de Falco), um senhor baixinho, gordo e careca (deixem-me descontar nele aqui), estava ocupado falando com uma outra funcionária. Esperamos. Finalmente ele atendeu a Inspetora e perguntou o que havia acontecido. Ela relatou o que eu havia lhe contado. Ele não pensou nem um segundo. Nem se dignou a ouvir-me. Disse-me, literalmente o seguinte: “O senhor está suspenso por três dias para aprender que giz não é bola de futebol”. Mandou anotar em minha caderneta a suspensão (que mancha em meu histórico escolar!) e trazer a notificação assinada por meu pai no dia seguinte. Naquela época, o aluno que era suspenso tinha de vir às aulas, mas ficava com falta. Quando era chamado, tinha de se levantar e dizer: “Estou suspenso, professor(a)”.

Dois problemas.

O primeiro, falar com meu pai. Eu sempre tinha sido bom aluno, não só com boas notas, mas disciplinado, bem comportado. Nunca meus pais precisaram comparecer à escola para ouvir reclamação a meu respeito. E, agora, a suspensão. Levei um século para chegar em casa. Normalmente levava uns 40 minutos, andando. Devo ter levado umas duas horas para chegar, e usei o tempo ensaiando a história que iria que contar. Na hora de enfrentar meu pai, optei por dizer a verdade, com medo de que, se dissesse uma mentira, iria me enrolar e poderia vir a ser apanhado na mentira, piorando seriamente a minha situação. Para minha surpresa, meu pai se solidarizou comigo, ficou revoltado com o Diretor, e queria até ir à escola reclamar – o que eu implorei para que ele não fizesse – seria o mico dos micos. Finalmente, ele resolveu deixar as coisas do jeito que estavam, e assinou a caderneta.

O segundo problema foi responder que eu estava suspenso quando da chamada. Todos os professores ficavam surpresos e alguns até me expressaram discreta solidariedade. Mas era constrangedor ter de contar a história para cada um deles, diante de meus colegas. Muitos desses colegas eram maus alunos e estavam felicíssimos que eu, o melhor aluno da classe, estivesse naquela situação constrangedora. O único professor que deu risada – na verdade, gargalhadas – foi o Prof. Cléstenes Borges dos Reis… Achou divertidíssimo o episódio e tirou o maior sarro de mim.

Eu me senti extremamente injustiçado no episódio. E sempre fui bastante tolerante dos “malfeitos” de meus alunos na minha vida de professor, porque sempre me lembrava do maldito giz no chão da sala…

Concluído o Ginásio, eu tinha a opção de fazer Curso Colegial (hoje Ensino Médio) em uma de duas opções então existentes: o Científico ou o Clássico – ou então fazer o Curso Normal (que formava Professores Primários) e que era equivalente, em termos da possibilidade de acesso ao Ensino Superior, ao Curso Colegial (mas era considerado um curso “para mulheres”…). Tentei fazer o Científico à noite em 1960 no Américo Brasiliense, enquanto trabalhava na Companhia Swift do Brasil o dia inteiro, mas detestei o curso e desisti no meio do ano. Nunca mais estudei Física e Química. Desperdicei o ano inteiro, academicamente falando.

Ao longo do segundo semestre amadureci a ideia de estudar para o ministério (pastorado) e resolvi fazer o Colegial Clássico no Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), em Jandira, SP, uma escola-internato pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil, que foi fechada pela igreja no final de 1969. A Igreja Presbiteriana de Santo André, da qual meu pai era pastor, me acolheu como pré-candidato ao ministério, assumindo o custo de meus estudos. Fui para Jandira em Fevereiro de 1961 (para me ajudar a levar as malas) e fiquei lá, interno, até Dezembro de 1963. Foram anos excelentes em termos de aprendizagem acadêmica e de desenvolvimento “vivencial”. Minha experiência lá está relatada em vários posts no blog “Instituto José Manuel da Conceição” (http://jmc.org.br).

Como disse, a igreja fechou o JMC no final de 1969. Coisas estranhas aconteceram, nunca esclarecidas até hoje. O mais estranho foi que uma empresa vinculada à Engesa, fabricante de material bélico, foi instalada no que havia sido propriedade do colégio – vale dizer, da igreja. Os demais prédios foram desapropriados pela Prefeitura Municipal de Jandira. Consta que várias áreas vazias foram transformadas em loteamento de condomínio particular. Tudo muito esquisito e malcheiroso. Mas deixemos isso de lado aqui.

Naquela época, a maior parte dos alunos do sexo masculino que estudavam no Instituto JMC tinha a intenção de seguir para um Seminário Teológico e se dedicar ao ministério evangélico. Eu não era exceção. Influenciado, em parte, pela história de meu pai (que também havia estudado no Instituto JMC, na década de 30, de 1934 a 1938), matriculei-me, em 1964, no  Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), também conhecido como Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Campinas, SP (onde meu pai também já havia estudado, de 1939 a 1941). Minha festa de calouro estava agendada para o fatídico 1º de Abril de 1964. É desnecessário acrescentar que (como muita coisa mais) a festa foi abortada pelo Golpe Militar do dia anterior, 31 de Março…

Com uma ou duas exceções, o corpo docente do Seminário era muito conservador, tanto teológica quanto politicamente, e entre os alunos havia alguns (admitidamente, uma minoria) que chegavam a ser extremamente reacionários (novamente, tanto no plano teológico quanto no político). Sendo essa a situação, tive o que hoje, em retrospectiva, considero a sorte de ser expulso do Seminário em 1966, quando estava no meu terceiro ano, em virtude de basicamente duas razões:

  1. por defender teorias não muito aceitáveis acerca da religião e doutrinas não muito ortodoxas na teologia cristã (especialmente, no caso da religião, em geral, as de David Hume, e, no caso da teologia cristã, as de Rudolf Bultmann); e
  2. por publicar, no recém-criado jornalzinho do Centro Acadêmico, do qual eu era editor, e que tinha o provocante nome de “O CAOS em Revista” (visto que o nome do Centro Acadêmico era “Oito de Setembro”, data da fundação do Seminário), uma crítica violenta aos professores do Seminário por sua omissão na crítica a ideias fundamentalistas, e, depois, uma defesa apaixonada, baseada no livro On Liberty, de John Stuart Mill, do direito à liberdade de pensamento e de expressão.

Tudo o que eu escrevi nesse jornal, a propósito da segunda dessas duas razões, pode ser encontrado nos seguintes artigos:

  • Editorial (Março 1966)
  • Artigo: “Instituto Bíblico em Campinas” (Março 1966)
  • Editorial: “Ainda Jonas” (Abril 1966)
  • Editorial (Maio 1966)
  • Artigo: “Parafraseando” (Maio 1966)
  • Editorial (Junho 1966) [Censurado]
  • Editorial (Agosto 1966) [Censurado]

Esses editoriais e artigos todos estão republicados aqui neste meu blog “Autobio Space” (http://autobio.space) no post “O CAOS em Revista: Editoriais e Artigos de 3/1966 a 8/1966 (alguns censurados)”, no seguinte endereço:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/.

O material publicado está contextualizado e discutido no artigo “40 Anos depois do CAOS (1966-2006)”, disponível no seguinte endereço, aqui neste blog:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/quarenta-anos-depois-do-caos-1966-2006/ .

Na época, as cinco primeiras peças chegaram a ser publicadas mas as edições foram imediatamente confiscadas pela Reitoria; no caso das outras duas, a Congregação do Seminário havia instituído a censura prévia e as peças foram cortadas antes de serem publicadas. Na verdade, o jornal inteiro de Junho de 1966 foi censurado e o de Agosto nem saiu. Minha carreira de jornalista foi, portanto, abruptamente interrompida sem que sequer uma das peças que escrevi tivesse sido normalmente distribuída.

Minha ousadia quase me custou o fim temporário, se não de minha liberdade, pelo menos de meus estudos. O ano de 1966 me parecia, na época, ser o auge da Ditadura Militar brasileira e do autoritarismo eclesiástico e retrocesso teológico da Igreja Presbiteriana do Brasil, mas eu estava, naturalmente, duplamente errado: tanto no país quanto na igreja a situação se tornou ainda muito pior antes do final da década, mas nesse momento eu já estava fora, tanto da igreja como do país.

Depois de ter sido expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas fui trabalhar. Arrumei um emprego, como Analista de Custo, na primeira empresa em que fiz teste, a Roberto Bosch do Brasil S/A, em Campinas, SP, na saída para Hortolândia, pertinho da Fazenda Boa Vista, onde minha mãe nasceu. Trabalhei ali durante por um pouco mais de seis meses.

Enquanto trabalhava na Bosch, fui acolhido pela Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, em São Paulo, pastoreada pelo Rev. José Borges dos Santos Júnior, que havia feito o casamento dos meus pais, e que, em 1966, estava na oposição da Igreja Presbiteriana do Brasil. Ele me prometeu apoio financeiro da igreja caso eu conseguisse ingressar em algum outro seminário para continuar meus estudos.

Por recomendação de meu amigo Waldir Berndt, cujo irmão, Aldo Berndt, estudava lá, contatei a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (Evangelische Kirche Lutherischen Bekenntnisses in Brasilien), de São Leopoldo, RS. Expus o meu problema, indaguei acerca dos custos, e fui muito bem recebido. A igreja do Jardim das Oliveiras me prometeu ajudar e eu fui parar no Morro do Espelho (Spiegelberg) em São Leopoldo, no início de 1967…

Lá, em 1967, eu entrei no meu quarto anos de estudos pós-secundários (embora sem concluir o curso teológico). Em São Leopoldo, Rudolf Bultmann, que era Luterano e que era considerado o principal teólogo herético pelos presbiterianos) era bem aceito. O tempo que passei lá ajudou bastante no desenvolvimento do meu domínio da língua alemã (que eu estudava desde o primeiro ano no Seminário de Campinas), porque todas as aulas eram ainda em alemão, naquela época. (O Waldir Berndt foi meu primeiro professor de Alemão. Depois, durante um ano e meio, meu professor foi Ernst Manuel Zink, do Instituto Hans Staden / Goethe Institut).

O ambiente intelectual fornecido pelo Seminário Luterano era bastante estimulador. A despeito disso, ou, mais provavelmente, por causa disso, meus laços pessoais com a igreja começaram a enfraquecer bastante, mais ou menos durante o período em que eu estive em São Leopoldo. Meu interesse pela religião como fenômeno social e pela teologia como disciplina intelectual continuaram, entretanto, nunca deixando de existir. Nisso eu, em certo sentido e até certo ponto, modestamente espelhei o que se passou com David Hume, sobre quem eventualmente vim a escrever minha tese de doutoramento: ele deixou a igreja (também Presbiteriana, na Escócia) sem traumas, tanto por razões eclesiásticas como teológicas, depois de uma série de perseguições, mas sempre manteve um interesse pela religião como fenômeno social e pela teologia como disciplina intelectual.

Apesar dos meus laços com a igreja haverem enfraquecido, enquanto em São Leopoldo tive a sorte de receber uma bolsa completa, de três anos, para fazer o Mestrado em Teologia no Pittsburgh Theological Seminary (PTS), de Pittsburgh, PA, EUA. Para poder usufruir a bolsa solicitei uma bolsa de viagem ao National Council of the Churches of Christ in the United States (NCCCUS), e tive a felicidade de vê-la concedida. A bolsa no PTS foi obtida através dos esforços do Prof. Dr. Rev. Gordon Eugene Jackson, então Deão Acadêmico daquela escola, e desde então um querido amigo e uma fonte constante de inspiração. Espero que ainda esteja vivo e bem, pois perdi contato com ele há algum tempo.

O Rev. Jackson ainda conseguiu outra proeza. Embora eu tivesse menos de quatro anos de estudos em nível superior e não tivesse um diploma de curso superior, ele, com base na minha escolaridade até a data (1967) pleiteou e obteve, junto ao Conselho de Educação do Estado da Pensilvânia, que meus estudos realizados no Brasil fossem considerados equivalentes a um curso superior americano, para fins de eu continuar meus estudos no seminário em nível de Pós-Graduação. O Conselho concordou e eu fui aceito no programa de Mestrado do Seminário (Master of Divinity, M.Div.). Com base no parecer do Conselho Estadual da Educação da Pensilvânia, recebi um diploma de Bacharel em Teologia (Bachelor of Divinity,  BD) do PTS.

A bolsa do NCCCUS para a viagem aos Estados Unidos foi obtida através dos esforços do Rev. Dr. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), e, posteriormente, outro amigo muito caro. Aharon viveu em Genebra, Suíça, a terra adotada por João Calvino, por muitos anos, e morreu lá, recentemente. Foi uma grande perda. Ele não só me sugeriu que solicitasse a bolsa ao NCCCUS, mas envidou os maiores esforços para que ela fosse concedida.

Expresso publicamente aqui minha gratidão a esses dois grandes amigos. (Tivemos, a Paloma [vide adiante] e eu, o privilégio de participar recentemente, aqui em São Paulo, da celebração das Bodas de Ouro do Aharon e da Zabel, sua mulher. Foi uma experiência emocionante, que vivemos ao lado do Rubem Alves e da Thaís, sua mulher, também amigos do Aharon e da Zabel — o Rubem há um pouco mais de tempo do que eu. Em 2012 ele veio a falecer, vítima de problemas cardíacos. Tinha quase 86 anos. No ano passado, o Rubem também faleceu, em Julho, com quase 81 anos.

Enquanto no PTS, de meados de 1967 até meados de 1970, obtive meu Mestrado em Teologia, na área da História do Pensamento Cristão (conclusão: Maio de 1970). Lá tive o privilégio de estudar com estrelas intelectuais como Dietrich Ritschl (neto do grande teólogo liberal alemão do século XIX, Albrecht Ritschl, e ele próprio um grande especialista na história do pensamento europeu moderno), que me fez interessado para sempre na história intelectual; Ford Lewis Battles (especialista em pensamento medieval, na Renascença e na Reforma, especialmente em Calvino, sendo o autor da melhor tradução para o Inglês da Institutio Christianae Religionis), que quase me convenceu a tornar-me um historiador medieval; Markus Barth (filho do grande teólogo suíço do século XX, Karl Barth), cujas aulas eram tão precisas que a gente o tomaria por alemão, e tão claras, que a gente o tomaria por francês; Hans Eberhard von Waldow (que havia ensinado em São Leopoldo antes de ir para Pittsburgh), que, por incrível que pareça, conseguia fazer a História do Antigo Israel parecer viva e interessante; George H. Kehm (professor de teologia sistemática), que me fez seu assistente didático e de pesquisa quando entrei no doutorado; e vários outros (Ronald Stone, Walter Wiest, John Gerstner, Robert Paul, John Bald, Douglas Hare). Minha média durante o mestrado foi suficientemente boa para que eu recebesse sete prêmios e bolsas ao final dos meus três anos no PTS, uma das quais era para cursar o doutorado em área de minha escolha.

Assim, em Setembro de 1970 entrei na University of Pittsburgh (Pitt), também em Pittsburgh, PA, EUA, para começar o meu Ph.D.. O foco principal de meus estudos foi a História da Filosofia Moderna, especialmente durante o Iluminismo do século XVIII, pois eu estava interessado em epistemologia e Pitt era a melhor universidade americana na área de epistemologia, lógica e filosofia da ciência naquela época. Eu, naturalmente, ainda mantinha (como mantenho até hoje) meu interesse na epistemologia da religião. Esses dois interesses, na epistemologia da ciência e da religião, fizeram-me gravitar para William W. Bartley, III, professor titular do Departamento de Filosofia, cuja obra publicada lidava com esses dois assuntos (em especial, The Retreat to Commitment, publicado, em primeira edição, em 1962).

Depois de estudar teologia por algum tempo em Harvard, Bill Bartley foi para a London School of Economics (LSE), em Londres, Inglaterra, para estudar com Karl Raymund Popper. Ele eventualmente se tornou o discípulo amado de Popper. Assim sendo, fui virtualmente constrangido a ler tudo que Popper tinha publicado, e mesmo alguns trabalhos então ainda inéditos (mas aos quais Bill Bartley tinha acesso e dos quais, depois, se tornou o editor, na versão impressa). Depois de um sério desentendimento, Popper e Bartley voltaram a manter relações de amizade e colaboração bastante estreitas, tendo Bill Bartley sido ungido para a invejada tarefa de gerenciar todo o legado intelectual de Popper (e, depois, também de Friedrich von Hayek). À vista disso creio que posso, por direito, considerar-me “neto intelectual” de Popper — com quem tive o privilégio de trocar algumas cartas em meados da década de 70. A morte prematura de Bill Bartley em 1990 (5 de Fevereiro) roubou-me um mentor e grande amigo e foi motivo de grande tristeza. A morte de Popper em 1994 também foi grandemente sentida – embora não tenha sido prematura (ele nasceu em 1902). (A relação entre Popper e Bartley é bem e corretamente descrita em um artigo interessante de Mariano Artigas “The Ethical Roots of Popper’s Epistemology”).

Sob a orientação firme de Bill Bartley concluí meu doutorado em tempo recorde, em Agosto de 1972, com uma tese de 615 páginas sobre  David Hume. Por mim eu teria continuado polindo o que eu esperava fosse tornar minha obra prima, mas Bill não me deixou, virtualmente me obrigando a entregar a tese na forma em que se encontrava. Foi aprovada sem ressalvas.

Em Pitt também tive o privilégio de estudar com Wilfrid Sellars, que foi o membro sênior de minha Banca de Doutoramento. Na home page dedicada a ele na University of Chicago, Keith Lehrer (filósofo bem conhecido) diz que “Sellars [foi] um dos mais importantes filósofos do século, talvez de todos os séculos”. Ele era também um professor fabuloso. Meu primeiro curso com ele foi um Seminário sobre Metafísica e Epistemologia. Depois fiz seu famoso seminário sobre Kant. Os cursos eram tão bons que eu comecei a frequentar tudo que era curso que ele dava: até mesmo, como ouvinte, alguns cursos introdutórios em nível de graduação (sobre Empirismo Britânico e sobre Filosofia Analítica, por exemplo). A maior parte do que eu sei sobre Filosofia Analítica aprendi com ele. Outros bons professores que tive em Pitt foram Nicholas Rescher (Lógica e Epistemologia), Richard Gale (Metafísica, Filosofia do Tempo, Filosofia Analítica), Kurt Baier (Ética), Joseph Kemp (Empiristas Britânicos), e Marilyn Frye (Kant). Olhando para trás posso ver porque o Departamento de Filosofia de Pitt era considerado o melhor do país naqueles anos.

Depois de receber meu Ph.D. fui contratado para lecionar filosofia, primeiro pela California State University at Hayward, em Hayward, CA, EUA (1972-1973), e, no ano seguinte, pelo Pomona College, um dos “colleges” do complexo chamado Claremont Colleges, em Claremont, CA, EUA (1973-1974). Felizmente, naquela época as normas do politicamente correto ainda não imperavam no cenário acadêmico americano. (Peter Drucker foi professor, por muitos anos, da Claremont Graduate School, que era a divisão de Pós-Graduação dos Claremont Colleges).

Enquanto trabalhava em Pomona tive uma das experiências intelectuais mais excitantes de minha vida: ler Ayn Rand pela primeira vez. A experiência fez de mim uma pessoa diferente. Sou para sempre grato ao meu colega de Pomona, Charles J. King, que veio a ser presidente do Liberty Fund, por recomendar que eu lesse Atlas Shrugged  (A Revolta de Atlas, em Português). Desde aquele momento, em 1973, Ayn Rand se tornou minha principal mentora intelectual, ética e política, embora meu relacionamento com ela nunca tenha tido o fervor quase-religioso daqueles para quem Objetivismo, mais do que uma filosofia, é um culto – quando encontrei Ayn Rand eu já tinha tido minha experiência religiosa há muito tempo. Mas Ayn Rand permanece até hoje como a influência mais forte e mais permanente sobre o meu pensamento metafísico, epistemológico, ético, político e até mesmo estético – vale dizer, do meu pensamento filosófico.

No todo passei sete anos nos Estados Unidos (Agosto de 1967 a Junho de 1974), sem voltar ao Brasil sequer uma vez. O clima político no Brasil durante esses anos foi tão inóspito que eu dificilmente teria me arrependido de ter passado todo esse tempo fora, ainda que esses anos não houvessem sido os mais frutíferos de minha vida, do ponto de vista intelectual.

Em Junho de 1974, com a intermediação de meu primo Anello Sanvido Filho (hoje vivendo em Calgary, Canadá), e do Rubem Alves (que morou em Campinas até o final de sua vida), retornei para o Brasil para lecionar na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em Campinas, SP, onde fiquei, até o fim de 2006, dando aula (no Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação) de Epistemologia, Filosofia Política e Filosofia da Educação (e, de vez em quando, de Tecnologia e Educação). Por uns tempos, na década de oitenta, envolvi-me com administração universitária e até mesmo com política acadêmica. Fui Diretor da Faculdade de Educação por oito anos (quatro dos quais como Diretor Associado), Presidente da Comissão de Orçamento por dois mandatos, Pró-Reitor para Assuntos Administrativos por dois anos, etc.

Enquanto na UNICAMP, e quando ocupava o cargo de Diretor da Faculdade de Educação (de 1980 a 1984), fiquei interessado no uso de computadores na educação (mais na aprendizagem do que no ensino, para dizer a verdade). Isto me levou, por volta de 1981, para um caminho intelectual paralelo que, eventualmente, acabou se tornando um grande interesse profissional: o uso das tecnologias de informação e comunicação como ferramenta que expande a capacidade de trabalho intelectual do homem, na educação, na saúde e no mundo dos negócios, e como constituidora de novos ambientes de aprendizagem, trabalho e lazer. Criei, na UNICAMP, in 1983, the Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), que dirigi até Abril de 1986. Ele existe até hoje. Já tem mais de 30 anos.

De Abril de 1986 até o Abril de 1990 fui emprestado, pela UNICAMP, ao Governo do Estado de São Paulo. De Abril 1986 até Março de 1987, fui Diretor do Centro de Informações Educacionais (CIE) da Secretaria de Estado da Educação. De Março de 1987 até o fim de 1988 fui Diretor do Centro de Informações de Saúde (CIS) da Secretaria de Estado da Saúde. Nessa posição travei contato com as pessoas que ocupavam posição equivalente na World Health Organization (WHO), de Genebra, Suíça, e na PanAmerican Health Organization (PAHO), de Washington, DC, EUA, às quais prestei consultoria em várias ocasiões desde 1988. Durante o ano de 1989 fui Diretor de Publicações da Secretaria de Estado da Saúde. De 1987 a 1989 fui também membro do Conselho Estadual de Informática (CONEI) do Estado de São Paulo.

No início de 1990 retornei à UNICAMP. Em 1992, através de autorização especial da Reitoria, fiz parte do seleto grupo (liderado pelo Prof. Dr. Maurício Prates de Campos Filho) que ajudou a criar o Curso de Pós-Graduação Profissional (Mestrado) em Gerenciamento de Sistemas de Informação na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), também em Campinas, SP. Depois de estar o programa em pleno funcionamento, com várias dissertações defendidas, e tendo se esgotado o período para o qual minha colaboração havia sido autorizada, voltei para a UNICAMP em tempo integral.

No início da década de 80 tornei-me consultor da empresa People Computação, em Campinas, SP, uma escola de informática. De 1990 até 1994 aquela companhia licenciou várias franquias. No final de 1994, foi criada uma nova empresa, People Brasil Informática, que passou, mediante contrato, a franquiar a marca, a gerenciar a rede de franquias, e a dar suporte técnico e operacional a ela. Eu tornei-me sócio, e, eventualmente, único proprietário dessa companhia. Em Março de 1998 as duas companhias terminaram seu relacionamento e as franquias voltaram à companhia original. A People Computação foi posteriormente vendida para o Grupo Multi, capitaneado pela Wizard e de propriedade de Carlos Wizard Martins, que, posteriormente, vendeu o Grupo Multi para a multinacional Pearson.

Antes disso criei, em Junho de 1997, a PBR Informática, uma companhia especializada em consultoria da área de educação, tecnologia, mudanças e inovação, que desenvolveu, durante três anos, materiais instrucionais e de auto-aprendizado na área de informática para escolas e outras instituições envolvidas no treinamento em informática e no uso de ferramentas de informática na educação, e, depois, passou a prestar assessoria a escolas e consultoria a empresas, organizações não-governamentais e órgãos de governo nas áreas em que a tecnologia interfaceia com a educação. Essa empresa atuou no mercado, enquanto esteve ativa, com a marca fantasia Mindware – EduTec.Net.

Em 1998 comecei a me tornar parceiro da área da Educação da Microsoft Brasil, parceria essa que se estreitou através dos anos. A partir de 2003 me tornei, por indicação da subsidiária brasileira, membro do Comitê Assessor Internacional do Programa Partners in Learning da Corp — isto é, na matriz da Microsoft, em Redmond, WA, EUA, função que exerci por dez anos, até 2013. Em 2003 também me tornei Coordenador do Comitê Assessor do Programa aqui no Brasil, função que exerci enquanto durou o Comitê, que aqui no Brasil era chamado de Fórum de Líderes Educacionais. Partners in Learning veio a ser chamado “Parceiros na Aprendizagem” aqui no Brasil. A parceria com a Microsoft Brasil durou até 2013. Essa parceria foi fonte de enorme aprendizado, de múltiplos contatos extremamente interessantes, de um sem número de viagens internacionais, e de grande satisfação profissional e pessoal. Através dela fui a Taiwan, para atuar como Keynote Speaker do Education and Technology Forum, durante todos os anos, desde 2004 até 2008 (tendo ido duas vezes em 2007). Fiz grandes amizades dentro da Microsoft, dentre as quais destaco Márcia Teixeira, Adriana Pettengill, Carrie Chen, Greg Butler, Vincent Quah, Emílio Munaro. Exceto pelo Vincent, nenhum desses está mais na Microsoft. O Greg morreu em circunstâncias trágicas em 2014. Tive na Microsoft o privilégio de conhecer a minha amiga Ana Teresa Ralston, que depois de sua permanência na Microsoft, foi Diretora de Tecnologia Educacional da Abril Educação e hoje é uma das diretoras da UniÍtalo, uma universidade particular de São Paulo. Como disse, minha colaboração com a Microsoft (tanto no Brasil como no plano global)se encerrou em 2013. Durou basicamente 15 anos, no caso do Brasil, e 10 anos, no caso da Corp.

Em 1999 comecei, por indicação da Microsoft, a prestar consultoria ao Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”, do Instituto Ayrton Senna (IAS), programa esse então totalmente financiado pela Microsoft Brasil. Meu trabalho se concentrou, por um bom tempo, apenas nesse programa, hoje rebatizado de “Escola Conectada”. Depois me envolvi também no Programa “Comunidade Conectada”, também financiado pela Microsoft, voltado para parceria com TeleCentros. Eventualmente fui solicitado, em 2002, a elaborar um projeto de Cátedra UNESCO dentro do Instituto, e desse projeto resultou a Cátedra UNESCO de Educação e Desenvolvimento Humano no Instituto Ayrton Senna, que coordenei, desde sua implantação, em 2003, até minha saída do Instituto, em Dezembro de 2006, e, depois, nos três anos de minha volta ao IAS, de 2011 a 2013. Trabalhar com essa nobre instituição me foi uma fonte de enorme prazer e constante aprendizado. Fiz grandes amigos ali dentro. A mais chegada é Adriana Martinelli Carvalho, que coordenava a área de Educação e Tecnologia – mas que não está mais lá. Kátia Ramos e Simone Menella também são grandes amigas. A Simone continua lá, mas a Kátia, não. Viviane Senna é, naturalmente, uma fonte constante de inspiração.

No final de 2006 me aposentei da UNICAMP e assumi, a partir de Janeiro de 2007, o cargo de Secretário Adjunto de Ensino Superior do Estado de São Paulo, a convite do Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, que havia sido meu colega na UNICAMP desde 1974, que era na ocasião Deputado Federal, e que acabava de ser escolhido pelo então Governador José Serra para ser o Secretário – e que, acima de tudo, era meu amigo pessoal. A passagem por essa secretaria, criada no governo Serra, foi curta, para mim e para o Pinotti. Não ficamos ali mais de um semestre. Pinotti, que era afiliado ao DEM, não resistiu à pressão que a esquerda exerceu sobre Serra para remove-lo do cargo. Parte da pressão teve de ver com o fato de que eu, em meu blog “Liberal Space” (http://liberal.space) havia feito, enquanto Fernando Henrique Cardoso era presidente, severas críticas a ele, ao Paulo Renato Souza, seu Ministro da Educação, e ao próprio Serra, seu Ministro do Planejamento, bem como ao PSDB. Serra, Paulo Renato, o Pinotti e eu éramos todos colegas na UNICAMP. A origem de nossos “entreveros” (se é que posso chamar assim as nossas brigas) é narrada no artigo “Minha Gestão na Direção da Faculdade de Educação da UNICAMP (1980-1984)”, que foi originalmente publicado no meu blog “Liberal Space” e, agora, está republicada aqui neste blog, logo depois deste artigo.

Ao sair do governo assumi, a convite do empresário Ricardo Semler, a Presidência do Instituto Lumiar, em São Paulo. O Instituto Lumiar é responsável pelas Escolas Lumiar. Fiquei nessa posição por dois anos. Vide o resultado do trabalho realizado no blog “Nova Educação” (http://novaeducacao.com). O trabalho contou com a imprescindível e inestimável colaboração de Paloma Epprecht e Machado (hoje Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves), que é, desde 2008, minha mulher (vide logo adiante).

Depois do Instituto Lumiar trabalhei em consultorias de longo prazo com a Fundação Bradesco, a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, a LegoZoom (representante no Brasil da Lego Education), a Lego Foundation, o Instituto Embraer, o Instituto MindGroup (pertencente à MindLab), a Confederação Nacional das Indústrias (no projeto Educação Livre, administrado pelo Escritório da UNESCO no Brasil), etc.

Atrás falei na Paloma mais de uma vez. Embora o tenha feito num contexto profissional, deixei claro que ela passou fazer parte de minha vida pessoal também.

Conheci a Paloma em Agosto de 2004. Quatro anos depois, em Setembro de 2008, passamos a viver juntos. Seis meses depois, em Março de 2009 oficializamos nosso relacionamento com um contrato particular de união estável, necessário porque meu divórcio, depois de 34 anos de casado, se tornou, infelizmente, um prolongado caso judicial. No final de 2011, quando a sentença de divórcio, totalmente favorável a mim, foi prolatada e havia transitado em julgado, transformamos o contrato em escritura pública de união estável, registrada em cartório — e começamos a planejar nosso casamento formal. Para simplificar as coisas, optamos por converter a união estável em casamento civil em 15 de Maio de 2012 (dia do aniversário da Paloma). Menos de dois meses depois, em 3 de Julho de 2012, dia do casamento dos meus pais e de minha filha mais velha, obtivemos consagração religiosa de nosso casamento, na Catedral Evangélica de São Paulo (Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo), sendo oficiantes os Revs. Elizeu Rodrigues Cremm e Valdinei Aparecido Ferreira. Éramos e continuamos a ser membros dessa igreja desde 28 de Novembro de 2010, tendo sido, ambos, arrolados por jurisdição, a pedido.

Como disse, demoramos para transformar nossa união estável em casamento civil porque precisei recorrer à Justiça para oficializar minha separação, sendo o processo apenas decidido quando, removidos pela nova legislação sobre o divórcio os últimos obstáculos, a sentença judicial veio rápido, fácil e nos termos em que eu havia feito o pedido – favorável a mim, portanto.

A Paloma, além de mulher, amiga e companheira, é parceira no trabalho, pois atuamos, profissionalmente, exatamente na mesma área. Foi assim que nos conhecemos, em 2004, no Congresso TecEduc@tion. Trabalhamos juntos em projetos da Microsoft (Parceiros na Aprendizagem, Aprender em Parceria), em 2005 e 2006. Em 2007, quando assumi a Presidência do Instituto Lumiar, convidei-a a vir trabalhar como Coordenadora Pedagógica do Instituto — convite que ela pode aceitar apenas a partir de Janeiro de 2008, posto que trabalhava na Secretaria da Educação do Município de São Bernardo do Campo. Ficamos no Instituto Lumiar até quase o final do primeiro semestre de 2009 e fizemos um trabalho que reputo extremamente importante. Boa parte dele está transcrito no blog “Nova Educação”, mencionado atrás. Depois disso a Paloma, como eu, passou a atuar como Consultora Independente no mercado, na área de Educação (currículo, metodologia, avaliação) e Tecnologia. Já prestou serviços de consultoria nessa área para a Microsoft, o Instituto Crescer para a Cidadania, o Instituto Paramitas, o CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), a Fundação Bradesco, a Abril Educação, o Programa Um Computador por Aluno (UCA), neste caso junto à Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP), etc. Ela trabalha atualmente (a partir de Agosto de 2011) no Colégio Visconde de Porto Seguro, Unidade Morumbi, em São Paulo e orgulhosamente é uma “Google Certified Educator”, posição que fez com que se envolvesse como consultora da UniÍtalo, recentemente.  Enquanto trabalhava, a Paloma cursou brilhantemente o Mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na área de Currículo, tendo tido o privilégio de ser orientanda do meu amigo (de cerca de 35 anos) e sempre brilhante e instigante Prof. Dr. Fernando José de Almeida. Ela defendeu  em Agosto de 2012 sua dissertação, com o título “A Avaliação de Competências no Ensino Fundamental: A Experiência da Escola Lumiar”. O trabalho pode ser consultado e mesmo baixado (vale a pena, garanto) a partir do site da PUC-SP, no seguinte endereço:
http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=14801.

A Paloma e eu já demos palestras juntos (até no exterior), escrevemos juntos alguns artigos, e planejamos escrever mais. Um livro, sobre redes sociais e educação, está basicamente pronto. Estamos deliberando, no momento, se o publicamos de forma impressa ou na Amazon, através do Kindle.

A Paloma tem duas filhas adolescentes lindas, a Bianca (1996) e a Priscilla (1998), que moram, metade do tempo, conosco. Inicialmente elas viveram em sistema de “guarda compartilhada”, mas agora, com a idade que têm, já se tornaram oficialmente donas dos próprios narizes. Não gosto muito do termo “enteado/a”, porque considero como filhos aqueles a quem, de alguma forma estendida e sustentável, ajudo (ou ajudei) a se desenvolver como pessoas, profissionais, cidadãos e principalmente aprendentes permanentes. Mas, para evitar confusão, vou usar o termo aqui. A Bianca e a Priscilla são, portanto, minhas filhas/enteadas mais novas.

Filhos meus, mesmo, tenho duas mulheres, de dois casamentos anteriores: Andrea (1973) e Patrícia (1975).

Andrea é filha de meu primeiro casamento, realizado nos Estados Unidos, em 1967, com Maria Luiza Pinto de Oliveira (hoje Maria Luiza Kuszmaul), originalmente de Campinas e hoje de Champion, OH, EUA. Esse casamento terminou quando retornei ao Brasil em 1974. Depois de brevíssimo interregno no Brasil, a Andrea continuou vivendo nos Estados Unidos, inicialmente com a mãe, depois no Grove City College, depois, como casada e, mais recentemente, como “descasada”. Está lá até hoje.

Patrícia (1975) é filha de meu segundo casamento (que aconteceu em Campinas, SP, algum tempo depois de eu retornar dos Estados Unidos, em 1974), com Sueli Antonia Atibaia, de Campinas. O término desse casamento em 2008 me envolveu no processo judicial de separação já mencionado. Com minha separação da mãe dela, meu relacionamento com a Patrícia teve baixos e médios – nunca mais ficou a mesma coisa (que dizer, que nunca teve “altos”). No momento (Novembro 2015) está em um de seus piores e mais longos “baixos” – que já dura por bem mais de dois anos. Ninguém disse que a vida é fácil nem que a gente consegue ser feliz sem pagar um preço.

De meu segundo casamento tenho, também, dois filhos/enteados: Tatiana (1969) e Rodrigo (1971). Participei de seu desenvolvimento desde 1974, quando ainda eram pequeninos (o Rodrigo tinha 3 e a Tatiana 5 anos, quando vieram morar comigo). Desde minha separação da mãe deles, e apesar dos 34 anos em que convivi quase diariamente com eles, a convivência com eles, atualmente, é basicamente nula – mas, em termos relativos, é bem melhor com o Rodrigo do que com a Tatiana.

Netos já tive sete (mas um deles, Guilherme, primeiro filho da Patrícia, infelizmente, morreu uma semana depois de nascer: teria feito doze anos no dia 9 de Setembro deste ano (2015). Certamente conto como netos também os filhos dos filhos/enteados. São esses os seus nomes e seus anos de nascimento Gabriel (1999), Olívia (2002), Guilherme (2003), Gabriela (2004), Marcelo (2005), Madeline (2005) e Felipe (2006). Gabriel é filho da Tatiana; Olivia e Madeline, da Andrea; Guilherme e Marcelo, da Patrícia; e Gabriela e Felipe, do Rodrigo.

Se eu considero os enteados como filhos, com muito maior razão os netos. No entanto, com a separação litigiosa da Sueli ela acabou causando grande deterioração no meu relacionamento, não só com os filhos dela mas com a nossa filha, e também com os netos dela e o nosso, o Marcelo.

A Andrea, nascida em 1973, se formou em Marketing Internacional em Grove City College, em Grove City, PA, EUA, já mencionado. Foi, por algum tempo, Consultora Financeira dos produtos financeiros do American Express na região de Warren, OH, EUA., mas hoje administra um conjunto de imóveis de sua propriedade. Casou-se em 1998 e se separou no início deste ano (2015), depois de quase 17 anos. Ela vive com as filhas em Cortland, OH, EUA.

A Patrícia, nascida em 1975, formou-se (em 1999) em Odontologia na Universidade São Francisco (USF), em Bragança Paulista, SP, e é, hoje, Especialista na Área de Periodontia e Dentística Restauradora. Exerce a odontologia em Valinhos, SP (tanto quanto eu saiba). Começou a fazer o Mestrado na Faculdade de Medicina da UNICAMP, na área de moléstias sexualmente transmissíveis, mas interrompeu o curso. Casou-se em 2003, mas separou-se em 2012.

A Tatiana, nascida em 1969, é engenheira civil, formada pela PUCCAMP, mas trabalha, hoje, como funcionária pública no judiciário paulista, em Campinas. Ela se casou, em 1997, com Alexandre Montgomery Wild, promotor público em Campinas, onde moram.

O Rodrigo, nascido em 1971, é engenheiro de computação pela UNICAMP (formado na primeira turma, a de 1990). Trabalha como contratado PJ de uma empresa da área de sistemas em Campinas. Em 2000, casou-se com Adriana Tavares, fisioterapeuta formada (em 1999) pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Piracicaba, SP. Eles moram em Campinas, SP, num bonito sítio na área de Barão Geraldo, de propriedade dos pais da Adriana.

A Bianca, nascida em 1996, terminou em 2013 o Ensino Médio, no Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, SP, onde a Paloma trabalha atualmente. No primeiro semestre de 2014 ela meio que tirou uma folga para estudar um número de coisas em que tinha interesse e a que a intensidade dos trabalhos da escolaridade formal a impediram de se dedicar. No segundo semestre de 2014 começou a cursar Gestão Ambiental na FMU, em São Paulo.

A Priscilla, nascida em 1998, conclui este ano (2015) o Ensino Médio também no Colégio Visconde de Porto Seguro. Estará prestando vestibular para Biomedicina — mas tem interesses os mais variados (que incluem o Teatro, o Jornalismo e o Direito). Não sei se Biomedicina será sua escolha definitiva… Tem um dom especial para línguas, tendo obtido os cobiçados certificados de Alemão, Inglês e Espanhol do Colégio Visconde de Porto Seguro.

Meus netos são todos estudantes, como seria de esperar, pela idade.

Meus pais são falecidos: meu pai, o Rev. Oscar Chaves, em 5 de Março de 1991, em Campinas, minha mãe, Edith de Campos Chaves, em 11 de Junho de 2008, em Santo André. Como já disse, tenho um irmão e duas irmãs, que moram, todos, em Santo André, SP: o Flávio, a Priscila e a Eliane, a caçula. O Flávio é casado com a Inês e tem dois filhos: Flávio Júnior (Flavinho) e César. O Flavinho é casado com a Aninha e eles não têm filhos. O César é casado com a Juliana e eles têm dois filhos, chamado (também) Gabriel e Lucas, que são, portanto, netos do Flávio e da Inês. O Flavinho, formado em Farmácia pela USP, mora e trabalha em São José do Rio Preto, SP. O César, formado em Administração de Empresas pela FGV, está estudando (MBA) nos Estados Unidos atualmente. A Eliane é casada com o João e eles também têm dois filhos: Vítor e Diogo. Ambos são solteiros, trabalham atualmente na empresa da família, e moram com os pais em Santo André. Minha irmã Priscila é solteira e funcionária pública do Judiciário.

Os pais da Paloma, José de Oliveira Machado Neto (o “Machadinho”) e Ana Maria Epprecht Machado, estão vivos e moram em Ubatuba, SP. Conheci o pai da Paloma no final da década de 50, início da década de 60, na Igreja Presbiteriana do Parque das Nações, em Santo André, que sua família frequentava e da qual meu pai era pastor. Sua mãe era organista e regente do coral da igreja. Essa é uma das coincidências fantásticas de minha vida com a Paloma. (Outras duas: dois tios dela, um de primeiro grau e o outro de segundo, eram amigos meus de adolescência e juventude, na mesma igreja que o pai dela frequentava – e foi meu pai que fez o casamento deles, muito tempo atrás).

A Paloma tem dois irmãos: a Ana Patrícia, mais velha do que ela, e o Rafael, mais novo do que ela. A Ana Patrícia mora em Guarulhos, é casada com o Fábio, e tem três filhos: Aline, Everton e Júlia. A Aline já é casada (com o Alexandre, apelidado carinhosamente de Japa), e eles têm um encanto de filhinha, a Milena (a japinha mais linda que eu conheço). O Rafael é casado com a Carolina (Carol) e mora em São Paulo. Eles não têm filhos.

Pela intermediação da Paloma restabeleci os laços que havia perdido com a igreja e a religião. Frequentamos, desde que estamos juntos, a Catedral Evangélica de São Paulo (também conhecida como Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo), na Rua Nestor Pestana, no Centro. Tornamo-nos oficialmente membros da igreja em Outubro de 2010. Facilita muito esse processo o fato de ter frequentado essa igreja no passado, ter ali vários amigos, em especial o Rev. Elizeu Rodrigues Cremm e sua mulher, Marli, que foram meus colegas no Instituto JMC nos idos de 1961-1963. O Elizeu é um dos pastores da igreja (hoje jubilado e morando em Tatuí). Este ano (2015) faz nada menos do que 54 anos que o Elizeu, a Marli e eu somos amigos — em poucos meses fará 55 anos. Apesar do longo interlúdio fora da igreja, sinto-me totalmente em casa na Catedral — até porque ela mantém um hinário que contém todos os meus hinos mais queridos (que minha amiga, também do JMC, a Maestrina Dorothéa Machado Kerr, filha de meu ex-professor, Rev. Joaquim Machado, gravou com o Coral Evangélico de São Paulo, em inúmeros CDs).

Continuo a ter muitas dúvidas em teologia e para a maioria das questões da religião não encontrei respostas convincentes ou totalmente convincentes. Mas voltei a achar as questões fascinantes, como um dia as havia achado – e tenho progredido um pouco no sentido de equaciona-las. Foi por isso que voltei a dar atenção ao estudo da Teologia — em especial da História da Doutrina. Os escritos de C. S. Lewis, que li quando estava no Seminário de Campinas, voltaram a me ajudar e a me inspirar. E continuo a gostar, como sempre gostei, de Rudolf Bultmann, para mim o maior teólogo do século 20 e meu teólogo favorito. Os problemas passados com a instituição eclesiástica acabaram por me levar a afastar essas questões de meu foco de interesse por muito tempo. Felizmente, estou, aos poucos, com o apoio e o incentivo da Paloma, fazendo as pazes com o meu passado. O fato de meu sobrinho Vitor, sobrinho de minha irmã Eliane, haver decidido se tornar teólogo também me motivou. Ele defendeu seu Mestrado em 2011 e seu Doutorado em 2015 na área de Ciências da Religião no Programa de Pós-Graduação da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Já tem vários livros publicados, nessa área e em outras. Morro de orgulho dele.

E há outro desenvolvimento até certo ponto irônico. Numa virada inesperada e totalmente não planejada, fui convidado a ser Professor de Teologia, na Área de História da Igreja e da Doutrina Cristã na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana do Brasil (FATIPI) em 2014. O convite foi feito pelo seu diretor, Rev. Reginaldo von Zuben, que também é pastor da Catedral. A partir desse momento comecei a manter vários blogs na área teológica, propriamente dita, como “Theological Space” (http://theological.space), e na de História da Igreja, como “Church History Space” (http://churchhistory.space). Também me enveredei a pesquisar a questão da “Igreja Virtual” (http://ecclesiavirtualis.com).

Todos os meus blogs podem ser acessados a partir de meu “metablog”, “Chaves Space” (http://chaves.space). Esse meu conjunto de blogs me é muito importante. Eles comportam, atualmente, em seu conjunto, mais de 1.200 artigos meus e ocupam boa parte de meu tempo — que, entretanto, é dividido também com meu perfil e minha “fan page” no Facebook, localizados, respectivamente, em http://facebook.com/eduardo.chaves e http://facebook.com/educhv. Convido os eventuais leitores deste resumo autobiográfico a consultar tanto os blogs como meu perfil e minha “fan page” no Facebook.

Detalhes sobre a vida da gente normalmente só interessam a gente mesmo. Se, a despeito disso, você chegou até o fim desta longa página, receba meus parabéns pela paciência e os meus agradecimentos. Poucos são os que chegarão até aqui. Se quiser me contatar, use o e-mail eduardo@chaves.pro.

Revisto, expandido e inserido aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015.

Lugares em que Morei

Segundo dados contidos na Bíblia do meu pai, morei, do meu nascimento, em 7 de Setembro de 1943, até Março de 1952, nas seguintes cidades:

LUCÉLIA, SP

Meus pais viveram em Lucélia, onde nasci em 7-9-1943, de 24-2-1943 a 6-1945 – saí de lá com cerca de 1 ano e 9 meses. Meu primeiro aniversário foi passado em Lucélia.

IRATI, PR

Meus pais moraram em Irati, no Sul do Paraná, de 6-1945 a 3-1946. Meu segundo aniversário foi passado em Irati. Saí de lá com 2 anos e 5 meses, por aí.

MARIALVA, PR

Meus pais moraram em Marialva, no Norte do Paraná de 3-1946 até por volta 2-1949. Meu irmão Flávio nasceu nesse período — mas em Campinas, SP, para onde minha mãe havia ido. Meu terceiro, quarto e quinto aniversário foram passados em Marialva. Aqui já me lembro das casas em que moramos: uma no centro e outra, um casarão afastado.

MARINGÁ, PR

Meus pais moraram em Maringá, PR, de 3-1949 a 2-1952. Saí de lá com 8 anos e 5 meses, por aí, tendo lá celebrado meu sexto, sétimo e oitavo aniversário lá. Moramos em apenas uma casa.

SANTO ANDRÉ, SP

Meus pais se mudaram para Santo André em Fevereiro de 1952. Foi nessa data em que entrei no Grupo Escolar, bem atrasado, com 8 anos e meio. Eles moraram o resto de suas vidas em Santo André. Meu pai faleceu em 5/3/1991 e minha mãe em 11/6/2008. Lá nasceram minhas irmãs Priscila e Eliane. Morei com meus pais até Fevereiro de 1961 – 9 anos, portanto. Morei em apenas duas casas lá. Eles moraram em várias.

JANDIRA, SP

Morei em Jandira, estudando, de 2-1961 a 12-1963: quase três anos.

CAMPINAS, SP

Morei em Campinas, SP, estudando e trabalhando, de 1-1964 a 1-1967: três anos.

SÃO LEOPOLDO, RS

Morei em São Leopoldo, RS, estudando, de 02-1967 a 07-1967: quase seis meses.

PITTSBURGH, PA, EUA

Morei em Pittsburgh, PA, de 08-1967 a 08-1972: cinco anos.

CASTRO VALLEY, CA, EUA

Morei em Castro Valley, trabalhando em Hayard, ambas as cidades na California, de 08-1972 a 07-1973: um ano.

POMONA, CA, EUA

Morei em Pomona, trabalhando em Claremont, ambas as cidades na California, de 08-1973 a 06-1974: quase um ano.

CAMPINAS, SP

Morei em Campinas, SP, de 06-74 a 08-2008: 34 anos e 2 meses. Morei em cinco casas.

SÃO PAULO, SP

Morei em São Paulo, SP, de 09-2008 a 12-2015: 7 anos e 3 meses.

SALTO, SP

Morei em Salto, SP, de 01-2016 a …

Em São Paulo, 5 de Novembro de 2015

História de Lucélia, SP: Cidade em que Nasci

[Texto transcrito do site da Câmara Municipal da Lucélia. Vide mais informações no final]

Lucelia - foto 01[Vista parcial da cidade, com a Matriz ao centro]

1. Início da Colonização

Formado em engenharia civil em 1914, Luiz Ferraz de Mesquita iniciou sua atividade profissional, na demarcação judicial das terras da Fazenda Monte Alegre à margem direita do Rio do Peixe, quando a Estrada de Ferro Sorocabana atingia com suas linhas, em tráfego, a cidade de Assis, Monte Alegre é denominação vaga que servia para designar todas as terras entre o Rio do Peixe e Aguapeí aproximadamente até Bastos até a barraca do Rio Paraná.

 O trabalho de demarcação terminou em 1918 e ele recebera terras como pagamento de seus serviços. Na abertura de uma das picadas, quando atravessavam um dos afluentes do Rio do Peixe, perderam-se três balizas, então o denominaram de Ribeirão Baliza. Ainda em 1918 empreendeu Luiz Ferras de Mesquita a primeira abertura de uma clareira na mata virgem à margem esquerda do Ribeirão Baliza, onde se localizaram as primeiras famílias chefiadas pelo patriarca Benedito Lopes. Todavia, a colonização da referida região foi iniciada praticamente por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação da Fazenda Baliza e a seguir de Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela Sorocabana, imigrantes Russos e outros Eslavos que negociando com o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita se estabeleceram nos bairros de Baliza e Água Grande. A gleba que ira formar a Fazenda Baliza e Santa Cecília foi ligada à José Theodoro (Martinópolis), de onde Luiz Ferraz de Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização.

 Os colonos, principalmente estrangeiros que compravam terras de sua propriedade, tinham que parar no Baliza para iniciar a derrubada das terras que havia adquirido o que fez dela um patrimônio centro de colonização, tendo o Dr. Mesquita tendo que instalar uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

 Em 1929, João de Arruda, abrindo uma clareira na mata virgem construindo o primeiro rancho, dando origem ao patrimônio chamado “Zona da Mata”, ou seja, a origem da atual Lucélia. Na realidade não passou de dez a doze casas e corresponde presentemente ao local ocupado pelo cemitério e algumas chácaras. A cidade de Lucélia, sede do município do mesmo nome não surgiu ao acaso mas de um plano urbanístico e econômico racional idealizado pelo engenheiro Luiz Ferraz de Mesquita. Parece que para não arcar sozinho com toda a responsabilidade de vendas de lotes, procurou associar-se ao Sr. Max Wirth e a C.A.I.C. (Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização). Em 1939, se deu a fundação de Lucélia, no município de Martinópolis 6 Km do distrito de Baliza.

 Feito o traçado da cidade, ergueu-se na avenida principal que é ponto mais alto do espigão divisor das águas do Peixe e Aguapeí, uma capelinha em 24 de junho de 1939 foi realizada a primeira missa do povoado pelo padre Gaspar Cortez Aguilar.

 Lucélia desenvolveu rapidamente em virtude econômicas das terras. É curioso observar que até 1944 as terras de Lucélia pertencia às comarcas de Araçatuba, Guararapes, Martinópolis, Tupã e Valparaíso. A própria povoação estava assim dividida: do lado direito da avenida Internacional, do início até a atual praça José Firpo, pertencia ao município de Guararapes; continuando até onde estava a Indústria de Óleo Granol, pertencia ao município de Valparaíso. Do lado esquerdo da avenida Internacional do início até a altura da Granol pertencia ao município de Martinópolis.

 Graças ao prestígio do seu fundador, Lucélia foi elevada de uma só vez à categoria do Distrito de Paz, Município e Comarca pelo Decreto Lei Nº 14.334 de 30 de novembro de 1944. O município de Lucélia foi criado com sede no povoado do mesmo nome e com terras desmembradas dos municípios de Andradina, Valparaíso, Guararapes, Martinópolis, Presidente Prudente, Presidente Bernardes, Santo Anastácio e Presidente Venceslau. O referido município contou inicialmente com os Distritos de Paz de Aguapeí do Alto (Flórida Paulista), Guaraniúna (Pacaembu) e Gracianópolis (Tupi Paulista).

 A partir de 1939, Luiz Ferraz de Mesquita fez de tudo por Lucélia e conseguiu oito estradas convergentes, sendo três de acesso à Estrada de Ferro Sorocabana (Rancharia, Martinópolis, Presidente Prudente), três para a estrada de Ferro Noroeste (Valparaíso, Guararapes e Araçatuba) e as duas de saída e chegada pelo espigão da Companhia Paulista.

 Com a elevação de Lucélia a município na época da Ditadura o seu primeiro prefeito foi por nomeação do interventor estadual, que na época era o Sr. Adhemar Pereira de Barros concunhado do Dr. Mesquita em que recaiu a nomeação de prefeito.

Desde a elevação de Lucélia a município, somente o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita fora nomeado Prefeito pelo Interventor Estadual (Governador do Estado). Todos os demais foram eleitos democraticamente.

2. Fundador de Lucélia

LUIZ FERRAZ DE MESQUITA, fundador da cidade, foi um verdadeiro bandeirante dos tempos modernos.

Nas primeiras décadas deste século, em pleno sertão bruto do noroeste do Estado de São Paulo, viveu acampado, em grandes trabalhos de geodesia.

Derrubou florestas e abriu estradas, trabalhos que lhe renderam como pagamento a área onde anos mais tarde pôde realizar o sonho de sua mocidade ativa e empreendedora: fundar uma cidade!

No final da década de 30, nas terras que ganhou, traçou os lineamentos de Lucélia.

Demarcou as ruas e as praças e iniciou o loteamento daquela que seria desde então “a pupila de seus olhos.”

Como fruto deste trabalho que o mantinha quase sempre distante de sua família, sustentou, na Capital sua prole numerosa – 10 filhos – educados e formados sob supervisão dedicada de sua esposa Cecília.

Da união da sílaba LU de seu nome e da sílaba CE do nome de sua esposa Cecília, acrescidos da desinência LIA, tão comum nas cidades da vizinhança, tais como Gália, Cabrália, Marília, surgiu o nome LUCÉLIA.

Tornada Comarca na década de 1.940, Luiz Ferraz de Mesquita foi seu primeiro prefeito municipal, ocorrendo na gestão, a primeira eleição para presidente da República, depois da ditadura Vargas, sendo eleito o Marechal Dutra.”

Faleceu em Lucélia no dia 14 de novembro de 1.960, deixando a viúva, os 10 filhos e mais de 30 netos… e a comunidade pela qual sonhou e viveu.

3. A Primeira Planta de Lucélia

Vejam na imagem abaixo, a primeira planta da cidade de Lucélia, elaborada pelo Dr. Luiz Ferraz de Mesquita

Lucelia - foto 02[Primeira planta da cidade de Lucélia]

Essa planta foi o documento utilizado pela empresa L.F. Mesquita quando se iniciou a venda de terrenos para a formação da cidade de Lucélia.

O Portal Nossa Lucélia agradece a família Galetti, na pessoa do Sr. Diógenes Galetti que gentilmente cedeu uma cópia desse documento e autorizou a publicação do mesmo.

A cidade de Lucélia, não surgiu ao acaso, mas de um plano urbanístico e econômico racional idealizado pelo engenheiro Luiz Ferraz de Mesquita. Em 1.939, deu-se a fundação de LUCÉLIA, no município de Martinópolis a 6 km do distrito de Baliza. O Dr. Luiz Ferraz de Mesquita foi o engenheiro incumbido da divisão e colonização das terras onde seria a cidade de Lucélia.

Com a área já estava totalmente demarcada, foi lançado um panfleto para divulgar a venda dos terrenos ao povo daquela época que desejavam se instalar na região no novo município de Lucélia.

O panfleto que dizia: “Lucélia, A cidade da terra boa” e “Quem vai adiante bebe água limpa”, tinha a responsabilidade de L.F. Mesquita, com sede à Rua Conselheiro Crispiniano, nº. 29 na cidade de São Paulo.

4. Um Distrito Chamado Baliza

[O texto nesta seção é do jornalista José Carlos Daltozo, com colaboração de Marcos Vazniac.]

Hoje é uma simples pastagem, cortada por um riacho assoreado denominado Baliza, mas já foi de grande importância para as cidades de Martinópolis, Lucélia e Osvaldo Cruz. Estamos falando do antigo distrito de Baliza, que pertenceu originalmente a Martinópolis e depois da emancipação de Lucélia, em fins de 1944, passou a ser distrito daquela cidade da Alta Paulista.

Quando surgiu o povoado de Califórnia, atual cidade de Osvaldo Cruz, este também passou a pertencer juridicamente ao distrito de Baliza, como bem informa o escritor José Alvarenga em seu livro Osvaldo Cruz – Achegas Históricas: “…a 16 de novembro de 1942, pelo decreto-lei estadual nº 13.050, a então Vila de Califórnia, sob a administração de Walter Wild, foi elevada à categoria de distrito de 2ª zona com sede em Baliza, no município de Martinópolis e comarca de Presidente Prudente.” Baliza era, então, um florescente povoado com várias residências, algumas casas comerciais, uma serraria, um clube esportivo, uma igreja Batista e uma Igreja Ortodoxa Russa, uma vez que ali residiam inúmeros eslavos. O motivo de ter existido, naquele povoado, vários descendentes de povos eslavos, é interessante.

Em recente visita à cidade de Lucélia, entrevistei alguns imigrantes eslavos e fiz um ligeiro apanhado histórico da chegada deles neste longínquo rincão do Brasil. Eles fugiam do comunismo e da pobreza reinante na então União Soviética e nos países satélites. Eram russos, ucranianos, romenos, búlgaros, entre outros, que ao chegar ao Brasil se espalharam por várias cidades do interior paulista. Ficaram sabendo da venda de terras em suaves prestações, por parte de Luiz Ferraz de Mesquita, que estava parcelando parte de sua fazenda de 2.735 alqueires, tendo a denominado Fazenda Baliza. Mesquita obteve essa fazenda como pagamento pelos seus serviços de agrimensor na demarcação de terras da gigantesca Fazenda Monte Alegre. Deu esse nome ao local porque perdeu três balizas de demarcação nas proximidades do ribeirão que cortava o loteamento rural. Ficava a cerca de 50 km. de Martinópolis, sede do município, pois naquela época nosso território avançava além do rio do Peixe, nossa atual divisa municipal com Pracinha, chegando até o espigão divisor Peixe-Aguapeí.

O povoado de Baliza era pequeno, mas a zona rural ao redor era formada de terras férteis, chegando a ter 2.756 habitantes. Segundo entrevista do autor deste artigo com Stepam Povliuki, em junho de 1997, para o jornal Folha da Cidade de Martinópolis, este relatou: “desci na estação ferroviária de José Teodoro, nome antigo de Martinópolis, no ano de 1932, me dirigindo ao povoado de Baliza, onde já haviam outros russos, uma vez que um capataz de uma fazenda nas proximidades era dessa nacionalidade e foi chamando os conterrâneos. Lembro que Baliza chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, uma farmácia, uma serraria e um cemitério. Hoje nada mais existe no local, todo mundo foi se mudando para Lucélia quando fundaram aquele povoado e venderam terras baratas. Sou nascido em Pitronska, na Bessarábia, atual Romênia, mas na época que nasci, em 1918, pertencia à Rússia. Tivemos muita dificuldade ao chegar no Brasil e, depois, na adaptação ao clima e costumes da nova terra, pois não conhecíamos lavouras de café, nem sabíamos como cultivá-lo. Também desconhecíamos a mandioca e frutas como banana, mamão e manga. Aqui era tudo muito diferente.”

No Histórico de Lucélia, fornecido pela Prefeitura daquela cidade, consta que a colonização de Lucélia foi iniciada por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação das fazendas Baliza e Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela E.F. Sorocabana, imigrantes russos e outros povos eslavos que, negociando com o Dr. Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Baliza e Água Grande. A gleba foi ligada por uma estrada de rodagem ao povoado de José Teodoro (atual Martinópolis), de onde o Dr. Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização. Os estrangeiros que compravam terras tinham que parar em Baliza para iniciar a derrubada da mata, o que fez dela um patrimônio centro de colonização, com a instalação de uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

A cidade de Lucélia, fundada em 1939, a seis quilômetros do distrito de Baliza, mas ainda dentro do município de Martinópolis, foi fruto de um plano urbanístico e econômico racional, numa associação de Luiz Ferraz de Mesquita com Max Wirth e a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização.”

Lucélia tem um histórico curioso em seus primeiros anos de vida, quando era um insipiente povoado e seu território fazia parte de Martinópolis. Os comerciantes estabelecidos no lado esquerdo da atual Avenida Internacional pagavam seus impostos à Prefeitura de Martinópolis, enquanto parte dos comerciantes estabelecidos no lado direito pagavam para a Prefeitura de Valparaíso e outra parte para a de Guararapes.

A avenida, situada exatamente no espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí, foi implantada exatamente na fronteira dos territórios dessas três cidades, uma da região Alta Sorocabana e duas da região Noroeste. O Decreto 9.775, de 30.11.1938, que criou o Município de Martinópolis, foi publicado no Diário Oficial de 19.12.1938 e menciona, no final, a criação de Baliza com as seguintes confrontações: “O distrito de paz de Baliza, que fica criado, terá as seguintes divisas internas, com a sede do município de Martinópolis: começam no rio do Peixe, na foz do Ribeirão da Confusão e descem por aquele até a barra do ribeirão dos Ranchos.” Do outro lado, como dissemos anteriormente, ia até o espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí. Uma entrevista realizada há poucos meses com Jorge Cavlak, nascido em Baliza e atualmente residindo em Lucélia, esclarece que na realidade haviam dois pequenos povoados, um ao redor do ribeirão Baliza, no local onde passava a estrada de rodagem de Martinópolis para Lucélia, e outro um pouco mais adiante, no ribeirão Água Grande. Mencionou vários nomes de pequenos proprietários eslavos que residiam em sítios vizinhos ao povoado e à estrada de rodagem. O sítio mais próximo à estrada era de Stefan Paley, no sítio ao lado moravam os Trukshen, em seguida vinham os sítios de Inácio Brichiuk, Simão Popik e por último Demétrio Bastinvadji. Do outro lado do ribeirão, fazendo fronteira com esses proprietários, havia os sítios de Nicolau Uzum, Jorge Delive, Basílio Greck, Hartion, Afanásio, Jeremias Posledniak, Profor, Jacob e por fim Demétrio Cavlak.

Terminando os sítios havia a fazenda do Dr. Mesquita. Nos fundos dos sítios dos primeiros citados, havia os sítios de Jorge Mueulik, Jorge Puskof, Basílio Kirkoff e João Berholf. Do outro lado da estrada só havia dois pequenos proprietários, Stepan Pavioliuk e Pedro Peikof, em seguida vinham as terras pertencentes à fazenda do Dr. Zeferino Veloso. Jorge Cavlak informou também que a igreja próxima à estrada, dentro do sítio dos Paley, era protestante (Batista) e que a Igreja Ortodoxa Russa ficava um pouco mais distante, na propriedade de Jeremias Posledniak. Um padre russo visitava essa igreja poucas vezes por ano, devido à distância da ferrovia e a precariedade das estradas. As recordações que ele tem do pequeno povoado de Água Grande são poucas, ficava distante dois quilômetros de Baliza, em direção de Lucélia. Recorda-se da existência de apenas uma casa comercial, uma serraria e um clube social e esportivo com o nome de ABC. Ambos, Baliza e Água Grande, desapareceram com o crescimento de Lucélia, principalmente depois da chegada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e os atrativos e oportunidades de uma cidade em franco desenvolvimento. Todos os eslavos foram vendendo, aos poucos, suas propriedades rurais e mudando para Lucélia, até extinguir os dois povoados.

A mãe do Jorge, Dona Helena, bastante idosa mas ainda muito lúcida, informou que nasceu na Bulgária, acompanhou seu marido no desbravamento da região de Baliza, onde morou muitos anos. O que mais se recorda são as festas rurais, onde as mulheres podiam se alegrar um pouco. Isso porque os homens, mesmo trabalhando de sol a sol nas lavouras, iam aos jogos de futebol nos finais de semana, ou jogavam baralho, bebiam, viajavam para Martinópolis buscar mantimentos, vender porcos, galinhas etc. As mulheres, no entanto, passavam a maior parte de suas vidas trancadas em casa, costurando, bordando, fazendo comida, cuidando dos filhos. Os bailes e as cerimônias religiosas eram as únicas oportunidades que tinham de se divertir um pouco.

O jornalista Marcos Antonio Vazniac, do jornal Gazeta Regional, editado em Lucélia, também é descendente de eslavos e sempre que consegue algumas fotos antigas, publica-as no jornal onde trabalha, na seção Recordando.

Outro morador de Lucélia, o professor Jeová Severo da Silva, escreveu uma monografia de conclusão de curso de Geografia na Unesp de Presidente Prudente sob o tema “Lucélia-SP, do início ao meio: uma análise da evolução do município”, onde também faz breve apanhado histórico sobre Baliza, considerando-a o berço de sua cidade.

Quem passar pela estrada vicinal que liga Lucélia ao novo município de Pracinha, em direção ao Rio do Peixe, verá um pequeno riacho assoreado, barrancos de dois metros de altura nas laterais, algumas árvores nas margens, terreno todo plantado com capim, alguns bois pastando, esse era o local onde existiam os sítios dos russos e demais eslavos, onde um povoado chamado Baliza foi formado, mas que desapareceu completamente a partir da década de 1950. Foi um povoado de grande valor histórico, pertenceu a Martinópolis muitos anos e tornou-se a célula mater de duas importantes cidades da Alta Paulista: Lucélia e Osvaldo Cruz. .

5. Baliza o Distrito que Desapareceu

[Texto escrito com a colaboração de Marcos Vazniac]

A duas léguas do Bairro BALIZA, no alto do espigão do Peixe/Aguapeí, acontecia muito rápido o nascimento de LUCÉLIA. E com isso, começava o desaparecimento do Bairro Baliza.

Nada mais existe no local, nem vestígios de construções. Apenas um rio chamada Baliza, que separa Lucélia de Pracinha. Nas margens desse rio é que existia o povoado.

A reportagem da Folha da Cidade de Martinópolis, esteve no local em 1997 e encontrou um remanescente, um senhor de origem russa, Stepan Povliuk que apesar dos 79 anos, ainda lúcido, contou o que sabia.

“Na época que vim para José Theodoro (nome antigo de Martinópolis), em 1932, já havia uma colônia russa no local chamado Baliza. Ainda nem se pensava que existiria a cidade de Lucélia.

O motivo de se juntarem muitos russos naquele local é que havia um capataz de uma fazenda dessa origem e foi chamando os demais, espalhados em várias cidades do interior paulista. Lá nas margens do rio Baliza, chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, cemitério, farmácia, uma serraria e hoje nada mais existe. Todos venderam seus lotes baratos e mudaram-se para Lucélia, quando abriram o novo povoado. Só eu estou ainda aqui, neste sítio. Sou nascido em Pitronka, na Bessarábia, atual Romênia. Quando nasci (27.10.1918), minha cidade pertencia à Rússia.

A vida naquele tempo era uma dificuldade. Na roça, nosso povo não estava acostumado com lavouras do tipo que se plantava aqui. Foi difícil se acostumar com mandioca, café, banana, mamão, manga. Era tudo desconhecido para nosso povo. Mas sobrevivemos e alguns descendentes hoje moram em Lucélia”.

6. Colônia de Imigrantes Eslavos foi Pioneira em Lucélia

A história de nossa cidade data alguns anos antes de sua emancipação política ocorrida em 1.944.

Um grupo de imigrantes Eslavos (russos, romenos, búlgaros e ucranianos) construíram um povoado situado no Bairro Baliza.

Ali construíram suas casas incluindo um cemitério, mas a colônia dos eslavos não prosseguiu.

Com a fundação de Lucélia, o Bairro Baliza desapareceu e nada restou no local. Os moradores desta colônia acabaram mudando para outras cidades como São Paulo, Campinas, Maringá e Curitiba.

Um destaque sobre a colônia eslava do Bairro Baliza, é que os imigrantes oriundos da Rússia, não aprenderem a falar nossa língua, e os filhos destas famílias lembravam muito a “Mãe Rússia”.

Parte da memória da imigração destas famílias para o Brasil e consequentemente para Lucélia, devem estar nos arquivos do Museu da Imigração em Santos e no Rio de Janeiro, ou em outros países como Canadá, EUA, França e Alemanha, visto que estes imigrantes quando vinham para o Brasil, pensavam que estavam indo para a América do Norte (Canadá e EUA), pois parte de seus pertences foram transferidos para outros navios que iam até aos países da América Anglo-Saxônica.

Estas famílias embarcavam nos portos de Hamburgo e Marselha. Cada embarcação marítima ganhava por pessoas que transportavam.

7. Comarca de Lucélia

A instalação da Comarca de Lucélia aconteceu em 13 de junho de 1945. O primeiro Fórum Av. Internacional, no prédio onde hoje funciona a Coletoria e Juizado de Pequenas Causas.

O prédio atual do Fórum, lugar definitivo do Poder Judiciário, tem sua marca inicial no ano de 1958.

O 1º Juiz de Direito da Comarca foi o Dr. Nelson Pinheiro Franco, e o 1º Promotor Público foi o Dr. Otan Olandim de Matos.

8. Prédios da Av. Internacional Preservam a História de Lucélia

Lucelia - foto 03[Centro de Lucélia: Av. Internacional, a mais importante da cidade]

A cidade de Lucélia começou a ser colonizada, como toda a região da Nova Alta Paulista, na década de 1920. Na época, o município recebeu a influência de diversas colônias de imigrantes europeus, que ajudaram na construção da futura cidade.

Lucélia teve sua colonização em uma época histórica e economicamente denominada “Ciclo do Café”.

Segundo o historiador e economista Caio Prado Jr., em sua obra “História Econômica do Brasil”, enquanto as cidades da Nova Alta Paulista estavam sendo povoadas, no declínio do ciclo cafeeiro, o Brasil entrava na industrialização. Em fotografias publicadas na imprensa local, percebe-se que a Avenida Internacional, em imagens da época, pouco mudou, se comparada aos dias de hoje.

A arquitetura do ciclo cafeeiro foi preservada – percebe-se esse fato, por exemplo, nas construções que abrigam as principais lojas da Avenida Internacional. As telhas francesas ainda cobrem o comércio daquela região, sem perder o estilo de décadas.

A Avenida Internacional difere das demais avenidas de Lucélia e de cidades da região, pois é a única avenida central de uma cidade que é torta, em forma de “S”. Existem algumas explicações para esse formato. Uma delas dá conta de que a avenida tem esse formato por não ter sido projetada no traçado original da cidade. Lucélia foi projetada na atual Vila Rancharia e a avenida central do município, era para ser a Avenida São Paulo – atual Avenida Vereador Jorge Mansur Filho.

Outra explicação é que a Avenida Internacional foi construída em um Espigão, que divide o município em dois, pois as águas das chuvas que caem naquela avenida acabam desaguando nos rios Feio e do Peixe, e a construção de uma avenida nas vilas Rennó e Rancharia seria inviável, pois sofreria, futuramente, com inundações.

Outra versão é que a Avenida Internacional era uma rua que ligava os municípios de Lucélia a atual Inúbia Paulista, e de que o comércio se estabeleceu rapidamente no local, transformando, mais tarde, a rua na principal avenida luceliense.

Muitos podem achar o trajeto da Avenida Internacional de pouca beleza, pelo fato de ser “torta”. Podem também achar que sua arquitetura é inferior à arquitetura das avenidas de cidades vizinhas, como Osvaldo Cruz e Adamantina. A favor de Lucélia pesa, no entanto, a sua história. Se as cidades históricas de Minas Gerais (Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey, Sabará, etc.) preservam sua arquitetura colonial e são considerados patrimônios culturais e históricos da humanidade, recebendo turistas de todo o mundo, nossa população também deveria observar a Avenida Internacional e perceber, em cada metro quadrado, um pouco do seu passado histórico: a época dos grandes carnavais; do cinema; dos barões do café; dos desfiles memoráveis; a época em que Lucélia era pequena e suas ruas não eram pavimentadas, sem muito conforto, mas deixando no ar um pouco do seu “período colonial”.

9. Igreja Matriz

Lucelia - foto 04[A Matriz de Lucélia em construção]

Os primeiros vestígios de Civilização Cristã em nossa região, datam de 1.904, com o Frei Segismundo de Canazé, com a colaboração de outros frades capuchinhos que igualmente trabalharam na missão ao lado dos índios coroados e xavantes.

A primeira capela foi construída em 1935 pelos imigrantes alemães, sob a denominação Santo Antonio”, no Bairro Colônia Paulista.

Em 1939 foi edificada uma capela de madeira na Avenida principal de Lucélia.

Em janeiro de 1944, o então bispo de Cafelândia, Dom Henrique César Fernandes Mourão nomeou o Pe. Bernardo Reckers para desenvolver os trabalhos pastorais em Lucélia.

Em janeiro de 1945 foi iniciada a construção da casa paroquial, em terreno doado por Luiz Ferraz de Mesquita.

O Pe. Bernardo já residia em Lucélia quando o Monsenhor Victor Mazzei, vigário capitular da diocese de Cafelândia, publicou em 25 de maio de 1.945 o decreto de fundação da Paróquia Sagrada Família e confiou a ele o posto de primeiro vigário da nova comunidade.

junho de 1.946, foi lançada a primeira pedra para a construção da nova matriz, que em virtude de um forte vendaval, desabou ainda em construção.

Em 28 de outubro de 1.954, a paróquia foi entregue à Congregação Salesiana e as atividades religiosas foram transferidas para a capela do Ginásio Salesiano.

Em 25 de fevereiro de 1.955 foi lançada a pedra fundamental para a construção da atual Igreja Matriz.

No dia 19 de março de 1955, todas as atividades religiosas foram transferidas para o salão onde funcionou por muito tempo o Lucélia Futebol Clube.

A edificação da igreja teve um grande avanço a partir da posse em 06 de janeiro de 1957, do Padre FRANCISCO MAHR, que era engenheiro e foi quem planejou a atual Igreja Matriz.

A primeira missa na nova Matriz foi celebrada em 08 de janeiro de 1.960.

Outro fato muito importante na história da Igreja Matriz, é a data de 29 de março de 1.968, quando foi recepcionada em nossa cidade a imagem verdadeira de Nossa Senhora de Aparecida.

10. O Futebol Médio (Society) Foi Inventado em Lucélia

O FUTEBOL MÉDIO, também chamado futebol suíço ou futebol society, foi idealizado em Lucélia no ano de 1966, e reconhecido como invenção da Capital da Amizade, conforme Registro de Títulos e Documentos da Comarca de Lucélia, sob o n.º 185 do Livro B e, publicado no Diário Oficial do Estado, em Ineditoriais, na página 2, do dia 18 de março de 1978.

Seus fundadores são: Hamilton Di Stéfano e Paschoal Milton Lentini. Desta idealização, surgiu o esporte que hoje é praticado em todos os Estados do Brasil.

Nas grandes cidades, são jogadas partidas entre funcionários, empresários e a origem deste esporte está em nossa Lucélia, conforme registros do Tênis Clube de Lucélia, Jornal Folha de Lucélia, O Divulgador, Revista O Divulgador, Rádio Difusora de Lucélia e também a Rádio Bandeirantes de São Paulo, quando tivemos a honra de contar com a participação do ilustre radialista esportivo o Sr. Fiori Giliotti, que na época fez a divulgação a nível nacional.

São 18 as regras do futebol-médio, conforme regulamento oficial, registrado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos da comarca de Lucélia, sob nº 185 do Livro B e, publicado no Diário Oficial do Estado em ineditoriais, na página 2, do dia 18 de março de 1978 .

De lá para cá, diversos torneios foram disputados em Lucélia, milhares de partidas são disputadas por esse Brasil afora, e se recordar é viver, temos que lembrar às novas gerações que este esporte praticado em todos os cantos do Brasil e do mundo, por artistas, cantores e atletas em geral, foi criado e idealizado em Lucélia.

11. Fundação do Aeroclube

Lucelia - foto 05[O Aeroclube de Lucélia]

Data de 1º de janeiro de 1.943, a fundação do Aeroclube de Lucélia, Sociedade Civil, com a finalidade de proporcionar aos associados a aprendizagem do exercício da aeronáutica em aeroplanos de pequeno e médio porte. Ao longo de sua existência o aeroclube jamais deixou de funcionar, formando pilotos de Lucélia, da região e principalmente de vários estados do Brasil, tais como Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, entre outros.

Fundado por um grupo de pioneiros, tendo como principal colaborador Dr. Luiz Ferraz de Mesquita. fundador da cidade e primeiro prefeito nomeado.

Naquela oportunidade doou um terreno para ser o primeiro campo de aviação. Neste terreno, hoje está parte da Vila Rancharia.

O primeiro Hangar do Aeroclube de Lucélia (foto ao lado) foi construído em 1943. A pista de pouso era localizada na Vila Rancharia.

Hoje no local do Hangar está construído o Colégio Missionário das Irmãs de São José de Cluny (Colégio das Freiras).

De suas fileiras, saíram grandes nomes da aviação comercial que hoje pilotam Boeing e MD11. Nas épocas áureas, proporcionou emocionantes eventos aeronáuticos, com apresentação da esquadrilha da Fumaça, com os famosos aviões T-6M, comandados pelo não menos famoso Cel. Braga.

Seu Estatuto encontra-se registrado no 2º Cartório de Registro de Imóveis de Presidente Prudente, aos 18 dias do mês de janeiro de 1.943, pois naquela época Lucélia ainda não era Comarca.

 Lucelia - foto 06

[O Aeroclube de Lucélia já foi o terceiro do brasil em formação de pilotos]

Na década de 60, o Aeroclube de Lucélia era o terceiro do país em formação de pilotos. Neste período, o Aeroclube recebia jovens de diversas cidades do estado de São Paulo e também do Mato Grosso e Paraná que aprendiam a pilotar um avião aqui em Lucélia.

Neste período áureo, o Aeroclube foi destaque nacional, sendo fonte de inspiração para uma matéria jornalística na extinta Revista Realidade, da Editora Abril, que na época ao lado da Manchete eram as principais revistas do Brasil.

O repórter José Severo, acompanhado do fotógrafo Armando Chiodi, vieram para Lucélia com o objetivo de fazer uma matéria sobre o primeiro voo de um piloto. O jornalista da Realidade acabou tomando o banho de óleo e voltou com a matéria “VOEI”, onde relata passo a passo sua estadia em Lucélia, a vida cotidiana da pequena e jovem cidade da Nova Alta Paulista, seus personagens populares, intrigas e o dia a dia da aula de pilotagem que ele teve no Aeroclube de Lucélia, com o instrutor Cassimiro Anheschivich, mais conhecido como “Russo”.

Na reportagem, é relatado que o Aeroclube de Lucélia apresentava na época o maior índice de aprovação do interior do Brasil, ficando na honrosa terceira colocação, atrás apenas do aeroclube e da escolinha de São Paulo. Lucélia recebia estudantes de várias localidades. Todos os anos apareciam candidatos de todos os cantos do Brasil, sem dinheiro, sem bagagem e sem nada a prometer, apenas com o certificado de aprovação num exame teórico, pedindo que os ajudassem a ser piloto.

Esta fama de Lucélia possuir o melhor Aeroclube do Brasil era pelo preço cobrado, barato para a época. O preço por hora aula era três a quatro vezes inferior ao preço cobrado nas grandes cidades. O valor cobrado pelas aulas não cobria as despesas com gasolina e, a sobrevivência do Aeroclube se dava com rifas, quermesses e doações.

O repórter da Realidade recebeu instruções de voo com Cassimiro e também passou pela experiência de voar sozinho e tomar o tradicional banho de óleo.

Era costume logo após realizar seu voo solo, o piloto ser recebido com festa, tendo suas roupas rasgadas e acabar tomando banho de 20 litros de óleo, ficando com o corpo coberto

[Acréscimo 1 de Eduardo Chaves]

A fonte deste material está no Site da Câmara Municipal de Lucélia, no seguinte endereço.

http://www.camaralucelia.sp.gov.br/index2.php?pag=T1RVPU9EZz1PV0k9T1RrPU9UUT0=&&id=3]

Como se pode facilmente constatar, trata-se de um texto escrito por várias mãos. Em uma das seções dá-se crédito ao meu amigo, o jornalista José Carlos Daltozo, MTb 32.709, de Martinópolis, que, por sua vez, reconhece a colaboração de Marcos Vazniac. Em outra seção se reconhece a colaboração de Vazniac mas não se esclarece quem é o autor principal. Nas demais seções o texto não contém informação sobre o autor. Acredito que a grafia corretado distrito do qual surgiu Lucélia seja Baliza, e não Balisa, como constava em algumas passagens. Padronizei. Fiz outras pequenas correções ortográficas onde ficava evidente que se tratava de erro de digitação ou, então, para ajustar às peculiaridades do novo Acordo Ortográfico. As afirmações “ufanistas” são, naturalmente, de responsabilidade de quem as fez. Eu já havia publicado este texto em meu site http://lucelia.info, que, infelizmente, está fora do ar. Por isso o transcrevo aqui novamente.

[Acréscimo 2 de Eduardo Chaves]

Minha Certidão de Nascimento original dizia que nasci no “Patrimônio” (Lugarejo) de Lucélia, Distrito de Baliza, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente. Lucélia nem era município naquela época. Com base nesse documento, todos os meus outros documentos (com uma exceção) dizem que nasci lá e, para mim, o assunto está encerrado. (A exceção é meu “Certificado de Conclusão do Curso Primário”, obtido em 1955, que diz que nasci em Martinópolis).

Na única vez que voltei a Lucélia, há cerca de 15 anos, tirei uma nova via da minha Certidão. Nela veio registrado certinho que “nasci na Comarca de Lucélia” (embora naquela época Lucélia nem Município fosse. Mas Lucélia já era Comarca quando essa cópia da minha Certidão foi emitida — por isso considerei que a informação registrada estava certinha.

Recentemente precisei de uma “cópia atualizada” da minha Certidão de Nascimento. Liguei para o Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais da cidade, pedi uma cópia, paguei, e a recebi direitinho. Só que ela diz que nasci no Município de Martinópolis. Liguei para lá. Eis o que me explicou o Oficial. O pessoal do Governo Federal, que não faz outra coisa a não ser bolar coisas para prejudicar a vida dos cidadãos, resolveu padronizar os formulários de Registro de Nascimento, que, agora, vêm pré-impressos e contém (entre outros) os seguintes dizeres: “nascido no município de _____”. Ou seja: o Cartório agora não pode dizer mais que “nasci em Lucélia, Distrito de Baliza, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente”. Tem de dizer que “nasci no Município de Martinópolis”. Azar deles: continuo nascido em Lucélia.

Transcrito no meu blog Liberal Space em 21 de Maio de 2014

Transcrito aqui em 4 de Novembro de 2015