Crise de Identidade?

Eu só nasci Eduardo Oscar.

Logo virei Oscarzinho. Num relato que meu pai escreveu dos meus dois primeiros anos de vida, começando no dia seguinte ao do meu nascimento, eu já sou Oscarzinho.

Quando entrei na escola (Grupo, Ginásio), em 1952, passei a ser Eduardo.

Quando estive no JMC (Clássico), a partir de 1961, passei a ser Oscar, apelido Juca (por causa do Chaves, naturalmente, mas Juca era o apelido de meu avo materno, José de Campos).

No Seminário, a partir de 1964, eu era Oscar Chaves — virei meu pai, que também estudou la.

Quando minha irmã mais velha nasceu, em 1967, ela passou a me chamar de Oi, porque era isso que eu lhe dizia quando a via — e hoje minha família inteira ainda me chama de Oi.

Nos Estudos Unidos era eu era inicialmente Ed, depois virei Dr. Chaves ou Prof. Chaves (geralmente pronunciado Chavêz ou Tcheivis). O Seminário onde eu estudei lá (fazendo o Mestrado) me chama até hoje de algo que eu nunca fui, Rev. Chaves.

Na UNICAMP fui Eduardo, Chaves, Prof. Eduardo, Prof. Chaves. Algumas de minhas aluninhas de Pedagogia, que não tinham nenhum respeito pelos meus cabelos branqueantes, me chamavam simplesmente de Du.

Quanto meu neto Gabriel nasceu (1999), porque ele tinha dois outros avôs, era preciso sempre dizer vô fulano. Eu virei o vô Dudu.

Depois que passei a viver com a Paloma, virei Edu. Às vezes, quando ela quer ser enérgica, me chama de Edward — algo que ninguém mais jamais me chamou.

Depois que nos casamos no papel, meu nome virou Eduardo Oscar Epprecht e Machado de Campos Chaves. O atendente do INSS em Salto, um velho ranzinza, quando disse a ele que eu havia mudado de nome porque havia adotado os sobrenomes de minha mulher quando do casamento, olhou para mim como se estivesse olhando para um doido varrido… “Por que fazer isso a essas alturas?”, perguntou. Respondi apenas que a lei o facultava. Ele disse: “Tudo bem, mas…” — e houve por bem calar-se. Percebeu que eu estava perto de perder a esportiva…

Só fui o que sou, Eduardo Oscar, portanto, quando nasci. Talvez volte a sê-lo quando morrer. Assino meu nome, por um tempo, Eduardo O C Chaves (sem os pontinhos nas letras do meio). Quando me casei tentei assinar Eduardo O E M C Chaves. Mas dava trabalho demais. Voltei a assinar apenas Eduardo Chaves.

Terei eu uma crise de identidade?

Em São Paulo, 11 de Novembro de 2011. Addaptado de um e-mail de 2 de Junho de 1997.

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52 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

[Apresentação do artigo a ser transcrito]

Em Novembro de 1998, dezessete anos atrás este mês, escrevi um artigo no blog que tinha no site do Instituto JMC, que eu mantinha, com o título:

35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963

O URL original era este a seguir, mas ele não importa aqui, porque vou transcrever o artigo inteiro, depois desta introdução.

http://institutojmc.wordpress.com/2010/03/08/trinta-e-cinco-anos-atras-%E2%80%93-meu-ano-de-1963/

Naquele mês e ano — Novembro de 1963, cinquenta e dois anos atrás este ano — eu terminava o Curso Colegial, Modalidade Clássico (equivalente ao Ensino Médio de hoje, naquela instituição educacional, que veio a ser fechada pela Igreja Presbiteriana do Brasil em 1970, por razões nunca explicadas.

Dois anos atrás, em 2013, exatamente cinquenta anos depois, minha filha-enteada, Bianca, também terminou o Ensino Médio. Ela nasceu em 1996 — eu em 1943, 53 anos antes…

Este ano, 2015, neste mês, minha outra filha-enteada, Priscilla, está terminando o Ensino Médio. Ela nasceu em 1998 — 55 anos depois de mim.

No ano seguinte àquele em que concluí o Curso Clássico, 1964, fatídico, eu iria (como fui) para o Seminário Presbiteriano de Campinas. Lá minha festa de calouro seria no dia Primeiro de Abril — primeiro dia do Golpe de Estado que pôs o governo nas mãos dos militares.

Em 1963, dias antes de minha festa de formatura no JMC fizemos uma viagem de ônibus de 30 dias, os formandos do Clássico e os do Ginásio, pelo Sul do Brasil. Saímos de Jandira, passamos em Curitiba, Camboriú, Florianópolis, Tubarão, Porto Alegre, Lajes, Curitiba de novo, e voltamos para Jandira.

Enquanto estávamos em Florianópolis, no dia 22 de Novembro, numa praia deserta e fria, ficamos sabendo, através de um radiozinho portátil que alguém carregava, que o presidente Kennedy havia sido assassinado. Não sabia naquele dia, mas também em 22 de Novembro de 1963, morriam também os escritores C. S. Lewis (também um apologeta do Cristianismo) e Aldous Huxley.

Tudo isso faz 52 anos este mês.

O dia 22 de Novembro já fazia parte de meu imaginário.

Havia uma canção de Cascatinha e Inhana, chamada Santa Cecília, que eu conhecia aparentemente desde sempre, que dizia que 22 de Novembro era o dia da consagração da Santa Cecília. Aquilo ficou na minha cabeça.

Em 1959, ano que terminei o Ginásio, tive uma namorada chamada Cecília — que, não surpreendentemente, aniversariava no dia 22 de Novembro. Nesse dia, dei-lhe um colar de presente e fomos assistir Suplício de uma Saudade, no Cine Tangará, em Santo André — onde, dias depois, seria nossa formatura. Eu tinha 16 anos.

Anos depois, em 1975, minha segunda filha nasceu em 22 de Novembro — mas não lhe dei o nome de Cecília. Chamou-se (ainda se chama) Patrícia.

Um relato, talvez desnecessária e exageradamente detalhado, de minhas atividades em 1963 pode ser lido no artigo de 1998. Aqui, 17 anos depois, fica apenas o registro de que estou aqui ainda.

Falei de três namoradas no texto. Isso poderia trazer problemas para qualquer um. Mas a Paloma sabe que o maior amor não é o primeiro nem os do meio: é o último.

Em São Paulo, 7 de Novembro de 2015

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35 Anos Atrás: Meu Ano de 1963 [Escrito em 1998]

Faz 35 anos, este ano (1998), que terminei meu Curso Clássico no JMC. Meia vida de alguns, mais do que isso de muitos.

O terceiro ano do Curso Clássico era a “glória” para o aluno do JMC. Ele finalmente era formando, pré-seminarista. Tinha o privilégio de morar no QG, em quarto individual, num prédio onde o banheiro possuía chuveiro com água quente. Isso era mordomia pura naquelas bandas. A gente olhava os outros com ar superior e usava o fato de ser formando para impressionar as calouras. Como ultimoanistas podíamos também dirigir o culto na Casa das Moças, à noite, o que fiz algumas vezes. Esse, então, era um privilégio e tanto.

Academicamente, meu ano de 1963 foi relativamente tranqüilo. Tive meu primeiro curso de Filosofia (ênfase em Lógica), com o Rev. João Euclydes Pereira, o Zoca. Foi o curso de que mais gostei em toda a minha estada no JMC – tanto que, quando deixei a Teologia, foi para a Filosofia que me voltei. Comparado com o curso de História que o Rev. João Euclydes dava (que eu achava relativamente chato e monótono), o curso de Lógica, com os silogismos, os quebra-cabeças lógicos, e os processos mnemônicos para que nos lembrássemos de quais formas silogísticas eram válidas, era, para mim, excitação intelectual da melhor espécie.

Deslanchei bem no Inglês, em grande parte por ter namorado, durante boa parte do ano, Natalie Landes Browne, neta do rev. Felipe (Philippe) Landes, que, embora nascida na China, era filha de americanos e, portanto, falava Inglês como nativa. Por incentivo da Natalie e do Deoclécio Silveira do Amaral (o melhor falador de Inglês sem ascendência americana que havia na escola), passei a freqüentar as sessões do English Club, que se reunia todas as quartas-feiras, sob o comando de Da. Jean Pemberton. Ainda por incentivo da Natalie, comecei a ter aulas particulares de Inglês com Da. Margarida (Margareth, presumo) Landes, avó dela, esposa do rev. Landes. Dona Margarida me fazia ler artigos e artigos da Selections of the Readers’ Digest. Meu conhecimento de gramática melhorou muito nessas aulas. Bilhetes com a Natalie trocava-os diariamente, e ela, nas respostas aos meus, tinha a paciência de corrigir meus erros de Inglês. O namoro foi feliz, tranqüilo, sem sobressaltos. Terminou de forma infelizmente deselegante, por culpa minha. Sempre fui razoavelmente hábil para começar relacionamentos afetivos (modéstia à parte), mas extremamente inábil para encerrá-los, verdade seja dita. Fiz uma série de papelões em minha vida, nessa área.

Em termos de viagens individuais, comecei o ano na Igreja de Passos, MG, da qual era membro meu colega João Batista de Oliveira. Passei as férias de Dezembro de 1962 lá. No dia 31 de dezembro de 1962 dirigi o Culto de Vigília em São João Batista do Glória, cidade próxima de Passos, e que era então conhecida como a “capital nacional do barbeiro” (o inseto causador da doença de Chagas). No dia 1 de Janeiro de 1963 voltei para Passos e fui ao cinema à tarde e à noite, com a Elda, menina loira, de excelente família passense, que acabou se casando com um colega meu do Seminário (de cujo nome infelizmente não consigo me lembrar, por mais que me esforce). À tarde assistimos “Tarzan e a Mulher do Diabo”, e à noite “Circo dos Horrores” (eu registrava essas coisas na minha agenda). No dia 2 de janeiro preguei meu sermão de despedida lá. Nunca mais vi a Elda, com quem me correspondi por uns tempos – até que, mais para o meio do ano, comecei a namorar a Natalie.

No sábado, dia 5 de janeiro, parti para Pirapozinho, SP, cidade perto de Presidente Prudente, onde iria trabalhar durante o mês de Janeiro, na Igreja Presbiteriana Independente. O ônibus saiu de São Paulo às 7:30 e chegou a Presidente Prudente às 18:15 – quase onze horas de viagem. Peguei imediatamente um ônibus para Pirapozinho, onde cheguei às 19:30, para ficar hospedado numa Casa Pastoral vazia. Depois de uns dias o Jonas Christensen, amigo e ex-“velha” (moramos juntos em 1962) chegou para me ajudar com o trabalho com o coral e com o canto congregacional. Lá, surpreendentemente, não me interessei por ninguém, em particular.

Enquanto estava em Pirapozinho viajei por Tarabay, Narandiba, Coronel Goulart, Mirante do Paranapanema, Dumontina, Regente Feijó, Presidente Wenceslau, Presidente Epitácio e Presidente Prudente. Preguei em todas essas cidades e fiz dezenas de visitas. No final do mês voltei para São Paulo de trem (trem leito, o famoso Expresso Ouro Verde, que tantas vezes, quando criança, havia tomado para vir do Paraná para São Paulo: a gente o tomava, em baldeação, em Ourinhos).

No início de Fevereiro fui para o Acampamento “Palavra da Vida”, onde trabalhei durante uma semana, como freqüentemente o fazia nas férias. Não me lembro exatamente qual era minha função lá. Depois disso passei uns dias em Campinas e, durante o Carnaval, fui a um retiro espiritual em Americana.

As aulas começaram apenas no dia 5 de março, terça-feira. Não havia aulas no JMC às segundas-feiras. Os pré-seminaristas, por trabalharem demais no fim de semana, tinham, como muitos barbeiros ainda hoje têm, a segunda-feira de folga…

Logo no início do ano fui eleito presidente do Grêmio Miguel Torres, o grêmio “sério”, de cunho mais religioso e menos cultural e artístico. Acho que a Renée Myriam de Camargo (irmã da Reacy e, portanto, minha ex-quase-futura cunhada), a Alzira Val e o Robert (“Bob”) Lodwick também eram da Diretoria. Este foi meu primeiro cargo eletivo – e um dos poucos que exerci ao longo de minha vida. Depois dele, se bem me lembro, só fui eleito Secretário do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1966, e (de certa forma) Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, em 1980.

Começando em Março, e durante o ano inteiro (exceto nas férias), trabalhei, aos domingos, na Congregação Presbiteriana de Utinga, que pertencia à Igreja Presbiteriana de Santo André, da qual era membro. Os líderes lá eram o Benedito dos Santos e o João Rodrigues, em cuja casa a Congregação se reunia. Lá, pelas mãos do Benedito, pela primeira vez dirigi um automóvel, sem nenhum preparo anterior – só não dando uma batida no barranco com o Fordeco dele porque ele foi rápido para tomar o volante. Boa gente aquela.

No dia 19 de março comecei a usar lentes de contato. Fiquei todo vaidoso com elas, pois me permitiram abandonar os incômodos óculos de lentes escuras que precisava usar, que me valeram o desagradável apelido de “Cegão” (que convivia com o apelido de “Juca”, com o qual o Elizeu Cremm até hoje me honra, em homenagem ao Juca Chaves). Usei lentes de contato até 1970, quando as troquei por óculos de lentes acrílicas, nos Estados Unidos, que podiam receber um colorido bem mais suave do que as pesadas lentes de vidro que usei até Março de 1963.

No mês de abril, de 19 a 21, fizemos (os homens do terceiro clássico) uma viagem à Praia Grande. Fomos todos na perua do JMC, dirigida pelo rev. Olson Pemberton, e ficamos hospedados na chamada Casa da Missão. A Praia Grande, naquela época, era deserta na região em que se situava a casa, que ficava tão perto da água que, durante a maré cheia, os muros eram banhados pelas ondas. Lá, nós mesmos cozinhamos – era macarrão todos os dias. Creio que nunca me diverti tanto numa praia, jogando futebol e pulando ondas, o que fazia pela primeira vez. Lembro-me de como o Octávio Stradioto, pequenino e franzino, era arrastado pelas ondas e literalmente jogado na praia… Ficamos lá três dias (duas noites). O problema era dormir à noite. Tinhamos sacos de dormir, colchonetes, etc., mas poucos travesseiros. Uma noite eu tentava dormia num saco de dormir, sem travesseiro, e, ao meu lado, o Gordurinha (Assir Pereira) roncava, dormindo, de costas, o sono do justo (falo metaforicamente aqui…). Com muito cuidado, levantei levemente a cabeça dele, tirei o travesseiro, e baixei a cabeça dele, bem de leve. Ele não acordou. Com o travesseiro, finalmente consegui dormir até que o travesseiro foi violentamente puxado de debaixo de minha cabeça. A sensação foi de que a minha cabeça subiu uns dez centímetros antes de cair e bater no chão… Um dia fomos a Santos, visitar o aquário. O Gordurinha, mais uma vez, deu o show. Ele gostava de virar umas piruetas (que ele chamava de “piruletas”), e alguém o desafiou a fazê-lo no meio da avenida na Praia do Gonzaga. Não é que ele fez? Foi para o meio da rua, parou o trânsito (então pequeno), e deu sua pirueta – gritando “Zeferina…” (não sei porque ele gritava isso – talvez ele possa elucidar).

Em Junho, creio, comecei a namorar a Natalie. Lembro-me da época porque no dia 7 de junho, dia do aniversário dela, já registrei o fato em minha agenda, algo que não teria feito se a gente não estivesse já namorando. O início do namoro talvez tenha sido um pouco antes, não sei por certo. Na minha cabeça fica o mês de junho porque foi nesse mês que parei de escrever para a Elda, de Passos… (Eu tive muitas namoradas, mas sempre procurei terminar um namoro antes de começar o outro – ou quase). Nunca fui bom mentiroso – e, por isso, nunca consegui namorar duas ao mesmo tempo. Gostar de duas ao mesmo tempo, mas de formas diferentes, já me ocorreu mais de uma vez, mas namorar é algo prático, que envolve aspectos logísticos que nunca consegui gerenciar suficientemente bem para manter dois namoros simultâneos. Havia colegas no JMC, entretanto, que eram mestres nisso: o Mário Fava que o diga, que andou dando em cima da Margareth, irmã da Natalie, pelo que consta até com certo sucesso, até que ela descobriu umas certas cartas que ele recebia do interior…

Com um grupo de formandos do I e do II Ciclos viajei para São João da Boa Vista, nos dias 22-24 de Junho. Numa festinha da mocidade, na noite do sábado, dia 22, depois do jogo de futebol de salão da tarde, lembro-me de ter cantado uma modinha caipira que foi popularizada por Cascatinha e Inhana, que tinha uma letra mais ou menos assim assim (faltam uns pedacinhos, por mais que tenha vasculhado a memória): “Eu vim de longe, tão cansado, pra te vê, eu vim cantando para as mágoas desfazer. Da minha choça despedi no amanhecer, e ‘tou chegando vendo a lua aparecer. Mas foi prazer pra mim todo esse padecer: ‘tava pensando nos olhinhos de você! Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor! Você se lembra, foi na noite de São João, nós dois juntinhos ‘se assentemo’ num moirão. Você pegou devagarinho a minha mão — quanta saudade me ficou no coração! Ai, quanta saudade me ficou no coração daquele amor feito de sonho e de ilusão! Na despedida você disse no portão: Faz uma casa pra nós dois lá no sertão. Ai, que beleza, que beleza de morena, delicada e perfurmada como a flor! Tinha a boca tão pequena, bem pequena, toda feita de beijinhos para o amor!” Também declamei, na festinha, a poesia “Gesto Heróico”, de Mário Barreto França, que sei de cor até hoje, apesar dos quase dez minutos que levo para declamá-la inteira.

Em São João da Boa Vista fiquei hospedado na casa do dono da empresa de ônibus que fazia o trajeto São João da Boa Vista-São Paulo, que era da igreja. Isso não só nos ajudou quando da viagem ao Sul (vide adiante), mas também me valeu um passe entre São João da Boa Vista e São Paulo durante toda a minha estada no Seminário de Campinas. Em gratidão, voltei várias vezes à igreja de São João da Boa Vista durante meus anos de Seminário.

No mês de Julho de 1963 trabalhei na Igreja Presbiteriana Independente de Iepê, SP. De lá visitei as igrejas de Rancharia, Assis e Centenário, no Paraná. Em Iepê conheci a Selma Greice de Matos, que, na ocasião, namorava um colega meu (acho que o Flávio “Cebolinha”). Em trabalhos subseqüentes em Iepê, mais de dois anos depois, quando já estava no Seminário, comecei a namorar a Selma. O namoro durou quase um ano. A Selma é a única ex-namorada significativa da minha juventude com quem não consegui restabelecer alguma forma de contato, agora, nos “anos maduros”. Consta que ela trabalhou com a APEOESP, lá na regional de Rancharia, Assis ou Presidente Prudente, não sei. [Essa afirmação não é mais verdadeira. Desde que a escrevi reencontrei a Selma, pelo Facebook. Escrito em 2015. EC]

Voltei mais uma vez em 1963 à Casa da Missão na Praia Grande, no segundo semestre, mas agora num piquenique da Igreja da Bela Vista, freqüentada pela família da Natalie (que morava na Casa da Missão em São Paulo, na Alameda Campinas). A Margareth, irmã mais velha da Natalie, que hoje atende pelo nome de Greta, e a Libby, irmã mais nova, que hoje atende por Bete, também estavam lá. Não me lembro se o Paul, o mais novo dos dois irmãos dela (o outro era o George), também estava lá.

No final do ano, antes da formatura, os formandos dos dois ciclos fizeram uma viagem ao Sul. Se bem me lembro a viagem durou uns vinte e cinco dias, durante o mês de Novembro, e foi razoavelmente bem planejada. O ônibus era da Viação São João da Boa Vista – São Paulo, cujo dono, já mencionado, nos fez um bom preço. Como disse, eu havia ficado hospedado na casa dele em Junho. Ficamos com um ônibus moderno por nossa conta durante quase um mês, dirigido por um simpático motorista, também chamado Eduardo. Juntamos dinheiro durante o ano inteiro para a viagem. Mesmo assim o dinheiro deu apenas para o ônibus e para algumas refeições. Por isso, antes da viagem escrevemos às igrejas de Curitiba, Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, e Lages, propondo que, em troca de hospedagem, fizéssemos um culto para jovens na igreja, em que cantaríamos, organizaríamos as tradicionais brincadeiras de salão depois do culto, etc. Na maior parte dos casos, deu tudo certo. Em algumas cidades, porém, não conseguimos acertar nada. Porque passamos um dia na praia de Camboriú, então totalmente deserta, precisamos dormir em Tubarão, as moças num hotel e nós rapazes dentro do ônibus, porque o dinheiro não dava para pagar hotel para todos!

Em Florianópolis, lembro-me como se fosse hoje, estávamos na praia, no fim da tarde de 22 de Novembro, quando alguém, com um rádio de pilha, ouviu a notícia de que John Kennedy havia sido assassinado. Ficamos todos chocados. Por que é que quase todo mundo adulto naquela época lembra-se com precisão de onde estava quando Jack Kennedy morreu?

Na viagem, tínhamos um octeto, do qual eu era regente. Nele cantavam a Sueli, a Renée, a Nivalda, acho que o Carmelino, o Paulo, o Octávio, não me lembro quem mais. Cantávamos em todas as igrejas. Em Porto Alegre cantamos na rádio, e, justo neste dia, demos vexame. Começamos desafinados e tivemos que recomeçar. Até hoje, quando me lembro, fico com raiva.

Na volta, em Lages, igreja do Octávio, fomos extremamente bem recebidos. Não me esqueço dos cafés da manhã exageradamente fartos, parecendo os Cafés Coloniais que hoje são atrações turísticas em Gramado.

Foi durante essa viagem que comecei a namorar a Sueli, hoje Secretária de nossa Associação. Tivemos um namoro relativamente longo (para os meus parâmetros) e razoavelmente sério, em termos de convivência com a família, viagens a Santos (sempre com a família), etc. O namoro só terminou quando eu estava no segundo ano do Seminário em Campinas. Reencontrar a Sueli, depois de cerca de trinta anos, numa reunião da Associação no Mackenzie / Tamboré, foi uma das grandes satisfações que tive na vida.

No final de Novembro houve a formatura (sobre a qual falarei mais, adiante).

Em Dezembro, já depois de terminadas as aulas, vários dos agora formados fomos, em ônibus de carreira (“Expresso Real”), até Brasília. Agora já namorava oficialmente a Sueli. Em Brasília cantamos na Igreja Presbiteriana Nacional, assistimos a um concerto de Paulo Fortes no Hotel Nacional, fui entrevistado (na qualidade de regente do octeto) pela Rádio Ministério da Educação, e, naturalmente, ficamos conhecendo a recém-inaugurada capital do país. Paulo Fortes era (é ainda?) crente. Fiquei impressionado com a ressonante voz do locutor da Rádio MEC. Minha voz pareceu tão inadequada perto da dele! Ainda guardo um envelope da “Igreja Presbiteriana Nacional”, de Brasília, com o endereço: Avenida W-3, Quadra 10, Lote 2, Caixa Postal 686, Brasília, DF. Ainda não havia CEP naquela época. Brasília não tinha nem dois anos.

Voltemos, agora, à festa de formatura e assuntos relacionados. Meu Certificado de Conclusão dizia:

Instituto “José Manuel da Conceição” — Seminário Menor
Estabelecimento de Grau Médio a serviço das Igrejas Evangélicas do Brasil
Jandira, Estado de São Paulo

Certificado de Conclusão do II Grau

Certificamos que Eduardo Oscar de Campos Chaves, filho de Oscar Chaves e de Edith de Campos Chaves, natural de Lucélia, Estado de São Paulo, nascido em 7 de Setembro de 1943, tendo em vista os resultados das provas prestadas no ano letivo de 1963 no terceiro ano do II Grau, é considerado habilitado no Segundo Ciclo Secundário, nos termos do Decreto-lei nº 34.330, de 21 de outubro de 1953.

Jandira, 30 de novembro de 1963

Rubem Alberto de Souza, Diretor
João Euclydes de Souza, Autoridade Eclesiástica

Parece que em premonição dos problemas que estavam por vir, requeri três cópias do Certificado de Conclusão e do Histórico Escolar. Ainda as tenho todas.

O nosso convite de formatura dizia:

Convite de Formatura de 1963

Instituto JMC, São Paulo – 1960 – Formandos

Homenagens:

Diretor
Rev. Rubem Alberto de Souza

Vice-Diretor
Rev. Joaquim Machado

Profa. Maria Block Cruz [Ela faleceu recentemente, neste mês de Novembro de 2015. EC]

Homenagem dos formandos da 4ª série de 1963

A Congregação e os Formandos do Instituto “José Manuel da Conceição” têm a subida honra de convidar V. Excia. e Exma. Família para assistirem às solenidades de formatura das turmas de 1963 a se realizarem no dia 30 de novembro às 20 horas, no Auditório Dr. Waddell, situado em Jandira, E.F.S. – São Paulo, e para o Culto de Ação de Graças a se realizar no dia 30 às 15 horas.

A Comissão

Paraninfo
Dr. Camilo Ashcar

Orador Sacro
Rev. Adauto Araújo Dourado.

Orador
Eduardo Oscar Chaves

Formandos do II Ciclo

Airton Neves Ormond
Assir Pereira
Celso Martins
Cilas Gonçalves
Deoclécio Silveira do Amaral
Eduardo Oscar de Campos Chaves
Hamilton Felix de Souza
Hélio de Castro e Souza
Ireno Dias Ribeiro
Maria Helena Pires
Natanael Florenço do Amaral
Octávio Stradioto
Otoniel Marinho de Oliveira
Robert Nicholas Lodwick

Formandos do I Ciclo

Benedito Barbosa de Souza
Carmelino Souza e Silva
Eunice Rodrigues de Sá
Getúlio Rosa da Guia
Hilze Schneider
Irma Chaves Eguez
Isauro Batista Carriel
João Rhonaldo de Andrade
Judith Augusta dos Santos
Lindolfo Teixeira
Maria Altina Felix da Silva
Mário de Oliveira Mello
Nivalda Barbosa Franco
Paulo Cosiuc
Renée Myriam de Camargo
Ronan Pereira da Silva
Rubens Faria
Sueli Barbosa Cavalcanti
Vera Lúcia Felício Papa
Vera Lúcia Monteiro Saldanha

Agradecimentos:

A Deus
Aos nossos Pais
Às nossas Igrejas
Aos nossos Presbitérios
Às Missões Nacionais e Estrangeiras
E aos nossos queridos Professores

Fui orador da turma. Meu discurso de formatura, longo, está disponível no site do JMC na Internet (www.jmc.org.br).

No festa de formatura vi pela última vez a Reacy, meu primeiro amor e minha primeira paixão, no JMC, no ano de 1961, meu primeiro ano lá. Mas essa é outra história…

E com isso, chego ao final de 1963, meu último ano no JMC, trinta e cinco anos atrás. “It was a very good year”, como diz a canção do Sinatra. Sinto saudades daquele tempo, das coisas sentia naquela época. Sinto inveja do eu que eu era em 1963, com a vida inteira pela frente. No plano político, foi um ano difícil para o Brasil – o ano em que João Goulart teve a sua chance. No JMC eu não tinha grande consciência política. Conseguia ser feliz sem me preocupar muito com o que estava acontecendo fora do meu mundinho. Pensar que estive em Brasília exatamente quatro meses e meio antes do Golpe de 31 de Março de 1964! Naquela época não tinha idéia do que estava por vir. As únicas coisas que me ficam na memória daquela viagem são Paulo Fortes, no Hotel Nacional, a entrevista com a Rádio do MEC, a nova Igreja Presbiteriana Nacional, a viagem de ônibus…

O ano de 1963 foi, para mim, o último ano de minha Idade da Inocência.

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Transcrito aqui em 7 de Novembro de 2015

Minha Gestão na Direção da Faculdade de Educação da UNICAMP (1980 a 1984) *

Fui Diretor da Faculdade de Educação de Abril de 1980 a Abril de 1984. Antes disso, fui Diretor Associado, na gestão do Prof. Antônio Muniz de Rezende (Abril de 1976 a Abril de 1980). Fiquei, portanto, na Direção da Faculdade, como Diretor ou Diretor Associado, durante os oito anos que se seguiram aos quatro anos iniciais da Faculdade, em que ela foi dirigida pelo finado Prof. Marconi Freire Montezuma (do início, em 1972, até Abril de 1976). Embora tenha ativamente participado da gestão da Faculdade enquanto Diretor Associado, vou limitar minhas observações ao período em que ocupei o cargo de Diretor, visto que o Prof. Rezende cobrirá o quadriênio em que ele exerceu este cargo.

Vou procurar reunir minhas considerações, admitidamente muito pessoais, ao redor de seis temas:

  • O Processo de Escolha
  • A Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores
  • A Crise de Outubro de 1981
  • A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional
  • Rápida Apreciação
  • O Futuro

I. O Processo de Escolha

O implantador e primeiro Diretor da Faculdade de Educação foi escolhido através de decisão pessoal do então Reitor da Universidade, Prof. Zeferino Vaz. A escolha recaiu inicialmente sobre o Prof. José Aloísio Aragão, que, entretanto, veio a falecer, sendo, em seu lugar, escolhido o Prof. Marconi Freire Montezuma, que, contudo, apenas respondeu pelo expediente da Direção. (O Prof. José Aloísio Aragão era irmão do Dr. Francisco Alcilone Aragão, que, desde a criação da Faculdade até a sua aposentadoria, exerceu função que, na prática, era a de Secretário da Faculdade).

O segundo Diretor, Prof. Antônio Muniz de Rezende, também foi nomeado pelo Reitor Zeferino Vaz, que acatou a indicação feita pelo Prof. Montezuma. Este fez sua indicação depois de consultar vários membros da então pequena comunidade da Faculdade, tendo o nome do Prof. Rezende alcançado consenso entre os consultados, apesar de ele haver chegado à Faculdade pouco tempo antes (cerca de um ano).

No meu caso, o processo de escolha foi mais elaborado e, do ponto de vista da democracia, representou certo avanço. Já havia, na Faculdade, um Colegiado, que fazia as vezes da futura Congregação, que não podia ainda ser implantada em virtude de uma alegada não institucionalização da Faculdade. Do Colegiado participavam o Diretor, o Diretor Associado, os Coordenadores de Curso, os Chefes de Departamento, os representantes dos vários níveis docentes e representantes dos alunos de Graduação (Pedagogia e Licenciatura) e Pós-Graduação. Cada Departamento, cada nível docente e cada categoria de alunos se reuniu, discutiu a questão, e veio ao Colegiado com uma lista de nomes que representava um elenco hierarquizado de preferências. Meu nome alcançou consenso, tendo obtido o voto de todos os dezenove participantes da reunião do Colegiado. Para compor a lista a ser encaminhada ao Reitor – então já o Prof. Plínio Alves de Moraes – foram usados nomes de outros docentes da Faculdade, menos votados (já que cada participante da reunião podia votar em até três nomes). Com o respaldo da decisão do Colegiado, minha indicação para a Direção foi encaminhada ao Reitor pelo Prof. Rezende.

Minha nomeação, entretanto, demorou um pouco para sair, porque havia jogo de pressões nos bastidores, do qual participaram vários elementos da cúpula da Universidade que não estavam totalmente satisfeitos com o meu nome, em grande parte em virtude de meu ativo envolvimento, enquanto Diretor Associado, na famosa greve de 1979 e no processo de contratação do Prof. Paulo Réglus Freire, naquele mesmo ano. Neste episódio, em particular, eu, na qualidade de Diretor Associado da Faculdade, no exercício da Direção (o Prof. Rezende estava afastado), havia, à revelia da Reitoria, enviado uma carta, co-assinada pelo Reitor da PUC-SP, ao Ministério das Relações Exteriores, solicitando a liberação de passaporte para o Prof. Paulo Freire, que se encontrava na Suíça, visto que tínhamos, a Faculdade de Educação da UNICAMP e a PUC-SP, interesse em contratar o Prof. Paulo Freire – algo que, de fato, eventualmente ocorreu. Essa carta, graças à atuação bem intencionada mas desastrada do Prof. Moacir Gadotti (que, tendo, em Genebra, sido “apadrinhado” do Prof. Paulo Freire, acabou se tornando seu “padrinho” aqui no Brasil), recebeu desmedida atenção da imprensa local, dado o fato de que o Prof. Paulo Freire estava proscrito, proibido de retornar ao país, etc. É oportuno lembrar que a anistia “ampla, geral e irrestrita” não havia ainda sido concedida. Lembro-me bem, entretanto, do dia em que o Prof. Plínio me comunicou, durante a festa de casamento de um dos filhos dos Profs. Morency e Lucila Arouca, que minha nomeação estava saindo, como de fato saiu. Os elementos da cúpula da Universidade que resistiam ao meu nome não haviam, porém, desistido da luta, como ficaria claro 18 meses depois, na chamada Crise de 1981.

Minha gestão pode ser dividida em duas fases, separadas pela Crise de 1981. A primeira, que durou exatos 18 meses (de Abril de 1980 até a eclosão da crise, em Outubro de 1981), foi dedicada principalmente a atuação externa, no âmbito da Universidade. A segunda fase durou exatos dois anos, de Abril de 1982 a Abril de 1984. A crise durou exatos seis meses.

II. Primeira Fase da Gestão: O Fortalecimento dos Diretores

A gestão do Prof. Zeferino Vaz na Reitoria foi a do homem forte que era. Embora houvesse homens fortes na Direção de algumas unidades durante sua gestão, não havia dúvida de que eles, caso discordassem do Reitor, eventualmente seriam alijados de sua posição, como cabalmente demonstraram os “affaires” Fausto Castilho, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, e Marcelo Damy de Souza Santos, no Instituto de Física.

Preferiu o Prof. Zeferino ser sucedido por alguém que não lhe fizesse sombra, e, assim, conseguiu, junto ao então Governador Paulo Egydio Martins, que fosse nomeado como seu sucessor o Prof. Plínio Alves de Moraes – pessoa boníssima, a quem respeito até hoje, mas sem a menor condição política de exercer o cargo de Reitor, especialmente diante de um Governador forte, como era o caso de Paulo Salim Maluf, que assumiu o cargo em 1979. O Prof. Plínio foi o terceiro da lista enviada ao Governador Paulo Egydio Martins.

O Prof. Plínio, sendo um Reitor politicamente fraco, deixou espaço para o fortalecimento político dos Diretores, enquanto grupo, dentro da Universidade – especialmente daqueles Diretores que, tendo sido indicados, pela primeira vez na Universidade, por processo razoavelmente democrático de consulta e votação, estavam respaldados por sua comunidade. O resultado disso foi que os chamados “Diretores Democráticos”, com apoio da Representação Docente no Conselho Diretor (inexistia ainda o Conselho Universitário), ocuparam o vazio deixado pela fraqueza do Reitor – com a simpatia deste mas contra a vontade de seus acólitos, em especial do Dr. Paulo Gomes Romeu, “raposa velha”, então Vice-Reitor, como houvera sido na gestão do Prof. Zeferino Vaz, ex-Presidente do Conselho Estadual da Educação e burocrata por vocação; Dr. Pérsio Furquim Rebouças, Procurador-Geral da Universidade, de inexcedível incompetência, mas para quem a função de Procurador da Universidade nada mais era do que uma excelente ocasião de ajustar as leis e as normas à vontade daqueles a quem pessoalmente servia; Sr. Zuhair Warwar, Coordenador da Administração Geral, que cobria de mistério os mais elementares processos operacionais para que pudesse tipificar como gênio administrativo toda vez que isso pudesse lhe trazer algum dividendo, político ou de outra natureza; e Dr. Arnaldo Camargo – ex-Delegado do DOPS, com contatos nos mais recônditos porões da Ditadura Militar, figura tétrica e ameaçadora, que serviu de Chefe de Gabinete tanto do Prof. Zeferino Vaz como do Prof. Plínio Alves de Moraes. Que eu saiba, o único que teve coragem de enfrentar o Dr. Camargo foi o Prof. Rezende. Ele certamente se lembra disso.

Quando assumi a Direção da Faculdade, em Abril de 1980, estava em pleno processo de consolidação o “Grupo dos Diretores Democráticos”. Desde que o Prof. Plínio assumiu a Reitoria da UNICAMP, em 1978, ficou claro que a saída do Prof. Zeferino da Reitoria criara um vácuo de poder. Enquanto viveu o Prof. Zeferino, ele ainda se imiscuiu muito nos negócios da Universidade. Entretanto, após sua morte, em Abril de 1981, o vácuo ficou clamando para ser preenchido e os Diretores, que vinham gradativamente, e um pouco nas sombras, assumindo os espaços, e, assim o poder, no âmbito do Conselho Diretor, começaram a se articular mais às claras, junto com a Representação Docente, para assumir a Direção da Universidade, conduzindo o processo de sucessão do Prof. Plínio.

Faziam parte do Grupo o Prof. Maurício Prates de Campos Filho, da Faculdade de Engenharia (que incluía em uma só as atuais Faculdades de Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica e Engenharia Química), e que era reconhecidamente o líder do grupo; o Prof. Carlos Franchi, do Instituto de Estudos de Linguagem; o Prof. André Maria Pompeu Villalobos, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (que então englobava o atual Instituto de Economia); o Prof. Yaro Burian Júnior, do Instituto de Artes (apesar de ser Engenheiro Elétrico); o Prof. Aécio Pereira Chagas, do Instituto de Química; o Prof. Carlos Alfredo Argüello, do Instituto de Física; a Prof. Ayda Ignez Arruda, já falecida, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (que então englobava o atual Instituto de Computação); e eu, da Faculdade de Educação. Ao todo, oito Diretores.

Na divisão de tarefas, coube-me ser Presidente da Comissão de Orçamentos e Patrimônio (COP) do Conselho Diretor, função para a qual fui eleito em 1980 e reeleito em 1981. Junto com a Comissão de Legislação e Normas (CLN), que era presidida pelo meu colega e amigo, Prof. Rubem Azevedo Alves, então representante dos Professores Titulares no Conselho Diretor, a COP tinha um potencial político explosivo. Entre outras funções, tinha a atribuição de examinar as finanças da Universidade e de analisar a proposta de orçamento, recomendando ao Conselho Diretor as prioridades para a alocação de recursos. As comissões anteriores sempre haviam referendado o que o Coordenador da Administração Geral (Zuhair Warwar) lhes trazia pronto. A COP presidida por mim resolveu mexer em vários vespeiros: os contratos com a Ensatur (de propriedade do Deputado Nabi Abib Chedid), que tinha exclusividade no transporte fretado de funcionários, professores e alunos (visto que os ônibus urbanos de Campinas não chegavam até o campus); o processo de compras de gêneros alimentícios para os restaurantes, que envolvia recursos vultosos e era precedido de obscuras licitações; as verbas destinadas aos programas de residência médica no Hospital de Clínicas, que eram menina dos olhos do Prof. Zeferino; as gratificações dos altos funcionários da Universidade; etc. Na minha gestão na Presidência da COP o Conselho Diretor começou a democratizar o processo de preparação do orçamento e de execução orçamentária, com resultados que se mostraram assustadores para a cúpula da Universidade. A Administração Geral da UNICAMP (leia-se: Zuhair Warwar) fez guerra surda o tempo todo, em função da perda de poder, da revelação de quanto se gastava com a Ensatur e com as compras de gêneros alimentícios, etc.. Os Médicos Residentes fizeram greve por não desejarem que sua remuneração fosse fixada pela FUNDAP, conforme determinação do Governo, e porque queriam que se alocassem recursos para seu pagamento diferenciado, pretensão negada pela COP. Os funcionários mais altos da Universidade ganharam uma polpuda gratificação da Reitoria, mas a COP não alocou recursos para seu pagamento, o que fez com que entrassem todos com processos na Justiça. Em termos de democratização de procedimentos, é importante registrar que, quando da programação orçamentária e da concessão de suplementação de verbas, fazia-se uma reunião da COP com todos os Diretores para decidirem, em conjunto, como distribuir os recursos. Isso, naquela época, era inusitado.

Em conversas pessoais, o Reitor estimulava o ataque aos burocratas encastelados na alta administração da Universidade. Nas reuniões do Conselho Diretor, entretanto, procurava não confrontá-los diretamente, embora em muitas ocasiões tenha deixado de lhes dar a sustentação a que haviam se acostumado.

Esse processo de arejamento do Conselho Diretor alcançou seu ponto mais alto quando o Conselho, contra a orientação e a vontade da Mesa, aprovou uma Resolução, decorrente de proposta do Prof. Rubem Alves, que deflagrava o processo de sucessão na Reitoria, definindo uma agenda que previa a apresentação de candidatos, definia um prazo para debates com a comunidade, e estipulava uma data, na segunda quinzena de 1981, para uma Consulta à Comunidade. O mandato do Prof. Plínio se encerraria (como de fato se encerrou) em Abril de 1982. A resolução do Conselho pretendia que, realizada a consulta, o Conselho a apreciasse, e, naturalmente, referendasse o seu resultado, durante o mês de Novembro, encaminhando ao Governador a lista de nomes em tempo mais do que hábil para a indicação do novo Reitor. Esperavam os Diretores e as Representações Docente e Discente que a lista sêxtupla a ser enviada ao Governador não lhe deixasse escolha: todos os seis nomes escolhidos pela comunidade e referendados pelo Conselho deveriam ser de professores afinados com o grupo considerado democrático.

Os oito Diretores mencionados atrás resolveram se candidatar à sucessão do Prof. Plínio. Dois representantes docentes no Conselho, os Profs. Hermano Tavares e Jorge Lobo Miglioli, também se candidataram. Também se apresentou candidato o Prof. Paulo Freire, que não era membro do Conselho mas se identificava com o grupo majoritário no Conselho. Além desses, apresentaram-se outros candidatos, não afinados com esse grupo, como os Profs. Rogério Cerqueira Leite (ex-Diretor do Instituto de Física e ex-Coordenador Geral das Faculdades), José Aristodemo Pinotti (ex-Diretor da Faculdade de Ciências Médicas), Morency Arouca (ex-Diretor da Faculdade de Engenharia Civil, então em Limeira), e Attílio José Giarola (ex-Coordenador Geral de Pós-Graduação e na época Coordenador Geral das Faculdades).

III. A Crise de Outubro de 1981

A Consulta à Comunidade com vistas à escolha do sucessor do Prof. Plínio estava marcada para a semana de 19 de Outubro de 1981. No dia 17, um Sábado, a comunidade acadêmica foi surpreendida com a publicação, no Diário Oficial do Estado, de uma Portaria do Reitor, datada do dia anterior, dispensando de suas funções os oito Diretores que eram candidatos ao cargo de Reitor, sob a alegação de que não eram Professores Titulares, visto que, segundo pretendia o Reitor (com base num parecer rapidamente forjado pelo Conselho Estadual de Educação, a pedido do Dr. Paulo Gomes Romeo), a expressão “Professor Titular” deveria ser interpretada como significando “Professor Titular Concursado”. Ressalte-se que, na Universidade inteira, naquele momento, só havia dois Professores Titulares Concursados: o Prof. Pinotti, que conseguira, a todo custo, e agora ficava claro porquê, fazer aprovar seu concurso no Conselho Diretor meses antes, e o Prof. Arouca, que havia feito o concurso na Universidade de São Paulo, de onde viera para a UNICAMP.

Ao mesmo tempo que exonerava os oito Diretores, o Reitor nomeou oito novos Diretores, prontamente batizados de Interventores pela comunidade. A pressa na nomeação dos novos Diretores fez com que a Reitoria não avaliasse o impacto político, e nem mesmo jurídico, de seus atos. Para a Faculdade de Educação foi nomeado o Prof. Eduardo Daruge, dentista e professor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Para algumas unidades foram nomeados professores de fora da Universidade.

Não é difícil imaginar a conturbação que a Portaria gerou na comunidade universitária. Imediatamente foi decretada uma greve que durou seis meses. A Consulta à Comunidade foi realizada, mesmo com a comunidade em greve, tendo a lista sêxtupla sido constituída, nesta ordem, pelos Profs. Paulo Freire, Maurício Prates, Carlos Franchi, Rogério Cerqueira Leite, Yaro Burian e por mim.

Alguns dos Interventores tentaram tomar posse e foram barrados dos prédios das respectivas unidades. O Interventor do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, de cujo nome felizmente não me lembro mais, mas que era de fora da Universidade, foi intencionalmente levado, pelo motorista da unidade, para um edifício muito distante, e teve que andar de volta até a Reitoria, perdido pelo campus, sob vaias e toda sorte de insultos, sendo alvo de moedas, balas, bolinhas de papel e outros pequenos objetos que lhe eram atirados. Na Faculdade de Educação o Prof. Daruge, depois de várias tentativas frustradas, finalmente conseguiu entrar no prédio, sendo recebido pelos membros do Conselho Interdepartamental da Faculdade que, através do Decano da Faculdade, Prof. Montezuma, então na Chefia do Departamento de Psicologia Educacional, lhe passaram, por ter aceito o cargo, severa e merecida descompostura, da qual o Prof. Daruge provavelmente nunca mais vai se esquecer até sua morte. O efeito imediato foi que o Interventor nunca mais colocou os pés nem mesmo perto da Faculdade de Educação. Consta que renunciou, mas a renúncia, se ocorreu, não foi publicada. De qualquer forma, ele sumiu.

Entrementes, a crise continuou e a Universidade permaneceu parada. De todo o país vieram moções de solidariedade à comunidade universitária agredida. Políticos de toda estirpe procuraram “faturar” em cima da crise, comparecendo ao campus, participando de reuniões, fazendo declarações, etc..

Alguns Interventores de pronto renunciaram, como o do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, um biólogo, que foi substituído pelo Prof. Carlos Rodrigues Lessa, professor de economista do próprio Instituto, em episódio que gerou enorme controvérsia no campus e manchou para sempre a reputação dos envolvidos. O nome do Prof. Lessa para substituir o Interventor original foi indicado à Reitoria pelos economistas da Universidade: Profs. Sérgio Salomé da Silva (Diretor Associado do Instituto, que exercia interinamente a Direção, na ausência do Prof. André), Ferdinando de Oliveira Figueiredo, Jorge Lobo Miglioli, Wilson Cano, João Manoel Cardoso de Mello, Luciano Coutinho de Oliveira, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Maria Conceição Tavares e Paulo Renato Costa Souza (então em fim de mandato como Presidente da ADUNICAMP). Alegavam esses professores (e outros que lhes davam apoio) ser melhor ter um “interventor democrático” a um interventor não-democrático. O Prof. Lessa, embora residisse no Rio de Janeiro, dava uma aula por semana no Departamento de Economia da UNICAMP (da mesma forma que a Profa. Maria Conceição Tavares), assim fazendo parte, oficialmente, do Grupo dos Economistas da UNICAMP, mas era Professor, aparentemente Titular Concursado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A indicação do Prof. Lessa foi aceita pela Reitoria, pois esta estava interessada em rachar o movimento e pôr fim à crise. O Prof. Lessa, sem nenhuma vergonha e nenhum escrúpulo, tomou posse do cargo do Prof. André, e foi prontamente considerado pelos economistas da UNICAMP o legítimo Diretor do Instituto.

Os economistas da UNICAMP, portanto, dispensaram qualquer sutileza e deram um “golpe branco” no Diretor legitimamente eleito do IFCH, o Prof. André. Abriram, assim, em proveito próprio, uma brecha no movimento. Sua iniciativa foi energicamente repudiada pela comunidade. O campus foi forrado de pichações e faixas dizendo “Fora Lessa, Interventor”. As reais intenções políticas do Grupo dos Economistas da UNICAMP começaram a ficar claras naquele momento para toda a comunidade universitária. A partir de então, os economistas da UNICAMP, através do Prof. Lessa e, frequentemente, também dos outros membros do grupo, tornaram-se aliados da Reitoria e deixaram de fazer parte da oposição ao ato de força do Reitor. Maquiavel não poderia ter encontrado melhor evidência de Realpolitik.

Para mim o episódio Lessa não teria sido doloroso se não tivesse levado vários professores da Faculdade de Educação, simpatizantes dos economistas, a propor que se buscasse uma “solução Lessa” também para a Faculdade de Educação. Deixo de mencionar os nomes dos que aderiram a essa proposta, por estarem ainda conosco, mas sua ideia era a de que era preferível encontrar algum Professor Titular Concursado democrático em alguma universidade, e convidá-lo para assumir a Direção da Faculdade, a correr o risco de ter um outro Prof. Daruge na Direção. Felizmente, e para crédito da comunidade da Faculdade de Educação, os proponentes dessa tese ficaram na minoria e ela não prosperou.

Achei que era chegada a minha vez de agir sozinho. Com a assessoria da Dra. Ana Maria Tebar, amiga pessoal e advogada que trabalhava na Secretaria Geral da Universidade, foram rascunhadas as linhas mestras de um Mandado de Segurança contra o ato do Reitor. Usamos argumentos próprios e outros que foram apresentados pelo Prof. Dalmo de Abreu Dallari, que emitiu circunstanciado parecer denunciando o arbítrio e o abuso de poder do Reitor da UNICAMP. Através do Prof. Rubem Alves, contatei o Dr. Waldemar Thomazine, Juiz do Trabalho aposentado e membro da Comissão Justiça e Paz de Campinas, que se dispôs a gratuitamente impetrar o Mandado, colocando nossos argumentos em forma jurídica apropriada. No início de Dezembro de 1981, com muito poucos na Universidade sabendo o que estava sendo feito, o Mandado foi impetrado e liminar favorável foi concedida pelo Juiz de Direito Álvaro Érix Ferreira, então novo na cidade.

A liminar do Juiz caiu como uma bomba na comunidade e na cidade (foi manchete de primeira página dos dois jornais de Campinas), posto que me reconduzia ao cargo de Diretor. Imediatamente impetramos Mandados de Segurança em nomes de todos os Diretores exonerados, exceto os Profs. Carlos Franchi e Yaro Burian, que, por razões pessoais, preferiram não apelar à Justiça. Todos os que impetraram os Mandados receberam liminares favoráveis.

A Reitoria, apavorada, contratou, sem licitação e por uma fábula de dinheiro, o escritório do Dr. Alfredo Buzaid, indigníssimo proponente do Ato Institucional nº 5, para defendê-la nos Mandados de Segurança (assim, implicitamente, reconhecendo a incompetência do Dr. Pérsio Furquim Rebouças). O Dr. Buzaid trouxe seu quartel-general para Campinas, tentou intimidar os Juízes locais (tendo sido bem sucedido em uma instância, em que um Juiz voltou atrás na liminar), entrou com Agravos de Instrumento no Tribunal de Justiça – tudo sem sucesso (exceto no caso do Juiz que voltou atrás aqui em Campinas).

Quando a Reitoria percebeu que uma das liminares, envolvendo dois dos Diretores, fora revogada, resolveu agir com presteza. Convocou uma Reunião do Conselho Diretor para a Sexta-feira anterior ao Carnaval, em Fevereiro de 1982, com a finalidade de elaborar a Lista Sêxtupla para o Governador do Estado, Paulo Salim Maluf. Não contente com essa manobra, reforçou o seu time. Os seis representantes do Governo no Conselho Diretor foram substituídos por pesos-pesados oriundos do mais retrógrado órgão da burocracia educacional daquela época, o Conselho Estadual da Educação.

O Conselho Diretor, reunido, elaborou, sob veementes protestos do Prof. Rubem Alves e meus próprios, uma lista sêxtupla, colocando o nome do Prof. Pinotti em primeiro lugar. Após a reunião, que terminou depois das 18 horas, a lista foi encaminhada pessoalmente ao Governador Maluf, que estava viajando pelo Estado, em um de seus Governos Itinerantes. Num milagre de eficiência, a nomeação do Prof. Pinotti foi publicada no Diário Oficial do dia seguinte, um Sábado de Carnaval. Apropriado.

Pelos mapas de votação, competentemente organizados pelos alunos Cláudio de Oliveira Pinto e Sandra Aparecida Riscal, Representantes Discentes no Conselho, ficou patente que o Prof. Jorge Miglioli, economista e Representante Docente no Conselho, havia votado para o Prof. Pinotti, o fato deixando claro que os economistas haviam encontrado em uma aliança com o Prof. Pinotti, Professor Titular Concursado, a solução de seu problema (o acesso ao poder a qualquer custo). A posterior nomeação dos Profs. Wilson Cano, Ferdinando de Oliveira Figueiredo, e Paulo Renato Costa Souza para altos cargos na administração do Prof. Pinotti simplesmente confirmou o que já estava óbvio. Em 1984 o Prof. Pinotti indicou o Prof. Paulo Renato para o cargo de Secretário da Educação, para o qual ele, Reitor, havia sido convidado pelo Governador André Franco Montoro. Em 1985, o Prof. Pinotti apoiou a candidatura do Prof. Paulo Renato para substituí-lo na Reitoria da UNICAMP e, em contrapartida, foi ocupar o seu lugar na Secretaria da Educação em Abril de 1986, ao sair da Reitoria e passá-la para o Prof. Paulo Renato. Mas com isso saio do período que me compete analisar.

A crise certamente não terminou com a nomeação do Prof. Pinotti. Os processos continuaram a tramitar e, eventualmente, meu processo recebeu uma belíssima sentença definitiva, que chamou o Reitor de arbitrário, denunciou-o por abuso de poder e desmascarou até mesmo a ficção dos concursos. A Universidade continuou em greve.

O Prof. Pinotti, Reitor indicado, mas ainda não empossado, convidou o Prof. Maurício e a mim para uma conversa em sua casa. Ali propôs que retirássemos os processos da Justiça. Em contrapartida, anularia todos os atos do Prof. Plínio contra nós, pagaria as gratificações de Diretor correspondentes aos seis meses, de Outubro de 1981 a Abril de 1982, de todos os exonerados e nos daria o espaço político que desejássemos (desde que não na esfera da mais alta administração, que já estava toda definida). O Prof. Pinotti queria assumir o cargo como o Grande Pacificador da Universidade. Conversamos com os Diretores exonerados e todos concordaram que a proposta era razoável e que a Universidade deveria voltar à normalidade. Assim, assinamos um acordo e retiramos os processos da Justiça. (O meu processo estava em vias de receber uma sentença favorável em Segunda Instância, no Tribunal de Justiça, e isso, certamente, desempenhou um papel importante na decisão do Reitor nomeado).

Com destaque para a ausência conspícua do Prof. Maurício, a maior parte dos Diretores participou da posse do Prof. Pinotti, no Teatro do Centro de Convivência. Os Diretores assinaram um acordo, mas os alunos, não. Estes lotaram as dependências do teatro, fantasiados de palhaços, vaiaram o novo Reitor durante toda a cerimônia, não o deixando ler seu discurso. No entanto, o novo Reitor tomou posse e, aos poucos, o clima se acalmou dentro da Universidade.

O resultado da crise, no que me diz respeito, foi desilusão acerca de muitos colegas e um considerável cinismo acerca da política universitária. Depois da crise, realizei pouco pela Faculdade, tanto externa como internamente, porque fiquei profundamente desestimulado pelo jogo político sujo de que fui testemunha e vítima, e que me convenceu de que, até mesmo dentro da Faculdade, havia pessoas dispostas a promover, por baixo do pano, sua agenda política, e mesmo político-partidária, às custas da vontade expressa da maioria absoluta da comunidade da UNICAMP, em geral, e da Faculdade de Educação, em particular. A crise me fez perder a ingenuidade política, que me levava a crer que as pessoas, dentro da Universidade, estavam primariamente interessadas em preservar a integridade da Universidade contra ingerências externas, viessem de onde viessem, mostrando-me que muitos colegas, na Universidade, se opuseram à intervenção, não porque ela era intervenção, mas porque os interventores não portavam as mesmas cores e bandeiras políticas, e que estariam plenamente dispostos a conviver com a intervenção, desde que os interventores iniciais fossem trocados por interventores politicamente corretos, como o economista Carlos Lessa.

III. A Segunda Fase da Gestão: Tecnologia Educacional

Diante desse quadro, resolvi pensar um pouco mais em mim e um pouco menos na Universidade. A Crise de 1981 me demonstrou que, se eu houvesse sido exonerado de meu cargo de Professor, além do de Diretor, não teria muitas opções, porque não sabia fazer outra coisa na vida. Concluí que era hora de mudar isso. Assim que a crise foi equacionada, em Abril de 1982, matriculei-me num curso de computação (Programação em COBOL, duração 14 meses), na única escola de computação da cidade, a People Computação (que me foi indicada pelo Prof. Maurício). Dentro da Universidade, envolvi-me com o grupo que pesquisava o uso do computador da educação, liderado pelos Profs. Fernando Curado, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação, e Raymond Paul Shepard, da Faculdade da Educação. Em 1983 propus à Reitoria a criação do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED). O Prof. Pinotti acatou minha sugestão, criou o Núcleo e me nomeou seu primeiro Coordenador.

Ao mesmo tempo, coordenei, na UNICAMP, em 1983, a elaboração do Projeto EDUCOM, apresentado ao MEC, que foi um dos cinco projetos aprovados em 1984 (dentre os 26 submetidos) e os trabalhos de tradução da linguagem LOGO para o Português, em Convênio com a Itaú Tecnologia S/A (Itautec). Esse convênio trouxe para a Faculdade de Educação três dos primeiros quatro microcomputadores a entrar na Universidade (o outro foi para projeto do Prof. Mario Jino, na Faculdade de Engenharia).

IV. Rápida Apreciação Pessoal

Minha atenção à política universitária, nos primeiros dezoito meses, a total paralização de atividades durante os seis meses da crise, e minha desmotivação, nos últimos vinte e quatro meses, significam que minha gestão não se distinguiu por grandes realizações no âmbito da própria Faculdade. Na verdade, acho que, internamente, realizei muito mais como Diretor Associado do que como Diretor, porque o Prof. Rezende me delegou boa parte das tarefas de administração interna e havia muito mais a ser feito, para por a casa em ordem, administrativamente, em 1976 do que em 1980.

É verdade que meu trabalho no âmbito do Conselho Diretor, minha candidatura à Reitoria, minha colocação entre os seis primeiros na lista da comunidade, meu papel na solução jurídica da crise, ajudaram a elevar a reputação da Faculdade de Educação dentro da Universidade – reputação esta que, é imprescindível que se diga, já havia tido considerável ascensão na proba e inatacável gestão do Prof. Rezende, mentor, colega e amigo, a quem publicamente manifesto meu mais profundo respeito e minha incondicional admiração.

Aproveito o ensejo para registrar minha profunda admiração por dois outros colegas e amigos. Um deles, o Prof. Rubem Alves, primeiro Presidente da ADUNICAMP e o mais bravo representante que a comunidade docente jamais teve no Conselho Diretor da Universidade. Com sua reputação internacional e, sobretudo, com suas ideias originais e sua integridade moral, o Rubem muito contribuiu para a necessária deflagração da Crise de 1981 e, posteriormente, para sua mais adequada solução. O outro, o Prof. Maurício Prates, líder inato, motivador por natureza, provocador nos momentos certos, sempre irrequieto, e incomparável realizador. A UNICAMP foi a que mais perdeu em decorrência de o Maurício não ter se tornado o seu Reitor em 1982, como devia. Teria sido realmente Magnífico. Aposentado da UNICAMP, a PUCCAMP hoje se beneficia de sua infindável energia e de seu contagioso entusiasmo.

Além desses três amigos, é preciso registrar que sem Ana Maria Tebar, Waldemar Thomazine e Álvaro Érix Ferreira não teria havido uma solução satisfatória da crise. Os dois últimos provavelmente não se deem conta disso; ela, entretanto, sabe – e sabe que eu sei, e agradeço. Mas agradeço aos outros dois também, onde quer que estejam.

Minha gestão não me cabe avaliar além dessa rápida apreciação pessoal. No futuro alguém provavelmente o fará, e gostaria que o fizesse com base na melhor documentação possível. Por isso, aproveito o ensejo para propor a criação, dentro da Faculdade, de um pequeno Centro de Memória da História da Faculdade de Educação, ao qual terei prazer de legar principalmente os recortes de jornais e as cópias dos processos judiciais relativos à crise. Duvido que alguém mais os tenha guardado.

V. O Futuro

Na gestão dos que me sucederam, a Faculdade de Educação cresceu, institucionalizou-se, ganhou prédio próprio, projetou-se nacional e internacionalmente, ganhou um setor audiovisual, aumentou consideravelmente o número de computadores disponíveis para funcionários, professores e alunos, e criou órgãos internos voltados para a pesquisa em tecnologia educacional. Cumprimento aqui todos os que me sucederam, inclusive o atual Diretor, por essas realizações.

Entretanto, a despeito da visível presença de tecnologia dentro das dependências da Faculdade, não me parece que a comunidade da Faculdade, no seu todo, ou mesmo em sua maior parte, tenha plenamente compreendido o impacto que os novos meios de comunicação, que convergem, inelutavelmente, para o computador, estão tendo, e cada vez mais vão ter, sobre a educação. Continuamos a formar semianalfabetos nessa área, tanto em nosso curso de Pedagogia como em nossas Licenciaturas, para não mencionar os Cursos de Pós-Graduação.

Estou convicto de que a educação, no século XXI, será cada vez mais informal, mais difusa, mais permeada pela tecnologia, mais desintermediada, mais permanente, mais tendente à onipresença e ubiquidade. Isso significa que a escola e o professor, em seus modelos atuais, terão um papel cada vez menor na educação, perdendo espaço para outras instituições e outros agentes que desempenharão um papel cada vez mais central na educação das pessoas.

Há muito que considero que o foco de atenção da Faculdade de Educação, voltado quase exclusivamente para a educação formal no âmbito da escola pública, representa um sério erro de avaliação – exemplo de miopia pedagógica que só consegue ver o que está perto. Dentro do cenário atual, e, mais ainda, dentro do que se descortina, acho que esse erro de avaliação passa a ser grave anacronismo, que poderá rapidamente pôr a perder a reputação que a Faculdade a duras penas angariou ao longo de seus 25 anos de vida.

 Campinas, 19 de Agosto de 1997

 * Trabalho apresentado na Mesa Redonda de Ex-Diretores da Faculdade de Educação no dia 19 de Agosto de 1997, quando se comemorou o 25º aniversário da criação da Faculdade.

Transcrito no blog “Liberal Space” em Salto, 3o de Junho de 2014

Transcrito aqui em São Paulo, 7 de Novembro de 2015 (dia em que nasceu o meu querido  avô materno, José de Campos, o “Seu” Juca).

Lugares em que Morei

Segundo dados contidos na Bíblia do meu pai, morei, do meu nascimento, em 7 de Setembro de 1943, até Março de 1952, nas seguintes cidades:

LUCÉLIA, SP

Meus pais viveram em Lucélia, onde nasci em 7-9-1943, de 24-2-1943 a 6-1945 – saí de lá com cerca de 1 ano e 9 meses. Meu primeiro aniversário foi passado em Lucélia.

IRATI, PR

Meus pais moraram em Irati, no Sul do Paraná, de 6-1945 a 3-1946. Meu segundo aniversário foi passado em Irati. Saí de lá com 2 anos e 5 meses, por aí.

MARIALVA, PR

Meus pais moraram em Marialva, no Norte do Paraná de 3-1946 até por volta 2-1949. Meu irmão Flávio nasceu nesse período — mas em Campinas, SP, para onde minha mãe havia ido. Meu terceiro, quarto e quinto aniversário foram passados em Marialva. Aqui já me lembro das casas em que moramos: uma no centro e outra, um casarão afastado.

MARINGÁ, PR

Meus pais moraram em Maringá, PR, de 3-1949 a 2-1952. Saí de lá com 8 anos e 5 meses, por aí, tendo lá celebrado meu sexto, sétimo e oitavo aniversário lá. Moramos em apenas uma casa.

SANTO ANDRÉ, SP

Meus pais se mudaram para Santo André em Fevereiro de 1952. Foi nessa data em que entrei no Grupo Escolar, bem atrasado, com 8 anos e meio. Eles moraram o resto de suas vidas em Santo André. Meu pai faleceu em 5/3/1991 e minha mãe em 11/6/2008. Lá nasceram minhas irmãs Priscila e Eliane. Morei com meus pais até Fevereiro de 1961 – 9 anos, portanto. Morei em apenas duas casas lá. Eles moraram em várias.

JANDIRA, SP

Morei em Jandira, estudando, de 2-1961 a 12-1963: quase três anos.

CAMPINAS, SP

Morei em Campinas, SP, estudando e trabalhando, de 1-1964 a 1-1967: três anos.

SÃO LEOPOLDO, RS

Morei em São Leopoldo, RS, estudando, de 02-1967 a 07-1967: quase seis meses.

PITTSBURGH, PA, EUA

Morei em Pittsburgh, PA, de 08-1967 a 08-1972: cinco anos.

CASTRO VALLEY, CA, EUA

Morei em Castro Valley, trabalhando em Hayard, ambas as cidades na California, de 08-1972 a 07-1973: um ano.

POMONA, CA, EUA

Morei em Pomona, trabalhando em Claremont, ambas as cidades na California, de 08-1973 a 06-1974: quase um ano.

CAMPINAS, SP

Morei em Campinas, SP, de 06-74 a 08-2008: 34 anos e 2 meses. Morei em cinco casas.

SÃO PAULO, SP

Morei em São Paulo, SP, de 09-2008 a 12-2015: 7 anos e 3 meses.

SALTO, SP

Morei em Salto, SP, de 01-2016 a …

Em São Paulo, 5 de Novembro de 2015

História de Lucélia, SP: Cidade em que Nasci

[Texto transcrito do site da Câmara Municipal da Lucélia. Vide mais informações no final]

Lucelia - foto 01[Vista parcial da cidade, com a Matriz ao centro]

1. Início da Colonização

Formado em engenharia civil em 1914, Luiz Ferraz de Mesquita iniciou sua atividade profissional, na demarcação judicial das terras da Fazenda Monte Alegre à margem direita do Rio do Peixe, quando a Estrada de Ferro Sorocabana atingia com suas linhas, em tráfego, a cidade de Assis, Monte Alegre é denominação vaga que servia para designar todas as terras entre o Rio do Peixe e Aguapeí aproximadamente até Bastos até a barraca do Rio Paraná.

 O trabalho de demarcação terminou em 1918 e ele recebera terras como pagamento de seus serviços. Na abertura de uma das picadas, quando atravessavam um dos afluentes do Rio do Peixe, perderam-se três balizas, então o denominaram de Ribeirão Baliza. Ainda em 1918 empreendeu Luiz Ferras de Mesquita a primeira abertura de uma clareira na mata virgem à margem esquerda do Ribeirão Baliza, onde se localizaram as primeiras famílias chefiadas pelo patriarca Benedito Lopes. Todavia, a colonização da referida região foi iniciada praticamente por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação da Fazenda Baliza e a seguir de Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela Sorocabana, imigrantes Russos e outros Eslavos que negociando com o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita se estabeleceram nos bairros de Baliza e Água Grande. A gleba que ira formar a Fazenda Baliza e Santa Cecília foi ligada à José Theodoro (Martinópolis), de onde Luiz Ferraz de Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização.

 Os colonos, principalmente estrangeiros que compravam terras de sua propriedade, tinham que parar no Baliza para iniciar a derrubada das terras que havia adquirido o que fez dela um patrimônio centro de colonização, tendo o Dr. Mesquita tendo que instalar uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

 Em 1929, João de Arruda, abrindo uma clareira na mata virgem construindo o primeiro rancho, dando origem ao patrimônio chamado “Zona da Mata”, ou seja, a origem da atual Lucélia. Na realidade não passou de dez a doze casas e corresponde presentemente ao local ocupado pelo cemitério e algumas chácaras. A cidade de Lucélia, sede do município do mesmo nome não surgiu ao acaso mas de um plano urbanístico e econômico racional idealizado pelo engenheiro Luiz Ferraz de Mesquita. Parece que para não arcar sozinho com toda a responsabilidade de vendas de lotes, procurou associar-se ao Sr. Max Wirth e a C.A.I.C. (Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização). Em 1939, se deu a fundação de Lucélia, no município de Martinópolis 6 Km do distrito de Baliza.

 Feito o traçado da cidade, ergueu-se na avenida principal que é ponto mais alto do espigão divisor das águas do Peixe e Aguapeí, uma capelinha em 24 de junho de 1939 foi realizada a primeira missa do povoado pelo padre Gaspar Cortez Aguilar.

 Lucélia desenvolveu rapidamente em virtude econômicas das terras. É curioso observar que até 1944 as terras de Lucélia pertencia às comarcas de Araçatuba, Guararapes, Martinópolis, Tupã e Valparaíso. A própria povoação estava assim dividida: do lado direito da avenida Internacional, do início até a atual praça José Firpo, pertencia ao município de Guararapes; continuando até onde estava a Indústria de Óleo Granol, pertencia ao município de Valparaíso. Do lado esquerdo da avenida Internacional do início até a altura da Granol pertencia ao município de Martinópolis.

 Graças ao prestígio do seu fundador, Lucélia foi elevada de uma só vez à categoria do Distrito de Paz, Município e Comarca pelo Decreto Lei Nº 14.334 de 30 de novembro de 1944. O município de Lucélia foi criado com sede no povoado do mesmo nome e com terras desmembradas dos municípios de Andradina, Valparaíso, Guararapes, Martinópolis, Presidente Prudente, Presidente Bernardes, Santo Anastácio e Presidente Venceslau. O referido município contou inicialmente com os Distritos de Paz de Aguapeí do Alto (Flórida Paulista), Guaraniúna (Pacaembu) e Gracianópolis (Tupi Paulista).

 A partir de 1939, Luiz Ferraz de Mesquita fez de tudo por Lucélia e conseguiu oito estradas convergentes, sendo três de acesso à Estrada de Ferro Sorocabana (Rancharia, Martinópolis, Presidente Prudente), três para a estrada de Ferro Noroeste (Valparaíso, Guararapes e Araçatuba) e as duas de saída e chegada pelo espigão da Companhia Paulista.

 Com a elevação de Lucélia a município na época da Ditadura o seu primeiro prefeito foi por nomeação do interventor estadual, que na época era o Sr. Adhemar Pereira de Barros concunhado do Dr. Mesquita em que recaiu a nomeação de prefeito.

Desde a elevação de Lucélia a município, somente o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita fora nomeado Prefeito pelo Interventor Estadual (Governador do Estado). Todos os demais foram eleitos democraticamente.

2. Fundador de Lucélia

LUIZ FERRAZ DE MESQUITA, fundador da cidade, foi um verdadeiro bandeirante dos tempos modernos.

Nas primeiras décadas deste século, em pleno sertão bruto do noroeste do Estado de São Paulo, viveu acampado, em grandes trabalhos de geodesia.

Derrubou florestas e abriu estradas, trabalhos que lhe renderam como pagamento a área onde anos mais tarde pôde realizar o sonho de sua mocidade ativa e empreendedora: fundar uma cidade!

No final da década de 30, nas terras que ganhou, traçou os lineamentos de Lucélia.

Demarcou as ruas e as praças e iniciou o loteamento daquela que seria desde então “a pupila de seus olhos.”

Como fruto deste trabalho que o mantinha quase sempre distante de sua família, sustentou, na Capital sua prole numerosa – 10 filhos – educados e formados sob supervisão dedicada de sua esposa Cecília.

Da união da sílaba LU de seu nome e da sílaba CE do nome de sua esposa Cecília, acrescidos da desinência LIA, tão comum nas cidades da vizinhança, tais como Gália, Cabrália, Marília, surgiu o nome LUCÉLIA.

Tornada Comarca na década de 1.940, Luiz Ferraz de Mesquita foi seu primeiro prefeito municipal, ocorrendo na gestão, a primeira eleição para presidente da República, depois da ditadura Vargas, sendo eleito o Marechal Dutra.”

Faleceu em Lucélia no dia 14 de novembro de 1.960, deixando a viúva, os 10 filhos e mais de 30 netos… e a comunidade pela qual sonhou e viveu.

3. A Primeira Planta de Lucélia

Vejam na imagem abaixo, a primeira planta da cidade de Lucélia, elaborada pelo Dr. Luiz Ferraz de Mesquita

Lucelia - foto 02[Primeira planta da cidade de Lucélia]

Essa planta foi o documento utilizado pela empresa L.F. Mesquita quando se iniciou a venda de terrenos para a formação da cidade de Lucélia.

O Portal Nossa Lucélia agradece a família Galetti, na pessoa do Sr. Diógenes Galetti que gentilmente cedeu uma cópia desse documento e autorizou a publicação do mesmo.

A cidade de Lucélia, não surgiu ao acaso, mas de um plano urbanístico e econômico racional idealizado pelo engenheiro Luiz Ferraz de Mesquita. Em 1.939, deu-se a fundação de LUCÉLIA, no município de Martinópolis a 6 km do distrito de Baliza. O Dr. Luiz Ferraz de Mesquita foi o engenheiro incumbido da divisão e colonização das terras onde seria a cidade de Lucélia.

Com a área já estava totalmente demarcada, foi lançado um panfleto para divulgar a venda dos terrenos ao povo daquela época que desejavam se instalar na região no novo município de Lucélia.

O panfleto que dizia: “Lucélia, A cidade da terra boa” e “Quem vai adiante bebe água limpa”, tinha a responsabilidade de L.F. Mesquita, com sede à Rua Conselheiro Crispiniano, nº. 29 na cidade de São Paulo.

4. Um Distrito Chamado Baliza

[O texto nesta seção é do jornalista José Carlos Daltozo, com colaboração de Marcos Vazniac.]

Hoje é uma simples pastagem, cortada por um riacho assoreado denominado Baliza, mas já foi de grande importância para as cidades de Martinópolis, Lucélia e Osvaldo Cruz. Estamos falando do antigo distrito de Baliza, que pertenceu originalmente a Martinópolis e depois da emancipação de Lucélia, em fins de 1944, passou a ser distrito daquela cidade da Alta Paulista.

Quando surgiu o povoado de Califórnia, atual cidade de Osvaldo Cruz, este também passou a pertencer juridicamente ao distrito de Baliza, como bem informa o escritor José Alvarenga em seu livro Osvaldo Cruz – Achegas Históricas: “…a 16 de novembro de 1942, pelo decreto-lei estadual nº 13.050, a então Vila de Califórnia, sob a administração de Walter Wild, foi elevada à categoria de distrito de 2ª zona com sede em Baliza, no município de Martinópolis e comarca de Presidente Prudente.” Baliza era, então, um florescente povoado com várias residências, algumas casas comerciais, uma serraria, um clube esportivo, uma igreja Batista e uma Igreja Ortodoxa Russa, uma vez que ali residiam inúmeros eslavos. O motivo de ter existido, naquele povoado, vários descendentes de povos eslavos, é interessante.

Em recente visita à cidade de Lucélia, entrevistei alguns imigrantes eslavos e fiz um ligeiro apanhado histórico da chegada deles neste longínquo rincão do Brasil. Eles fugiam do comunismo e da pobreza reinante na então União Soviética e nos países satélites. Eram russos, ucranianos, romenos, búlgaros, entre outros, que ao chegar ao Brasil se espalharam por várias cidades do interior paulista. Ficaram sabendo da venda de terras em suaves prestações, por parte de Luiz Ferraz de Mesquita, que estava parcelando parte de sua fazenda de 2.735 alqueires, tendo a denominado Fazenda Baliza. Mesquita obteve essa fazenda como pagamento pelos seus serviços de agrimensor na demarcação de terras da gigantesca Fazenda Monte Alegre. Deu esse nome ao local porque perdeu três balizas de demarcação nas proximidades do ribeirão que cortava o loteamento rural. Ficava a cerca de 50 km. de Martinópolis, sede do município, pois naquela época nosso território avançava além do rio do Peixe, nossa atual divisa municipal com Pracinha, chegando até o espigão divisor Peixe-Aguapeí.

O povoado de Baliza era pequeno, mas a zona rural ao redor era formada de terras férteis, chegando a ter 2.756 habitantes. Segundo entrevista do autor deste artigo com Stepam Povliuki, em junho de 1997, para o jornal Folha da Cidade de Martinópolis, este relatou: “desci na estação ferroviária de José Teodoro, nome antigo de Martinópolis, no ano de 1932, me dirigindo ao povoado de Baliza, onde já haviam outros russos, uma vez que um capataz de uma fazenda nas proximidades era dessa nacionalidade e foi chamando os conterrâneos. Lembro que Baliza chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, uma farmácia, uma serraria e um cemitério. Hoje nada mais existe no local, todo mundo foi se mudando para Lucélia quando fundaram aquele povoado e venderam terras baratas. Sou nascido em Pitronska, na Bessarábia, atual Romênia, mas na época que nasci, em 1918, pertencia à Rússia. Tivemos muita dificuldade ao chegar no Brasil e, depois, na adaptação ao clima e costumes da nova terra, pois não conhecíamos lavouras de café, nem sabíamos como cultivá-lo. Também desconhecíamos a mandioca e frutas como banana, mamão e manga. Aqui era tudo muito diferente.”

No Histórico de Lucélia, fornecido pela Prefeitura daquela cidade, consta que a colonização de Lucélia foi iniciada por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação das fazendas Baliza e Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela E.F. Sorocabana, imigrantes russos e outros povos eslavos que, negociando com o Dr. Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Baliza e Água Grande. A gleba foi ligada por uma estrada de rodagem ao povoado de José Teodoro (atual Martinópolis), de onde o Dr. Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização. Os estrangeiros que compravam terras tinham que parar em Baliza para iniciar a derrubada da mata, o que fez dela um patrimônio centro de colonização, com a instalação de uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

A cidade de Lucélia, fundada em 1939, a seis quilômetros do distrito de Baliza, mas ainda dentro do município de Martinópolis, foi fruto de um plano urbanístico e econômico racional, numa associação de Luiz Ferraz de Mesquita com Max Wirth e a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização.”

Lucélia tem um histórico curioso em seus primeiros anos de vida, quando era um insipiente povoado e seu território fazia parte de Martinópolis. Os comerciantes estabelecidos no lado esquerdo da atual Avenida Internacional pagavam seus impostos à Prefeitura de Martinópolis, enquanto parte dos comerciantes estabelecidos no lado direito pagavam para a Prefeitura de Valparaíso e outra parte para a de Guararapes.

A avenida, situada exatamente no espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí, foi implantada exatamente na fronteira dos territórios dessas três cidades, uma da região Alta Sorocabana e duas da região Noroeste. O Decreto 9.775, de 30.11.1938, que criou o Município de Martinópolis, foi publicado no Diário Oficial de 19.12.1938 e menciona, no final, a criação de Baliza com as seguintes confrontações: “O distrito de paz de Baliza, que fica criado, terá as seguintes divisas internas, com a sede do município de Martinópolis: começam no rio do Peixe, na foz do Ribeirão da Confusão e descem por aquele até a barra do ribeirão dos Ranchos.” Do outro lado, como dissemos anteriormente, ia até o espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí. Uma entrevista realizada há poucos meses com Jorge Cavlak, nascido em Baliza e atualmente residindo em Lucélia, esclarece que na realidade haviam dois pequenos povoados, um ao redor do ribeirão Baliza, no local onde passava a estrada de rodagem de Martinópolis para Lucélia, e outro um pouco mais adiante, no ribeirão Água Grande. Mencionou vários nomes de pequenos proprietários eslavos que residiam em sítios vizinhos ao povoado e à estrada de rodagem. O sítio mais próximo à estrada era de Stefan Paley, no sítio ao lado moravam os Trukshen, em seguida vinham os sítios de Inácio Brichiuk, Simão Popik e por último Demétrio Bastinvadji. Do outro lado do ribeirão, fazendo fronteira com esses proprietários, havia os sítios de Nicolau Uzum, Jorge Delive, Basílio Greck, Hartion, Afanásio, Jeremias Posledniak, Profor, Jacob e por fim Demétrio Cavlak.

Terminando os sítios havia a fazenda do Dr. Mesquita. Nos fundos dos sítios dos primeiros citados, havia os sítios de Jorge Mueulik, Jorge Puskof, Basílio Kirkoff e João Berholf. Do outro lado da estrada só havia dois pequenos proprietários, Stepan Pavioliuk e Pedro Peikof, em seguida vinham as terras pertencentes à fazenda do Dr. Zeferino Veloso. Jorge Cavlak informou também que a igreja próxima à estrada, dentro do sítio dos Paley, era protestante (Batista) e que a Igreja Ortodoxa Russa ficava um pouco mais distante, na propriedade de Jeremias Posledniak. Um padre russo visitava essa igreja poucas vezes por ano, devido à distância da ferrovia e a precariedade das estradas. As recordações que ele tem do pequeno povoado de Água Grande são poucas, ficava distante dois quilômetros de Baliza, em direção de Lucélia. Recorda-se da existência de apenas uma casa comercial, uma serraria e um clube social e esportivo com o nome de ABC. Ambos, Baliza e Água Grande, desapareceram com o crescimento de Lucélia, principalmente depois da chegada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e os atrativos e oportunidades de uma cidade em franco desenvolvimento. Todos os eslavos foram vendendo, aos poucos, suas propriedades rurais e mudando para Lucélia, até extinguir os dois povoados.

A mãe do Jorge, Dona Helena, bastante idosa mas ainda muito lúcida, informou que nasceu na Bulgária, acompanhou seu marido no desbravamento da região de Baliza, onde morou muitos anos. O que mais se recorda são as festas rurais, onde as mulheres podiam se alegrar um pouco. Isso porque os homens, mesmo trabalhando de sol a sol nas lavouras, iam aos jogos de futebol nos finais de semana, ou jogavam baralho, bebiam, viajavam para Martinópolis buscar mantimentos, vender porcos, galinhas etc. As mulheres, no entanto, passavam a maior parte de suas vidas trancadas em casa, costurando, bordando, fazendo comida, cuidando dos filhos. Os bailes e as cerimônias religiosas eram as únicas oportunidades que tinham de se divertir um pouco.

O jornalista Marcos Antonio Vazniac, do jornal Gazeta Regional, editado em Lucélia, também é descendente de eslavos e sempre que consegue algumas fotos antigas, publica-as no jornal onde trabalha, na seção Recordando.

Outro morador de Lucélia, o professor Jeová Severo da Silva, escreveu uma monografia de conclusão de curso de Geografia na Unesp de Presidente Prudente sob o tema “Lucélia-SP, do início ao meio: uma análise da evolução do município”, onde também faz breve apanhado histórico sobre Baliza, considerando-a o berço de sua cidade.

Quem passar pela estrada vicinal que liga Lucélia ao novo município de Pracinha, em direção ao Rio do Peixe, verá um pequeno riacho assoreado, barrancos de dois metros de altura nas laterais, algumas árvores nas margens, terreno todo plantado com capim, alguns bois pastando, esse era o local onde existiam os sítios dos russos e demais eslavos, onde um povoado chamado Baliza foi formado, mas que desapareceu completamente a partir da década de 1950. Foi um povoado de grande valor histórico, pertenceu a Martinópolis muitos anos e tornou-se a célula mater de duas importantes cidades da Alta Paulista: Lucélia e Osvaldo Cruz. .

5. Baliza o Distrito que Desapareceu

[Texto escrito com a colaboração de Marcos Vazniac]

A duas léguas do Bairro BALIZA, no alto do espigão do Peixe/Aguapeí, acontecia muito rápido o nascimento de LUCÉLIA. E com isso, começava o desaparecimento do Bairro Baliza.

Nada mais existe no local, nem vestígios de construções. Apenas um rio chamada Baliza, que separa Lucélia de Pracinha. Nas margens desse rio é que existia o povoado.

A reportagem da Folha da Cidade de Martinópolis, esteve no local em 1997 e encontrou um remanescente, um senhor de origem russa, Stepan Povliuk que apesar dos 79 anos, ainda lúcido, contou o que sabia.

“Na época que vim para José Theodoro (nome antigo de Martinópolis), em 1932, já havia uma colônia russa no local chamado Baliza. Ainda nem se pensava que existiria a cidade de Lucélia.

O motivo de se juntarem muitos russos naquele local é que havia um capataz de uma fazenda dessa origem e foi chamando os demais, espalhados em várias cidades do interior paulista. Lá nas margens do rio Baliza, chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, cemitério, farmácia, uma serraria e hoje nada mais existe. Todos venderam seus lotes baratos e mudaram-se para Lucélia, quando abriram o novo povoado. Só eu estou ainda aqui, neste sítio. Sou nascido em Pitronka, na Bessarábia, atual Romênia. Quando nasci (27.10.1918), minha cidade pertencia à Rússia.

A vida naquele tempo era uma dificuldade. Na roça, nosso povo não estava acostumado com lavouras do tipo que se plantava aqui. Foi difícil se acostumar com mandioca, café, banana, mamão, manga. Era tudo desconhecido para nosso povo. Mas sobrevivemos e alguns descendentes hoje moram em Lucélia”.

6. Colônia de Imigrantes Eslavos foi Pioneira em Lucélia

A história de nossa cidade data alguns anos antes de sua emancipação política ocorrida em 1.944.

Um grupo de imigrantes Eslavos (russos, romenos, búlgaros e ucranianos) construíram um povoado situado no Bairro Baliza.

Ali construíram suas casas incluindo um cemitério, mas a colônia dos eslavos não prosseguiu.

Com a fundação de Lucélia, o Bairro Baliza desapareceu e nada restou no local. Os moradores desta colônia acabaram mudando para outras cidades como São Paulo, Campinas, Maringá e Curitiba.

Um destaque sobre a colônia eslava do Bairro Baliza, é que os imigrantes oriundos da Rússia, não aprenderem a falar nossa língua, e os filhos destas famílias lembravam muito a “Mãe Rússia”.

Parte da memória da imigração destas famílias para o Brasil e consequentemente para Lucélia, devem estar nos arquivos do Museu da Imigração em Santos e no Rio de Janeiro, ou em outros países como Canadá, EUA, França e Alemanha, visto que estes imigrantes quando vinham para o Brasil, pensavam que estavam indo para a América do Norte (Canadá e EUA), pois parte de seus pertences foram transferidos para outros navios que iam até aos países da América Anglo-Saxônica.

Estas famílias embarcavam nos portos de Hamburgo e Marselha. Cada embarcação marítima ganhava por pessoas que transportavam.

7. Comarca de Lucélia

A instalação da Comarca de Lucélia aconteceu em 13 de junho de 1945. O primeiro Fórum Av. Internacional, no prédio onde hoje funciona a Coletoria e Juizado de Pequenas Causas.

O prédio atual do Fórum, lugar definitivo do Poder Judiciário, tem sua marca inicial no ano de 1958.

O 1º Juiz de Direito da Comarca foi o Dr. Nelson Pinheiro Franco, e o 1º Promotor Público foi o Dr. Otan Olandim de Matos.

8. Prédios da Av. Internacional Preservam a História de Lucélia

Lucelia - foto 03[Centro de Lucélia: Av. Internacional, a mais importante da cidade]

A cidade de Lucélia começou a ser colonizada, como toda a região da Nova Alta Paulista, na década de 1920. Na época, o município recebeu a influência de diversas colônias de imigrantes europeus, que ajudaram na construção da futura cidade.

Lucélia teve sua colonização em uma época histórica e economicamente denominada “Ciclo do Café”.

Segundo o historiador e economista Caio Prado Jr., em sua obra “História Econômica do Brasil”, enquanto as cidades da Nova Alta Paulista estavam sendo povoadas, no declínio do ciclo cafeeiro, o Brasil entrava na industrialização. Em fotografias publicadas na imprensa local, percebe-se que a Avenida Internacional, em imagens da época, pouco mudou, se comparada aos dias de hoje.

A arquitetura do ciclo cafeeiro foi preservada – percebe-se esse fato, por exemplo, nas construções que abrigam as principais lojas da Avenida Internacional. As telhas francesas ainda cobrem o comércio daquela região, sem perder o estilo de décadas.

A Avenida Internacional difere das demais avenidas de Lucélia e de cidades da região, pois é a única avenida central de uma cidade que é torta, em forma de “S”. Existem algumas explicações para esse formato. Uma delas dá conta de que a avenida tem esse formato por não ter sido projetada no traçado original da cidade. Lucélia foi projetada na atual Vila Rancharia e a avenida central do município, era para ser a Avenida São Paulo – atual Avenida Vereador Jorge Mansur Filho.

Outra explicação é que a Avenida Internacional foi construída em um Espigão, que divide o município em dois, pois as águas das chuvas que caem naquela avenida acabam desaguando nos rios Feio e do Peixe, e a construção de uma avenida nas vilas Rennó e Rancharia seria inviável, pois sofreria, futuramente, com inundações.

Outra versão é que a Avenida Internacional era uma rua que ligava os municípios de Lucélia a atual Inúbia Paulista, e de que o comércio se estabeleceu rapidamente no local, transformando, mais tarde, a rua na principal avenida luceliense.

Muitos podem achar o trajeto da Avenida Internacional de pouca beleza, pelo fato de ser “torta”. Podem também achar que sua arquitetura é inferior à arquitetura das avenidas de cidades vizinhas, como Osvaldo Cruz e Adamantina. A favor de Lucélia pesa, no entanto, a sua história. Se as cidades históricas de Minas Gerais (Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey, Sabará, etc.) preservam sua arquitetura colonial e são considerados patrimônios culturais e históricos da humanidade, recebendo turistas de todo o mundo, nossa população também deveria observar a Avenida Internacional e perceber, em cada metro quadrado, um pouco do seu passado histórico: a época dos grandes carnavais; do cinema; dos barões do café; dos desfiles memoráveis; a época em que Lucélia era pequena e suas ruas não eram pavimentadas, sem muito conforto, mas deixando no ar um pouco do seu “período colonial”.

9. Igreja Matriz

Lucelia - foto 04[A Matriz de Lucélia em construção]

Os primeiros vestígios de Civilização Cristã em nossa região, datam de 1.904, com o Frei Segismundo de Canazé, com a colaboração de outros frades capuchinhos que igualmente trabalharam na missão ao lado dos índios coroados e xavantes.

A primeira capela foi construída em 1935 pelos imigrantes alemães, sob a denominação Santo Antonio”, no Bairro Colônia Paulista.

Em 1939 foi edificada uma capela de madeira na Avenida principal de Lucélia.

Em janeiro de 1944, o então bispo de Cafelândia, Dom Henrique César Fernandes Mourão nomeou o Pe. Bernardo Reckers para desenvolver os trabalhos pastorais em Lucélia.

Em janeiro de 1945 foi iniciada a construção da casa paroquial, em terreno doado por Luiz Ferraz de Mesquita.

O Pe. Bernardo já residia em Lucélia quando o Monsenhor Victor Mazzei, vigário capitular da diocese de Cafelândia, publicou em 25 de maio de 1.945 o decreto de fundação da Paróquia Sagrada Família e confiou a ele o posto de primeiro vigário da nova comunidade.

junho de 1.946, foi lançada a primeira pedra para a construção da nova matriz, que em virtude de um forte vendaval, desabou ainda em construção.

Em 28 de outubro de 1.954, a paróquia foi entregue à Congregação Salesiana e as atividades religiosas foram transferidas para a capela do Ginásio Salesiano.

Em 25 de fevereiro de 1.955 foi lançada a pedra fundamental para a construção da atual Igreja Matriz.

No dia 19 de março de 1955, todas as atividades religiosas foram transferidas para o salão onde funcionou por muito tempo o Lucélia Futebol Clube.

A edificação da igreja teve um grande avanço a partir da posse em 06 de janeiro de 1957, do Padre FRANCISCO MAHR, que era engenheiro e foi quem planejou a atual Igreja Matriz.

A primeira missa na nova Matriz foi celebrada em 08 de janeiro de 1.960.

Outro fato muito importante na história da Igreja Matriz, é a data de 29 de março de 1.968, quando foi recepcionada em nossa cidade a imagem verdadeira de Nossa Senhora de Aparecida.

10. O Futebol Médio (Society) Foi Inventado em Lucélia

O FUTEBOL MÉDIO, também chamado futebol suíço ou futebol society, foi idealizado em Lucélia no ano de 1966, e reconhecido como invenção da Capital da Amizade, conforme Registro de Títulos e Documentos da Comarca de Lucélia, sob o n.º 185 do Livro B e, publicado no Diário Oficial do Estado, em Ineditoriais, na página 2, do dia 18 de março de 1978.

Seus fundadores são: Hamilton Di Stéfano e Paschoal Milton Lentini. Desta idealização, surgiu o esporte que hoje é praticado em todos os Estados do Brasil.

Nas grandes cidades, são jogadas partidas entre funcionários, empresários e a origem deste esporte está em nossa Lucélia, conforme registros do Tênis Clube de Lucélia, Jornal Folha de Lucélia, O Divulgador, Revista O Divulgador, Rádio Difusora de Lucélia e também a Rádio Bandeirantes de São Paulo, quando tivemos a honra de contar com a participação do ilustre radialista esportivo o Sr. Fiori Giliotti, que na época fez a divulgação a nível nacional.

São 18 as regras do futebol-médio, conforme regulamento oficial, registrado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos da comarca de Lucélia, sob nº 185 do Livro B e, publicado no Diário Oficial do Estado em ineditoriais, na página 2, do dia 18 de março de 1978 .

De lá para cá, diversos torneios foram disputados em Lucélia, milhares de partidas são disputadas por esse Brasil afora, e se recordar é viver, temos que lembrar às novas gerações que este esporte praticado em todos os cantos do Brasil e do mundo, por artistas, cantores e atletas em geral, foi criado e idealizado em Lucélia.

11. Fundação do Aeroclube

Lucelia - foto 05[O Aeroclube de Lucélia]

Data de 1º de janeiro de 1.943, a fundação do Aeroclube de Lucélia, Sociedade Civil, com a finalidade de proporcionar aos associados a aprendizagem do exercício da aeronáutica em aeroplanos de pequeno e médio porte. Ao longo de sua existência o aeroclube jamais deixou de funcionar, formando pilotos de Lucélia, da região e principalmente de vários estados do Brasil, tais como Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, entre outros.

Fundado por um grupo de pioneiros, tendo como principal colaborador Dr. Luiz Ferraz de Mesquita. fundador da cidade e primeiro prefeito nomeado.

Naquela oportunidade doou um terreno para ser o primeiro campo de aviação. Neste terreno, hoje está parte da Vila Rancharia.

O primeiro Hangar do Aeroclube de Lucélia (foto ao lado) foi construído em 1943. A pista de pouso era localizada na Vila Rancharia.

Hoje no local do Hangar está construído o Colégio Missionário das Irmãs de São José de Cluny (Colégio das Freiras).

De suas fileiras, saíram grandes nomes da aviação comercial que hoje pilotam Boeing e MD11. Nas épocas áureas, proporcionou emocionantes eventos aeronáuticos, com apresentação da esquadrilha da Fumaça, com os famosos aviões T-6M, comandados pelo não menos famoso Cel. Braga.

Seu Estatuto encontra-se registrado no 2º Cartório de Registro de Imóveis de Presidente Prudente, aos 18 dias do mês de janeiro de 1.943, pois naquela época Lucélia ainda não era Comarca.

 Lucelia - foto 06

[O Aeroclube de Lucélia já foi o terceiro do brasil em formação de pilotos]

Na década de 60, o Aeroclube de Lucélia era o terceiro do país em formação de pilotos. Neste período, o Aeroclube recebia jovens de diversas cidades do estado de São Paulo e também do Mato Grosso e Paraná que aprendiam a pilotar um avião aqui em Lucélia.

Neste período áureo, o Aeroclube foi destaque nacional, sendo fonte de inspiração para uma matéria jornalística na extinta Revista Realidade, da Editora Abril, que na época ao lado da Manchete eram as principais revistas do Brasil.

O repórter José Severo, acompanhado do fotógrafo Armando Chiodi, vieram para Lucélia com o objetivo de fazer uma matéria sobre o primeiro voo de um piloto. O jornalista da Realidade acabou tomando o banho de óleo e voltou com a matéria “VOEI”, onde relata passo a passo sua estadia em Lucélia, a vida cotidiana da pequena e jovem cidade da Nova Alta Paulista, seus personagens populares, intrigas e o dia a dia da aula de pilotagem que ele teve no Aeroclube de Lucélia, com o instrutor Cassimiro Anheschivich, mais conhecido como “Russo”.

Na reportagem, é relatado que o Aeroclube de Lucélia apresentava na época o maior índice de aprovação do interior do Brasil, ficando na honrosa terceira colocação, atrás apenas do aeroclube e da escolinha de São Paulo. Lucélia recebia estudantes de várias localidades. Todos os anos apareciam candidatos de todos os cantos do Brasil, sem dinheiro, sem bagagem e sem nada a prometer, apenas com o certificado de aprovação num exame teórico, pedindo que os ajudassem a ser piloto.

Esta fama de Lucélia possuir o melhor Aeroclube do Brasil era pelo preço cobrado, barato para a época. O preço por hora aula era três a quatro vezes inferior ao preço cobrado nas grandes cidades. O valor cobrado pelas aulas não cobria as despesas com gasolina e, a sobrevivência do Aeroclube se dava com rifas, quermesses e doações.

O repórter da Realidade recebeu instruções de voo com Cassimiro e também passou pela experiência de voar sozinho e tomar o tradicional banho de óleo.

Era costume logo após realizar seu voo solo, o piloto ser recebido com festa, tendo suas roupas rasgadas e acabar tomando banho de 20 litros de óleo, ficando com o corpo coberto

[Acréscimo 1 de Eduardo Chaves]

A fonte deste material está no Site da Câmara Municipal de Lucélia, no seguinte endereço.

http://www.camaralucelia.sp.gov.br/index2.php?pag=T1RVPU9EZz1PV0k9T1RrPU9UUT0=&&id=3]

Como se pode facilmente constatar, trata-se de um texto escrito por várias mãos. Em uma das seções dá-se crédito ao meu amigo, o jornalista José Carlos Daltozo, MTb 32.709, de Martinópolis, que, por sua vez, reconhece a colaboração de Marcos Vazniac. Em outra seção se reconhece a colaboração de Vazniac mas não se esclarece quem é o autor principal. Nas demais seções o texto não contém informação sobre o autor. Acredito que a grafia corretado distrito do qual surgiu Lucélia seja Baliza, e não Balisa, como constava em algumas passagens. Padronizei. Fiz outras pequenas correções ortográficas onde ficava evidente que se tratava de erro de digitação ou, então, para ajustar às peculiaridades do novo Acordo Ortográfico. As afirmações “ufanistas” são, naturalmente, de responsabilidade de quem as fez. Eu já havia publicado este texto em meu site http://lucelia.info, que, infelizmente, está fora do ar. Por isso o transcrevo aqui novamente.

[Acréscimo 2 de Eduardo Chaves]

Minha Certidão de Nascimento original dizia que nasci no “Patrimônio” (Lugarejo) de Lucélia, Distrito de Baliza, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente. Lucélia nem era município naquela época. Com base nesse documento, todos os meus outros documentos (com uma exceção) dizem que nasci lá e, para mim, o assunto está encerrado. (A exceção é meu “Certificado de Conclusão do Curso Primário”, obtido em 1955, que diz que nasci em Martinópolis).

Na única vez que voltei a Lucélia, há cerca de 15 anos, tirei uma nova via da minha Certidão. Nela veio registrado certinho que “nasci na Comarca de Lucélia” (embora naquela época Lucélia nem Município fosse. Mas Lucélia já era Comarca quando essa cópia da minha Certidão foi emitida — por isso considerei que a informação registrada estava certinha.

Recentemente precisei de uma “cópia atualizada” da minha Certidão de Nascimento. Liguei para o Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais da cidade, pedi uma cópia, paguei, e a recebi direitinho. Só que ela diz que nasci no Município de Martinópolis. Liguei para lá. Eis o que me explicou o Oficial. O pessoal do Governo Federal, que não faz outra coisa a não ser bolar coisas para prejudicar a vida dos cidadãos, resolveu padronizar os formulários de Registro de Nascimento, que, agora, vêm pré-impressos e contém (entre outros) os seguintes dizeres: “nascido no município de _____”. Ou seja: o Cartório agora não pode dizer mais que “nasci em Lucélia, Distrito de Baliza, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente”. Tem de dizer que “nasci no Município de Martinópolis”. Azar deles: continuo nascido em Lucélia.

Transcrito no meu blog Liberal Space em 21 de Maio de 2014

Transcrito aqui em 4 de Novembro de 2015