Conversas Comigo Mesmo

Estou lendo (desde ontem, 22/3/2016) um livro verdadeiramente interessante: A. N. Wilson, God’s Funeral (W W Norton & Co, NY, 1999). O século 19 é o período em que se acredita que, intelectual e culturalmente, Deus foi a óbito (para usar a linguagem dos médicos). Wilson não só lhe faz a autópsia como analisa sua “causa mortis”, emite-lhe o certificado de óbito e lhe descreve o funeral.

Incrível como alguns autores conseguem relatar o que se passou e continua a se passar com você, sem que jamais tenham acesso à sua história de vida.

Ayn Rand fez isso comigo em 1973 – e faz até hoje. Eu a leio e fico com aquela impressão de que ela me conhece extremamente bem, melhor, talvez, do que qualquer outra pessoa, e que ela está colocando, em linguagem cristalinamente clara e precisa,  o que eu penso, o que eu sinto, o que eu desejo, o que eu considero verdadeiro, certo, belo e sublime — só que nunca havia conseguido formular de forma tão clara e precisa.

A. N. Wilson fez isso comigo também ontem (como disse, comecei a ler seu livro ontem). Se não fosse o cansaço (levantei-me às 2h da manhã ontem), teria passado a noite lendo. Sua descrição da crise de consciência de Thomas Hardy e Leslie Stephen (pai de Virginia Wolff), pensadores do século 19, chega a ser comovente: a mim me deixou emocionado, “moved”… Sempre gostei de Stephen, que tem uma belíssima história do pensamento inglês no século 18, em dois volumes, que eu li em 1970-1971, mas nunca li muito de Hardy, além de Jude the Obscure e Tess of the d’Urbervilles (que se tornaram lindos filmes).

Adorei encontrar em Wilson alguém que coloca, com todas as letras, o fato de que a crise do século 19, a teologia liberal, o próprio existencialismo kierkegaardiano, etc., tudo isso tem como antecedente causal a verdadeira bomba filosófica lançada no século 18 por David Hume, meu santo padroeiro, um dos poucos filósofos de quem admiro a obra mas também gosto da pessoa: gostaria de, como Adam Smith, ter convivido pessoalmente com ele. Que privilégio teria sido!

Eu disse isso em minha tese de doutorado em 1972 basicamente o mesmo que Wilson afirma sobre Hume. O título da minha tese é David Hume’s Philosophical Critique of Theology and its Significance for the History of Christian Thought. Eu era bem menos preguiçoso então: a tese tem 615 folhas… 

Wilson também tem uma biografia de C S Lewis, que eu tenho em São Paulo. Vou relê-la, porque também gosto de Lewis.

Como a gente aprende lendo. Sempre defendi a aprendizagem interativa, colaborativa… A leitura não parece ser uma fonte de aprendizagem desse tipo — mas a aparência é enganosa. Combinando insights de Socrates e de Alfred Adler, eu diria que, na melhor pedagogia da pergunta, o livro (o bom livro, desnecessário frisar) desperta questões em nossa mente, nos faz cócegas nos miolos (como diria o Rubem Alves), nos incita a refletir, e, socraticamente, a lhe fazer, ao livro, novas perguntas… Sócrates criticou o livro por não ser interativo e, por conseguinte, não responder às perguntas que lhe fazemos. Mas aí está seu maior mérito, visto de ângulo construtivista. Não respondendo às nossas perguntas o livro nos obriga a procurar respondê-las nós mesmos, nos provoca a nos colocar em diálogo com nós mesmos, a criar conversas em que somos nossos principais interlocutores.

Refletir é isso: é dialogar consigo próprio, questionar e criticar a si mesmo, é tentar (popperianamente) refutar nossas próprias ideias, especialmente as mais caras. . . Conversas comigo mesmo. Sempre pensei em escrever um livro com esse título — embora ele possa parecer “conceited”, “selfish”, “egoistical” (que alguns escrevem “egotistical”), o cúmulo da ensimesmação: com tanta gente pra conversar, pra que querer conversar consigo mesmo? Não é uma questão de ou uma coisa ou outra. As duas são importantes. O problema, na nossa conversa interminável com os amigos no Facebook, é que a gente pode se esquecer de arrumar tempo para uma conversinha a sós com nós mesmos. Ouvir-nos a alma e tentar aquieta-la, alimenta-la. .  .  Os resultado serão sempre positivos, eu garanto.

Em Salto, 23 de Março de 2016.

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Os Idos de Março

Hoje é o dia 1o de Março de 2016. Primeiro de Março deve ter sido uma data importante, porque há, em Campinas, uma rua Primeiro de Março (que liga os bairros da Guanabara e da Vila Nova). Talvez em lembrança do fato de que, em 1870, encerrou-se neste dia a Guerra com o Paraguai, ou do fato que, em 1894, neste dia, houve a primeira eleição direta para Presidente da República no Brasil: foi eleito Prudente de Moraes, da republicana Itu, vizinha de Salto, que assumiu o cargo oito meses depois, em 15 de Novembro daquele ano, como o terceiro presidente da República ainda infante.

A Web me diz também que neste dia nasceram Boticelli, Chopin, Glenn Miller e Yitzhak Rabin (um pintor, dois músicos e um militar e político israelense) – e em que morreram Solano Lopez, Rui Barbosa e Anne Frank (um ditador paraguaio, a “Águia de Haia”, e uma judia vítima de Hitler, famosa pelo diário que escreveu) [Acrescentado depois: em 12/1/2017 estive na casa em que ela morou em Amsterdã].

Foi em 15 de Março que Júlio César foi assassinado por Brutus (“Quoque tu, Brute, fili mi!” – Até mesmo tu, Brutus, meu filho!), em 44 AC. A data é usada para celebrar a transição do período da chamada República Romana para o período conhecido como o do Império Romano. Shakespeare, que escreveu uma peça chamada Julius Caesar, recomendou que tivéssemos cuidado com os Idos de Março…

Para nós, próximo dos Idos de Março deste ano, haverá a grande manifestação do dia 13 que procurará mostrar a força do povo que quer ver Dillma e Lulla longe e que quer que o PT-13, com seus muito mais de 40 petralhas, desapareçam da face da Terra. Quem sabe nos Idos de Março deste ano nos vemos livres do Criador e do seu Poste e, imitando Roma, começamos um novo período de nossa história? Quo usque tandem? (Até quando?)

Para mim, pessoalmente, o mês de Março tem vários significados importantes – alguns bons, outros nem tanto…

Quatro anos atrás. em 2012, neste dia, mudamos para o Morumbi, um apartamento que nos tem trazido muita felicidade. Mudamos para que a Paloma e as meninas estivessem perto do Colégio Visconde de Porto Seguro, em que a Paloma trabalhava, desde Agosto de 2011, e as meninas estavam estudando, desde o início do ano letivo de 2012.

Em 2002, no dia primeiro de Março, tive um enfarto agudo do miocárdio. Quase morri. Fiquei na UTI por mais de uma semana, fui abençoado pelo Padre Marcelo, fiz uma angioplastia, coloquei um stent… Faz 14 anos hoje que quase morri – sem ter conhecido o grande amor da minha vida!!!

Saí do hospital no dia 11, dia em que nasceu a primeira filha, Olivia Grace, de minha filha mais velha, Andrea. Minha primeira neta.

Muito antes disso, em Março de 1952 entrei na escola (já com oito anos e meio). Em 1956, entrei no Ginásio, também em Março. Em 1961, entrei no Colegial Clássico, também em Março. Em 1964, entrei no Seminário, no mês de Março, começando a fazer o curso de Teologia.

Dois anos depois, em 1966, 50 anos atrás, também no mês de Março, eu começava a viver uma odisseia que mudou minha vida. Estava em meu terceiro ano no Seminário Presbiteriano de Campinas, e, no início de Março, fui eleito Secretário Executivo do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), e, ato contínuo, fui indicado pela Diretoria para ser o Editor e  Redator Chefe de uma publicação do CAOS – a que dei o nome meio provocante de “O CAOS em Revista”.

Naquele Março de 1966 estávamos terminando o segundo ano da Ditadura Militar, com suas cassações de mandato e expurgos, e a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) se preparava para fazer o seu expurgo interno e dar início à sua ditadura particular, sob a tutela e o cutelo do Rev. Boanerges Ribeiro. Os seminários da Igreja – havia três: o de Campinas, chamado do Sul, o do Recife, chamado do Norte, e o de Vitória, chamado de Centenário, porque criado no ano em que a o presbiterianismo comemorava 100 anos de Brasil (1959) – estavam no topo da lista da pretendida “limpeza” que a igreja planejava fazer em suas hostes.

O primeiro número do meu jornal saiu no dia 18/3/1966 – vai fazer 50 anos daqui a 18 dias e causou um reboliço. Denunciei o conservadorismo teológico e político do corpo docente, o despreparo dos professores (com uma ou outra exceção) para ocupar a posição que ocupavam naquela hora importante,  e adverti para o golpe que se preparava dentro da Igreja. Chamei o seminário (que tinha pretensões de ser uma “Faculdade de Teologia”) de “Instituto Bíblico” – expressão que, no seio das igrejas presbiterianas e, talvez, protestantes, designa instituições escolares geralmente de baixo nível acadêmico e intelectual, que se limitam a ensinar a Bíblia aos seus alunos, passando ao largo das questões que a chamada “Crítica Bíblica” (textual, literária e histórica) tem levantado nos últimos 250 anos.

Em uma reunião apressada, solicitada por dois professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz e o Rev. Américo Justiniano Ribeiro, a Congregação do Seminário, presidida pelo Reitor, uma das exceções a que fiz menção, o Rev. Júlio de Andrade Ferreira, decidiu que o jornal deveria ser confiscado e determinou ao Reitor que entrasse em contato com o CAOS para que lhe fossem entregues os números ainda não distribuídos do jornal. O Rev. Júlio veio direto ao meu quarto – ele era amigo de meus pais e eu sempre me orgulhei do fato de ele, inúmeras vezes, ter me honrado com inequívocos gestos de amizade e bem-querer – desculpou-se por ter de fazer o que estava fazendo, por determinação da Congregação, e me pediu que lhe entregasse os números ainda em estoque – perto de cem. Já havíamos distribuído o jornal por todo o corpo discente. Guardei comigo cerca de dez números, “para a história”, como imaginei, certamente exagerando a importância do nosso ato de rebeldia.

Nem o Reitor nem a Congregação se lembraram de proibir que o jornal tivesse sequência – e, por isso, imediatamente comecei a trabalhar no número seguinte, que foi publicado em 18/4/66, denunciando a “violência simbólica” perpetrada contra os estudantes, contra seu Centro Acadêmico, e contra mim, em particular – e mais uma vez advertindo os leitores da direção inevitável em que caminhava a Igreja Presbiteriana do Brasil. No meu Editorial fiz referência a John Stuart Mill, resumindo um trecho memorável de seu fantástico livro On Liberty (Da Liberdade). Eis dois parágrafos do que disse então:

“É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra On Liberty (…) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se creem portadores de ideias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas ideias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de ideias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser ‘criminosos’ neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!”

Eu tinha 22 anos quando escrevi isso. Hoje tenho 72. Faz 50 anos.

Poderia ter sido muito pior, e acabou sendo, dentro de alguns meses, mas ali, perto dos idos de Março de 1966, ficou barato para nós.

Em termos, pelo menos. Meu pai, amigo de todos os reverendos mencionados até agora, e meu “tutor eclesiástico” (cada aluno tinha um), foi informado do que eu havia feito e imediatamente se locomoveu de Santo André, onde era pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André, para Campinas. Assustei-me quando o vi. Estava assistindo uma aula de Alemão no Instituto Goethe, sucursal de Campinas, no centro da cidade. Meu primeiro pensamento ao vê-lo parado na porta, foi de que minha mãe houvesse morrido e ele estivesse ali para levar-me para o velório. Não era isso. Ele veio me dizer que, ao ouvir o que eu havia feito e ler o que eu havia escrito, ele preferia que eu tivesse nascido morto. Ficou cerca de dois anos sem conversar comigo.

Publiquei mais dois números de “O CAOS em Revista”, em Maio e Junho. Em Julho o Rev. Boanerges Ribeiro foi eleito presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, nomeou uma “Comissão de Seminários” que era comandada por um seu amigo, Coronel do Exército (e presbítero da IPB), Cel. Renato Guimarães, que escolheu visitar o Seminário de Campinas em primeiro lugar. Fomos intimados para entrevistas (depoimentos). Cerca de ¾ do corpo discente se recusou a comparecer. Não mandou nem uma cartinha, feito o Lulla. Fomos expulsos – ficamos impedidos de nos rematricular no segundo semestre de 1966.

Ainda há muita coisa a contar sobre o ano de 1966 da Igreja Presbiteriana do Brasil, em geral, e do Seminário Presbiteriano de Campinas, em particular. O historiador oficial da Igreja, que poderia, 50 anos depois, dizer o que sabe, porque já descobriu. Mas mesmo tanto tempo depois, ele certamente não quer correr a chance de perder os cargos de Historiador Oficial da igreja, de responsável pelos Museus e pelos Arquivos da igreja… Em seus livros e artigos ele diz o que pode, sem ferir suscetibilidades ainda vivas, e passa por cima do que não pode.

Vou escrever aqui neste blog autobiográfico alguns artigos. Tinha planos de escrever uma sequência ao livro Inquisição sem Fogueiras, do Rev. João Dias de Araújo – este, gente do bem. Mas não tive tempo, dadas as minhas outras prioridades. Quando você tem 72 anos, o tempo passa a ficar cada vez mais curto, antes de acabar de vez.

Vários artigos já publicados neste blog tocam no assunto, em especial o que tem o título de “ ‘O CAOS em Revista’: Editoriais e Artigos de 18/3/1966 a 18/8/1966 (alguns censurados) ” que pode ser encontrado em:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/

Salto, em 1o de Março de 2016, editado em Ubatuba, 1o de Março de 2017

Meu Pai, Os Pardaillan e Eu

Les Pairdaillans

Logo depois de nos mudarmos de Maringá (PR) para Santo André (SP), o que se deu no início de 1952, meu pai começou a comprar uma série de livros de um autor francês chamado Michel Zévaco (1860-1918). O primeiro livro da série se chamava Os Pardaillan (e foi publicado em 1902). Outros títulos incluíam O Pátio dos Milagres, Epopeia de Amor, Fausta, Fausta Vencida, etc. Todas as histórias, entretanto, giravam em torno do garboso Cavaleiro de Pardaillan e seu intrépido pai, suas lutas (de espada) por justiça, seus amores, e se passavam na atraente e misteriosa França dos séculos XVI-XVII. O nome inicial previsto para a série era Por Ferro e por Amor – “ferro” sendo uma figura de linguagem para “espada”. [Essa figura de linguagem tem um nome, mas eu não me lembro dele].

Sob a influência de meu pai comecei a ler os livros, um por um, e, como meu pai, apaixonei-me por eles. Aprendi muita história da França ali naqueles livros. Trata-se de história romanceada, mas a sequência de fatos históricos nos quais a história é enxertada é sempre real. Por isso, aprende-se história lendo os romances.

Um dia, em 1989, quando estava em Genebra, na Suíça, prestando serviços para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que lá tem sede, tive uma folga de uma semana no trabalho e fui para Paris, onde passei uma semana inteira vagabundeando… Lá encontrei, num sebo, na Rue Saint Jacques, perto da Sorbonne, uma cópia do primeiro volume da série, em Francês, usado, até meio surrado. Comprei-o. Eis uma foto dele.

Les Pardaillan - vieux - 2

Em outra ocasião, na mesma semana, em uma das livrarias FNAC (que não existiam no Brasil ainda), que fica em Les Halles, encontrei as obras completas de Michel Zévaco, em três densos volumes da coleção Bouquins (editada por Robert Laffont), que, no total, perfaziam cerca de quatro mil páginas (média de 1.350 páginas por volume). Li o primeiro volume, que eu conhecia melhor, por mais ou menos uma hora, dentro da livraria, e, depois de “provar” (taste) a amostra, não tive dúvidas: comprei a obra, apesar do preço meio salgado. O Francês, em estilo antiquado, especialmente nos diálogos, era delicioso. Ao voltar para casa comecei a ler as histórias que havia lido cerca de 40 anos antes, agora no belíssimo Francês do original. Eis uma foto do primeiro volume da coleção:

Les Pardaillan - nouveau

A edição francesa continha (contém – ainda a tenho) um “Avant Propos” e um longo Prefácio, abrangendo quase 150 paginas, em que a historiadora da literatura popular francesa, Aline Demars (que escreveu sua tese de Doutoramento de Estado na Sorbonne [Paris 4], em 1986, sobre Michel Zévaco, com o título Michel Zévaco et le Roman-Feuilleton), explicava que Zévaco havia sido um dos maiores sucessos literários do fim do século XIX e do início do século XX. Várias pessoas importantes, entre elas Jean-Paul Sartre, admitiam ter sido fascinadas pela obra de Zévaco quando eram crianças e adolescentes. Eu estava, portanto, em boa companhia… (boa no sentido de famosa; como gente e como filósofo não tenho a menor simpatia pelo Sartre – nem pela Simone de Beauvoir, companheira dele, embora goste mais dela do que dele). [No final da década de oitenta, quando trabalhava na Secretaria da Saúde como assessor do Secretário José Aristodemo Pinotti, hoje falecido, descobri durante uma viagem que meu grande amigo Ubiratan D’Ambrósio, também colega na UNICAMP, um pouco mais velho do que eu, também havia sido apaixonado por Les Pardaillan.]

Uma coisa curiosa: em determinado momento, ao ler, numa das historias de Zévaco, que o cavalo de Pardaillan se chamava Galaor, veio-me à memória algo que aparentemente não me ocorrera quando eu lera os livros na década de 50: tive a nítida impressão de que, quando eu era menino, no Paraná, meu pai tivera um cavalo chamado Galaor.

Liguei para o meu pai, então já em seu último ano de vida e lhe perguntei se tivera um dia um cavalo Galaor. A resposta foi positiva. Perguntei-lhe a razão do nome, e a resposta foi a esperada: esse era o nome do cavalo de Pardaillan. Mas como isso era possível, indaguei, se o senhor só veio a ler Zévaco quando veio para  Santo Andre em 1952? Que nada, disse-me ele, em Santo André li tudo pela segunda vez. A primeira vez que li esses livros foi quando era menino, em Patrocínio, MG. Os livros naquela época eram vendidos na forma de folhetim, um pequeno volume a cada poucos dias…

Fiquei surpreso como fato de que um famoso autor popular francês, no inicio do século XX, tivesse seu folhetim semanais traduzido para o Português e que os livretos viessem a ser distribuídos até mesmo no então distante Triângulo Mineiro! Patrocínio é uma metrópole hoje, perto do que era nos anos 1920!

Os Pardaillan, pai e filho, foram uma das poucas coisas em que estavam totalmente de acordo pai e filho.

PS: Escrevi na minha biografia de meu pai um trecho em que ele descreve o Massacre de São Bartolomeu, na França, em 1572. Eis o que eu descobri hoje (11/11/2015), no artigo “Massacre da Noite de São Bartolomeu”, na Wikipedia, em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_da_noite_de_São_Bartolomeu/

“História também contada pelo escritor Michel Zévaco (autor francês, nasceu em Ajaccio, em 1860 na mesma cidade de Napoleão Bonaparte, mas cem anos depois, conhecedor profundo da Historia Francesa Medieval e Renascentista) no romance inicial Os Pardaillan, onde ele era mestre em ficção dentro da realidade.” Também do início da Idade Moderna, acrescente-se.

A narrativa da Noite de São Bartolomeu, um domingo, 24 de Agosto de 1572, está no capítulo 40 (XL) de Les Pardaillan.

Escrito não sei quando nem onde (mas faz tempo) — mas transcrito aqui em São Paulo, em 11 de Novembro de 2015.

Aniversário de Quarenta Anos de Ingresso na UNICAMP

Hoje, 1/7/2014, faz quarenta anos que fui contratado pela UNICAMP, mediante proposta da Faculdade de Educação. Eu havia chegado, dias antes (na realidade, em 7/6/1974), dos Estados Unidos, onde vivi por sete anos seguidos e ininterruptos. Meu nome foi sugerido à Diretoria da Faculdade de Educação, que buscava um filósofo da educação, pelo meu primo, Anello Sanvido, que hoje mora no Canadá, mas então fazia Química na Universidade. O Rubem Alves, que eu conhecera quando estudei no Seminário Presbiteriano da UNICAMP, e que já era professor da UNICAMP, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, apoiou a sugestão do Anello – e isso aparentemente decidiu a questão.

Naquela época, em que a UNICAMP estava se iniciando, e estava longe de ser completamente institucionalizada, havia um procedimento administrativo, chamado “Designação”, mediante o qual o Reitor, Prof. Zeferino Vaz, nomeava a título precário, e enquanto o processo de contratação tramitava pelas diversas comissões e por outros órgãos da burocracia universitária, as indicações de professores feitas pelos Diretores das unidades.

O ofício encaminhando minha indicação foi assinado e levado em mãos, naquela ocasião, pelo Prof. Marconi Freire Montezuma, que respondia pela Direção da Faculdade de Educação, porque a pessoa indicada para exerce-la, o Prof. José Aloísio Aragão, havia falecido pouco tempo antes em acidente de carro.

O Prof. Zeferino Vaz despachou, autorizando a minha designação em nível MS-4 (MS=Magistério Superior do Estado), e encaminhando o ofício à Diretoria da Administração para abertura de processo e envio do processo à CPDIDP – Comissão Permanente de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa.

Enquanto o processo tramitava, lentamente, entrou em efeito, em 15/8/1974, a lei que proibia contratações pelo serviço público por noventa dias antes e depois das eleições de 15/11/1974. Minha contratação formal, por causa disso, só se deu em 8/5 do ano seguinte, mas todos os efeitos foram retroagidos a 1/7/1974. Fui contratado em Tempo Integral (40 horas semanais) e Dedicação Exclusiva. Para isso tive de submeter Plano de Pesquisa à CPDIDP. Meu Plano de Pesquisa versou sobre a questão da Doutrinação, com especial atenção às áreas da Política, Moralidade e Religião.

Assim começou minha vida acadêmica no Brasil. Em 1977 fui promovido para o cargo de professor em nível MS-5 e, em 1980, através de processo seletivo interno, ascendi ao cargo de Professor Titular, no nível MS-6, nível mais alto da carreira docente nas universidades paulistas. Eu tinha 36 anos quando isso aconteceu.

Logo depois de assumir minhas funções docentes, no segundo semestre de 1974, dando um curso de Filosofia da Educação I para as alunas do Curso de Pedagogia, iniciado naquele ano, fui designado pelo Reitor, novamente por indicação do Prof. Montezuma, para exercer a função de Coordenador de Graduação da Faculdade (Curso de Pedagogia). Isso se deu em Setembro de 1974. Em Junho de 1975 foi criado o Curso de Pós-Graduação em Educação – Mestrado da Faculdade, e fui indicado para compor a Comissão de Pós-Graduação da Faculdade, ao lado dos professores Joel Martins e Newton Aquiles von Zuben. Em Fevereiro de 1976 fui indicado Coordenador do Curso de Pós-Graduação e Diretor Associado da Faculdade – fazendo dupla com o Prof. Antonio Muniz de Rezende, que havia sido designado para substituir o Prof. Montezuma, só que agora com o cargo de Diretor da Faculdade (não Responsável pela Direção).

Exerci os dois cargos por um tempo e, depois, deixei o cargo de Coordenador de Pós-Graduação ficando só com Direção Associada da Faculdade, que exerci até Abril de 1980, quando passei a ocupar a Direção, tendo sido escolhido pelo Colegiado (embrião da Congregação), com unanimidade dos dezenove votos. Faziam parte do Colegiado então o Diretor, o Diretor Associado, os três Coordenadores (Pós-Graduação, Graduação-Pedagogia e Graduação-Licenciaturas), os chefes dos cinco Departamentos (Filosofia e História da Educação; Psicologia da Educação; Sociologia da Educação; Administração e Supervisão Educacional; e Didática e Metodologia de Ensino).

Minha indicação pelo Colegiado foi feita em Fevereiro de 1980, porque a Reitoria, então exercida pelo Prof. Plínio Alves de Moraes, estava sendo pressionada por elementos reacionários da administração (o Chefe de Gabinete do Reitor era ex-diretor do DOPS…) a não aprovar a minha indicação. A razão tinha que ver com o fato de que eu, alguns meses antes, enquanto no exercício da Direção (o Prof . Antonio Rezende ficou afastado de suas funções, durante os últimos seis meses de sua gestão, para preparar tese de Livre Docência), havia batalhado pelo retorno do Prof. Paulo Freire ao Brasil, tendo enviado ofício, em nome da Faculdade da Educação, ao Itamaraty, pedindo nova concessão de passaporte ao Prof. Paulo, que estava em Genebra. Essa decisão não caiu bem junto à cúpula da UNICAMP, que me ameaçou até mesmo de demissão, alegando que eu havia quebrado a hierarquia do serviço público, dirigindo-me a um Ministro, algo que apenas o Reitor da universidade poderia fazer.

Para encurtar, o Prof. Plínio conseguiu vencer as pressões e me nomeou, tomando eu posse em 16/4/1980.

Algumas questões mencionadas neste artigo recebem tratamento um pouco mais detalhado no artigo seguinte, que resume a minha gestão como Diretor da Faculdade de Educação (1980-1984).

Transcrito em meu blog “Liberal Space” em Salto, 1 de Julho de 2014.

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 9 de Novembro de 2015.

Já lá se vão 47 anos. . . (Hoje, 48. . .)

Em 1967, quarenta e sete anos atrás, neste dia, então um sábado, eu estava, nesta hora (cerca de 19h) no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, acompanhado de minha mãe, de minha tia, e de minhas irmãs, para viajar para os Estados Unidos, onde iria fazer o Mestrado, no  Pittburgh Theological Seminary (http://pts.edu), em Pittsburgh (http://pittsburghpa.gov/), no oeste do estado da Pensilvânia, já quase no estado de Ohio (onde minha filha mais velha mora hoje — de Pittsburgh até a casa dela, em Cortland, são, eu diria, cerca de 100 km, se tanto). Meu pai não foi ao aeroporto — estava sem conversar comigo. Meu irmão creio que não foi — não sei por que razão.

Na época eu estava a menos de três semanas de completar 24 anos (como estou, hoje, de completar 71). Vocês podem conferir a minha foto daquele ano, de um mês antes, por aí, que tirei para o passaporte — o meu primeiro. Estava contente, mas ansioso. O meu Inglês era bastante bom (tinha começado a aprender cedo, havia tido, no Instituto JMC, onde éramos internos, uma namorada que falava Inglês nativo, pois era filha de missionários, e havia completado o curso da União Cultural Brasil-Estados Unidos em Campinas). Mas nunca havia ido aos Estados Unidos e tinha grande expectactiva sobre como iria me sair entre os nativos do país. Depois de uns dias iniciais meio traumáticos, saí-me bem.

Os mais novos vão ficar surpresos de que eu estivesse saindo de Viracopos. Mas a explicação é simples. Naquela época o Aeroporto Internacional de Guarulhos ainda não existia. O Maluf ainda não havia sido nem prefeito nem governador de São Paulo… Cumbica era apenas uma base militar. E o Aeroporto de Congonhas não comportava aviões do porte de um Boeing 707, que eu iria tomar. Voei com a então tradicional PanAmerican World AirWays (PanAm), que, quando fechou, vendeu para a United as suas rotas latinoamericanas. O vôo, se bem me lembro, era PA 202, originado em Montevideo e que chegava a Campinas depois de uma escala em Buenos Aires. O vôo PA 201 fazia a direção contrária, a partir de Nova York. Fizemos uma escala no Rio, no Aeroporto do Galeão (que era um Aeroporto Internacional, além de uma base militar). Do Rio fui direto para Nova York, nonstop, desembarcando no dia seguinte no Aeroporto John Fitzgerald Kennedy (JFK). Este aeroporto havia sido inaugurado em Julho de 1948, com o nome de Idlewild Airport, mas, depois da morte do Presidente Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, foi rebatizado em sua honra, na véspera do Natal daquele ano. Do JFK peguei um vôo para Pittsburgh (não me lembro nem da companhia nem do número do vôo, infelizmente), onde me esperava uma família, os Eichleays, com quem iria ficar por uma semana, antes de começarem as aulas.

A estada com os Eichleays (ele se chamava William, do nome da mulher e da filha me esqueço) foi gentileza de uma instituição fantástica, o Pittsburgh Council for International Visitors (PCIV), uma ONG criada para recepcionar e apoiar estrangeiros (visitantes internacionais, no “politicamente correto” de então) que chegassem à cidade. O PCIV era informado pelas universidades e faculdades da cidade quando estudantes ou professores estrangeiros iam chegar à cidade, ou pelas empresas quando os visitantes eram empresários ou seus empregados. Eles então contatavam as pessoas e indagavam, no caso de estudantes, se queriam ficar, por uma semana, com uma família que, voluntariamente, sem receber nada por isso, se dispunha a hospedar o visitante e “aclimata-lo” na cidade. Eu, naturalmente, aceitei. Minhas aulas só iriam começar depois do Dia do Trabalho americano, comemorado na primeira segunda-feira de Setembro. Assim, me dispus a ser hóspede dos Eichleays de 20, domingo, dia de minha chegada, a 27 de Agosto — o domingo seguinte.

Já de início, naquele domingo, levaram-me para um restaurante muito chique. Nunca tinha ido a um restaurante tão bacana. Comi sirloin steak, com legumes. Achei delicioso. Tomei, de aperitivo, dois martinis. Foi a primeira vez que experimentei esse drinque americano. Depois do segundo, senti o efeito e fiquei meio zonzo. Tive um pouco de medo de que eles notassem isso. Mas se notaram, foram delicados o suficiente para não me deixar perceber. Com a comida, o impacto passou. De sobremesa, experimentei (também pela primeira vez) cheese cake. Achei delicioso.

Depois do almoço, deram-me uma tournée da cidade, que achei linda. Pittsburgh é cortada por dois rios, o Allegheny e o Monangahela, que se unem, no centro da cidade, para formar o rio Ohio. A cidade era conhecida, nos anos 30, como “Dust City” (Cidade da Poeira), por causa da poluição causada pelas inúmeras indústrias que tinham sede na cidade, em especial várias indústrias do aço, das quais a US Steel, criada por Andrew Carneggie, o homem mais rico do mundo na passagem do século 19 para o 20, era a principal. Pittsburgh era sede de várias universidades, das quais as principais eram a University of Pittburgh – Pitt (vide http://pitt.edu), a Carneggie-Mellon University (vide http://cmu.edu), tecnológica, que, quando cheguei lá, era chamada de Carneggie Institute of Technology, e a Duquesne University (http://duq.edu),  católica. Era sede de três times esportivos profissionais: os Pittsburgh Steelers, de futebol americano (http://www.steelers.com/), os Pittsburgh Pirates, de beisebol (http://pirates.com), e os Pittsburgh Penguins, de hóquei sobre o gelo (http://penguins.nhl.com/). Os Steelers nunca haviam ganho um superbowl. Desde então ganharam seis, sendo o time que mais vezes foi campeão americano. Os Pirates haviam sido campeões mundiais (como eles chamam os campeões americanos) em 1960 e vieram a ser novamente em 1970, quando eu ainda estava lá. Os Penguins foram formados em 1967, e, portanto, não haviam ganho nada ainda quando cheguei lá, mas, depois, foram campeões nacionais três vezes, em 1991, 1992 e 2009. O time de futebol americano universitário da Pitt eram os Panthers, que era ruim quando eu estava lá, mas melhorou muito, sem, contudo, jamais chegar a ficar por muito tempo entre os melhores. A cidade tinha uma fantástica Orquestra Sinfônica (http://www.pittsburghsymphony.org/pso_home). O PCIV dava, semanalmente, bilhetes para jogos e concertos para os estrangeiros da cidade, numa base primeiro a chegar, leva. Como a sede do PCIV era dentro da Pitt, onde eu fiz o doutorado, de 1970 a 1972 eu aproveitei o fato para não perder muitos jogos. Infelizmente, não aproveitei igualmente os concertos.

Pittsburgh era também uma cidade famosa por suas faculdades de medicina e hospitais. O hospital mais famoso era o Presbyterian University Hospital, que faz parte do University of Pittsburgh Medical Centers como seu principal hospital de clínicas. Ele fica ao lado do estádio dos Panthers, dentro do campus.

O campus tinha dois prédios célebres. A Cathedral of Learning (Catedral da Aprendizagem), de 38 andares, no centro do campus, que era, naturalmente, uma catedral secular (http://www.nationalityrooms.pitt.edu/about/cathedral-learning), e a Heinz Memorial Chapel (http://www.heinzchapel.pitt.edu/), que funcionava como a igreja não-denominacional do campus, tendo sido construída com recursos doados pelo famoso industrial H. J. Heinz (fabricante de ketchup e mostarda). A empresa dele (vide http://en.wikipedia.org/wiki/H._J._Heinz_Company) é hoje parte do império do suíço-brasileiro Jorge Paulo Lemann e seus sócios.

Enfim, é isso.

Fiquei em Pittsburgh cinco anos, de 20 de Agosto de 1967 até 20 de Agosto de 1972, quando me mudei para a California, onde arrumei um emprego em Hayward, na Baía de San Francisco.

Comemoro a data 19 de Agosto todo ano e sou grato a todos os que viabilizaram a oportunidade que tive de estudar nos Estados Unidos. Foi um privilégio. Cito, em especial, o Rev. Gordon E. Jackson, Deão do Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, que me convidou para ir para lá e me deu a bolsa que me permitiu ficar lá durante cinco anos, e o Rev. Aharon Sapsezian, então Secretário Executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), aqui de São Paulo, que em 1967 me deu a passagem para ir e voltar. O Aharon virou, em 1987, um de meus mais diletos amigos. Ele faleceu recentemente. Com o Rev. Jackson perdi contato, mas imagino que já tenha falecido.

Transcrito em meu blog “Liberal Space” em São Paulo, 19 de Agosto de 2014.

Transcrito aqui neste blog em 9 de Novembro de 2015.

50 Anos Atrás (Hoje 51…)

Estou lendo uma biografia de Rudolf Karl Bultmann. O título é Rudolf Bultmann: A Biography, e o autor é Konrad Hammamm. Estou lendo em um e-book comprado da Amazon Kindle.

Li Bultmann pela primeira vez há 50 anos. Em 1964 eu fui para o Seminário Presbiteriano de Campinas e lá fui apresentado a Bultmann. Não pelos professores: Bultmann era muito avançado e radical para eles. Foram os colegas que me apresentaram Bultmann: Waldir Berndt, Elias Abrahão… Principalmente eles. Foi o contato com Bultmann que começou a desestruturar a fé simples, não-refletida, ingênua, que eu havia trazido comigo para o seminário. Uma fé que se contentava consigo mesma, que se bastava a si mesma, que não buscava, como um dia sugeriu Santo Anselmo, o entendimento. Uma fé sem entender, que cria mesmo naquilo que não entendia.

O que os colegas me falavam sobre Bultmann despertou minha curiosidade. Acabei comprando um livro, em dois volumes, chamado Kerygma and Myth, editado por Hans Werner Bartsch, que começava com um artigo de Bultmann, com o título “The New Testament and Mythology” e trazia uma série de artigos que discutiam o artigo programático de Bultmann. Comecei a ler — e fiquei abalado. Fiquei em dúvida se deveria continuar lendo. Eu tinha apenas 20 anos, mas sabia que seria arriscado. Aquilo que eu já havia lido falava sobre questões acerca das quais eu nunca havia pensado, em minha santa ingenuidade de primeiro anista de seminário. Mas eu imediatamente percebi que o artigo de Bultmann era nitroglicerina pura. Se eu optasse por continuar a lê-lo, sabia que minha fé correria risco. Mas parar de ler não era mais uma opção. Li, então, até o fim. Era longo. E resolvi traduzir o artigo, oportunamente, para o Português. Fiz isso já no meu segundo ano de seminário, 1965. O Setor de Apostilas do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS) publicou a tradução em apostila — usando estênceis (não sei se o termo stencils se traduz assim), daqueles velhos, encerados, e um mimeógrafo que era propriedade do CAOS. Eu mesmo digitei (datilografei) o texto nos estênceis. Publicado, interna corporis, sem pedir permissão a ninguém, o artigo causou furor. Ajudou preparar a crise do ano seguinte, 1966.

O que mais me causava surpresa no artigo de  Bultmann era o seguinte. Se ele tivesse sido escrito por um ateu, o impacto em mim não teria sido tão grande. De um ateu você normalmente não espera grande coisa. Na verdade, você até mesmo espera que ele critique sua religião. Mas Bultmann era “crente”. Mais do que isso: era pastor luterano — e teólogo, um dos mais famosos do mundo protestante, professor de teologia numa das mais conceituadas universidades mundiais: Marburg, na Alemanha. Havia livro com sermões dele… O exemplo dele falou tanto quanto seu artigo. Levou-me a crer que era possível defender as ideias que Bultmann defendia no artigo e continuar a ser crente, pastor, teólogo, professor de teologia…

Talvez eu mantivesse, ao acreditar nisso, um pouco da minha ingenuidade. Quem sabe era possível acreditar naquilo que Bultmann dizia e continuar a ser crente e pastor na Alemanha, país avançado… Mas, na Igreja Presbiteriana, aqui do Brasil, não seria. E não foi. Fui defenestrado do seminário em 1966. Em parte por causa de minha propaganda das ideias bultmannianas.

Mas fui parar, intermediariamente, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em São Leopoldo. Lá vi que luteranos se entendem. Bultmann lá não era escândalo: era normal. Aos poucos eu comecei a conviver com as ideias de Bultmann como se fosse normal olhar para a Bíblia, Jesus Cristo, e o Cristianismo daquele jeito…

Começava meu exílio da fé, que durou cerca de 40 anos.

Agora estou aqui, de volta, lendo uma biografia de Bultmann, 50 anos depois. Descubro, na biografia, que ele também enfrentou problemas por causa de suas ideias. Sofreu oposição. Universidades, como a de Leipzig, o convidaram para se transferir para seu Departamento de Teologia, como professor e parte do corpo docente, apenas para, depois, retirar o convite por pressão da Igreja Luterana… a mesma que, em grande medida, apoiou, logo depois, Hitler e o Nacional Socialismo. Senti-me mais irmanado a Bultmann ao descobrir isso. A igreja luterana alemã apoiou, em grande medida, o Nazismo — e a igreja presbiteriana brasileira apoiou, em grande medida, a Ditadura Militar brasileira…

Os livros de e sobre Bultmann que comprei nos anos 60 e 70 do século passado — são uns cinquenta — ainda os possuo: nunca achei que devia me livrar deles. Eles eram — e continuam sendo — parte de mim. Dispor deles era como me livrar de um pedaço de mim. Não do meu corpo, mas da minha alma. As ideias deles entraram pelo meu sistema de ideias, foram mastigadas, algumas mal, outras melhor, foram todas de alguma forma digeridas, e, depois, algumas ficaram no sistema, outras foram excretadas, mas as que ficaram se misturaram com o que já estava no meu sistema e passaram a fazer parte de mim, parte do meu DNA. . .

Bultmann morreu em Julho de 1976, quando eu já era Diretor Associado da Faculdade de Educação da UNICAMP e pensava que havia deixado a teologia definitivamente para trás. Mais um engano meu. Autoengano.

Transcrito em meu blog “Liberal Space”, em Salto, 23 de Agosto de 2014.

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 9 de Novembro de 2015.

Quietude e Solitude — Quieto e Só Entre os Amigos Livros

Estava com saudades de ficar aqui no meu cantinho, na biblioteca do sítio (chamada de “Akston Lounge – I” — a biblioteca de casa é a “Akston Lounge – II”), escrevendo, lendo, contemplando os meus principais amigos: os meus livros. De vez em quando me levanto da confortável poltrona, tiro um livro da estante, dou uma olhada nele, aliso-o com carinho, tiro o pó, e o ponho de volta. Outras vezes apenas mudo um livro de lugar, porque estava num lugar não muito adequado, dado o assunto… Ou acerto o alinhamento deles: parece que eles se mexem sozinhos, preferindo ficar desalinhados, ou de alguma forma protestando contra o alinhamento militar que sempre pretendo lhes impingir. . .

Sou meio maníaco com essas coisas, com esses arranjos. Não só com o alinhamento, of course. Eles são secundários. Mais importante é o agrupamento e ordenamento. . . Livros podem se perder se fora de seu grupo (categoria) ou se fora de ordem. Bibliotecários sabem disso. Por isso, nas bibliotecas de livre acesso, pedem que a gente não coloque os livros de volta nas estantes, deixando-os nos carrinhos. Um livro colocado no lugar errado em uma biblioteca grande é um livro perdido. Como tenho bem mais de 20 mil livros aqui no sítio, cuido muito disso — apesar de, em regra, só eu e a Paloma mexermos neles.

Em geral agrupo e ordeno meus livros por categoria, começando com grandes áreas: Filosofia, Teologia e Religião, Política (incluindo FIlosofia Política, Teoria Política e Ciência Política — não a prática da política), Economia, Administração, História, Psicologia, Educação… Tenho uma seção grande de livros de Lógica, porque dei aula de Lógica por dois anos nos Estados Unidos. (Política e Lógica são, para mim, parte da Filosofia, mas eu agrupo essas áreas separadamente, por ter muitos livros em cada uma delas).

Dentro de cada categoria maior, agrupo os livros por assunto e por autor… Em Filosofia, há um agrupamento natural, cronológico, por período da História da Filosofia: Filosofia Grega, Filosofia Medieval, Filosofia Moderna, Filosofia Contemporânea. . . Dentro da Filosofia Moderna, ordeno os livros por sub-período, mas agrupando os autores principais: Século 17, Século 18, Século 19, Século 20… No Século 17, Descartes, Spinoza, Leibniz, Hobbes, Locke… No Século 18, Deístas, Adam Smith, Hume, Kant, Rousseau, Voltaire, os demais Iluministas Franceses (os Philosophes)… No Século 19, Schopenhauer, Nietszche, Kierkegaard, John Stuart Mill… No Século 20, Bertrand Russell, Wittgenstein, Popper, Ayn Rand.

Dentro da Filosofia Contemporânea (lato senso), ordeno os livros por tema: Metafísica, Epistemologia, Lógica, Ética, Política, Estética (já falei na Política e na Lógica).

Em Teologia e Religião, História do Cristianismo (incluindo História do Pensamento Cristão), Teologia Sistemática, Teologia Prática, Velho Testamento, Novo Testamento, Línguas Bíblicas. . . Não tenho muitos livros sobre religiões não cristãs, com exceção do Judaísmo, por razões óbvias: o Judaísmo é a religião-mãe do Cristianismo…  Às vezes há dúvidas sobre onde colocar um autor, se entre os teólogos ou entre os filósofos… Tomás de Aquino está, para mim, entre os filósofos.

Os autores dos quais ou sobre os quais tenho mais livros são David Hume (disparado o número 1: fiz minha tese de doutorado sobre ele, mais de 200 livros nessa categoria), Ayn Rand (minha autora favorita, vem em segundo lugar, destacado), Karl Popper (em terceiro lugar, com seus discípulos, amigos, defensores e críticos — meu orientador, W. W. Bartley, III, está aqui, como aluno, amigo, defensor e crítico respeitoso), e, pela ordem, Bertrand Russell, Adam Smith, Tomás de Aquino, João Calvino, Rudolf Bultmann, Karl Barth, Paul Tillich, C S Lewis, Agostinho, Platão e Aristóteles, John Dewey, Jean Piaget, etc.

Faz quase um mês que não ficava quietinho aqui… Sinto falta dos meus amigos livros… Não preciso nem lê-los (embora o faça o tempo todo): basta estar ao lado deles…

Transcrito em meu blog “Liberal Space” em Salto, 23 de Agosto de 2014

Transcrito aqui neste blog em 9 de Novembro de 2015.