Os Idos de Março

Hoje é o dia 1o de Março de 2016. Primeiro de Março deve ter sido uma data importante, porque há, em Campinas, uma rua Primeiro de Março (que liga os bairros da Guanabara e da Vila Nova). Talvez em lembrança do fato de que, em 1870, encerrou-se neste dia a Guerra com o Paraguai, ou do fato que, em 1894, neste dia, houve a primeira eleição direta para Presidente da República no Brasil: foi eleito Prudente de Moraes, da republicana Itu, vizinha de Salto, que assumiu o cargo oito meses depois, em 15 de Novembro daquele ano, como o terceiro presidente da República ainda infante.

A Web me diz também que neste dia nasceram Boticelli, Chopin, Glenn Miller e Yitzhak Rabin (um pintor, dois músicos e um militar e político israelense) – e em que morreram Solano Lopez, Rui Barbosa e Anne Frank (um ditador paraguaio, a “Águia de Haia”, e uma judia vítima de Hitler, famosa pelo diário que escreveu) [Acrescentado depois: em 12/1/2017 estive na casa em que ela morou em Amsterdã].

Foi em 15 de Março que Júlio César foi assassinado por Brutus (“Quoque tu, Brute, fili mi!” – Até mesmo tu, Brutus, meu filho!), em 44 AC. A data é usada para celebrar a transição do período da chamada República Romana para o período conhecido como o do Império Romano. Shakespeare, que escreveu uma peça chamada Julius Caesar, recomendou que tivéssemos cuidado com os Idos de Março…

Para nós, próximo dos Idos de Março deste ano, haverá a grande manifestação do dia 13 que procurará mostrar a força do povo que quer ver Dillma e Lulla longe e que quer que o PT-13, com seus muito mais de 40 petralhas, desapareçam da face da Terra. Quem sabe nos Idos de Março deste ano nos vemos livres do Criador e do seu Poste e, imitando Roma, começamos um novo período de nossa história? Quo usque tandem? (Até quando?)

Para mim, pessoalmente, o mês de Março tem vários significados importantes – alguns bons, outros nem tanto…

Quatro anos atrás. em 2012, neste dia, mudamos para o Morumbi, um apartamento que nos tem trazido muita felicidade. Mudamos para que a Paloma e as meninas estivessem perto do Colégio Visconde de Porto Seguro, em que a Paloma trabalhava, desde Agosto de 2011, e as meninas estavam estudando, desde o início do ano letivo de 2012.

Em 2002, no dia primeiro de Março, tive um enfarto agudo do miocárdio. Quase morri. Fiquei na UTI por mais de uma semana, fui abençoado pelo Padre Marcelo, fiz uma angioplastia, coloquei um stent… Faz 14 anos hoje que quase morri – sem ter conhecido o grande amor da minha vida!!!

Saí do hospital no dia 11, dia em que nasceu a primeira filha, Olivia Grace, de minha filha mais velha, Andrea. Minha primeira neta.

Muito antes disso, em Março de 1952 entrei na escola (já com oito anos e meio). Em 1956, entrei no Ginásio, também em Março. Em 1961, entrei no Colegial Clássico, também em Março. Em 1964, entrei no Seminário, no mês de Março, começando a fazer o curso de Teologia.

Dois anos depois, em 1966, 50 anos atrás, também no mês de Março, eu começava a viver uma odisseia que mudou minha vida. Estava em meu terceiro ano no Seminário Presbiteriano de Campinas, e, no início de Março, fui eleito Secretário Executivo do Centro Acadêmico “Oito de Setembro” (CAOS), e, ato contínuo, fui indicado pela Diretoria para ser o Editor e  Redator Chefe de uma publicação do CAOS – a que dei o nome meio provocante de “O CAOS em Revista”.

Naquele Março de 1966 estávamos terminando o segundo ano da Ditadura Militar, com suas cassações de mandato e expurgos, e a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) se preparava para fazer o seu expurgo interno e dar início à sua ditadura particular, sob a tutela e o cutelo do Rev. Boanerges Ribeiro. Os seminários da Igreja – havia três: o de Campinas, chamado do Sul, o do Recife, chamado do Norte, e o de Vitória, chamado de Centenário, porque criado no ano em que a o presbiterianismo comemorava 100 anos de Brasil (1959) – estavam no topo da lista da pretendida “limpeza” que a igreja planejava fazer em suas hostes.

O primeiro número do meu jornal saiu no dia 18/3/1966 – vai fazer 50 anos daqui a 18 dias e causou um reboliço. Denunciei o conservadorismo teológico e político do corpo docente, o despreparo dos professores (com uma ou outra exceção) para ocupar a posição que ocupavam naquela hora importante,  e adverti para o golpe que se preparava dentro da Igreja. Chamei o seminário (que tinha pretensões de ser uma “Faculdade de Teologia”) de “Instituto Bíblico” – expressão que, no seio das igrejas presbiterianas e, talvez, protestantes, designa instituições escolares geralmente de baixo nível acadêmico e intelectual, que se limitam a ensinar a Bíblia aos seus alunos, passando ao largo das questões que a chamada “Crítica Bíblica” (textual, literária e histórica) tem levantado nos últimos 250 anos.

Em uma reunião apressada, solicitada por dois professores, o Rev. Waldyr Carvalho Luz e o Rev. Américo Justiniano Ribeiro, a Congregação do Seminário, presidida pelo Reitor, uma das exceções a que fiz menção, o Rev. Júlio de Andrade Ferreira, decidiu que o jornal deveria ser confiscado e determinou ao Reitor que entrasse em contato com o CAOS para que lhe fossem entregues os números ainda não distribuídos do jornal. O Rev. Júlio veio direto ao meu quarto – ele era amigo de meus pais e eu sempre me orgulhei do fato de ele, inúmeras vezes, ter me honrado com inequívocos gestos de amizade e bem-querer – desculpou-se por ter de fazer o que estava fazendo, por determinação da Congregação, e me pediu que lhe entregasse os números ainda em estoque – perto de cem. Já havíamos distribuído o jornal por todo o corpo discente. Guardei comigo cerca de dez números, “para a história”, como imaginei, certamente exagerando a importância do nosso ato de rebeldia.

Nem o Reitor nem a Congregação se lembraram de proibir que o jornal tivesse sequência – e, por isso, imediatamente comecei a trabalhar no número seguinte, que foi publicado em 18/4/66, denunciando a “violência simbólica” perpetrada contra os estudantes, contra seu Centro Acadêmico, e contra mim, em particular – e mais uma vez advertindo os leitores da direção inevitável em que caminhava a Igreja Presbiteriana do Brasil. No meu Editorial fiz referência a John Stuart Mill, resumindo um trecho memorável de seu fantástico livro On Liberty (Da Liberdade). Eis dois parágrafos do que disse então:

“É conscientes desta verdade que levantamos a nossa voz em protesto contra a estreiteza de mente de alguns dentro da IPB para os quais até opinião é delito, para os quais a livre expressão do pensamento é causa suficiente para expurgo! Como é mais fácil lutar para manter as liberdades que já temos do que lutar para reconquistar as liberdades perdidas, “O CAOS em Revista” se dispõe, em suas páginas, a dar livre expressão ao pensamento dos alunos. O número presente é exemplo disto. Não podemos permitir que nos tolham a liberdade de termos os nossos próprios pensamentos e o livre direito de expressá-los. É esta a base da democracia. É esta a base do regime presbiteriano. Em sua obra On Liberty (…) John Stuart Mill faz notar, com toda razão, que silenciar a expressão de uma opinião é roubar a raça humana, tanto a geração presente como a posterior, sendo ainda mais prejudicados os que discordam do que os que mantêm a opinião, pois, se a opinião é correta, aqueles que dela discordam estão perdendo a oportunidade de trocar o erro pela verdade, e, se é errada, os dela discordantes perdem o grande benefício de adquirir uma percepção mais clara e mais viva da verdade, proveniente de sua colisão com o erro. Se as idéias que temos expresso e, esperarmos, continuaremos a expressar através deste jornal não são verdadeiras e são perniciosas, não vingarão, pois a melhor maneira de destruir uma idéia falsa é expô-la! Quem tiver com a verdade não precisa temer idéias, por mais estapafúrdias que sejam, pois terão com que refutá-las, através de um franco diálogo. Aqueles que se creem portadores de ideias verdadeiras, se querem mantê-las, devem torná-las continuamente relevantes, e não impedir que novas ideias apareçam e sejam disseminadas.

Aquilo que tem sido considerado como delito, isto é, a apresentação de ideias que não se harmonizam inteiramente com os padrões oficiais, o delito de opinião, é um crime que devemos praticar diariamente, sob quaisquer riscos. Se deixarmos de ser ‘criminosos’ neste campo, estaremos roubando as gerações passadas que lutaram, até o sangue, para obter as liberdades de que somos herdeiros, a geração presente que estará tendo sua voz sufocada e reprimida, e a geração futura que sentirá que uma geração deixou de realizar o seu papel na história!”

Eu tinha 22 anos quando escrevi isso. Hoje tenho 72. Faz 50 anos.

Poderia ter sido muito pior, e acabou sendo, dentro de alguns meses, mas ali, perto dos idos de Março de 1966, ficou barato para nós.

Em termos, pelo menos. Meu pai, amigo de todos os reverendos mencionados até agora, e meu “tutor eclesiástico” (cada aluno tinha um), foi informado do que eu havia feito e imediatamente se locomoveu de Santo André, onde era pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André, para Campinas. Assustei-me quando o vi. Estava assistindo uma aula de Alemão no Instituto Goethe, sucursal de Campinas, no centro da cidade. Meu primeiro pensamento ao vê-lo parado na porta, foi de que minha mãe houvesse morrido e ele estivesse ali para levar-me para o velório. Não era isso. Ele veio me dizer que, ao ouvir o que eu havia feito e ler o que eu havia escrito, ele preferia que eu tivesse nascido morto. Ficou cerca de dois anos sem conversar comigo.

Publiquei mais dois números de “O CAOS em Revista”, em Maio e Junho. Em Julho o Rev. Boanerges Ribeiro foi eleito presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, nomeou uma “Comissão de Seminários” que era comandada por um seu amigo, Coronel do Exército (e presbítero da IPB), Cel. Renato Guimarães, que escolheu visitar o Seminário de Campinas em primeiro lugar. Fomos intimados para entrevistas (depoimentos). Cerca de ¾ do corpo discente se recusou a comparecer. Não mandou nem uma cartinha, feito o Lulla. Fomos expulsos – ficamos impedidos de nos rematricular no segundo semestre de 1966.

Ainda há muita coisa a contar sobre o ano de 1966 da Igreja Presbiteriana do Brasil, em geral, e do Seminário Presbiteriano de Campinas, em particular. O historiador oficial da Igreja, que poderia, 50 anos depois, dizer o que sabe, porque já descobriu. Mas mesmo tanto tempo depois, ele certamente não quer correr a chance de perder os cargos de Historiador Oficial da igreja, de responsável pelos Museus e pelos Arquivos da igreja… Em seus livros e artigos ele diz o que pode, sem ferir suscetibilidades ainda vivas, e passa por cima do que não pode.

Vou escrever aqui neste blog autobiográfico alguns artigos. Tinha planos de escrever uma sequência ao livro Inquisição sem Fogueiras, do Rev. João Dias de Araújo – este, gente do bem. Mas não tive tempo, dadas as minhas outras prioridades. Quando você tem 72 anos, o tempo passa a ficar cada vez mais curto, antes de acabar de vez.

Vários artigos já publicados neste blog tocam no assunto, em especial o que tem o título de “ ‘O CAOS em Revista’: Editoriais e Artigos de 18/3/1966 a 18/8/1966 (alguns censurados) ” que pode ser encontrado em:

https://autobiospace.wordpress.com/2015/11/07/o-caos-em-revista-editoriais-e-artigos-de-1831966-a-1881966-alguns-censurados/

Salto, em 1o de Março de 2016, editado em Ubatuba, 1o de Março de 2017

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