Meu Pai, Os Pardaillan e Eu

Les Pairdaillans

Logo depois de nos mudarmos de Maringá (PR) para Santo André (SP), o que se deu no início de 1952, meu pai começou a comprar uma série de livros de um autor francês chamado Michel Zévaco (1860-1918). O primeiro livro da série se chamava Os Pardaillan (e foi publicado em 1902). Outros títulos incluíam O Pátio dos Milagres, Epopeia de Amor, Fausta, Fausta Vencida, etc. Todas as histórias, entretanto, giravam em torno do garboso Cavaleiro de Pardaillan e seu intrépido pai, suas lutas (de espada) por justiça, seus amores, e se passavam na atraente e misteriosa França dos séculos XVI-XVII. O nome inicial previsto para a série era Por Ferro e por Amor – “ferro” sendo uma figura de linguagem para “espada”. [Essa figura de linguagem tem um nome, mas eu não me lembro dele].

Sob a influência de meu pai comecei a ler os livros, um por um, e, como meu pai, apaixonei-me por eles. Aprendi muita história da França ali naqueles livros. Trata-se de história romanceada, mas a sequência de fatos históricos nos quais a história é enxertada é sempre real. Por isso, aprende-se história lendo os romances.

Um dia, em 1989, quando estava em Genebra, na Suíça, prestando serviços para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que lá tem sede, tive uma folga de uma semana no trabalho e fui para Paris, onde passei uma semana inteira vagabundeando… Lá encontrei, num sebo, na Rue Saint Jacques, perto da Sorbonne, uma cópia do primeiro volume da série, em Francês, usado, até meio surrado. Comprei-o. Eis uma foto dele.

Les Pardaillan - vieux - 2

Em outra ocasião, na mesma semana, em uma das livrarias FNAC (que não existiam no Brasil ainda), que fica em Les Halles, encontrei as obras completas de Michel Zévaco, em três densos volumes da coleção Bouquins (editada por Robert Laffont), que, no total, perfaziam cerca de quatro mil páginas (média de 1.350 páginas por volume). Li o primeiro volume, que eu conhecia melhor, por mais ou menos uma hora, dentro da livraria, e, depois de “provar” (taste) a amostra, não tive dúvidas: comprei a obra, apesar do preço meio salgado. O Francês, em estilo antiquado, especialmente nos diálogos, era delicioso. Ao voltar para casa comecei a ler as histórias que havia lido cerca de 40 anos antes, agora no belíssimo Francês do original. Eis uma foto do primeiro volume da coleção:

Les Pardaillan - nouveau

A edição francesa continha (contém – ainda a tenho) um “Avant Propos” e um longo Prefácio, abrangendo quase 150 paginas, em que a historiadora da literatura popular francesa, Aline Demars (que escreveu sua tese de Doutoramento de Estado na Sorbonne [Paris 4], em 1986, sobre Michel Zévaco, com o título Michel Zévaco et le Roman-Feuilleton), explicava que Zévaco havia sido um dos maiores sucessos literários do fim do século XIX e do início do século XX. Várias pessoas importantes, entre elas Jean-Paul Sartre, admitiam ter sido fascinadas pela obra de Zévaco quando eram crianças e adolescentes. Eu estava, portanto, em boa companhia… (boa no sentido de famosa; como gente e como filósofo não tenho a menor simpatia pelo Sartre – nem pela Simone de Beauvoir, companheira dele, embora goste mais dela do que dele). [No final da década de oitenta, quando trabalhava na Secretaria da Saúde como assessor do Secretário José Aristodemo Pinotti, hoje falecido, descobri durante uma viagem que meu grande amigo Ubiratan D’Ambrósio, também colega na UNICAMP, um pouco mais velho do que eu, também havia sido apaixonado por Les Pardaillan.]

Uma coisa curiosa: em determinado momento, ao ler, numa das historias de Zévaco, que o cavalo de Pardaillan se chamava Galaor, veio-me à memória algo que aparentemente não me ocorrera quando eu lera os livros na década de 50: tive a nítida impressão de que, quando eu era menino, no Paraná, meu pai tivera um cavalo chamado Galaor.

Liguei para o meu pai, então já em seu último ano de vida e lhe perguntei se tivera um dia um cavalo Galaor. A resposta foi positiva. Perguntei-lhe a razão do nome, e a resposta foi a esperada: esse era o nome do cavalo de Pardaillan. Mas como isso era possível, indaguei, se o senhor só veio a ler Zévaco quando veio para  Santo Andre em 1952? Que nada, disse-me ele, em Santo André li tudo pela segunda vez. A primeira vez que li esses livros foi quando era menino, em Patrocínio, MG. Os livros naquela época eram vendidos na forma de folhetim, um pequeno volume a cada poucos dias…

Fiquei surpreso como fato de que um famoso autor popular francês, no inicio do século XX, tivesse seu folhetim semanais traduzido para o Português e que os livretos viessem a ser distribuídos até mesmo no então distante Triângulo Mineiro! Patrocínio é uma metrópole hoje, perto do que era nos anos 1920!

Os Pardaillan, pai e filho, foram uma das poucas coisas em que estavam totalmente de acordo pai e filho.

PS: Escrevi na minha biografia de meu pai um trecho em que ele descreve o Massacre de São Bartolomeu, na França, em 1572. Eis o que eu descobri hoje (11/11/2015), no artigo “Massacre da Noite de São Bartolomeu”, na Wikipedia, em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_da_noite_de_São_Bartolomeu/

“História também contada pelo escritor Michel Zévaco (autor francês, nasceu em Ajaccio, em 1860 na mesma cidade de Napoleão Bonaparte, mas cem anos depois, conhecedor profundo da Historia Francesa Medieval e Renascentista) no romance inicial Os Pardaillan, onde ele era mestre em ficção dentro da realidade.” Também do início da Idade Moderna, acrescente-se.

A narrativa da Noite de São Bartolomeu, um domingo, 24 de Agosto de 1572, está no capítulo 40 (XL) de Les Pardaillan.

Escrito não sei quando nem onde (mas faz tempo) — mas transcrito aqui em São Paulo, em 11 de Novembro de 2015.

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